terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paladian

Like Andrea Paladio

TOMBAR OU NÃO TOMBAR
EIS A QUESTÃO



Tombar um bem ou um conjunto de bens é sinal de maturidade.

As cidades crescem e nem sempre bem, mas ao longo deste processo sempre há algo que merece ser preservado.

Sem história não saberemos quem fomos e muito menos quem somos. As cidades refletem as transformações por que passamos. Algumas boas e outras más. E, quando existem as boas, devemos tentar preservá-las como memória de um tempo que não volta mais.

O recente tombamento de parte de Santa Tereza resguardará parte da história daquele bairro. Não que sua arquitetura seja brilhante, uma Pampulha ou Praça da Liberdade,mas algo de bucólica natureza que lembra um pedaço da infância de muitos.

Mas também, não confundamos uma Santa Tereza com a Lagoinha. Esta última não deve ser preservada pois nunca foi nem será algo de valia histórica. Não se guarda a memória de bêbados, bebedeiras, bas fonds, budoirs e muito menos de um casario decrépito e sem valor. Guarda-se a memória da cultura, da arquitetura, da arte, da família.


À Lagoinha cabe somente sua substituição por algo que , no futuro, possamos tombar, como referência à uma nova Belo Horizonte.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017


UM E OUTRO


Um
Gostava de alfafa mas não era burro. Bom de matemática dava até para discutir sobre física quântica, teoria das cordas, mundos paralelos, relatividade.

Mas não fazia sentido, pois era atleticano. Só acreditava.
Não dava para ganhar, mas já era campeão. Eu acredito!

Outro
Não gostava de duvidar, era lógico. Tinha o melhor time, ganhava tudo mas queria mais. Estava tudo azul. Só não dizia que acreditava antes de ganhar. Só depois.


Antes dá azar. Eu não acredito!
TIMBIRAS 1091




Timbiras 1091. Charmosa, deliciosa casa da virada do século XIX. Exemplo perfeito da arquitetura clássica de Belo Horizonte. Uma jóia que não volta mais.

Porões rasos, de 60 centímetros. Pé direito de três metros e meio, cômodos interligados, sem corredores. Ficava nos baldios da antiga Capela da BoaViagem, mais precisamente onde havia sido seu cemitério do século XVIII.

A Arthur Haas era uma pequena concessionária, no mesmo quarteirão. Cuidava de Chevrolets, tinha entrada pela rua Alagoas. Mais tarde, comprou quase todo o resto. Comprou a Timbiras 1091 que havia sido tombada, mas foi queimada convenientemente. Por isso não existe mais.

Quando lá morei tinha meus sete anos. Havia acontecido uma enchente em 1950. O córrego da Serra inundou a confluência da rua Sergipe com a Avenida Afonso Pena. Até a geradora à diesel da Cia. Fôrça e Luz ficou debaixo d’água. Timbiras 1091 teve água entrando pelas janelas. Considerando o parapeito de um metro mais o porão de sessenta centímetros a água estava acima de um metro e meio.

Ficamos no topo da mesa de jantar, em cima dos criados mudos, eu, meus dois irmãos mais novos e o pequenino que havia nascido há poucos dias.

A casa tinha seus mistérios. Dizia minha mãe que eu via espíritos por todos os lados. É verdade, mas via mesmo eram esqueletos que subiam do chão. Eram tão vívidos que eu podia sair da cama, acordá-la e mostrá-los para ela, um por um.

Na sala e no quarto, à noite, o mundo era outro. Outra dimensão, talvez? Seriam os esqueletos  aqueles do cemitério antigo? Não sei...mas nunca esqueci. Hoje, com mais de setenta anos tudo parece um sonho de criança. Mas não foi. Todos os que me viram mostar o fenômeno ainda guardam a memória do que aconteceu.

Travessuras ou gostosuras? Não havia halloween na Belo Horizonte de 1950, mas haveriam bruxas? Dizem os espanhois que elas não existem..”pero que las hay, las hay”. Só e certo mesmo o caso do  meu irmão de cinco anos, que fugiu pelado pela Afonso Pena abaixo, depois da enchente , é claro.

Que pena que a casa se foi. Foi também a dos Las Casas, linda e charmosa. Era outra Belo Horizonte.

E o cemitério? Acho que ainda está lá... debaixo da terra...


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

SULACAP/SULAMÉRICA





Quando o conjunto dos edifícios Sulacap e Sulamérica foi feito, havia uma preocupação clara e brilhante com a interconexão da avenida Afonso Pena com o viaduto de Santa Tereza.

As torres separadas por uma escadaria monumental que não somente levava a avenida através das mesmas, mas gentilmente prestava homenagem ao lindo viaduto em art deco, que se estendia acima dos trilhos da Central e da Rede Mineira.

Como tudo nesta terra nostra, algum gênio de capacidade duvidosa, resolveu colocar em cima da linda esplanada um anexo disforme, deselegante e duvidoso, destruindo o conceito original, bloqueando a vista e a harmonia espacial que lá existia. É claro que teve o beneplácito de algum energúmeno que decidia à nível de aprovação municipal.

Todo edifício, quando bem concebido, tem seu genius loci, o espírito do lugar, aquele que lhe dá a alma, a forma, longevidade e elegância. Êle ainda existe no lugar, subjugado pelo monstrengo arquitetônico que alí foi acrescido.


Que tal demolí-lo? Retirá-lo para que a avenida possa novamente conversar com o viaduto. Retirá-lo para que possamos ter, de novo, em nossa cidade um dos contrafortes do famoso footing que lá e na frente da Sloper outrora existiram.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

SONHO DE ARQUITETO



O projeto perfeito, a publicação na melhor revista, o prêmio de arquitetura, a mostra na Bienal. Sonhos de um arquiteto jovem, ainda estudante, com vontade de mudar o mundo.

Vestibular, trote de calouro, cabelos pintados metade louro, desfile pela Afonso Pena. Eu era o Profumo, aquele Primeiro Ministro inglês que fez o que a maioria deles fazem, sexo  com uma mulher voluptuosa, no caso, a tal Christine, alegria dos tablóides da ilha.

A primeira aula, foi dada por um quintoanista disfarçado de professor. A turma que mais mulheres tinha, até então, acreditou no que viu.

Um ano antes havia recebido um convite de ilustre médico. Neuro-cirurgião, professor, estava a escrever um livro que necessitava de gravuras demonstrando um procedimento cirúrgico.

Eu era bom de pena, bico de pena neste caso. O dinheiro que ganharia dava para poder estocar muitas cervejas. À estas alturas já havia abandonado meu hábito por coca-colas.

Estudei o texto, ví outras gravuras semelhantes e partí para o observatório da sala de operação no hospital. Arranjei minhas penas e papel e, de cima, fiquei à observar.

No início tudo bem. Com paciente embrulhado em lençóis e com a cabeça raspada  passaram-lhe à desenhar formas geométricas em seu crânio, com compasso e tudo mais. Até aí nada demais. A retirada do tecido descolado  já me deixou um tanto estranho. Dois furos com uma furadeira pioraram a situação.

Num determinado momento surgiu uma serra elétrica. Com seu ruído enervante aproximou-se das linhas marcadas, um pedaço de osso foi retirado e o cérebro exposto. A visão daquela coisa meio cinza, meio avermelhada pelo sangue, foi o suficiente para meu estômago virar como uma roda gigante, em alta velocidade.

Abandonei minhas belas penas e sem pena do que iria acontecer fugí para não mais voltar.

Cheguei à Escola de Arquitetura com fama de desenhar bem. Apesar do fracasso do ano anterior todos compreendiam que arquitetos não são muito fans de sangue, gostam mesmo é de coisas belas, mulheres, por exemplo, mas inteiras, sem cortes de serrras elétricas.

Fui logo convidado para fazer parte de um time com o pessoal do quarto e quinto anos. Haveria uma competição para selecionar o trabalho que representaria a Escola na Bienal de Arquitetura de São Paulo.

O ambiente era intenso. Os trabalhos mantidos em segredo e as horas eram contínuas na Escola onde nunca se dorme. Às vezes nos encontrávamos no telhado para fumar ou beber uma cerveja, entretanto acho que a verdadeira razão para o fuzuê eram as belas garotas do prédio em frente, que se despiam regularmente às onze. Certamente serviriam de inspiração à obra em criação.

Não ganhamos. Ficamos em segundo e segundo não conta. O que realmente contou foi a vontade de um dia estar lá, em São Paulo, com um trabalho assinado.

Com o tempo percebí que para fazer arquitetura de alto nível teria de sair do Brasil.  Fí-lo um ano após formado. Ainda sonhava com trabalhos publicados, sonhava com a Bienal.

Conseguí o que queria especialmente após ter alguns projetos selecionados para a World Architecture e isto talvez tenha levado a direção da Sala a me convidar para expor na mostra do ano 1999. Achei que teria finalmente meu sonho realizado, mas não foi bem assim.

A comissão julgadora selecionou três dos meus projetos: o Allen Theater em restauração, Dayton Daily News a mais moderna oficina gráfica até então e a sede da Applied Industrial Technologies. Me deixariam muito felizes se não fosse o fato que a Bienal os listou como obras de um arquiteto estrangeiro.

Não fui reconhecido como brasileiro que era, recebí o certificado como arquiteto americano, que não era. Não foi bem o que queria...mas enfim, era um sonho que virou realidade, mesmo sendo sonho de gringo!

Fiquei por lá quase 30 anos. Muitos projetos, muitas publicações e prêmios de arquitetura. Fiz tudo o que queria, até meus sonhos de arquiteto.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O QUADRO NEGRO

Quando era jovem fascinou-se pela lousa negra.

O giz branco, às vezes com cores, a riscavam em um bailar de linhas que não entendia ver o que pretendiam. Gostava mais da linda professorinha de olhos meigos, voz doce e paciência infinda.

Poder-se-ia dizer que não fora um bom aluno. Mas fora um daqueles que era gostado por todos e de todos gostava.

Prendia-se ao quadro. Nele via formas, equações, algo que se dizia escrito ou escrita. Via formas onde nada existia. Via contos onde nada se contava. Via música que não se ouvia.

Disseran-lhe que por alí passaram até teorias quânticas. Passaram poesias, coisas de poetas, coisas de quem quer fazer com elas coisas de amor.

Quando cresceu, ainda fascinado, nada sabia. Para ele olhavam, gostavam, mas não entendiam. Simplesmente o aceitavam.

Mais tarde na vida, uma tela de negra escuridão se lhe apresentou.
Não tinha giz, mas tinha pincéis que surgiram de um nada onde tudo vem. Tintas e cores? Não explicara de onde vieram, mas lá estavam. Óleos de olor distinto. Tela de negrura perene.

Por um momento lembrou-se da professorinha. Por outro, da dança do giz. Das formas estranhas que se significavam algo que ninguém entendia quando as usavam. Por um momento captou movimentos.
Seus dedos ficaram ágeis, os pincéis peças de malabarismo exótico, as tintas em olímpicas maratonas, deliciando-se em misturas exotéricas.
De seus dedos saiam bailarinas de um Bolshoi,  danças de sílfides, o tocar de flautas de pan, de acordes de Mozart, de um Vivaldi em estações nunca musicadas.

A negra tela perdia sua escuridão.

Em volutas de um barroco louco criou ondas e estrelas. Nelas bailou nas marés. Em mares refletiu o brilho das divas do firmamento.
Era escura a noite estrelada. Era escuro o mar refletido. Eram móveis os seres do espaço.

No intrincado da dança celestial, a música tornou-se audível. O baile fantasmogórico implorava um amor que teria ter cor, mas ainda preso ao escuro da tela, somente sussurava o pedido de um beijo inalcançável.

Descobriu-se na tela.

Achou sua inexistência.

E na tela, com ela, em uma imagem bela, desapareceu.

Era a tela mais linda. O retrato da vida, de um nada de tudo, pois até este, o nada, tem seu espaço em tudo, e no tudo que é nada no nada existe.

No negro quadro existiu…




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ESPAÇO OU TEMPO

Espaço infinito.
Tempo contínuo…
O espaço encontra-se no tempo ou este no espaço?
Não há espaço para discutir o tempo…
Nem tempo para falar sobre o espaço.
Por isso penso…
É relativo ter espaço no tempo?
Ou o tempo é relativo e o espaço não?
Se não, sei que ocupa espaço, mas se dobra também…
Dobra no tempo ou em tempo se dobra.
Não sei…
Mas o tempo anda pelo espaço e se ele dobra…
Então, o tempo volta na dobra do tempo, no espaço.

Em tempo.
SOB O CHÃO DE ESTRELAS


Os vagalumes cintilavam como as estrelas do firmamento. Em sua dança intermitente confundiam-se com os reflexos prateados dos astros nas águas calmas de um regato.

Veios de prata ardente, luminosa, calma e deslumbrante. O mundo se coloria em matizes argentêos.

Olhou e sonhou.

Sonhou com a amada de cabelos de ouro. Podia ver suas tranças se confundindo com o prateado das águas. Chegou a vê-la, nua, como uma sereia, seduzindo-o com cânticos de doçura melíflua.

Alí ficou, por longos momentos. Não queria que terminasse. Queria somente que o tempo parasse. Os ponteiros do relógio em rigidez frígida respondiam ao seu pedido suplicante.

Deliciou-se com o congelar, com a monotonia do estático. Mas este, era mais lindo do que esperava. O corpo escultural da bela musa, despida, registrado como uma sinapse fotográfica alí estava, parado, preso ao comando do tempo imóvel.

Ousou pedir-lhe uma resposta.
Ousou dirigir-lhe a palavra.

Sua voz rouca, trôpega, tremulava… hesitante. Não tinha certeza de que seria bem ouvido.

Sussurrou…

Como um cristal de gêlo se espedaçando o tempo andou…
Moveu-se lento, Seguia o despertar da musa, da sereia de seus sonhos, agora em forma real. Deslumbrou-se mais ainda. Em êxtase orgásmica, tremeu…

O corpo nú. As formas divinas. O perfume inebriante.
Havia música no ar. Não era um cântico, mas os acordes divinos de um Mozart apaixonado. Entremeavam-se entre o cintilar das estrelas no firmamento, seu reflexo nas águas e o bailar dos pirilampos.

Disse que a amava…

Sentiu que era olhado. Notou o lilás fulgurante de sua íris. O brilho apaixonante, a sedução irrefutável. Em um instante eterno se entregou.
Dele não havia mais resistência. Dele não havia mais incertezas. Somente uma paixão fulminante. Se amar em um instante era tão inebriante, então, amar para sempre seria eternamente divino.

Anjo em forma de mulher. Diva Iluminada pela prata das estrelas. O ouro de seus cabelos emolduram seus olhos de doçura infinda.

Achou-se petrificado. O gêlo frígido havia se apossado de seu corpo. Estático a via se aproximar, sem saber o que fazer, sem saber sobreviver.
Pensou estar morrendo de amor.

Dela, ouviu somente uma frase:
“Querido, sou só sua…faça de mim o que quiser…”

De dentro de seu coração chamas de um vulcão adormecido acordaram. Sua cabeça rodou, seus pensamentos em espirais quânticas o levavam para um mundo de estrelas à seus pés.

Beijou-a na face. Um beijo de um amor profundo. De respeito, carinho e ternura.

Não a tocou. Era linda demais.

Se apaixonou para sempre, e assim ficou, mesmo quando um dia ela partiu e o deixou só, naquele chão de estrelas.

Não havia sonhado, tinha sido real.

Sereia dourada colorida pela luz prateada das estrelas, volte para mim…
Sou seu…somente seu…eternamente.






quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ACABOU

Amor. Palavra doce, como mel, como um vinho inebriante

Fugaz em sua natureza às vezes estaciona quando ventos favoráveis lhe pedem para ficar.
Fica, mas fica ressabiado. Fica, mas deixa mais encantos, mais perguntas, poucas respostas.

Pensam que amor é eterno. Só o é enquanto dura…mas pode durar muito, até uma eternidade. Mas o que é uma eternidade senão um relativo ao tempo. E tempo, meus amigos, é coisa que amor não tem.

Vive com pressa pois quer gerar felicidade. Vive assanho pois gosta de um amasso, de beijos, de carícias.
Convive com flores, vive com vinho. Amor é vermelho por natureza, a única cor que gosta, a única que desgosta.

Pensam que amam, por isso o chamam de amor. Mas querem posse, domínio, exclusividade. Amor não é ciume, não é desejo. É sentimento puro. Só quer o bem.

Pensam que amam muito, exigem tudo, perguntam, indagam, seguem, agarram, usam palavras. Às vezes muitas estas, as palavras, tendem a afastar o amor. Pois mesmo para as boas não gosta de ser meloso, mas gosta do mel que gera. E, quando foge, foge rápido. Pois amor não acha nem procura defeitos. É estado de espírito, é sublime, não se mede nem é medido.

Amor não perdoa nem é perdoado, é simplesmente, amado.
Por isso quando acaba…acabou.

Não volta. Não bate à porta, não abraça forte.
Amor é livre e quando o é, deixa livre quem o acha. Deixa nele um ombro doce, um carinho, uma pluma que dança à brisa leve, flutua no espaço, assenta-se nos lábios e os molha com o orvalho da felicidade.

Quando se ama, de verdade, não existe nada que o faça duvidar, nem por um instante.
Quando se acha que se ama, então, equivocadamente, se pensa que o prendeu, capturado como um pássaro em uma gaiola.

Aí…o amor entristece…
Um dia foge, e
Neste dia…o amor morre, e…
Neste dia…


Acabou…

terça-feira, 15 de agosto de 2017

AMORA

Nasceu na aurora de um dia azul…
Nasceu amada, adorada, acariciada.
Nasceu pequena como um anjo, pronta para um mundo novo,
Talvez para ajudar à mudá-lo, talvez para torná-lo mais doce.
Pois amoras são doces, e, doces farão.
Amoras são licores, e por elas, corações se embriagarão.
Com sua doçura de fruta… amora adorada,
Sem demora… deixarás sua marca de agora.
Bela amora…
E assim o mundo comemora, enamora,
Pois bem vinda sejas…doce amora…


Lines and Architecture

The Cleveland Plain Dealer

SIM, MEU SENHOR



Linda e suave como um anjo.

Casou-se aos dezenove. Teve duas maravilhosas filhas e um marido um tanto excêntrico. Gostava de quebrar telhas e tijolos empilhados com um golpe só. Mas era um cara legal.

Aos vinte e três, cuidando da segunda filha ainda infante, recebeu dele o seguinte comunicado: “ vamos à Bahia, prepare-se...temos um encontro com um casal paulista...vai ser bom para o nosso futuro.”

Mas...

“Não tem mas... arrume as malas.”

E o bebê?

“Fica com a tia...”

Sim, meu senhor, retrucou, e as malas pôs-se à fazer.

Ah....Bahia, terra de todos os santos, mar azul, calor dos diabos. Da janela do hotel cinco estrelas olhava para a praia, povoada de  corpos torrados, vestidos em panos quase invisíveis.

“Vamos à praia... Não leve nada...aqui se rouba tudo.”

Posso levar meu batom?

“Não”

Sim, meu senhor... mas posso ir de havaianas? A areia é quente...

“Nao”

Sim, meu senhor...Mas...

“Não tem mas não... só tem ladrão aqui, neste lugar.”

Mas eles roubam havaianas também?

“Sim, querida, roubam tudo...”

Sim, meu senhor... e o nosso dinheiro, onde vamos guardar?

“Seu marido é um gênio, retrucou...veja esta chave de fenda, a solução de tudo...e pôs-se à remover a placa da tomada elétrica...”

Tendo removida a dita cuja, estufou todo o rico dinheirinho ao redor de fios retorcidos, em um pacote de notas emaranhadas.

Ela, ainda estupefata, argumentou. “Querido, meus pés....o sol é quente, no asfalto se frita ovos, a areia cozinha até esturricar...e meus pezinhos???  Vão ficar assados, não sei se vou aguentar...”

“Você é uma mulher ou um saco de batatas?...guenta sim, guenta...”

Sim, meu senhor, e para a praia marcharam.

Coitadinha, seus lindos pezinhos foram fritos, quase que instantaneamente. Passou o restante da viagem à furar bolhas, passar cremes e andar como um pato paraplégico.

No hotel, mais tarde, encontraram-se com o casal paulista. Conversa vai, conversa vem, notava que eles a olhavam estranhamente. Em suas cabeças cruzavam os pensamentos...por que uma mulher tão bonita andava tão estranhamente?

O papo dos  habitantes da paulicéia era bem fraquinho. Dava para enjoar. Ela de fato o fez, e por várias vezes. Idas e vindas ao banheiro. Vomitava aqui, vomitava acolá. Eles comentavam com o marido: “ Muito bonitinha...mas enjoadinha. Vomita à toa...Que pena...”

Os três dias foram como o primeiro. Pés cozidos, papo chato, dedo na garganta...nada de bom.

Finalmente, no terceiro dia partiram. Negócio feito, iriam comemorar com uma esticada mais ao norte, outras praias, talvez menos calor, menos ladrões de havaianas, batom e outras coisas.

No avião, pediram um drink duplo... ela, olhando para ele à sorrir, ousou perguntar: “ Você pegou o dinheiro?...aquele que você escondeu na tomada?”

Não houve resposta...

O olhar perdido, o rosto pálido, os lábios em transe já eram resposta suficiente.


Sim, meu senhor, o rico dinheirinho havia ficado por lá, em Salvador, à salvo dos ladrões, dentro da tomada, num quarto do hotel.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SEM EIRA E NEM BEIRA



À época do nosso barroco, com suas edificações pintadas de branco e janelas gentilmente coloridas, definia-se a qualidade destes prédios pela existência de beirais múltiplos, ornados ou não, como sinônimo do ‘status’ financeiro de seu proprietário.
Assim, uma casa com muitos níveis de beirais era aquela de quem tinha dinheiro na algibeira, a de menos volutas seriam dos menos abastados e as sem beirais, as tais sem eira nem beira, ou aquelas dos mais pobres.

O coletor de impostos tinha sua vida simplificada, pois o simples olhar lhe dava o direito de taxar para mais ou menos.
Mas independentemente de terem ou não terem beiras as edificações eram rebocadas e caiadas de branco. Assim, harmoniosas, ilustravam a paisagem mineira.


Com a expansão e modernidade(?) de nossas cidades os sem eira e nem beira optaram por não rebocar suas casas. O que se vê é um conjunto eternamente inacabado. Os impostos continuam a aumentar até para os sem eira nem beira mas o exemplo vem de cima, de um poder público que se preocupa em arrecadar e não de arrumar. Isso não é de hoje nem de ontem. Há mais de 50 anos o edifício Dantés, em pleno centro de Belo Horizonte, ainda não recebeu sequer uma mão de rebôco, quiçá de tinta. Será que vivemos em uma cidade sem eira e nem beira?

domingo, 13 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VI

(homenagem a uma pequena yorkie que se foi)
10 de agosto de 2017

Quando te ví…linda, delicada, tinhas um sorriso de um anjinho. Sorriso de um cachorrinho…
Tu eras um bichinho de alma linda, pura.
Alegravas a casa, a tudo e à todos.
Tivestes teus filhotes, lindos como tu eras.
Amamentates os gatinhos adotados como se fossem teus.
Um pequeno e humilde ser. Feito com a beleza das coisas de Deus.
Hoje partistes. Partistes porque sofrias e não merecias.
Mas até no teu último instante nos deixastes ver a calma dos seres puros.
Seres que aquí estão somente para nos fazerem melhores.
Fostes mas deixastes uma imensidão de amor entre todos que tiveram a ventura de vê-la, sentí-la, amá-la, acariciá-la.
Ficamos órfãos, nós todos, gatos e cachorros incluídos.
Quando te ví, não me esquecí.
Agora que fostes, partistes, deixastes o olhar meigo, o latido doce, o mel de seus pelinhos que brilhavam ao sol entre as cores da noite que tinhas.
Que pena que contigo pouco conviví.
Mas te ví…

Vi, querida…

Adeus…


Deck & Flowers

Deck & Flowers

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Woodwork

Woodwork

INSPIRAÇÃO


Inspiração…por onde andas?
Tens asas…voastes?
Ate há pouco aquí estavas…alegre, gentil. Cheia de carinhos mil.
E agora…fugistes?
O papel me pede…escreva. O computador reclama…me ligue!
Desliga, liga, escreva, rabisque, trisque...pisque!
Mas volte, volte linda amiga…volte forte, volte brava, volte quente.
Volte amante, sedutora, pujante, devorante…mas volte, num instante…

Inspiration…Oh! Sweet inspiration…where are you?

Acho que tu fostes. Ah! minha amiga…por quê?
Quando frio sentia, tu me aquecias. Quando quente e ardente, tu eras a bebida fria, refrescante, que saciava minha sede de escrever, de contar, de cantar…
Agora querida, tu és o gelo de um iceberg flutuando no mar de minh’alma. Tu és o fogo infernal que devora meu coração, queima a pele, torra os sentidos, carboniza o pensamento.

Please come back! Be back soon…I love you.

Sim querida, pois te amo. Sem ti não sou nada. Niet, niente, zilch, zero…não existo.
Se tu és razão de meu ser, a chama de minha alegria, a porta de minhas tristezas, a chave de minha felicidade, então minha amada imaginção…não me abandones jamais.

Pois sem ti não vivo…
Sem ti não existo…
Sem ti nada sou…



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MANY MOONS AGO
(considerações sobre a relatividade temporal e o ocaso da vida)

Há muitas luas atrás, quando jovem, via o tempo passar pachorrento, sem a pressa das horas.

Relógios, cujos ponteiros ornados em badaladas sonoras mostravam o dia chegar à noite, e esta, à esperar os raios do sol da manhã.
Acho, que com o tempo, e o tempo vai sempre em frente, estes momentos se tornaram mais rápidos. Seria isto uma impressão somente minha? Havia relatividade no tempo do jovem em relação ao maduro da idade?

Esse tempo passou e outro chegou. Chegou veloz, diferente, sem os jogos da alegria, sem os beijos do amor. Chegou cibernético, nervoso, com outras bricadeiras, sem o charme do passado mas com raios pulsantes do presente.

Dizem que a vida de um minuto ser é curta, mas para este, é tão longa quanto a nossa, relativamente. E relativamente o jovem se acha viver devagar à divagar quando mais velho será, e por que lá não chega, mais depressa?

E, no ocaso, quando lá está, descobre que as noites e as manhãs quase se fundem, em uma velocidade tão grande que, de repente, nos vemos à porta da porta que dizem se abre para outras, em dimensões diferentes, onde o tempo não passa, só existe.

Muitas luas se passaram, muitos sóis me alegraram. Por muitas portas já passei mas não ainda por esta que está por chegar.
Não sei se tenho a chave para abrí-la, nem sei se se abre sozinha. Mas sei, que pode estar mais perto do que penso, pois quando penso, já estou lá, em outra manha ou noite, à esperar pela próxima, com a relatividade de meus anos.

Quando ela abrir o meu tempo, os tempos de todos, das criaturinhas e de nós mesmos, serão iguais entre sí e a relatividade de cada um deixará de existir, ficando o relativo de que tudo não passa de um piscar de olhos, um pulso de um pulsar, um quark, um bósom, um microcosmo qualquer à brincar com o macro irmão, como se o mesmo fosse o próprio.

Many moons ahead…