Nunca soube de si de maneira diferente. Era feio, mal falava, morava em
um cômodo, com duas janelas e uma porta. Mas tinha algo incomum...um par de
olhos de azul brilhante, cativantes e sedutores. Duas luzes em uma máscara de
horror.
Não lembrava de ter sido criança. Não lembrava de mulher alguma. Em sua
memória somente a casa de um cômodo só. Lá tinha um fogão, uma mesa, cama e
pia. No chão um buraco diretamente ligado ao esgoto.
Bebia Natu Nobilis, na garrafa. Comia ratos, que saíam do buraco e ele
os pegava e punha em uma gaiola. De vez
em quando uma aranha ou escorpião. Tinha uma pá e uma picareta. Tinha um corvo
de estimação, feio, bico longo e afiado, fazia um barulho dos diabos.
Morava em um cemitério. A casinha de um cômodo só era parecida com os
mausoléus. Estava em casa. Lá, era o coveiro. De dia abria as covas, enterrava
os defuntos, de noite,violava sepulturas. Estava sempre à procura de algo
valioso. Era assim que comprava o seu uísque barato.
Seu nome era Zacharias Axelrod. Chamavam-no de Zach.
O cemitério era bonito. Longas estradas ladeadas por carvalhos. Quadras
limpas, bem cuidadas. Ele era um bom jardineiro e o lugar pequeno, dava para
cuidar de tudo. Não morria tanta gente assim.
O parque tinha seus duzentos anos, ele, nem sabia quantos tinha.
Foi um sábado. Havia morrido alguém importante. O cemitério estava
cheio, padres e até policiais fardados. Vieram para o lado dos mausoléus.
Ficavam no alto da colina rodeados por azaleias e ciprestes. Enterravam um
amigo.
Abriu a cova como sempre abria. Esperou. Finda a cerimônia, fechou-a,
colocou a lápide e foi para casa. Como ficava do lado oposto, nos baixios,
seguiu por outra trilha. Deparou-se com uma construção diferente. Era igual à
sua casa, em forma, mas rica e detalhada, com mármores e granitos. Lembrava-lhe
de algo que não sabia identificar. Ficou curioso.
A noite chegou e com ela a vontade de voltar para ver como era por
dentro. Rica que era, poderia conter coisas preciosas,
urnas, bronze, um defunto cheio de joias. Bebeu dois goles do uísque, tossiu,
pigarreou e se mandou.
Como pensou, era do mesmo tamanho, tinha duas janelas e no meio, em uma
plataforma baixa, um belíssimo esquife. Dobradiças de prata macica, joelhos de
bronze, um em cada canto, à frente uma placa também de prata com poucas inscrições.
Não dava para ler o que lá estava gravado, o pó dos tempos cobria tudo.
Não teve dúvidas. Usou sua pá e forçou a tampa. Com cuidado e pressa
destacou as dobradiças. Dariam um bom dinheiro na loja de penhor. Deu uma
espiada por dentro. Não viu nada, só o cetim branco, amarelado pelos anos.
Embasbacado limpou a placa. Queria saber de quem era o caixão.
Em letras gravadas cuidadosamente lia-se:
“Here lies a vile soul. No body
attached...”
( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo...)
“Que diabo! Onde estava o nome, a data... isto lá é coisa que se escreva
em uma urna mortuária? Muito estranho, mas devia ser muito rico, e isto é o que
importava naquele momento, pensou.”
Voltou para casa. Seu corvo o recebeu com animação. Beliscava as
migalhas de um pão velho, gralhava estridentemente. Bicho chato...
Tomou um golo e desceu para a cidade.
A loja de penhor era imunda. Paredes sujas, encardidas, melequentas.
Um balcão gradeado e um sujeito barbado, de camiseta de alças longas foi logo perguntando: “diga-me o que queres ou saia já daqui”. Mostrou-lhe as dobradiças.
Um balcão gradeado e um sujeito barbado, de camiseta de alças longas foi logo perguntando: “diga-me o que queres ou saia já daqui”. Mostrou-lhe as dobradiças.
“São de prata pura....
Eu sei, respondeu, e pôs-se a pesá-las...trezentas e trinta
gramas...falou.”
Tirou um maço de notas e enrolando-as as entregou.
“É só isso, agora saia, não gosto da tua laia...”
Passou na mercearia, comprou umas latas de salsicha, duas de ravióli do
chef Boyardee e um uísque de verdade...uma garrafa de Jack Daniels. Voltou para
o cemitério.
No cômodo em que morava procurou por um copo. Entre caixas e coisas sem
nexo o encontrou. Estava sujo, encardido e com bolor. Lavou-o, esfregou-o,
raspou com bucha e areia. Meio turvo, mas com aspeto mais agradável encheu-o
com o Jack que comprara. Era a primeira vez que bebia em um copo.
A noite estava fria. Vestiu seu único casaco. Era de veludo azul
marinho. Havia ficado preto, meio marrom e meio roxo de tanta sujeira. Mas era
quente. Pôs um cachecol listrado e um boné surrado, ensebado. Bebeu mais, bebeu
tanto que desmaiou.
Quando acordou teve a sensação que só havia dormido por umas duas horas.
Pensou ser noite ainda, mas havia luz entrando pelas pequenas janelas. Resolveu
sair...
Era dia e era lindo, flores da primavera brotavam do chão. Lindas
dafodils, crócus brancos e azuis penetravam a camada fina de gelo que se havia
depositado.
Surpreso notou que o parque estava cheio. Homens e mulheres de preto,
casacos longos, coletes, chapéus. As mulheres de véu negro, os homens de costas
para ele. Por mais que quisesse e se esforçasse não conseguiu ver suas faces.
Uma mulher de corpo esbelto, bem torneado, botas pretas e um vestido
escuro, quase negro, dele se aproximou. Sua mão, branca como a neve que caiu ao
chão, o tocou. Magicamente deixou-se
guiar pela misteriosa dama.
Após uma longa caminhada em total silêncio aproximaram-se de uma mansão
bem cuidada, em estilo vitoriano, muitas janelas, portas e excesso de detalhes
em madeira. A escadaria frontal levava à um vestíbulo que antecedia uma enorme
sala.
Ainda conduzido pela misteriosa dama aproximou-se de uma mesa, no meio
do espaço decorado com móveis de estilo, do século XVIII,meticulosamente
arrumados e decorados com adereços preciosos. A mesa era longa. Em cima,
deitada, cercada por velas acesas havia uma mulher deslumbrante,totalmente nua.
Sua tez era pálida como a neve, seus cabelos louros como o sol, suas
unhas pintadas em carmim contrastavam com a sisudez do local.
Estava morta.
No peito a marca profunda de uma faca, provavelmente de cozinha, ao lado
do plexo, no coração.
Olhou para o lado tentando se comunicar com a misteriosa criatura que o
havia levado até lá. Havia desaparecido. Surpreendeu-se. Por um momento teve
medo, não sabia de quê ou o quê, mas teve medo, paúra, fear. Tremeu...
Uma luz bruxuleante vinha do cômodo ao lado. Resolveu investigar.
Era a cozinha, bem equipada, armários de louças, talheres, vasos. O caos
era total. No chão panelas reviradas, poças de sangue já coagulado, nas paredes
respingos e esguichos rastreavam o sangue advindo de uma batalha pela vida,
certamente perdida. Havia sangue até no teto.
Fugiu em desabalada carreira. Voltou ao seu refúgio. Sorveu o resto do
Jack Daniels, pela garrafa. Desfaleceu...
Os gritos do corvo eram mais fortes e estridentes. Pioravam quando
olhava para ele. Zach não entendeu porquê.
Acima da pia estava seu fiel espelho. Um pedaço de vidro quebrado,
pendurado em um prego enorme. Assustou-se com o que viu. Seu rosto havia tomado
feições mais agradáveis, mais bem torneadas. Não estava tão horroroso. Até suas
roupas pareciam ter mudado, estavam mais vibrantes, vivas. Gostou mas não
entendeu. O corvo entretanto, dele se afastava.
Zach era cético de tudo. Passado algumas horas já estava como antes,
pronto para nova incursão ao mausoléu. Havia gostado do uísque. Precisava de
dinheiro para outra garrafa. Tomou o resto, comeu o ravióli. Até soltou o rato
que ali estava preso para o próximo jantar. Este, sumiu como uma flecha, desaparecendo
no buraco do esgoto.
Já era noite. Antes havia enterrado uma criança em um funeral choroso.
Felizmente para ele não durou muito. Caixão menor, buraco menor.
Subiu a colina tentando localizar o mausoléu. Ficava em um lugar de
vegetação densa. Sem luz, à noite, não era fácil de achar. Mas lá estava o
dito. Bela obra de mármore.
Encontrou tudo como havia deixado. Resolveu remover os joelhos de bronze.
Deu mais trabalho, estavam bem encaixados no mogno. Não teve dúvidas, quebrou
os cantos, expondo o caixão, por dentro. Lá estava o cetim branco e amarelado,
nada mais.
Colocando as peças em um saco resolveu ler a placa, novamente. Afinal,
deveria haver um nome, em algum lugar. Acendeu os tocheiros, precisava de mais
luz. O tremular das chamas iluminavam a placa com ondas avermelhadas entre
sombras escuras. O texto gravado dizia:
“Here lies a vile soul. No body attached,
for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never
found…”
(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo,
pois aquele que matou tomou também sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado...)
“Isto não é possível! Talvez não
tenha prestado a atenção, mas não me lembro de ter lido esta sentença toda…
Deve ter sido a luz...O diabo é que não acho o nome” ...pensou em voz alta.
Levou os proventos do roubo para a loja de penhor. Não sabia por que,
mas o dono da loja foi, desta vez, mais gentil. Não demonstrou o asco que havia
sentido por ele quando da primeira vez. Até lhe deu mais dinheiro, novamente em
um rolo de notas.
Comprou outra garrafa de Jack, comprou também dois Cohibas, charutos de
primeira. Nunca havia fumado um destes antes. Fá-lo-ia nesta noite.
Na casa de um cômodo só bebeu e fumou. Comeu as salsichas, bebeu no
copo. Só o corvo não gostava. Gralhava ao ponto que o pôs para fora. Caiu duro,
estava totalmente inebriado.
Acordou.
Havia sol pelas janelas. Abriu a porta. Luz, flores, neve. Achou até que
ouvia o som de um órgão. Seria Bach? Nunca soube que entendia de música. Nunca
soube que sabia o nome de um autor.
Os homens e mulheres andavam em passos lentos. Todos em negro, todos com
chapéus, todas com véus. Como antes, não conseguiu ver-lhes os rostos, só os
via pelas costas.
O toque leve e gentil se fez sentir. A mesma dama, o mesmo vestido,
puxando-o para segui-la. Fizeram o mesmo trajeto até a casa vitoriana, subiram
os degraus da escada, adentraram a enorme sala.
O mesmo corpo desnudo. Seios lindos, curvas sensuais, feições
angelicais. Branca como a neve. Pálida e loura.
Um órgão de foles, belíssima peça renascentista o convidava à tocar. Não
sabia que o fazia, mas tocou como um mestre. Em toques mágicos fez o Prelúdio e
Fuga BWV 552 em Mi bemol maior de Bach penetrar cada canto da casa, vibrando
paredes, cristais, enchendo os ouvidos com a mais celestial das músicas. Mas o
som do órgão é também assustador. Seu volume, as notas penetrantes , abrem
portais em outras dimensões.
Sentiu que pertencia àquele lugar. Sentiu que ali não queria permanecer.
Fugiu, em desabalada carreira. Sentiu-se diferente. Parecia mais jovem, lépido,
forte.
Voltou para seu refúgio. No caminho, correndo por entre lápides e
sepulturas notou a dança de espíritos perdidos, esvoaçando-se sobre jazigos,
mergulhando entre galhos de árvores, sumindo em fendas no chão. Espectros com
luz, espectros negros. Apavorou-se.
Trêmulo, bebeu novamente. Mais uma vez perdeu os sentidos, exausto,
consumido.
Se não fosse o corvo não teria acordado. Era um domingo, dia de visitas.
Foi ao espelho dar uma arrumada nos cabelos. Estava mais novo, era até bonito.
Seus dentes eram alvos, seu sorriso cativante, seus cabelos escuros e fartos.
Seus olhos azuis brilhavam. Traziam uma luz que não havia visto antes. Era
jovem, de novo. Suas vestes novas,
reluzentes. Seu outrora querido corvo já não o reconhecia.
Não sabia como explicar. Quem sabe era o uísque de melhor qualidade? Ou
seriam os charutos? Até o ravióli? Era tudo delicioso... Mas já acabara.
Voltaria ao mausoléu, ainda havia a placa de prata pura, certamente seria a
mais valiosa do butim. Iria lá à noite. Antes, tinha de cumprir seus deveres
com os visitantes, mostrando-lhes onde estavam enterrados seus entes queridos.
Chovia. A noite era escura e triste. No mausoléu somente se ouvia o som
do vento e da água açoitando as paredes. Acendeu os tocheiros. De novo a luz
dançava. Estranhos vultos se formavam nas paredes. Teve a sensação de que
haviam rostos disformes observando tudo o que fazia. Em sua cabeça o Prelúdio
ainda tocava. Poderia jurar que havia um órgão naquele lugar.
Com a pá forçou a placa de prata. Não saía, não se movia. Trouxe o
tocheiro para mais perto...em pânico deixou cair a pá.
A inscrição gravada se mostrava mais longa. Dizia:
“Here lies a vile soul. No body attached,
for he who killed also took his own life. The soul rests inside, the body never
found, for he who played the organ played with the life of his beloved wife.
Vengeance will follow when his body meets his soul again, and then, only then,
together again, will rest the vile soul and vile body.”
( Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também
tomou sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois
aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se
realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então,
juntos de novo, sua vil alma e seu vil corpo descansarão...)
Era agora uma tempestade. Ventos uivantes, árvores curvadas sofrendo o
peso da água que inundava os páteos. O órgão fantasma tocava as mais pungentes
notas do Prelúdio. A porta se abriu em um estrondo, os tocheiros se apagaram.
Em pânico fugiu de volta para casa.
Sorveu em goles loucos tudo que tinha na garrafa. A música não parava.
Pensou estar sonhando um pesadelo sem fim. Atordoado caiu ao chão.
O sol da manhã era o mesmo dos outros dias. Olhando-se no espelho
notou-se jovem e belo. Seus olhos azuis eram mais sedutores do que nunca. Sua
voz era melodiosa, sua mente tocava acordes divinos em órgão e violino.
Sentiu-se revigorado. Talvez aquilo que acontecia era prenúncio de dias
melhores. Aventurou-se lá fora, de novo.
As mesmas flores, as mesmas pessoas. A mesma dama. Desta vez se
recusaria a acompanhá-la. Achou que deveria voltar ao mausoléu, só que sendo
dia tudo seria diferente. Para lá caminhou.
As criaturas o acompanhavam, à distância. A dama, mais perto, murmurava
o Prelúdio de Bach. O corvo o seguia, do alto. Era estranho, surreal.
Ao entrar deparou com o esquife quebrado, o cetim rasgado, a placa ainda
no mesmo lugar. Virou-se e notou que agora todos estavam de frente, seus rostos
à mostra. Tirando as cartolas e os chapéus, sorriram. Não eram sorrisos lindos,
eram sarcásticos, demoníacos. Sorrisos da morte... Lentamente, saiam vermes dos
olhos de cada um deles. Moscas, maganos, até cobras e lacraias moviam-se para
fora das bocas sorridentes.
Seus tecidos ficaram rotos, maxilares se desprendiam, caindo ao chão. Em
pó se transformaram, ao pó tornaram-se.
A dama de quase negro levantou seu véu.
Um horror indescritível se apoderou de Zacharias. O rosto revelado era o
da bela e pálida loura, desnuda, aquela da mesa de jantar.
A dama despiu-se, e a ferida aberta, ao lado do coração sangrava.
Gritou, mas não gritou mais alto do que o gralhar do corvo. Como uma
flexa o pássaro mergulhou em direção aos seus olhos. Bicando furiosamente os
arrancou. Caídos ao chão fitavam estáticos a dama de quase negro que lentamente
se desmanchava em pó.
Cego, esvaindo-se em sangue caiu no cetim branco amarelado, cobrindo-o
de sangue.
Ali morreu.
A placa de prata reluzia como nova. O Prelúdio tocava alto. O som do
inferno era lindo. Como em um papel num cilindro de uma Remington a gravação se
estendia ritmadamente. Dizia:
“Here lies a vile soul. No body attached, for he who killed also took
his own life. The soul rests inside, the body never found, for he who played
the organ played with the life of his beloved wife. Vengeance will follow when
his body meets his soul again, and then, only then, together again, will rest
the vile soul and the vile body. The organ will play again... may God have
mercy of the condemned.”
(Aqui jaz uma alma vil. Nenhum corpo anexo, pois aquele que matou também
tomou a sua própria vida. A alma descansa dentro, o corpo nunca encontrado, pois
aquele que tocou o órgão tomou a vida de sua amada esposa. A vingança se
realizará quando seu corpo encontrar sua alma de novo, e então, somente então,
sua vil alma e o seu vil corpo descansarão. O órgão tocará de novo... que Deus
tenha pena do condenado.)
ZACHARIAS AXELROD
Maestro and Composer
Born: August 13th. 1713
Died: Today
FIM
Written by
Celso R. Gilberti
December 2015
In Memory of : Míriam R. Gilberti























