sexta-feira, 31 de maio de 2019


O COVEIRO 
                                                                                                


Nunca soube de si de maneira diferente. Era feio, mal falava, morava em um cômodo, com duas janelas e uma porta. Mas tinha algo incomum...um par de olhos de azul brilhante, cativantes e sedutores. Duas luzes em uma máscara de horror.

Não lembrava de ter sido criança. Não lembrava de mulher alguma. Em sua memória somente a casa de um cômodo só. Lá tinha um fogão, uma mesa, cama e pia. No chão um buraco diretamente ligado ao esgoto.

Bebia Natu Nobilis, na garrafa. Comia ratos, que saíam do buraco e ele os pegava e punha em uma gaiola.  De vez em quando uma aranha ou escorpião. Tinha uma pá e uma picareta. Tinha um corvo de estimação, feio, bico longo e afiado, fazia um barulho dos diabos.

Morava em um cemitério. A casinha de um cômodo só era parecida com os mausoléus. Estava em casa. Lá, era o coveiro. De dia abria as covas, enterrava os defuntos, de noite,violava sepulturas. Estava sempre à procura de algo valioso. Era assim que comprava o seu uísque barato.

Seu nome era Zacharias Axelrod. Chamavam-no de Zach.

O cemitério era bonito. Longas estradas ladeadas por carvalhos. Quadras limpas, bem cuidadas. Ele era um bom jardineiro e o lugar pequeno, dava para cuidar de tudo. Não morria tanta gente assim.

O parque tinha seus duzentos anos, ele, nem sabia quantos tinha.

Foi um sábado. Havia morrido alguém importante. O cemitério estava cheio, padres e até policiais fardados. Vieram para o lado dos mausoléus. Ficavam no alto da colina rodeados por azaleias e ciprestes. Enterravam um amigo.

Abriu a cova como sempre abria. Esperou. Finda a cerimônia, fechou-a, colocou a lápide e foi para casa. Como ficava do lado oposto, nos baixios, seguiu por outra trilha. Deparou-se com uma construção diferente. Era igual à sua casa, em forma, mas rica e detalhada, com mármores e granitos. Lembrava-lhe de algo que não sabia identificar. Ficou curioso.
                                                                                                   
A noite chegou e com ela a vontade de voltar para ver como era por dentro.              Rica que era, poderia conter coisas preciosas, urnas, bronze, um defunto cheio de joias. Bebeu dois goles do uísque, tossiu, pigarreou e se mandou.

Como pensou, era do mesmo tamanho, tinha duas janelas e no meio, em uma plataforma baixa, um belíssimo esquife. Dobradiças de prata macica, joelhos de bronze, um em cada canto, à frente uma placa também de prata com poucas inscrições. Não dava para ler o que lá estava gravado, o pó dos tempos cobria tudo.

Não teve dúvidas. Usou sua pá e forçou a tampa. Com cuidado e pressa destacou as dobradiças. Dariam um bom dinheiro na loja de penhor. Deu uma espiada por dentro. Não viu nada, só o cetim branco, amarelado pelos anos.

Embasbacado limpou a placa. Queria saber de quem era o caixão.

Em letras gravadas cuidadosamente lia-se:

“Here lies a vile soul. No body attached...”

( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo...)


“Que diabo! Onde estava o nome, a data... isto lá é coisa que se escreva em uma urna mortuária? Muito estranho, mas devia ser muito rico, e isto é o que importava naquele momento, pensou.”

Voltou para casa. Seu corvo o recebeu com animação. Beliscava as migalhas de um pão velho, gralhava estridentemente. Bicho chato...

Tomou um golo e desceu para a cidade.

A loja de penhor era imunda. Paredes sujas, encardidas, melequentas.
Um balcão gradeado e um sujeito barbado, de camiseta de alças longas foi logo perguntando: “diga-me o que queres ou saia já daqui”. Mostrou-lhe as dobradiças.

“São de prata pura....                                                                                        

Eu sei, respondeu, e pôs-se a pesá-las...trezentas e trinta gramas...falou.”

Tirou um maço de notas e enrolando-as as entregou.

“É só isso, agora saia, não gosto da tua laia...”

Passou na mercearia, comprou umas latas de salsicha, duas de ravióli do chef Boyardee e um uísque de verdade...uma garrafa de Jack Daniels. Voltou para o cemitério.

No cômodo em que morava procurou por um copo. Entre caixas e coisas sem nexo o encontrou. Estava sujo, encardido e com bolor. Lavou-o, esfregou-o, raspou com bucha e areia. Meio turvo, mas com aspeto mais agradável encheu-o com o Jack que comprara. Era a primeira vez que bebia em um copo.

A noite estava fria. Vestiu seu único casaco. Era de veludo azul marinho. Havia ficado preto, meio marrom e meio roxo de tanta sujeira. Mas era quente. Pôs um cachecol listrado e um boné surrado, ensebado. Bebeu mais, bebeu tanto que desmaiou.

Quando acordou teve a sensação que só havia dormido por umas duas horas. Pensou ser noite ainda, mas havia luz entrando pelas pequenas janelas. Resolveu sair...

Era dia e era lindo, flores da primavera brotavam do chão. Lindas dafodils, crócus brancos e azuis penetravam a camada fina de gelo que se havia depositado.

Surpreso notou que o parque estava cheio. Homens e mulheres de preto, casacos longos, coletes, chapéus. As mulheres de véu negro, os homens de costas para ele. Por mais que quisesse e se esforçasse não conseguiu ver suas faces.

Uma mulher de corpo esbelto, bem torneado, botas pretas e um vestido escuro, quase negro, dele se aproximou. Sua mão, branca como a neve que caiu ao chão, o tocou.  Magicamente deixou-se guiar pela misteriosa dama.

Após uma longa caminhada em total silêncio aproximaram-se de uma mansão bem cuidada, em estilo vitoriano, muitas janelas, portas e excesso de detalhes em madeira. A escadaria frontal levava à um vestíbulo que antecedia uma enorme sala.

Ainda conduzido pela misteriosa dama aproximou-se de uma mesa, no meio do espaço decorado com móveis de estilo, do século XVIII,meticulosamente arrumados e decorados com adereços preciosos. A mesa era longa. Em cima, deitada, cercada por velas acesas havia uma mulher deslumbrante,totalmente nua.

Sua tez era pálida como a neve, seus cabelos louros como o sol, suas unhas pintadas em carmim contrastavam com a sisudez do local.

Estava morta.

No peito a marca profunda de uma faca, provavelmente de cozinha, ao lado do plexo, no coração.

Olhou para o lado tentando se comunicar com a misteriosa criatura que o havia levado até lá. Havia desaparecido. Surpreendeu-se. Por um momento teve medo, não sabia de quê ou o quê, mas teve medo, paúra, fear. Tremeu...

Uma luz bruxuleante vinha do cômodo ao lado. Resolveu investigar.

Era a cozinha, bem equipada, armários de louças, talheres, vasos. O caos era total. No chão panelas reviradas, poças de sangue já coagulado, nas paredes respingos e esguichos rastreavam o sangue advindo de uma batalha pela vida, certamente perdida. Havia sangue até no teto.

Fugiu em desabalada carreira. Voltou ao seu refúgio. Sorveu o resto do Jack Daniels, pela garrafa. Desfaleceu...

Os gritos do corvo eram mais fortes e estridentes. Pioravam quando olhava para ele. Zach não entendeu porquê.

Acima da pia estava seu fiel espelho. Um pedaço de vidro quebrado, pendurado em um prego enorme. Assustou-se com o que viu. Seu rosto havia tomado feições mais agradáveis, mais bem torneadas. Não estava tão horroroso. Até suas roupas pareciam ter mudado, estavam mais vibrantes, vivas. Gostou mas não entendeu. O corvo entretanto, dele se afastava.

Zach era cético de tudo. Passado algumas horas já estava como antes, pronto para nova incursão ao mausoléu. Havia gostado do uísque. Precisava de dinheiro para outra garrafa. Tomou o resto, comeu o ravióli. Até soltou o rato que ali estava preso para o próximo jantar. Este, sumiu como uma flecha, desaparecendo no buraco do esgoto.

Já era noite. Antes havia enterrado uma criança em um funeral choroso. Felizmente para ele não durou muito. Caixão menor, buraco menor.

Subiu a colina tentando localizar o mausoléu. Ficava em um lugar de vegetação densa. Sem luz, à noite, não era fácil de achar. Mas lá estava o dito. Bela obra de mármore.

Encontrou tudo como havia deixado. Resolveu remover os joelhos de bronze. Deu mais trabalho, estavam bem encaixados no mogno. Não teve dúvidas, quebrou os cantos, expondo o caixão, por dentro. Lá estava o cetim branco e amarelado, nada mais.

Colocando as peças em um saco resolveu ler a placa, novamente. Afinal, deveria haver um nome, em algum lugar. Acendeu os tocheiros, precisava de mais luz. O tremular das chamas iluminavam a placa com ondas avermelhadas entre sombras escuras. O texto gravado dizia:

“Here lies a vile soul. No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found…”

(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou tomou também sua própria vida. A alma descansa  dentro, o corpo nunca encontrado...)

“Isto não é possível!  Talvez não tenha prestado a atenção, mas não me lembro de ter lido esta sentença toda… Deve ter sido a luz...O diabo é que não acho o nome” ...pensou em voz alta.

Levou os proventos do roubo para a loja de penhor. Não sabia por que, mas o dono da loja foi, desta vez, mais gentil. Não demonstrou o asco que havia sentido por ele quando da primeira vez. Até lhe deu mais dinheiro, novamente em um rolo de notas.

Comprou outra garrafa de Jack, comprou também dois Cohibas, charutos de primeira. Nunca havia fumado um destes antes. Fá-lo-ia nesta noite.

Na casa de um cômodo só bebeu e fumou. Comeu as salsichas, bebeu no copo. Só o corvo não gostava. Gralhava ao ponto que o pôs para fora. Caiu duro, estava totalmente inebriado.

Acordou.

Havia sol pelas janelas. Abriu a porta. Luz, flores, neve. Achou até que ouvia o som de um órgão. Seria Bach? Nunca soube que entendia de música. Nunca soube que sabia o nome de um autor.

Os homens e mulheres andavam em passos lentos. Todos em negro, todos com chapéus, todas com véus. Como antes, não conseguiu ver-lhes os rostos, só os via pelas costas.

O toque leve e gentil se fez sentir. A mesma dama, o mesmo vestido, puxando-o para segui-la. Fizeram o mesmo trajeto até a casa vitoriana, subiram os degraus da escada, adentraram a enorme sala.

O mesmo corpo desnudo. Seios lindos, curvas sensuais, feições angelicais. Branca como a neve. Pálida e loura.

Um órgão de foles, belíssima peça renascentista o convidava à tocar. Não sabia que o fazia, mas tocou como um mestre. Em toques mágicos fez o Prelúdio e Fuga BWV 552 em Mi bemol maior de Bach penetrar cada canto da casa, vibrando paredes, cristais, enchendo os ouvidos com a mais celestial das músicas. Mas o som do órgão é também assustador. Seu volume, as notas penetrantes , abrem portais em outras dimensões.

Sentiu que pertencia àquele lugar. Sentiu que ali não queria permanecer. Fugiu, em desabalada carreira. Sentiu-se diferente. Parecia mais jovem, lépido, forte.

Voltou para seu refúgio. No caminho, correndo por entre lápides e sepulturas notou a dança de espíritos perdidos, esvoaçando-se sobre jazigos, mergulhando entre galhos de árvores, sumindo em fendas no chão. Espectros com luz, espectros negros. Apavorou-se.

Trêmulo, bebeu novamente. Mais uma vez perdeu os sentidos, exausto, consumido.

Se não fosse o corvo não teria acordado. Era um domingo, dia de visitas. Foi ao espelho dar uma arrumada nos cabelos. Estava mais novo, era até bonito. Seus dentes eram alvos, seu sorriso cativante, seus cabelos escuros e fartos. Seus olhos azuis brilhavam. Traziam uma luz que não havia visto antes. Era jovem, de novo.  Suas vestes novas, reluzentes. Seu outrora querido corvo já não o reconhecia.

Não sabia como explicar. Quem sabe era o uísque de melhor qualidade? Ou seriam os charutos? Até o ravióli? Era tudo delicioso... Mas já acabara. Voltaria ao mausoléu, ainda havia a placa de prata pura, certamente seria a mais valiosa do butim. Iria lá à noite. Antes, tinha de cumprir seus deveres com os visitantes, mostrando-lhes onde estavam enterrados seus entes queridos.

Chovia. A noite era escura e triste. No mausoléu somente se ouvia o som do vento e da água açoitando as paredes. Acendeu os tocheiros. De novo a luz dançava. Estranhos vultos se formavam nas paredes. Teve a sensação de que haviam rostos disformes observando tudo o que fazia. Em sua cabeça o Prelúdio ainda tocava. Poderia jurar que havia um órgão naquele lugar.

Com a pá forçou a placa de prata. Não saía, não se movia. Trouxe o tocheiro para mais perto...em pânico deixou cair a pá.

A inscrição gravada se mostrava mais longa. Dizia:

“Here lies a vile soul. No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found, for he who played the organ played with the life of his beloved wife. Vengeance will follow when his body meets his soul again, and then, only then, together again, will rest the vile soul and vile body.”

( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também tomou sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então, juntos de novo, sua vil alma e seu vil corpo descansarão...)

Era agora uma tempestade. Ventos uivantes, árvores curvadas sofrendo o peso da água que inundava os páteos. O órgão fantasma tocava as mais pungentes notas do Prelúdio. A porta se abriu em um estrondo, os tocheiros se apagaram. Em pânico fugiu de volta para casa.

Sorveu em goles loucos tudo que tinha na garrafa. A música não parava. Pensou estar sonhando um pesadelo sem fim. Atordoado caiu ao chão.

O sol da manhã era o mesmo dos outros dias. Olhando-se no espelho notou-se jovem e belo. Seus olhos azuis eram mais sedutores do que nunca. Sua voz era melodiosa, sua mente tocava acordes divinos em órgão e violino. Sentiu-se revigorado. Talvez aquilo que acontecia era prenúncio de dias melhores. Aventurou-se lá fora, de novo.

As mesmas flores, as mesmas pessoas. A mesma dama. Desta vez se recusaria a acompanhá-la. Achou que deveria voltar ao mausoléu, só que sendo dia tudo seria diferente. Para lá caminhou.

As criaturas o acompanhavam, à distância. A dama, mais perto, murmurava o Prelúdio de Bach. O corvo o seguia, do alto. Era estranho, surreal.

Ao entrar deparou com o esquife quebrado, o cetim rasgado, a placa ainda no mesmo lugar. Virou-se e notou que agora todos estavam de frente, seus rostos à mostra. Tirando as cartolas e os chapéus, sorriram. Não eram sorrisos lindos, eram sarcásticos, demoníacos. Sorrisos da morte... Lentamente, saiam vermes dos olhos de cada um deles. Moscas, maganos, até cobras e lacraias moviam-se para fora das bocas sorridentes.

Seus tecidos ficaram rotos, maxilares se desprendiam, caindo ao chão. Em pó se transformaram, ao pó tornaram-se.

A dama de quase negro levantou seu véu.

Um horror indescritível se apoderou de Zacharias. O rosto revelado era o da bela e pálida loura, desnuda, aquela da mesa de jantar.

A dama despiu-se, e a ferida aberta, ao lado do coração sangrava.

Gritou, mas não gritou mais alto do que o gralhar do corvo. Como uma flexa o pássaro mergulhou em direção aos seus olhos. Bicando furiosamente os arrancou. Caídos ao chão fitavam estáticos a dama de quase negro que lentamente se desmanchava em pó.

Cego, esvaindo-se em sangue caiu no cetim branco amarelado, cobrindo-o de sangue.

Ali morreu.

A placa de prata reluzia como nova. O Prelúdio tocava alto. O som do inferno era lindo. Como em um papel num cilindro de uma Remington a gravação se estendia ritmadamente. Dizia:

“Here lies a vile soul.  No body attached, for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never found, for he who played the organ played with the life of his beloved wife. Vengeance will follow when his body meets his soul again, and then, only then, together again, will rest the vile soul and the vile body. The organ will play again... may God have mercy of the condemned.”

(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também tomou a sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então, sua vil alma e o seu vil corpo descansarão. O órgão tocará de novo... que Deus tenha pena do condenado.)


ZACHARIAS  AXELROD
Maestro and Composer

Born: August 13th. 1713
Died: Today



FIM

Written by Celso R. Gilberti
December 2015

In Memory of :  Míriam R. Gilberti

quarta-feira, 29 de maio de 2019

domingo, 5 de maio de 2019


ESCATOLÓGICO


Escafedeu-se…
Sumiu no horizonte como se o mundo acabasse.
Velocidade da luz, um fugaz instante e ele coprologicamente esvaneceu-se…
Não sabia amar, não sabia sorrir, não sabia nada.
Era um ser que se não tivesse existido não seria notado. Se não fosse, não teria sido…
Dizem que há mais amor no mundo do que se pensa. Por isso uma inocente criatura por ele se enterneceu.
Não o via como era, pensava ver um interior que só em sua cabeça existia, pois o dito, se interior tinha, era escatológico.
Não era lógico, sequer metodológico, quiçá morfológico. Mais para zoológico, pois a um bicho parecia.
Mas ela não o via. Assim, mesmo seus versos sujos e depravados soavam como o canto de pássaros, num mundo ilógico, meio necrológico.
Mas, preso em sua mente fecal não soube amá-la.
Covardemente fugiu, correu e…nunca mais voltou.
A doce chorou. De seus olhos cegos lágrimas em rios turbulentos verteram.
Mas ela,
Nada perdeu…
Pois nunca realmente o viu, nem ouviu.


quarta-feira, 1 de maio de 2019


RELATIVA REALIDADE

Disse a ela que a amava.

Disse, pois sentia ser real o amor que tinha.
Mas era um filósofo e como tal, filosofava…
Se disse que a amava seria porque realmente assim sentia?
No relativo do mundo podem existir mais de uma realidade.
Nele a realidade do amor que tinha e outras não tão reais na irrealidade das coisas.
Em qual mundo vivia?
No que se achava real fosse ele irreal?
No que se achava outro, talvez mais sincero, menos realista, mais pessimista…
Voltou à pergunta.
Queria ser sincero, realmente sincero…
Mas se sua sinceridade não fosse aquela do mundo real que achava existir mas sim aquela do irreal que deveria existir?
Na dúvida não entrou em um, não saiu do outro.
Perdido em mundos que não sabia serem reais, quiça irreais, filosofou, mais uma vez…
O amor não é uma coisa real.
É, porém, uma realidade que existe, mesmo no irreal…
E assim, perdeu sua namorada.