PERDERAM A CABEÇA
(Texto mais longo.
Conto de terror com final surpreendente. Historia baseada em momento real com
dose de ficção extra. Divirtam-se)
copyright by c.gilberti
Jake era
legal, mas irreverente. Nada lhe incomodava, não acreditava no que não via. Às vezes via e também não acreditava. Daí…
Gostava de
um birinaite. Para não viciar tomava um de cada marca, sempre
sequentemente, inexoravelmente.
Bom papo.
Gostava de outro amigo, tambem não crente. De cabelos escassos e verve
abundante, este outro, gostava de apreciar as belas musas que desfilavam no
entardecer dos domingos ensolarados nas montanhas onde viviam. De birinaite à torpedos etílicos seduziam as incautas belas a os
seguirem em suas intermináveis abluções.
Terminavam
todas nos braços de Bacco, embriagadas, felizes e desfalecidas.
O amigo de
pouca cobertura capilar o havia desafiado para passar uma noite em uma fazenda
abandonada, lá pelas bandas do Paraopeba. Dizia ele que outrora, há muito tempo atrás, aquele rio tinha peixes. Hoje só se pescavam botas velhas ou pedaços de pneus. Mas a idéia não era pescar e sim passar no
alambique to Zé Boi, que ficava lá perto. Disse o amigo que o tal de Zé era bom de contos e casos.
Como o
repertório dos dois estava baixo a idéia pareceu razoável.
Perguntou o Jake se eram histórias de terror. O amigo anuiu com um sorriso meio tinhoso.
Estas novas
histórias seriam perfeitas para contar para incautas belas. Um
susto aquí e outro acolá e elas se derreteriam em abraços de proteção. Era tudo de bom, e bom nisto eles
eram e isso era o que eles queriam.
Pois lá foram eles. Mochilas nas costas, trilhas à frente, botas reforçadas, matula curta mas bem regada com
a melhor caninha de Pimenta, já pensavam na tal fazenda. Uma vez lá chegando, e depois de abastecido no Zé Boi, fariam um churrasco para comemorar. Planos assustadores
se formavam em suas mentes desvairadas.
O Zé Boi foi um sucesso. A pinga era da melhor qualidade, as histórias, melhores ainda. Nem é preciso falar do churrasco. Ficaram
lá até o anoitecer.
O sol já tinha entrado em decúbito. Estrelas e pirilampos dançavam ao ritmo dos sapos e pererecas. Não havia luar. Os astros pingavam suas lágrimas de prata sobre o caminho estreito que percorriam,
desenhos mágicos, em volutas cintilantes.
Estavam
preocupados…
Zé lhes havia dito que a fazenda era assombrada. Relatos de
gente desaparecida levavam pistas ao caminho da casa central. Muita lama havia
se acumulado no vale e os antigos pátios de café estavam nela cobertos e
com difícil acesso.
Eles, que
nunca ligaram para estas coisas ficaram um tanto apreensivos quando no meio da
conversa apareceu a história do tal cientista russo que lá havia se instalado.
Mas que
diabo. Por que o Zé tinha de falar no tal cara?
Jake olhando
para o amigo ponderou: “Esse negócio do russo fazendo pacto com o demônio não estava no nosso script.”
“Vê lá que tem uma verdade nisto? Experiência científica cortando e transplantando cabeças de macacos não cheira bem.”
“Deixa pra lá Jake…isto é coisa do Zé pra gente ficar com medo. Eu não acredito em nada, Nem em fantasmas,
capeta ou alma penada. Isso não existe!”.
“É meu amigo, mas o Zé disse que ele transplantou a cabeça de um cabra, e o bicho tá aí com a cabeça de outro!”
“Isso é mentira rapaz!”
“Vamos em
frente, a fazenda é logo depois daquela colina.” E assim
continuaram a caminhada.
A fazenda
estava em ruinas. O Paraopeba corria ao lado. No escuro da noite a névoa densa se elevava de suas águas. Poderiam jurar que viram um
barqueiro, mas este, se existiu, parecia mais com aquele do rio Styx, nada bom
de se ver. Um vulto assombrado, em pé, mão na vara que empurrava a embarcação. Estava mais para fantasma, e olha que eles não acreditavam nestas coisas…
Jake parou.
Olhou para o amigo e perguntou: Você esperava isso? “
Nao, disse ele. São somente efeitos da
noite. Seja como eu, só acredito se me beliscarem.”
A lama era negra e grudenta. Quase arrancava suas botas dos pés. O ar, pesado
tinha odores nunca antes experimentados. Enojantes, revoltantes.
Jake poderia jurar que havia visto ossos humanos a flutuar no lamaçal. Até o que pareciam
olhos, fitando o firmamento, num olhar perdido, morto e desesperançado. Pensou consigo
mesmo…valeria a pena o que estavam fazendo? O desafio proposto se mostrava mais
audacioso, mais lúgubre, mais
aterrorizante. Grande material para assustar moçoilas.
A porta principal estava aos cacos. Madeira apodrecida com o tempo,
ferragens deletérias, desencaixadas.
Dentro, um vazio enorme. No fundo, vindo das gretas do assoalho a luz de algo
abaixo de seus pés coloria de modo
estranho as paredes do grande cômodo
principal.
Pelas frestas poderia se ver que algo, em baixo, existia. Que este algo se
parecia com um grande laboratório
nos porões da edificação. Nas suas
entranhas algo indescritível vivia.
O amigo de Jake se mostrou inabalável. Parecia que já conhecia aquelas plagas. Parecia que lá já havia estado e isso,
ele sabia não ser verdade.
Pensou que o amigo estivesse então possuído por uma força mágica, poderes
sobrenaturais, vontade heróica.
Procuraram pela entrada dos porões.
A escada era em caracol. A descida por cerca de uns quatro metros levava à grandes arcadas de
pedra suportando magníficas peças de peroba do
campo e o assoalhado acima.
Adiante, um laboratório complexo com um
aparelhamento estranho, iluminado, cercado de gaiolas, algumas com vários macacos e
outras com cúpulas de vidro.
Dentro …cabeças humanas.
Estupefatos, se sentiram paralizados. Não se moviam…somente olhavam ao seu redor tentando entender o
que viam, onde estavam.
À esquerda, uma
enorme mesa. Tubos de vidro em curvas complexas, pipetas, vasos, ferramentas
diversas. Em cima um cérebro de um macaco,
seus olhos ainda anexos, vivos, se mexiam. Um olhar de pavor intenso.
Ao fundo, o que poderia ser a mesa principal. Uma cabeça humana, amarrada
por fios de aço, com parte de sua espinha
dorsal, artérias e veias
penduradas, dissecadas e o tronco de fibras nervosas emolduradas por conexões tubulares a uma máquina de forma exótica pelas quais
fluiam líquidos escuros,
avermelhados.
Os olhos se abriram. Procurando nossos heróis queriam dizer-lhes algo. A boca se mexia mas não falava. Perecia
tentar gritar. Um grito mudo, abafado, desesperado, enlouquecido.
A cabeça estava viva…
Não viram ou sentiram
mais nada exceto por uma leve picada em suas costas.
Cairam ao chão…
Quando voltaram a sí estavam em outro cômodo, amarrados,
sobre uma larga mesa de aço inoxidável.. A luz acima de
suas cabeças era intensa. Um
zumbido de um gerador misturado ao piscar intermitente de lâmpadas flourescentes
faziam do entorno um tecido móvel,
bruxuleante, entorpecente.
Ao fundo duas figuras em jaleco branco.
Estas, embevecidas, no que parecia ser uma interminável discussão sobre métodos de recolocação de cabeças humanas, não perceberam que
seus visitantes haviam acordado.
Trocavam idéias sobre um pacto
demoníaco. Indagavam a sí mesmos se era hora
de pedir o auxilio de um tal “ser das
trevas” . Seus sotaques indicavam a
influência das línguas dos balcãns. Arrastado,
embolado, misterioso e aterrador. Vozes rotas, mas, perversas.
Orloff e Smirnoff eram loucos. Suas experiências já tinham deixado vítimas, corpos
enterrados no lamaçal acima.
Com novos clientes, ainda vivos tentariam algo novo. Um transplante simultâneo…
Argumentava Orloff que a experiência poderia ter efeitos colaterais.
“E se um deles não gostar do corpo do
outro? E se fosse ruim de cama?” ponderava.
“Tudo isso seria irrelevante quando em prol da ciência, argumentou
Smirnoff.” E assim sendo, partiu para
para os estarrecidos amigos.
A cirurgia macabra se iniciava…
Misturavam líquidos esfumantes e
borbulhantes. Pronunciavam coisas inintelegíveis, algumas delas em latim. O amigo de esparça cabeleira assim o
identificou.
Com um grito soturno Orloff conjura o Tinhoso. Uma criatura alada, demoníaca e horrível surge do nada. O
cheiro de enxofre inunda o cômodo.
Ao fundo, no que parecia uma estranha Carmina Burana, vozes que não existiam faziam um
coro ritimado, satânico, ensurdecedor.Uma
dança de demônios, vultos,
espectros.
Estes eram os cientistas russos do Zé Boi. E em parceria com o Satã faziam seus demoníacos esperimentos. Transplantes de cabeças humanas…
Os macacos eram provas das primeiras e fracassadas tentativas. As outras
cabeças em redomas de
vidro eram certamente experiências
de insucesso claro.
Agora, com duas novas cobaias disponíveis teriam eles a chance de trocar suas cabeças e para tal não titubearam em
pedir o auxílio de seu Mestre.
Jake queria culpar o amigo. Não teve a coragem, gostava dele demais para colocá-lo em tal posição. O mesmo de
passava pela mente brilhante do outro. Se sobrevivessem, teriam algo à contar, por gerações.
Sempre foram criaturas que viam o mundo de uma maneira jovial. Gostavam de
jogar conversa fora. Eram irreverentes, satíricos e mordazes.
Agora, o destino lhes reservava o mais
cruel desafio.
Os preparativos foram feitos.
Em mesas separadas e ligados à intermináveis
tubos ainda estavam conscientes, capazes de ver seus fluidos vitais dançando por entre
volumes vítreos, cruzando-se
em caracóis mortíferos.
Foram sedados, mas não à ponto da inconsciência. Viam os dois
cientistas em acaloradas discussões. Não entenderam nada…
Viam à frente a figura da
horrenda criatura, agora com suas asas abertas, como se alí estivesse para abençoar aquela insana
criação. Nada podiam
fazer…
Suas cabeças foram separadas
de seus corpos.
Cuidadosamente
dissecados os nervos, as artérias,
as vértebras, enquanto o
fluxo dos fluidos vitais continuava.
Trocadas as cabeças foram reatadas as
conexões, com sucesso
total.
Jake era o mesmo, no corpo do amigo. Este, o mesmo no corpo do outro.
Como de lá saíram é ainda um mistério.
Voltaram ao seu local das abluções etílicas, ao convívio dos amigos,
namorada, esposa.
Voltaram cheios de
novas histórias.
Não deram muitas
explicações à todos. Nunca
conseguiram tocar no assunto de terem sumido por quase um ano.
No início as amadas
ficaram bravas. Mas, como eram criaturas simpáticas escaparam ilesos às punições de praxe.
Sobre as cicatrizes, disseram ser um pacto que fizeram. Uma tatuagem para
demonstrar a inquebrantável amizade que tinham
um pelo outro.
Só não conseguiram
explicar por que eram diferentes na cama.
Só o faziam no escuro.
Eram diferentes segundo suas musas, apresentavam truques não conhecidos ou
familiares a elas.
Quanto à platéia, tornou-se mais
numerosa.
Seus contos eram ainda mais intrigantes.
Nunca mais visitaram o Zé
Boi.
O que era de esquerda ficou de direita, e vice-versa. Se isso fazia sentido não explicavam, afinal
não seria a cabeça de cima que
decidiria em que lado estavam? Ou era aquela do hemisfério sul?
Uma coisa é
certa,
ficaram felizes que o tal transplante havia sido feito entre os dois. Já pensou se tivesse
sido com uma criatura do sexo feminino?
Bem, assim acaba a história,
se é que acabou…
Enfim, tudo antes como no quartel de Abrantes
FIM