segunda-feira, 24 de abril de 2017

PERDERAM A CABEÇA
(Texto mais longo. Conto de terror com final surpreendente. Historia baseada em momento real com dose de ficção extra. Divirtam-se)

copyright by c.gilberti

Jake era legal, mas irreverente. Nada lhe incomodava, não acreditava no que não via. Às vezes via e também não acreditava. Daí

Gostava de um birinaite. Para não viciar tomava um de cada marca, sempre sequentemente, inexoravelmente.

Bom papo. Gostava de outro amigo, tambem não crente. De cabelos escassos e verve abundante, este outro, gostava de apreciar as belas musas que desfilavam no entardecer dos domingos ensolarados nas montanhas onde viviam. De birinaite à torpedos etílicos seduziam as incautas belas a os seguirem em suas intermináveis abluções.

Terminavam todas nos braços de Bacco, embriagadas, felizes e desfalecidas.
O amigo de pouca cobertura capilar o havia desafiado para passar uma noite em uma fazenda abandonada, lá pelas bandas do Paraopeba. Dizia ele que outrora, há muito tempo atrás, aquele rio tinha peixes. Hoje só se pescavam botas velhas ou pedaços de pneus.  Mas a idéia não era pescar e sim passar no alambique to Zé Boi, que ficava lá perto. Disse o amigo que o tal de Zé era bom de contos e casos.

Como o repertório dos dois estava baixo a idéia pareceu razoável. 
Perguntou o Jake se eram histórias de terror. O amigo anuiu com um sorriso meio tinhoso.

Estas novas histórias seriam perfeitas para contar para incautas belas. Um susto aquí e outro acolá e elas se derreteriam em abraços de proteção. Era tudo de bom, e bom nisto eles eram e isso era o que eles queriam.

Pois lá foram eles. Mochilas nas costas, trilhas à frente, botas reforçadas, matula curta mas bem regada com a melhor caninha de Pimenta, já pensavam na tal fazenda. Uma vez lá chegando, e depois de abastecido no Zé Boi, fariam um churrasco para comemorar. Planos assustadores se formavam em suas mentes desvairadas.

O Zé Boi foi um sucesso. A pinga era da melhor qualidade, as histórias, melhores ainda. Nem é preciso falar do churrasco. Ficaram lá até o anoitecer.

O sol já tinha entrado em decúbito. Estrelas e pirilampos dançavam ao ritmo dos sapos e pererecas. Não havia luar. Os astros pingavam suas lágrimas de prata sobre o caminho estreito que percorriam, desenhos mágicos, em volutas cintilantes.

Estavam preocupados…

Zé lhes havia dito que a fazenda era assombrada. Relatos de gente desaparecida levavam pistas ao caminho da casa central. Muita lama havia se acumulado no vale e os antigos pátios de café estavam nela cobertos e com difícil acesso.

Eles, que nunca ligaram para estas coisas ficaram um tanto apreensivos quando no meio da conversa apareceu a história do tal cientista russo que lá havia se instalado.

Mas que diabo. Por que o Zé tinha de falar no tal cara?
Jake olhando para o amigo ponderou: “Esse negócio do russo fazendo pacto com o demônio não estava no nosso script.”
“Vê lá que tem uma verdade nisto? Experiência científica cortando e transplantando cabeças de macacos não cheira bem.”
“Deixa pra lá Jake…isto é coisa do Zé pra gente ficar com medo. Eu não acredito em nada, Nem em fantasmas, capeta ou alma penada. Isso não existe!”.
É meu amigo, mas o Zé disse que ele transplantou a cabeça de um cabra, e o bicho tá aí com a cabeça de outro!”
“Isso é mentira rapaz!”
“Vamos em frente, a fazenda é logo depois daquela colina.” E assim continuaram a caminhada.

A fazenda estava em ruinas. O Paraopeba corria ao lado. No escuro da noite a névoa densa se elevava de suas águas. Poderiam jurar que viram um barqueiro, mas este, se existiu, parecia mais com aquele do rio Styx, nada bom de se ver. Um vulto assombrado, em pé, mão na vara que empurrava a embarcação. Estava mais para fantasma, e olha que eles não acreditavam nestas coisas…

Jake parou. Olhou para o amigo e perguntou: Você esperava isso? “
Nao, disse ele. São somente efeitos da noite. Seja como eu, só acredito se me beliscarem.”

A lama era negra e grudenta. Quase arrancava suas botas dos pés. O ar, pesado tinha odores nunca antes experimentados. Enojantes, revoltantes.

Jake poderia jurar que havia visto ossos humanos a flutuar no lamaçal. Até o que pareciam olhos, fitando o firmamento, num olhar perdido, morto e desesperançado. Pensou consigo mesmo…valeria a pena o que estavam fazendo? O desafio proposto se mostrava mais audacioso, mais lúgubre, mais aterrorizante. Grande material para assustar moçoilas.

A porta principal estava aos cacos. Madeira apodrecida com o tempo, ferragens deletérias, desencaixadas. Dentro, um vazio enorme. No fundo, vindo das gretas do assoalho a luz de algo abaixo de seus pés coloria de modo estranho as paredes do grande cômodo principal.

Pelas frestas poderia se ver que algo, em baixo, existia. Que este algo se parecia com um grande laboratório nos porões da edificação. Nas suas entranhas algo indescritível vivia.

O amigo de Jake se mostrou inabalável. Parecia que já conhecia aquelas plagas. Parecia que lá já havia estado e isso, ele sabia não ser verdade. Pensou que o amigo estivesse então possuído por uma força mágica, poderes sobrenaturais, vontade heróica.

Procuraram pela entrada dos porões.

A escada era em caracol. A descida por cerca de uns quatro metros levava à grandes arcadas de pedra suportando magníficas peças de peroba do campo e o assoalhado acima.

Adiante, um laboratório complexo com um aparelhamento estranho, iluminado, cercado de gaiolas, algumas com vários macacos e outras com cúpulas de vidro. Dentro …cabeças humanas.

Estupefatos, se sentiram paralizados. Não se moviam…somente olhavam ao seu redor tentando entender o que viam, onde estavam.
À esquerda, uma enorme mesa. Tubos de vidro em curvas complexas, pipetas, vasos, ferramentas diversas. Em cima um cérebro de um macaco, seus olhos ainda anexos, vivos, se mexiam. Um olhar de pavor intenso.
Ao fundo, o que poderia ser a mesa principal. Uma cabeça humana, amarrada por fios de aço, com parte de sua espinha dorsal, artérias e veias penduradas, dissecadas e o tronco de fibras nervosas emolduradas por conexões tubulares a uma máquina de forma exótica pelas quais fluiam líquidos escuros, avermelhados.

Os olhos se abriram. Procurando nossos heróis queriam dizer-lhes algo. A boca se mexia mas não falava. Perecia tentar gritar. Um grito mudo, abafado, desesperado, enlouquecido. 

A cabeça estava viva…

Não viram ou sentiram mais nada exceto por uma leve picada em suas costas.

Cairam ao chão…

Quando voltaram a sí estavam em outro cômodo, amarrados, sobre uma larga mesa de aço inoxidável.. A luz acima de suas cabeças era intensa. Um zumbido de um gerador misturado ao piscar intermitente de lâmpadas flourescentes faziam do entorno um tecido móvel, bruxuleante, entorpecente.

Ao fundo duas figuras em jaleco branco.

Estas, embevecidas, no que parecia ser uma interminável discussão sobre métodos de recolocação de cabeças humanas, não perceberam que seus visitantes haviam acordado.

Trocavam idéias sobre um pacto demoníaco. Indagavam a sí mesmos se era hora de pedir o auxilio de um tal  “ser das trevas”  . Seus sotaques indicavam a influência das línguas dos balcãns. Arrastado, embolado, misterioso e aterrador. Vozes rotas, mas, perversas.

Orloff e Smirnoff eram loucos. Suas experiências já tinham deixado vítimas, corpos enterrados no lamaçal acima.
Com novos clientes, ainda vivos tentariam algo novo. Um transplante simultâneo…

Argumentava Orloff que a experiência poderia ter efeitos colaterais.
“E se um deles não gostar do corpo do outro? E se fosse ruim de cama?” ponderava.

“Tudo isso seria irrelevante quando em prol da ciência, argumentou Smirnoff.” E assim sendo, partiu para  para os estarrecidos amigos.

A cirurgia macabra se iniciava…

Misturavam líquidos esfumantes e borbulhantes. Pronunciavam coisas inintelegíveis, algumas delas em latim. O amigo de esparça cabeleira assim o identificou.

Com um grito soturno Orloff conjura o Tinhoso. Uma criatura alada, demoníaca e horrível surge do nada. O cheiro de enxofre inunda o cômodo. Ao fundo, no que parecia uma estranha Carmina Burana, vozes que não existiam faziam um coro ritimado, satânico, ensurdecedor.Uma dança de demônios, vultos, espectros.

Estes eram os cientistas russos do Zé Boi. E em parceria com o Satã faziam seus demoníacos esperimentos. Transplantes de cabeças humanas…
Os macacos eram provas das primeiras e fracassadas tentativas. As outras cabeças em redomas de vidro eram certamente experiências de insucesso claro.

Agora, com duas novas cobaias disponíveis teriam eles a chance de trocar suas cabeças e para tal não titubearam em pedir o auxílio de seu Mestre.

Jake queria culpar o amigo. Não teve a coragem, gostava dele demais para colocá-lo em tal posição. O mesmo de passava pela mente brilhante do outro. Se sobrevivessem, teriam algo à contar, por gerações.
Sempre foram criaturas que viam o mundo de uma maneira jovial. Gostavam de jogar conversa fora. Eram irreverentes, satíricos e mordazes. 

Agora, o destino lhes reservava o mais cruel desafio.

Os preparativos foram feitos.

Em mesas separadas e ligados à intermináveis tubos ainda estavam conscientes, capazes de ver seus fluidos vitais dançando por entre volumes vítreos, cruzando-se em caracóis mortíferos.

Foram sedados, mas não à ponto da inconsciência. Viam os dois cientistas em acaloradas discussões. Não entenderam nada…

Viam à frente a figura da horrenda criatura, agora com suas asas abertas, como se alí estivesse para abençoar aquela insana criação. Nada podiam fazer…

Suas cabeças foram separadas de seus corpos.

Cuidadosamente dissecados os nervos, as artérias, as vértebras, enquanto o fluxo dos fluidos vitais continuava.

Trocadas as cabeças foram reatadas as conexões, com sucesso total.
Jake era o mesmo, no corpo do amigo. Este, o mesmo no corpo do outro.

Como de lá saíram é ainda um mistério.

Voltaram ao seu local das abluções etílicas, ao convívio dos amigos, namorada, esposa.

Voltaram cheios de novas histórias.

Não deram muitas explicações à todos. Nunca conseguiram tocar no assunto de terem sumido por quase um ano.

No início as amadas ficaram bravas. Mas, como eram criaturas simpáticas escaparam ilesos às punições de praxe.

Sobre as cicatrizes, disseram ser um pacto que fizeram. Uma tatuagem para demonstrar a inquebrantável amizade que tinham um pelo outro.

Só não conseguiram explicar por que eram diferentes na cama.

Só o faziam no escuro. Eram diferentes segundo suas musas, apresentavam truques não conhecidos ou familiares a elas.

Quanto à platéia, tornou-se mais numerosa.

Seus contos eram ainda mais intrigantes.

Nunca mais visitaram o Zé Boi.

O que era de esquerda ficou de direita, e vice-versa.  Se isso fazia sentido não explicavam, afinal não seria a cabeça de cima que decidiria em que lado estavam? Ou era aquela do hemisfério sul?

Uma coisa é certa, ficaram felizes que o tal transplante havia sido feito entre os dois. Já pensou se tivesse sido com uma criatura do sexo feminino?

Bem, assim acaba a história, se é que acabou…

Enfim, tudo antes como no quartel de Abrantes


FIM


2 comentários:

  1. Oi Celso,vc pediu minha opinião sobre o final do conto Troco, devolvo as cabeças,ou não? Amigo, o final é coisa séria Lembrei de imediato do Banquete de Platao quando ele coloca na boca de Aristofanes o mito da procura amorosa Não vou contar aqui pois demoraria muito mas para quem não conhece vale a pena conhecer A partir daí estou tendendo a não devolver as cabeças pois explicaria,como no"Banquete" a eterna busca ,explicando o amor hetero e homosexual "EU TE AMO EU QUERO A PARTE SUA QUE É MINHA,NOS NOS COMPLETAMOS " EU QUERO SUA CABEÇA " Resposta do dono da cabeça: A MINHA CABEÇA E SUA MAS A Sua Não É A MINHA" Estaria aí explicado a traição pois a busca pela cabeça certa continua

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  2. Boa Beth. O conto eh intrigante. Simbiose gera o fato. Sera? Vamos ver se o cientista italiano que ira trocar a cabeca de seu cliente chega a mesma conclusao. Quando setembro vier...

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