domingo, 30 de abril de 2017

AMOR FANTASMA

Amava uma mulher…
Em seus sonhos, se deliciava.
Sua mente extasiada,
Pedia por mais,
Pedia tudo, queria entender…

Mas acordava…
E quando o fazia, sabia,
Não havia nada,
Nenhuma mulher
Somente sua mente,
Vazia…

Mas a amava…
Pois a pintava,
Em cores deslumbrantes,
Em luzes e brilhos,
Coisas de amantes,
Perdidos, embriagados,
Por um só amor, embalados.

Um dia sonhou…
E ela voltou,
Nua, esvoaçante,
Provocante…
Jurou,
Que nunca acordaria,
Pois queria,
Sua amada em seus braços,
Eternamente, em um só abraço.

Não mais voltou…
Naquele amor ficou,
Como um espírito etéreo,
Em um mundo, apaixonado,
Sem forma, como luminoso plasma.
E, em um beijo eterno,
Sua alma se transformou,
Serena,
Em um amor fantasma.




HOUSE IN THE MOUNTAINS

terrace view

sábado, 29 de abril de 2017

TESOURAS E ESCADAS



Grande jornalista.

De sua pena saiam as mais encantadoras frases. De sua boca, discursos  que faziam Cícero voltar do passado, curvando-se ao palavreado folheado à ouro.

Casou-se com uma francesa. Mulher de fino trato, firme, como todos da terra de Asterix, o verdadeiro equilíbrio, a balança da sensibilidade e sensatez que modelava o ilustre mestre das palavras.

Longe dela, entretanto,coisas aconteciam...nem sempre dentro dos padrões por ela estabelecidos.

Foi assim num belo dia de maio.

O sol brilhava no céu azul. Poucas nuvens pincelavam a abóboda anil, como num quadro de Monet. Olhava para cima, fitando o firmamento, quando notou que sua árvore querida, que adornava seu belo jardim, havia crescido em busca do Olimpo.

Houve por bem decapitar a sua viagem em busca da luz. Celeremente saiu á procura de um tesourão e uma escada, daquelas de abrir, notórias por suas qualidades de fechar sem explicar.

O tesourão necessitava de ser afiado. Como Sir Galahad, preparando-se para salvar a bela Guienevre, usou uma pedra para trazer sua lâmina ao fio de navalha. Para teste, ousou retirar um dos poucos fios que adornavam sua reluzente careca e o dividiu ao meio, longitudinalmente. Partiu-se como manteiga.

Sorriu, um sorriso maquiavélico, quase infernal. Suas sobrancelhas dobravam em circunflexos.

Tinha amigos arquitetos e nucleares. Pensou usar do conhecimento métrico e proporcional, por eles ensinados, para definir seu plano de ação. Ao pé da árvore calculou: minha altura+altura da escada+tesourão esticado=topo da árvore.

Tudo planejado...seus amigos ficariam com inveja.

Abriu a escada, subiu, tesourão na mão, em busca do topo. Algo não estava certo. Seu cálculo não batia com a situação real. Mas era um homem de recursos mil. Um pequeno contratempo de míseros centímetros não impediria sua missão de ceifar o topo daquele espécime vegetal.

Ficou na ponta dos pés. Esticou-se ainda mais quando passou a usar as os dedos, como um bailarino em cena de Romeu e Julieta. O tesourão em riste, a ceifar, em movimentos rítmicos...tchoff, tchofff, tchofff...

Não alcançava o topo...esticou-se mais, um pouco além... mais ainda...

A escada de abrir, fez o que todas fazem...fechou-se. O tesourão em vôo partiu, rodopiando, ceifando, em vão...tchoff...tchoff...

Flutuou por um momento que lhe pareceu eterno. No ar, parado, via o tesourão na sua dança insana, procurando algo para cortar. Asas de borboletas eram ceifadas, o beija flor que se deliciava no mel das azaléias fugiu como uma flexa, apavorado. Passarinhos desesperados partiam em fuga pelos ares.O tchoff, tchoff contínuo os amedrontava.

Descobriu que Einstein estava certo. O tempo é relativo. Para ele o flutuar passava em momentos tão lentos quanto os dos ponteiros de segundos em uma torre de igreja. Sua viagem, dentro dos conformes de Newton, já havia iniciado. O tesourão à rodar, como um helicóptero de fabricação russa, pilotado pelo Arnold Swarzeneger.

Nesta viagem, de costas, com a relva macia a esperá-lo, teve tempo para pensar em tudo. Na sua bela francesa, nos momentos de amor sublime, no cantar dos pássaros, no rítmo ensurdecedor do tesourão, rondando sua brilhante cabeça. O tempo era lento, o destino, entretanto, já estava traçado.

Aterrisou.

Um baque de costas, um repousar no cócxis, um tesourão adentrando o gramado, à cinco centímetros de suas partes preciosas, um silêncio sepulcral.

Não mexia. Não falava. Não piscava.

Teria ficado paraplégico? Ou talvez tetraplégico?

Ah... meu Deus, e se ficou hexaplégico? Decaplégico?.. Apavourou-se...

Lembrou-se do dizer do amigo arquiteto: “se voce morrer e souber que está morto, então você está vivo.”

Lentamente tentou mexer um dedo, depois outro e assim por diante...Estava vivo, inteiro e até mais leve. Levantou-se como uma mola em plena expansão.Era indestrutível...

No processo notou que sua dor na coluna havia desaparecido. Estava novo, em folha.

Descobrira um novo tratamento...

Iria patenteá-lo. Evitaria o uso do tesourão. Afinal, quando cai, passa muito perto das partes interessantes. Um verdadeiro perigo...



sexta-feira, 28 de abril de 2017


TERRORISMO SEMPRE EXISTIU


BANHEIRO ASSEADO (segundo conto)


Ilustre madame, fina flor da sociedade mineira, fluente em inglês e italiano era destas mulheres onde perfeição é o mínimo que se poderia esperar delas. Linda, simpática e ilustrada viajava com seu não menos ilustre marido pela Europa afora.

Este, arquiteto, um grande nadador de outrora, a venerava como uma deusa. E ela o era. Empreiteiro de primeira categoria, com senso de humor inglês apresentava um certo ar fleugmático nas conversas com amigos e, numa delas relatou o episódio, abaixo,  que havia vivido em Roma.

Era tarde. A viagem longa, os três filhinhos cansados, necessitavam de um local para passar a noite. O hotel, de aspeto antigo os recebia como um oásis no meio do burburinho de cinquecentos malucos transitando como mariposas desesperadas ao redor de uma lâmpada.

O quarto era convidativo. O banheiro nem tanto. Afinal, banheiros não são comodos tão requintados em terras italianas. Este, entretanto, parecia ter sido redecorado recentemente. Uns espelhos aquí, outros acolá, faziam o cômodo parecer maior que realmente era. A banheira era velha. Encardida...

A madame era deveras meticulosa. Asseio é coisa primordial. Banheira encardida não trazia confiança. Não colocaria seus lindos rebentos naquela coisa. Tinha de desifetá-la. Completamente...

Com seu olhar sedutor, olhos escuros de uma italiana de estirpe indubitável, sinalizou ao amado a necessidade de uma garrafa de álcool.

Ele não titubeou. Já sabia como se comportar em situações iguais. Desceu, procurou por uma farmácia e voltou com um litro do líquido salvador.

Feliz com a ação rápida, pôs-se a derramar o álcool na banheira. Espalhou, esfregou e esperou que descesse ralo abaixo. Não satisfeita, houve por bem dar uma sapecada na dita cuja. Acendeu um fósforo e viu as chamas azuis dançarem sobre o branco encardido.

Dançavam e dançavam tanto que resolveram seguir atrás do álcool que havia descido pelo encanamento.

Terrível erro... os canos eram de plástico. Derreteram-se parede adentro, andar abaixo.

Um corre-corre frenético indicava que algo estranho acontecia nos andares de baixo. Água de esgoto de outros banheiros já fluiam pelas paredes em outros quartos. A transparência das chamas do álcool escondiam e não explicavam o derreter do encanamento. A coisa piorava a olhos vistos.

Sorrateiramente fizeram as malas. Recolhendo os pequenos desceram, pagaram a conta e sumiram no calar da noite, entre os cinquecentos que não mais lhes pareciam tão enlouquecidos.

Não se sabe se ficou pior do que está aqui contado. Naquela época não havia terrorismo de malucos na Europa. Hoje, entretanto, as manchetes diriam:

“Família de terroristas derrete hotel em Roma. E.I. reinvindica autoria. A partir deste atentado, tudo entraria pelo cano.”


Como se vê, terrorismo sempre existiu, é só uma questão de ponto de vista.

SUN FLOWERS

In Tuscany

TERRORISMO SEMPRE EXISTIU
(é só uma questão de ponto de vista)


BARATAS AO AR   (primeiro conto)


Há alguns anos atrás um desavisado irmão partiu para o extermínio de uma espécie. Não gostava de baratas e morava na Floresta, em BH, bairro de reconhecida densidade no mundo das ditas cujas.

Sua casa ficava na rua Pouso Alegre. Era comum, ao anoitecer vê-las alegres e lampeiras à sair dos bueiros, balançando antenas, batendo perninhas em direção à inocentes donzelas que aos gritos desmaiavam.

Herói de conhecida estirpe, este irmão houve por bem partir para um plano mais ousado. Queria a aniquilação coletiva dos miseráveis insetos. Seria certamente reconhecido pelas belas da Floresta como o Sir Galahad, o herói das donzelas em perigo.

Comprou um galão de gasolina. Partiu para sua residência, alí perto do Colégio Santa Maria. Abriu os ralos e bueiros, despejou toda a gasolina.

O bafo da mesma já era portentoso por sí só. Não contente por matá-las sufocadas queria algo de maior efeito que justificasse sua fama de defensor das mais frágeis. Acendeu um fósforo, atirou-o no ralo mais próximo e...bum... só foi encontrado no dia seguinte, entre escombros de sua bela casa.

Eis o que aconteceu: ...ao explodir a gasolina levou consigo o piso da casa. Os canos de esgoto se partiram, os bueiros das ruas leventaram vôo. Ouvia-se os gritos de bocas vizinhas misturados com o espoucar de ralos e canos. Baratas estilhaçadas, ratos em fuga, um pandemônio total.

Recusou-se a se identificar como o autor da proeza. Como havia sido vítima do desabamento de estilhaços diversos no alto de sua sinagoga, causando protúberos galos de tamanho descomunal, ninguém veio a desconfiar do seu feito.

Naquela época, não havia Estado Islâmico, Al Queada, Hamas ou PT.
Consideraram ser um ataque terrorista de origem desconhecida e sem propósito. Ninguém pensou em entrevistar integrantes remanescentes da colonia de baratas que florescia naquele rincão de BH. Afinal, eram as únicas testemunhas.

Estas, coitadas, ainda hoje não chegaram aos níveis do passado.

Para alegria das donzelas, é claro.

Sir Galahad venceu, no final...



PENSAMENTOS  II



Palavras doces. Ternas e macias como pétalas de uma rosa.

Foram feitas para uma mulher. Só ela e capaz de sentir os efeitos inebriantes destas palavras. Por isso são doces, por isso são suaves.

Se não tiver algo para escrever que não seja assim, não escreva.

Palavras que machucam, não as use. Esqueça, volte a pensar e seja doce no pensamento.

Assim, as palavras que sairão serão aquelas do coração. E o coração é doce.


Vou lhe mandar um buquê de palavras.

Tabuleiro MG

Watterfall in the mountains of Minas

quinta-feira, 27 de abril de 2017

PENSAMENTOS


Às vezes penso só por pensar. Sinto que tudo não deveria estar como está. Por quê? O homem é um ser estranho, quando pode fazer o bem , faz o mal.

Queria ser um cachorinho. Fiel, alegre, trocando um olhar por um abano. Mas sou  aquele que quer entender o que somos, diferente do cachorrinho.

Não gostamos de onde estamos. Se gostássemos não fariamos o que fazemos. Por que destruir, guerrear, tomar, matar? Estar ao lado de uma flor que se abre é mais bonito. Satisfaz muito mais. Ver o por do sol...

Mas preferem a guerra.

 E o dinheiro? Ficar absurdamente rico, sem a menor possibilidade de gastar o que acumulou? Não tem gaveta em caixão. Para quê?

E se morrer e não existir nada? De tão idiota o pensamento não saberíamos nem que morremos. Por quê então tomar de quem precisa? Matar, roubar...para quê? Só se viver for tão finito que exige que vivamos só para o momento. Inútil pensamento...

Se morrer e souber que morrí então não morrí. Não pode haver consciência depois de morto. Se ela existir eu continuei. E se ainda sou não quero levar comigo o que não fiz, pois deveria tê-lo feito como todos nós deveríamos. Fazer para melhor e não só para mim.

Não vou mudar nada, mas meu pensamento pode e deve mudar.

Mudarei para melhor...




AS AVENTURAS DE PADRE CAPETTO
(com seu longo espeto)

Um conto erótico e bem bôbo


A igreja era simples. Um simples de qualidade ímpar. Cruciforme, com três altares, sacristia atrás do altar mór. Não era bem uma obra barroca mas tinha seus ares de curvas, volutas e cores do gênero.

O padre era simpático, até bonitão. Alto, forte, rosto liso, batina impecável. Era como os das antigas, parecia padre mesmo. Capetto era seu nome.

No sopé do morro ficava a igreja. Era em homenagem à um santo dos lugares mais baixos. Acima ficava um convento de freiras, todo branco, janelas pequenas, portas pesadas, de madeira inteira.

Nele um grupo de freiras mais velhas e noviças alegres e joviais. Eram comandadas pela Madre Superiora, senhora de olhar sisudo mas de feições que demonstravam uma beleza leve, de um passado não tão distante. Chamava-se Madre Imaculada.

Um dia, Madre Imaculada pediu à uma de suas noviças que fosse até a igreja. Queria que Padre Capetto celebrasse uma missa em homenagem aos mortos. Disse-lhe: “Irmã leve o recado ao Padre, só não fique à sós, com ele,  na sacristia. Prometa-me que fará como pedi.”

Sim Madre Superiora, com as bençãos do Divino!

Irmã Virgínia Virtuosa da Anunciação Divina era jovem e muito bela. Nem o hábito que vestia era capaz de esconder suas suaves feições. Era entretanto, afoita e inexperiente, vivia num mundo mágico, não conhecia as armadilhas da Terra.

Padre Capetto era italiano de origem. Falava com um sotaque gostoso, charmoso com todas as mulheres. Já estava à frente daquela paróquia há alguns anos. Era adorado pelas filhas de Maria.

Os  dias eram quentes, a sacristia o único lugar onde uma brisa refrescante corria. Capetto já havia levado algumas incautas filhas de Maria para ver o estandarte do Divino e estas voltavam deslumbradas , contando para as outras que tinham visto o espeto sagrado. Era longo e maravilhoso...falavam com os olhos deslumbrados.

Com o tempo Padre Capetto ficou conhecido pelo seu longo espeto e alí, atrás do altar, na frente do Divino, algo assanho se perpetrava. Capetto o protagonista mór.

A inocente freira desceu o morro, adentrou a casa sagrada e procurou por Capetto. Seus olhos brilhavam, mas não mais do que os do Padre. Este havia ficado embevecido pela estonteante beleza daquela jovem criatura de Deus.

Com seu charme e sotaque sedutor convenceu-a à ir até a sacristia. Seus planos estavam mais para capeta do que Capetto. Na frente do Divino mostrou-lhe seu espeto. É sagrado, falou. Pode pegar.

A coitadinha não era competição para um macaco tão velho. Caiu vítima daquele algoz. Na frente do Divino... Esqueceu-se até do recado que tinha de dar.

Ao saber do ocorrido Madre Imaculada lívida e enfurecida, procurou Capetto. O encontro foi rápido, as revelações contundentes. Pois a Madre já havia sido uma das vítimas de Capetto. Não era tão imaculada quanto seu nome. A jovem Virgínia Virtuosa, que não mais era nem uma nem outra, era filha de Capetto, e, este... não sabia!

Capetto seu miserável, desvirginastes a própria filha! E, com um golpe certeiro cortou-lhe o espeto.

A lenda ainda existe, a igreja também. O covento fechou as portas. Não se aconselham visitas não acompanhadas à sacristia.





OURO PRETO MG

Vista do Morro da Queimada

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Art in the living room


Paintings by Charles Micloscky and Julian Stanczak
Pity


I have pity.

Pity of this world.

Pity, for the creatures that have no love for it.

Pity, for the destruction, wars, abuses, acts of villainy.

Pity, for rivers of mud, dirty mud, of dirty stolen monies.

I have pity of suffering crowds…

Pity of the ignorance that embraces the minds of the ones electing demagogues, thieves, scoundrels.

I have pity of the overwhelming hunger, of the ones suffering from it and of the ones that get rich from it.

I pity, when sensible words are carried by the wind and the insensible ones become headlines.

I have pity because I know it will not change, is immutable.

I see beauty in the world, the shinning of the stars in the universe above.

I see the animals, gentle creatures gazing upon us with the perplexity of their innocence, asking why?

I see beautiful children, without the awareness of what is coming closer.

I have pity of their deception, of the frustration that will come upon them.

I do not pity the human being, lost in his own selfishness, in his own arrogance. Lost in loveless, drowned in his greed.

What a pity… in the sunset of my life, the only thing left is to think of darkness.

I have hope in the world beyond life.


Rouge

Rouge

CHEGA DE TIMIDEZ!



Por que não uma BH revolucionária? Seguem aqui alguns passos para isso:

1.    Verticalizar o Centro.  Liberar a altura dos edifícios e sua ocupação no solo. Trocar os direitos aéreos por melhorias na conturbada periferia.
2.    Que tal um túnel ligando a Avenida Agulhas Negras à Nova Lima?
3.    Um VLT de norte a sul; de Alphaville à Confins e outro de Betim à Sabará.
4.    Em sua confluência a nova sede administrativa em uma agulha portentosa, um marco urbano e não o caixote desproporcional projetado.
5.    Deixe o centro, onde há infraestrutura de primeira, ser uma nova Manhattan.
6.    Pense grande. Não pense pequeno.


Benvindo à BH do século XXI.

terça-feira, 25 de abril de 2017

BORBOLETAS

Cores cintilantes, seda mágica,
Seu farfalhar é suave, como colorido pincel.
Desenhas no ar um vôo de mel,
Doce, quase borbulhante, como folha de papel…
Bailando, dançando, aos pingos do sol da manhã.

Borboleta, tu és a musa da canção eterna,
De um amor suave que morreu,
Ao ter seu querido filho levado…
Pelo amado cruel,
Que só em si pensou…
E tomou.
Fazendo suas asas se fecharem em um último suspiro.

Borboleta, Farfalle, Butterfly.
Asas de manteiga, rítmo leve, belbellita criatura.
Não fujas de mim.
Quero me perder em seus movimentos lindos.
Quero me deliciar com suas cores infindas.
Quero amá-la, porque sei que me amas.

E, como na ópera que a consagra,
Canto minha última ária,
Na esperança de trazê-la de volta, e…
Pedir-lhe perdão, por teu filho roubado.
Voa, borboleta, voa,

Seu farfalhar levou meu coração.

mountain view

early morning

Home in the mountains

Spring in Retiro

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Flowers of the mountains

Manaca da Serra

PERDERAM A CABEÇA
(Texto mais longo. Conto de terror com final surpreendente. Historia baseada em momento real com dose de ficção extra. Divirtam-se)

copyright by c.gilberti

Jake era legal, mas irreverente. Nada lhe incomodava, não acreditava no que não via. Às vezes via e também não acreditava. Daí

Gostava de um birinaite. Para não viciar tomava um de cada marca, sempre sequentemente, inexoravelmente.

Bom papo. Gostava de outro amigo, tambem não crente. De cabelos escassos e verve abundante, este outro, gostava de apreciar as belas musas que desfilavam no entardecer dos domingos ensolarados nas montanhas onde viviam. De birinaite à torpedos etílicos seduziam as incautas belas a os seguirem em suas intermináveis abluções.

Terminavam todas nos braços de Bacco, embriagadas, felizes e desfalecidas.
O amigo de pouca cobertura capilar o havia desafiado para passar uma noite em uma fazenda abandonada, lá pelas bandas do Paraopeba. Dizia ele que outrora, há muito tempo atrás, aquele rio tinha peixes. Hoje só se pescavam botas velhas ou pedaços de pneus.  Mas a idéia não era pescar e sim passar no alambique to Zé Boi, que ficava lá perto. Disse o amigo que o tal de Zé era bom de contos e casos.

Como o repertório dos dois estava baixo a idéia pareceu razoável. 
Perguntou o Jake se eram histórias de terror. O amigo anuiu com um sorriso meio tinhoso.

Estas novas histórias seriam perfeitas para contar para incautas belas. Um susto aquí e outro acolá e elas se derreteriam em abraços de proteção. Era tudo de bom, e bom nisto eles eram e isso era o que eles queriam.

Pois lá foram eles. Mochilas nas costas, trilhas à frente, botas reforçadas, matula curta mas bem regada com a melhor caninha de Pimenta, já pensavam na tal fazenda. Uma vez lá chegando, e depois de abastecido no Zé Boi, fariam um churrasco para comemorar. Planos assustadores se formavam em suas mentes desvairadas.

O Zé Boi foi um sucesso. A pinga era da melhor qualidade, as histórias, melhores ainda. Nem é preciso falar do churrasco. Ficaram lá até o anoitecer.

O sol já tinha entrado em decúbito. Estrelas e pirilampos dançavam ao ritmo dos sapos e pererecas. Não havia luar. Os astros pingavam suas lágrimas de prata sobre o caminho estreito que percorriam, desenhos mágicos, em volutas cintilantes.

Estavam preocupados…

Zé lhes havia dito que a fazenda era assombrada. Relatos de gente desaparecida levavam pistas ao caminho da casa central. Muita lama havia se acumulado no vale e os antigos pátios de café estavam nela cobertos e com difícil acesso.

Eles, que nunca ligaram para estas coisas ficaram um tanto apreensivos quando no meio da conversa apareceu a história do tal cientista russo que lá havia se instalado.

Mas que diabo. Por que o Zé tinha de falar no tal cara?
Jake olhando para o amigo ponderou: “Esse negócio do russo fazendo pacto com o demônio não estava no nosso script.”
“Vê lá que tem uma verdade nisto? Experiência científica cortando e transplantando cabeças de macacos não cheira bem.”
“Deixa pra lá Jake…isto é coisa do Zé pra gente ficar com medo. Eu não acredito em nada, Nem em fantasmas, capeta ou alma penada. Isso não existe!”.
É meu amigo, mas o Zé disse que ele transplantou a cabeça de um cabra, e o bicho tá aí com a cabeça de outro!”
“Isso é mentira rapaz!”
“Vamos em frente, a fazenda é logo depois daquela colina.” E assim continuaram a caminhada.

A fazenda estava em ruinas. O Paraopeba corria ao lado. No escuro da noite a névoa densa se elevava de suas águas. Poderiam jurar que viram um barqueiro, mas este, se existiu, parecia mais com aquele do rio Styx, nada bom de se ver. Um vulto assombrado, em pé, mão na vara que empurrava a embarcação. Estava mais para fantasma, e olha que eles não acreditavam nestas coisas…

Jake parou. Olhou para o amigo e perguntou: Você esperava isso? “
Nao, disse ele. São somente efeitos da noite. Seja como eu, só acredito se me beliscarem.”

A lama era negra e grudenta. Quase arrancava suas botas dos pés. O ar, pesado tinha odores nunca antes experimentados. Enojantes, revoltantes.

Jake poderia jurar que havia visto ossos humanos a flutuar no lamaçal. Até o que pareciam olhos, fitando o firmamento, num olhar perdido, morto e desesperançado. Pensou consigo mesmo…valeria a pena o que estavam fazendo? O desafio proposto se mostrava mais audacioso, mais lúgubre, mais aterrorizante. Grande material para assustar moçoilas.

A porta principal estava aos cacos. Madeira apodrecida com o tempo, ferragens deletérias, desencaixadas. Dentro, um vazio enorme. No fundo, vindo das gretas do assoalho a luz de algo abaixo de seus pés coloria de modo estranho as paredes do grande cômodo principal.

Pelas frestas poderia se ver que algo, em baixo, existia. Que este algo se parecia com um grande laboratório nos porões da edificação. Nas suas entranhas algo indescritível vivia.

O amigo de Jake se mostrou inabalável. Parecia que já conhecia aquelas plagas. Parecia que lá já havia estado e isso, ele sabia não ser verdade. Pensou que o amigo estivesse então possuído por uma força mágica, poderes sobrenaturais, vontade heróica.

Procuraram pela entrada dos porões.

A escada era em caracol. A descida por cerca de uns quatro metros levava à grandes arcadas de pedra suportando magníficas peças de peroba do campo e o assoalhado acima.

Adiante, um laboratório complexo com um aparelhamento estranho, iluminado, cercado de gaiolas, algumas com vários macacos e outras com cúpulas de vidro. Dentro …cabeças humanas.

Estupefatos, se sentiram paralizados. Não se moviam…somente olhavam ao seu redor tentando entender o que viam, onde estavam.
À esquerda, uma enorme mesa. Tubos de vidro em curvas complexas, pipetas, vasos, ferramentas diversas. Em cima um cérebro de um macaco, seus olhos ainda anexos, vivos, se mexiam. Um olhar de pavor intenso.
Ao fundo, o que poderia ser a mesa principal. Uma cabeça humana, amarrada por fios de aço, com parte de sua espinha dorsal, artérias e veias penduradas, dissecadas e o tronco de fibras nervosas emolduradas por conexões tubulares a uma máquina de forma exótica pelas quais fluiam líquidos escuros, avermelhados.

Os olhos se abriram. Procurando nossos heróis queriam dizer-lhes algo. A boca se mexia mas não falava. Perecia tentar gritar. Um grito mudo, abafado, desesperado, enlouquecido. 

A cabeça estava viva…

Não viram ou sentiram mais nada exceto por uma leve picada em suas costas.

Cairam ao chão…

Quando voltaram a sí estavam em outro cômodo, amarrados, sobre uma larga mesa de aço inoxidável.. A luz acima de suas cabeças era intensa. Um zumbido de um gerador misturado ao piscar intermitente de lâmpadas flourescentes faziam do entorno um tecido móvel, bruxuleante, entorpecente.

Ao fundo duas figuras em jaleco branco.

Estas, embevecidas, no que parecia ser uma interminável discussão sobre métodos de recolocação de cabeças humanas, não perceberam que seus visitantes haviam acordado.

Trocavam idéias sobre um pacto demoníaco. Indagavam a sí mesmos se era hora de pedir o auxilio de um tal  “ser das trevas”  . Seus sotaques indicavam a influência das línguas dos balcãns. Arrastado, embolado, misterioso e aterrador. Vozes rotas, mas, perversas.

Orloff e Smirnoff eram loucos. Suas experiências já tinham deixado vítimas, corpos enterrados no lamaçal acima.
Com novos clientes, ainda vivos tentariam algo novo. Um transplante simultâneo…

Argumentava Orloff que a experiência poderia ter efeitos colaterais.
“E se um deles não gostar do corpo do outro? E se fosse ruim de cama?” ponderava.

“Tudo isso seria irrelevante quando em prol da ciência, argumentou Smirnoff.” E assim sendo, partiu para  para os estarrecidos amigos.

A cirurgia macabra se iniciava…

Misturavam líquidos esfumantes e borbulhantes. Pronunciavam coisas inintelegíveis, algumas delas em latim. O amigo de esparça cabeleira assim o identificou.

Com um grito soturno Orloff conjura o Tinhoso. Uma criatura alada, demoníaca e horrível surge do nada. O cheiro de enxofre inunda o cômodo. Ao fundo, no que parecia uma estranha Carmina Burana, vozes que não existiam faziam um coro ritimado, satânico, ensurdecedor.Uma dança de demônios, vultos, espectros.

Estes eram os cientistas russos do Zé Boi. E em parceria com o Satã faziam seus demoníacos esperimentos. Transplantes de cabeças humanas…
Os macacos eram provas das primeiras e fracassadas tentativas. As outras cabeças em redomas de vidro eram certamente experiências de insucesso claro.

Agora, com duas novas cobaias disponíveis teriam eles a chance de trocar suas cabeças e para tal não titubearam em pedir o auxílio de seu Mestre.

Jake queria culpar o amigo. Não teve a coragem, gostava dele demais para colocá-lo em tal posição. O mesmo de passava pela mente brilhante do outro. Se sobrevivessem, teriam algo à contar, por gerações.
Sempre foram criaturas que viam o mundo de uma maneira jovial. Gostavam de jogar conversa fora. Eram irreverentes, satíricos e mordazes. 

Agora, o destino lhes reservava o mais cruel desafio.

Os preparativos foram feitos.

Em mesas separadas e ligados à intermináveis tubos ainda estavam conscientes, capazes de ver seus fluidos vitais dançando por entre volumes vítreos, cruzando-se em caracóis mortíferos.

Foram sedados, mas não à ponto da inconsciência. Viam os dois cientistas em acaloradas discussões. Não entenderam nada…

Viam à frente a figura da horrenda criatura, agora com suas asas abertas, como se alí estivesse para abençoar aquela insana criação. Nada podiam fazer…

Suas cabeças foram separadas de seus corpos.

Cuidadosamente dissecados os nervos, as artérias, as vértebras, enquanto o fluxo dos fluidos vitais continuava.

Trocadas as cabeças foram reatadas as conexões, com sucesso total.
Jake era o mesmo, no corpo do amigo. Este, o mesmo no corpo do outro.

Como de lá saíram é ainda um mistério.

Voltaram ao seu local das abluções etílicas, ao convívio dos amigos, namorada, esposa.

Voltaram cheios de novas histórias.

Não deram muitas explicações à todos. Nunca conseguiram tocar no assunto de terem sumido por quase um ano.

No início as amadas ficaram bravas. Mas, como eram criaturas simpáticas escaparam ilesos às punições de praxe.

Sobre as cicatrizes, disseram ser um pacto que fizeram. Uma tatuagem para demonstrar a inquebrantável amizade que tinham um pelo outro.

Só não conseguiram explicar por que eram diferentes na cama.

Só o faziam no escuro. Eram diferentes segundo suas musas, apresentavam truques não conhecidos ou familiares a elas.

Quanto à platéia, tornou-se mais numerosa.

Seus contos eram ainda mais intrigantes.

Nunca mais visitaram o Zé Boi.

O que era de esquerda ficou de direita, e vice-versa.  Se isso fazia sentido não explicavam, afinal não seria a cabeça de cima que decidiria em que lado estavam? Ou era aquela do hemisfério sul?

Uma coisa é certa, ficaram felizes que o tal transplante havia sido feito entre os dois. Já pensou se tivesse sido com uma criatura do sexo feminino?

Bem, assim acaba a história, se é que acabou…

Enfim, tudo antes como no quartel de Abrantes


FIM