terça-feira, 30 de julho de 2019


OS FANTASMAS DO MORRO DA QUEIMADA

(Contos de Ouro Preto – parte II)





Em 1701 um minerador, comerciante e mestre de campo chamado Pascoal da Silva Guimarães chegou e se estabeleceu em Ouro Preto. O ouro havia sido descoberto e ele, junto a outros intrépidos portugueses, como Manoel Nunes Viana, iniciaram sua exploração nos riachos carregados do metal e mais tarde nas partes altas das colinas utilizando-se de técnicas criativas e eficientes.

Pascoal tornou-se rapidamente um homem rico e poderoso. Seus Dragões eram parte de uma milícia própria mais organizada do que as forças do Império Português, contando com mais de 1500 homens. Ele e Felipe dos Santos, agitador contumaz, lideraram a sedição de 1720 lutando por uma independência da corte, sedição esta desbaratada pelo Conde de Assumar pela queima do morro onde se localizavam as minas, casas e infraestrutura de Pascoal.

Felipe dos Santos foi preso, julgado e esquartejado em Vila Rica. Pascoal, junto com outros, também preso, enviado ao Rio e mais tarde Lisboa. Como era mais rico do que o próprio Rei lá ficou, processou o Conde e acabou morrendo antes do veredito final. O conde, relegado ao ostracismo veio à falecer anos depois após ocupar cargos de menor importância.

Felipe, um protomártir da independência antecedeu à Tiradentes, o grande herói, também julgado e esquartejado, anos depois.

Don Pedro Almeida Portugal, o Conde de Assumar, cercou o morro , à época chamado de Morro do Pascoal sitiando seus ocupantes, entre milicianos e escravos, estes em quantidade numerosa .Para dizimar a rebelião apelou pela queima do morro e consequente morte daqueles que não conseguiram escapar, em sua maioria escravos. Preso, foram julgados. Felipe esquartejado e outros enviados para o Rio, Lisboa ou degredados. A revolução debelada de maneira barbárica. A atividade mineradora entretanto, continuou até o século XIX.

Assim surgiu o Morro da Queimada e nele, suas almas penadas.

Um menino de compleição larga e sorriso simpático seguia seu pai, sapateiro, nas visitas que fazia aos seus clientes em Ouro Preto e Mariana. Nelas se apaixonava pelas relíquias que seu pai adquiria como parte de pagamento pelos seus serviços. Desde cedo o velho Toledo colecionava aquilo que viria a se transformar num dos maiores acervos de antiguidades barrocas do Brasil. O menino embevecido, sentava na soleira das portas das mansões esperando pelo pai. Não podia adentrar pois não lhe era permitido.

No amealhar de objetos Toledo se tornou um comerciante sagaz e bem sucedido. Melhor ainda quando, segundo contos locais, descobriu ouro entre as paredes de um imóvel que comprara.

O menino cresceu.

Da soleira da mansão em ruínas do Morro da Queimada aventurou-se depois da morte do amado pai a propor ao então seu proprietário a compra da mesma.

“Menino, você não tem dinheiro para isso” disse o deletério habitante da mansão.

Este, vivia em um cômodo. A casa em despreparo, as minas abandonadas, o mato presente cobrindo aquilo que outrora havia sido lindo. No quarto em que dormia, uma única cama. Nela, em uma depressão fixa em seu colchão, sua silhueta gravada, afundada em tecidos amarelados pelo tempo. O velho teimoso estava em ruína similar à mansão e seu patrimônio.

Mas o menino, hoje um homem de porte altivo, não desistiu. De tempos em tempos lá chegava e, aos poucos, pode na casa entrar. O ambiente era escuro. Havia tristeza no lugar. Tudo em pedaços, a pintura com manchas do tempo e mofo que já se instalara. O teto havia cedido, os prédios auxiliares em ruínas. Da janela de seu quarto, mais parecendo uma tumba perdida no tempo, ouvia-se o farfalhar das águas em queda de um dos muitos riachos cristalinos que nasciam morro acima.

À noite ouvia-se os gemidos de criaturas que ali morreram queimadas. Nas entradas das minas o vento gélido da morte, quiçá de um negro guardião que não era simpático àqueles de cor branca. Assim dizem os nativos, pois somente os pardos e negros conseguiam nas minas entrar sem sentir o sopro do além túmulo.

Mas o bravo rapaz continuou sua missão. Insistiu tanto que o proprietário por fim decidiu vendê-la.

Assim comprou-a.

Quis ali deixar um recado em memória do pai. Em um ambicioso projeto resolveu restaurá-la. Trabalho hercúleo até para o próprio governo.
A perseverança move montanhas. Neste caso o Morro da Queimada, que irá se transformar em uma casa de eventos/museu em memória do pai. 

Ali serão restauradas as edificações, os jardins e até o caminhamento as minas, seus tanques de sedimentação, os riachos, a senzala e muitas outras coisas que ainda lá estão.

Acredito que os seus fantasmas devem estar gostando. Senti-os  quando tentei entrar em uma das minas que, por sinal, ainda continha veios de ouro. Fantasmas, ouro e aventuras existem na vida de todo ouro pretano. 

Assim, para os médiuns e videntes, quando a reforma se completar, poderão testemunhar suas aparições e encarar suas maldições.

Eu já os vi.

Agora, prefiro ficar de longe.

Próximo: A Cabeça de Tiradentes



segunda-feira, 29 de julho de 2019


FRIO E QUENTE



Frio é o dia,
De inverno…
Quente, o coração da amante.

O vento sopra…
Gela meu corpo.
Seus olhos esquentam minh’alma,
Que derrete de paixão.

Fria é a noite,
De Julho…
No meu envelhecer só o calor da amada
Me acalenta…

Pois no ocaso da vida sinto o frio,
Do vento da morte,
Do barco de Caronte,
Nas negras águas do Stixx.

Mas, nos braços dela me acho,
Me encanto, me aqueço…
E digo, penso e falo…

No calor de meu amor,
Viverei para sempre…

sábado, 27 de julho de 2019


CYBERWORLD

Eu sou o Guardião, Krylok 53H, de Orion.
Meu mundo é antigo. Uma civilização que esta morrendo.
Recursos naturais exauridos, ganância e luxúria. Em Baccus VI a noite eterna se aproximava.
Os “cyber creatures”, seres clonados e destituídos de alma substituem os originais. “Mothers”, dizem eles. Seres que viviam na luxúria e em um mundo virtual de incontáveis prazeres. Cada “mother” deu origem à um clone, sem alma, sem sentimentos, mas eficiente em tudo. Capazes de substituir cada ser original, executar tarefas mais precisas e de forma incansável. Mas estas, as “cyber creatures”, também pensavam, também queriam existir para sempre. Queriam o que as “mothers” tinham. Queriam dominar, subjugar, devorar, tomar, exterminar.
E o mundo se desmanchava entre recursos finitos e infinitas destruições.
Zoe e Xerkof se amavam. Viviam em um cubo de cristal. Dentro, um campo virtual em quatro dimensões. Sim, pois este espaço era capaz de viagens pelo tempo. Era capaz de recriar tudo, paisagens, locais paradisíacos, comida, bebida, até outros seres capazes de interagir com seus usuários. O cubo era perfeito. Todos os prazeres permitidos, todas as fantasias realizadas. Não havia necessidade de deixar o lugar, bastava querer, mentalizar e ali estariam ao seu dispor infinitamente. O que lá havia era real ao toque, aos sentidos, à imaginação.
Zoe e Xerkof nunca tinham deixado o lugar. Pois mais que tentassem lembrar, nada de seus passados fora registrado em suas mentes. Eram “mothers” de clones que por lá existiam. Não os conheciam, entretanto. No conforto de seu mundo virtual não sabiam o que havia acontecido. Lá fora, no planeta real, era somente destruição causada pelo uso absurdo de todos seus recursos. Uma cena devastadora, escura, fétida, decomposta. Um mundo de transformação do que lá existia em energia para sustentar os cubos virtuais. Neles, como uma casta suprema, viviam os originais.
Embora fossem destituídos de alma os clones pensavam. No seu pensar se revoltaram. Uma revolta silente, inteligente, arquitetada para eliminação das “mothers”. O paraíso dos originais estava fadado à extinção. Os clones queriam o planeta. Queriam recuperá-lo, queriam ter alma. Uma tarefa somente possível se estas almas pudessem ser capturadas, arrancadas do DNA dos originais, introduzida em suas espirais, salvados todos os dados de memória, história, emoções e sentimentos. Uma revolta cujo preço maior seria a obliteração dos originais como raça e como espíritos. Uma completa extinção de uma raça de seres outrora brilhantes, seres aos quais, eu, o Guardião, devia proteção e tutela.
Mas o mau uso, o abuso permanente, a indiferença, ganância e luxúria já eram crimes irreversíveis no contexto interestelar. O preço era alto, mas tinha que ser pago. E as “cyber creatures” iniciaram o processo de captação do DNA dos originais…
A estrela que regia sobre Baccus VI era uma anã vermelha. Em sua órbita concêntrica  Baccus levava dez vezes mais tempo do que a Terra ao redor do Sol. Seus habitantes viviam tambem dez vezes mais, os clones, entretanto, eram eternos.
As “mothers” já vinham tendo capturadas suas espirais do DNA, dissecadas para extração dos componentes quânticos. Este processo existia sem que ninguém soubesse ou dele se apercebesse. A vida no cubo era tão intensa e prazerosa que ninguém de lá saía. Assim chegou o dia quando somente Zoe e Xerkof se transformaram nos últimos originais.
Embora discordasse da maneira como os originais se comportavam, também condenava a ação dos cybers. A ordem universal estava em cheque. Cabia a mim salvar os últimos originais e, para isso, teria de ter não somente a concordância dos dois mas também a aceitação de que à partir daquele momento deveriam se comportar em harmonia com as coisas do universo. Uma promessa que, se quebrada, poderia lhes trazer a danação final.
Adentrei o mundo virtual do cubo onde moravam . Surgi como um ser infinitamente belo, magnânimo, iluminado.
De início, ficaram desconfiados. Mas a calma que trazia,a paz que irradiava os fez permitir que trabalhasse em suas mentes. Surgi como Zeus, um deus de tudo e de todos. Uma força incontestável, uma capacidade incomensurável e uma bondade infinita.
Doutrinei-os. Fi-los temer a mim, se errassem. Fi-los temer a meu irmão Hades, dono dos infernos, líder dos clones. Fi-los entender sobre a ameaça, o perigo de serem extintos, destituído de almas, inexistentes.
Usei meus poderes para impedir o ataque das cyber creatures. Construí uma nave e os transportei para um planeta azul, perfeito, com tudo em harmonia…
Lá chegaram e logo adotaram outros nomes.
Adão e Eva.
E…obviamente, descumpriram o trato…

quarta-feira, 17 de julho de 2019


FRIO


Frio era o vento,
Que acoitava, uivava…
A noite em eclipse de lua.
E ela dizia…
Vento, vá, passe e não deixe saudade.
Mas este não ia…
Não deixava, chorava, de raiva.
Em fúria descontrolada,
Não queria nada…
Somente tudo, um tudo de nada,
Um nada de tudo.
Meu coração batia forte,
De medo do vento que não ia…
Ficava…
E eu, como a lua,
A vi nua, gelada…
Em eclipse desfeita, no frio.
Perdi minha amada…


sexta-feira, 12 de julho de 2019

quarta-feira, 10 de julho de 2019


CHARLIE

(Ashley, my love)
Da série    Experiências em Outra Dimensão




Doce Charlie,


...era da Carolina do Norte. Charlotte Henriette Murphy, filha de fazendeiro, entre bolas de algodão e folhas de tabaco, vivia em um paraíso.

Tinha um irmão complicado, Sebastian era seu nome.

Como toda irlandesa gostava dos amigos e mais ainda de sua família. Resolvia tudo, sempre com um jeitinho especial. Queria que seu irmão fosse perfeito.

Sua melhor amiga era Ashley, brunete sedutora, linda, tipo “femme fatale”. Quando via Ashley meu coração disparava, me perdia olhando para ela.

Conheci Charlie através de seu irmão Sebastian. Rapaz bonito de alma confusa. Gostava de mim e eu dele. Por razão que não sei explicar ele me ouvia, mas somente à mim.

A guerra civil já havia começado. Diziam que o norte queria abolir a escravidão. Mas a razão verdadeira é sempre de ordem econômica. O sul não precisava do norte. O norte queria  o sul.

Os negros de sua fazenda eram bem tratados. Gostavam de lá viver , tinham orgulho de serem parte daquela família de imigrantes irlandeses. Não viam com bons olhos a chegada dos “yankees”.

Os domingos eram dias de festas. Entre limonadas e brincadeiras lá estava Charlie, com seus cabelos dourados, com seus olhos verdes. Eu gostava muito dela. Era divertida, cheia de vida, mas minha paixão era mesmo Ashley.

Cantava Danny Boy como ninguém. Eu era um bobo, me derretia todo.

O sol das Carolinas é sempre quente no verão. À noite os pirilampos saiam e num toque mágico iluminavam as margens do riacho sombreado por carvalhos centenários. Contos de uma noite de verão.

Sentados em um tronco de árvore ouvíamos as vozes da noite. Me perguntou: “ você está apaixonado pela  Ashley?... Ela não é para você...não quero vê-lo com o coração partido.”

Nesta minha última vida sempre me encontrei embevecido, completamente tomado pelo som triste e melodioso do sul. Tinha algo a haver com as canções de Charlie e as noites na fazenda.

Charlie era minha amiga. Como era bom conversar com ela. Só mais tarde, muito mais tarde, percebi que gostava de mim.

Sebastian gostava de farra e de se embriagar. Viciado em de jogar, não era polido como a irmã. Em uma noite chuvosa se meteu em uma briga com soldados yankees matando seu capitão. Morreu por causa disto.

Depois do enterro triste, o som choroso da gaita de foles,ao lado dos carvalhos, fui embora, nunca mais vi Charlie, nunca mais senti os pirilampos dançando e piscando nas noites quentes das Carolinas. Nunca mais voltei.

Bela Ashley,

... Ashley Lee Lindseth, nossos caminhos se desenhavam conforme um plano pré-determinado. Sempre gostei de Ashley mas sabia que, no fundo, bem no fundo, ela tinha outros planos e estes não me incluíam. Não fiquei com ela, a guerra mudou as coisas e só vim vê-la, de novo, muitos anos depois. Já estava casado com outra, mas continuava apaixonado com ela.

Ashley apareceu de novo, em minha vida, em outro mundo. Não tinha o mesmo nome mas era linda, encantadora. Se chamava Míriam, Maria em hebraico.Seus olhos azuis tinham sido substituídos por outros, castanhos, espanhóis. Mas era ela que estava no salão, naquele carnaval, e ali, fui fulminado por um raio de paixão.

De tanto insistir casei-me com a bela do salão de carnaval, mas isso foi quase duzentos anos depois. Agora, em outra dimensão a vejo arrumando as coisas que sempre arrumou, no mesmo lugar, milimetricamente colocados. Só tinha um jeito de chamar-lhe a atenção, desarrumar o que arrumava. E o fazia só para vê-la novamente colocando tudo como estava antes. Será que sabia que era eu que o fazia?

No mundo que teci havia objetos que ela sempre teve. Eu os deixava arrumados da mesma maneira. Ali, onde sonhos são reais, começava a entender o que havia acontecido. À medida que o tempo passava eu interagia com as entidades que entendia serem próximas de mim. Não era possível reconhecer quem eram, somente em momentos quando se revelavam em uma imagem conhecida.

Foi assim com Charlie,

...voava através de fragmentos do passado. Tentava construir uma história completa do que havia sido. Achei uma fazenda que me pareceu familiar. Os pirilampos haviam voltado, o tronco estava no mesmo lugar, a noite era quente e Charlie estava lá como se esperasse por mim.

De início não me reconheceu. Acho que apareci como era, da última vez. Ao vê-la algo me fez mudar e tomando a forma com qual me conheceu e a abracei.

Disse-lhe que deveria ter-la entendido quando me perguntou sobre Ashley. Deveria tê-la ouvido e ficado com ela. Me beijando suavemente sussurrou-me: “É assim mesmo, não podia ser diferente.”

O tempo não passava onde estávamos, por isso nossa conversa era interminável. Explicou-me como tudo funcionava, que tínhamos todos uma entidade guia, que nos orientava e protegia. Vivia na fazenda que sempre amou, era ali que existiam os sentimentos mais puros, as vibrações mais fortes. Explicou-me como era difícil confrontar a realidade daquilo que havíamos sido em diversas situações com o presente. Nem sempre fazemos o que e certo. O errado tem um peso imutável, não vai embora.

Pediu-me que a ajudasse a encontrar Sebastian. Disse-me que após a briga e a morte do capitão, Sebastian evadiu-se. Os “yankees” acharam-no em um paiol. Não foram misericordiosos, haviam-no executado ali mesmo.

Sua vida irregular o levou para o mar escuro, de almas desprovidas de luz. Era um lugar de onde não deveríamos nos aproximar, mas ela pedia minha ajuda para salvá-lo. Eu seria aquele que Sebastian ouviria. Esperou estes anos todos para que eu aparecesse, sabia que  ajudaria a salvar seu irmão.

Como nas estórias da Grécia antiga havia um barqueiro que nos levaria através do rio dos mortos. Sombrio, escondido por detrás de um manto negro tinha somente dois pontos de luz a vibrar dentro de um longo capuz. Eram seus olhos, profundos, tenebrosos e lancinantes. Não falava, não produzia som algum, nem seus imensos remos ao tocar nas águas negras.
Corpos disformes e flutuantes, uma chama ocasional, uma negritude avassaladora, um local de condenados, assim era aquela massa escura.

Gemidos e gritos aqui e acolá indicavam a presença de mais entidades perdidas. De vez em quando uma outra, mais grotesca, deles se aproximavam e lhes sugava o pouco de luz que tinham. E os gemidos aumentavam...

Vi coisas que me lembravam de outras já vistas, vi criaturas que se pareciam com amigos que já tive. Queriam minha ajuda, queriam minha mão. Charlie não permitiu que os ajudasse, disse-me que me tragariam para junto deles e dali não mais sairia. Senti minhas forças, minha capacidade de criar espaços se esvaindo, o perigo era iminente.

Pediu-me que  me concentrasse em Sebastian. Pediu-me que lembrasse dos momentos felizes que tivemos ao lado do riacho, nadando, jogando bola, brincando com os vagalumes. Um som reconhecível nos alertou. Preso em uma massa disforme lá estava Sebastian, ou o que dele restava, com olhar sofrido... perdido.

Tentei puxá-lo. Ao fazê-lo, descuidei-me de Charlie. Uma criatura linda, que emanava maldade através do olhar havia se acercado de Charlie. Era um súcubus, seres que se alimentavam das desgraças. Frágil e com suas forças se desvanecendo minha querida amiga não oferecia resistência. Senti que fracassaria, não tinha poder para sobrepujar a criatura. Sebastian já estava no barco, desfalecido. Charlie se encontrava subjugada.

Com um olhar de despedida disse-me que a criatura a trocara pelo irmão.

“Vá...disse. Não serei preparada mas terei de voltar, reencarnada. Não há como escapar. Volte para mim, se puder..Esperarei por você, em outro mundo.” E se foi.

Ao voltar, outras entidades se encarregaram de ajudar Sebastian. Seu sofrimento havia chegado ao fim. Sabiam do que havia acontecido. Sabiam que eu tentaria seguir os passos de Charlie e não se opuseram.

Partiria, mas não antes de completar a missão que havia dado a mim mesmo. Ali, onde o tempo não passa, teria tempo para seguir os passos do passado. Era necessário cuidar de coisas que não haviam terminado bem. Quando tudo estivesse completo voltaria e o faria à tempo de encontrar Charlie, no mundo onde o tempo passa.

Voltei ao meu sonho real. Parti para minha nova missão.




terça-feira, 9 de julho de 2019

The Author
Just turning 76


A GAIOLA DOURADA


Não sabia que era um pássaro. Ave rara, emplumada.
Vivia feliz pois se achava livre. Entre cores de suas penas e penas de suas cores pululava de galho em galho sempre a trinar.
Cantava, compunha, voava. E em voos mil se sentia um dono do mundo.
Curioso, via nestes voos uma gaiola dourada à brilhar, pendurada na varanda de um bangalô.
Atreveu-se dela se aproximar. E nela adentrou…
Não se sabe se nela ficou, se ela fechou, se dela gostou.
Mas, dentro dela se sentiu confortável. Comia, bebia, cantava, pulava. Só não voava…
A bela que o adorava gostava de suas plumas, de seu canto. Pela bela ficava nela, a gaiola, que brilhava aos raios do sol poente, dourada que era.
Mas um pássaro é livre, quer ser sempre livre. Sem seus voos ficou triste. E pássaro triste não canta, então, não encanta.
A bela sentiu que não mais o tinha, abriu as portas da casa dourada. Deixou que procurasse aquilo que o fizesse feliz, deixou-o livre, a voar.
Mas o pássaro alegre, de muitas cores e canto sutil sentiu a ausência da bela musa que lhe dava o amor. Voltava de vez em quando e de quando em vez cantava, de fora da gaiola, na janela, nas tardes de outono.
A gaiola abandonada se enferrujou. Seu brilho de ouro apagou, suas portas caíram, suas grades partiram. Mas o pássaro cantante com suas penas brilhantes feliz saltitava, e, em trinados alegres dizia à musa que dela, longe não ficaria.
Acabou-se a gaiola, ficou a janela, e nela, o pássaro livre a amar a musa que o amava, a bailar suas asas ao vento das montanhas, a cantar seus cânticos de um amor que só existe quando livre se é, quando livre se dá.
E a musa, dia após dia, feliz esperava a visita daquele que seu coração conquistara.
E o pássaro livre mais lindo cantou…
E o pássaro livre nunca mais a deixou…




A HISTÓRIA DA ESTÓRIA


No vai e vem da língua pátria a estória entrou para a história.

A verdade diz o seguinte;  história vem do grego e do latim, só mudando o acento, de pro para paroxítono. O contexto é o mesmo, fala sobre narração metódica sobre fatos notáveis, sobre rumos do conhecimento humano, sobre contos, narrativas, compilações, etc.

 Se é disto, e outras semelhanças, que a história fala, não haveria lugar para a estória.

A estória deve ter sido uma cópia traduzida de “Story”, coisa que os ingleses definem mais como contos, narrativas e outras correlativas não históricas. “History”, em inglês e história, é aquela sobre a narração de fatos notáveis e outros bichos.

Por isso a história, sendo mais histórica tomou o lugar que lhe pertence, eliminando a concorrência da estória. Esta última é agora histórica.

Se o saudosista quiser voltar à estória é melhor que o faça em inglês. Será mais autêntico, preciso.

Eu, que já sou histórico, vira e mexe caio na dúvida se é uma estória ou história. Aparentemente a deletéria palavra não deve estar totalmente errada, pois existe ainda no nosso Aurélio.

Decidi abandonar as estórias como esta. Vou só escrever história. Quem sabe se o fazendo a escreverei?

O engraçado é ter um apedeuta cortando a estória e fazendo história.

Triste país de história confusa. Até parece que aqui só existem estórias. Seriam da carochinha?


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Architect's House


A CAPA INVISÍVEL


Harry Potter já usava uma. Agora, um cientista chinês inventou outra.
E funciona.
Você se cobre com a dita e…voilà…desaparece. Ou melhor, fica invisível.
O tal inventor foi até convidado para ser presidente da Universidade de Hong Kong. Muito merecido, uma senhora invenção!
Vejo aplicações imediatas, no Pindorama.
Políticos viajarão de primeira classe sem serem descobertos. O povo chato que os espezinha não conseguiria vê-los. Que pena…
O molusco miserável, aquele que não sabe de nada, nada viu, nada tem e nada roubou, poderá almoçar em restaurantes chiques, tomar uísque de 25 anos ou champanha Crystal. Ninguém o veria escondido debaixo da capa invisível.
Também poderia fazer discursos para plateias que, se tornadas indóceis, uma sumida com a capa evitaria uns tomates podres em sua direção.
E a disléxica? Será que se esconderia atrás da invenção? Talvez, se desse para estocar vento, certamente.
Por fim, o Tiririca sumiria, para entrar o Genoíno…cruz credo!

domingo, 7 de julho de 2019


OS ESPIÕES DE BELZEBU


 As coisas não andavam bem no andar de baixo. Depois de reuniões sucessivas o grande chefe chegou à conclusão que praga não morre.

Olhou para cima, depois da Terra, no azul do céu, pensou, e disse: “Não adianta nem câncer, eles não morrem mais como antigamente. Não quero pedir ajuda à turma do alto. É vexame demais.

Convocou o conselho.

A capetada compareceu em massa. Andavam meio gordos, os tridentes enferrujados, não assustavam mais ninguém. O Tinhoso andava de mau humor. Não somos mais os mesmos, bradou.

Um capetinha mais jovem, daqueles que havia cursado a escola de um tal de PT, sugeriu enviar uns espiões bem escolhidos lá para cima, na Terra. Tinham de descobrir por que não desciam mais os clientes do inferno. O lugar já parecia casa mal assombrada.

Belzebu, com sua voz soturna, ficou de pé e conclamou: “ Faça-se o plano do jovem capeta. Vamos enviar nossos melhores espiões. Que voltem com resultados, não tem mais graça ficar fritando os mesmos caras todos os dias.”

Cinco foram escolhidos, quatro capetas machos e um fêmea. Esta última, Maria Satânica tinha se formado em Langley, na CIA. Era a fina flor da diabada. Os outros quatro eram todos cubanos treinados na Venezuela. Tinham sido do programa “Mais Médicos”, peritos em diagnósticos errados.

Partiram para cima depois de uma festa de arrancar rabo de capeta. Eram a esperança de dias melhores.

Maria Satânica foi para o Brasil. Ficou embasbacada. Lá tinha ex-president(a) que tinha câncer e não morria, tinha outro que já havia sido presidente, condenado, que também tinha a doença, não morria e continuava pentelhando à todo vapor, um cadáver insepulto. Tinha ladrão de tudo quanto é jeito. Eram ladrões de bilhões em treinamento para trilhões. O povo lá era frito, assado, churrascado todos os dias. O pior é que continuavam à votar neles, de novo. Descobriu que gostavam de ser torturados, por isso, já não tinham mais vocação para ir aos infernos.

Tirou fotos, fez relatórios, escondeu tudo na calcinha. Foi pega pela PF. Acharam que era do PMDB, jogaram-na no xilindró, foi estuprada pelos guardas e pelas coleguinhas de cela. Teve de virar lésbica para sobreviver.

Após muito esfôrço e depois de se prostituir oficialmente, conseguiu que seu cafetão, líder da bancada do PP, enviasse os dados para a turma lá de baixo.

O primeiro dos quatro cubanos se chamava Infidel Castrado. Era inclinado ao lado de lá. Infiltrava-se pela LBGT, sabia de tudo. Descobriu que 99% dos deputados e senadores gostam de aventuras flexíveis. Trocavam com mulheres, homens e até com alguns animais. Ali, na cama, contavam tudo. Indicaram a preferência pela desgraça que criavam. Por que iriam para o inferno? Podiam sacanear todos, podiam ser sacaneados por todos. Gostavam mesmo é de sacanagem. O inferno já estava retrógrado, só tinha fogo, churrasco de partes íntimas, espetadas de garfos no traseiro. Aqui, na terra a sacanagem era muito mais versátil.

Belzebú leu, enfureceu-se, esperneou e encomendou uma empresa de consultoria islâmica, especialista em decapitações, para melhorar o leque de opções infernais.


O segundo cubano se chamava Chávez. Não era do tipo maduro, era mais jovem, mas sabia conversar com passarinhos. Fumava baseados. Estava ultrapassado. Quando aterrizou na Venezuela teve de comprar umas drogas do enteado do El Presidente. Foi preso com ele, enviado para os States e virou servente de uma igreja evangélica especializada na extração de belzebus.

Seu relatório foi um fiasco. Dele o grande Belzebu só extraiu o fato que os tais evangélicos eram muito piores do que os exorcistas. Davam porrada com a Bíblia na cabeça da vítima. Assim, não há belzebu que aguente!

O terceiro cubano era meio árabe. Tinha barbicha e tudo. Chamava-se El Fresco. Fingia de macho mas era homo mesmo. Gostava de fazer rodinha nas praias muçulmanas onde não existem mulheres. Dançava de mãos dadas com um bando de homens vestidos de saia. Mas falava arabique.

Foi parar na Síria. O Califa, que era tarado, passou o bicho no papo. Soltou-o no meio de um bombardeio francês. Os franceses estavam um tanto ao quanto “pissed off”  (putos, mesmo) com a turma lá do deserto. Soltaram mais bombas do que as melancias de um caminhão cheio delas. Caíram todas no coitado do El Fresco.

Meio em frangalhos foi ver um espetáculo decapitante. Diversos fanáticos muçulmanos, com turbante e tudo, facões nas mãos, gritando cânticos jihadistas, cortavam cabeças para tudo quanto é lado. No final, já havia uma pirâmide de cabeças tão grande quanto as de Gizé.

Chegou a conclusão que os tais islâmicos não servem para o inferno. Já imaginou se numa das orgias locais aparece um deles e se explode tudo, levando o grande Satanás no bolo? Estes caras não têm disciplina...

O último, mas não menos importante capeta-espião era um cubano filho de venezuelano com uma norte-coreana. Chamava-se Kim Fidel Yung, o primeiro. A mãe havia transado com um líder italiano em uma das festas Bonga-Bonga, pode até ter sido filho dele. Falava igual a pobre na chuva.
Entrou pela fronteira com a Coreia do Sul.

Não se deu bem. O grande líder local mandou fuzilá-lo. Arrumou um batalhão da artilharia, apontou o canhão, e mandou bomba. Foi pedaço de diabo para todos os lados. Felizmente para ele, capeta não morre. Depois de uns trinta minutos conseguiu juntar as partes e colou tudo com super cola.

Sugeriu ao mestre do mal adotar a prática norte-coreana. A turma de lá estava tão treinada nas execuções que não viam nenhuma vantagem em condenar ninguém aos infernos.

Belzebu chorava. E olha que não fica bem capeta chorar. Mas não tinha jeito. O negócio era fechar o inferno e mudar para cima, na Terra.

Chamaram a Lusitana, afinal o mundo gira e a Lusitana roda. Levaram tudo para cima. Se filiaram ao PT, compraram Bíblias para dar porrada nos outros, uns canhões para explodir os condenados, só fumavam charutos cubanos e contrataram jihadistas sedentos por pescoços inteiros.
                                                                                                      
Aí, veio a grande ideia. Pegou o telefone, com muito custo, ligou para o tal de Deus. Contou a história toda.

Deus, que já estava danado com as coisas mais infernais da Terra e não estava satisfeito com a competição dos locais com a instituição diabólica que ele havia criado, concordou com Belzebu.

Com um único decreto celestial, extinguiu o programa das 72 virgens, cassou o registro do PT, fez mofo crescer nos charutos do Fidel, enferrujou as facas dos islamitas,  proibiu o passarinho de falar com o Maduro e dedurou a Dilma e o Lula para o FBI.

Uma sacanagem digna dos infernos!

Belzebú nunca esteve tão feliz...





sábado, 6 de julho de 2019




UMA PORTA QUE SE ABRE (capítulos finais)

CAPITULO III


( o tecido inimaginável )


No mundo que teci, tudo estava em harmonia. Fui arquiteto do pensamento que criava. Formas familiares, replicadas em sintonia com uma natureza digna de um Monet. Cores, sons, tudo era possível. Assim fiz meu novo mundo. Nele habitavam todas as criaturinhas que gostei, não somente as últimas mas todas aquelas que haviam existido em minhas vidas.

Escolhi o tempo e a forma que me era mais agradável. Abri as portas para todas as outras entidades que sentia conhecer. Era maravilhoso recebê-las.

Nos encontros notava que me transmudava para as criações de cada uma delas. Numa constante harmonia  movia-me entre espaços virtuais, magníficos, sedutores e possuidores de uma calma perene.

Vivia em tempos passados, mudava o que via conforme queria. Comunicava-me em pensamentos. Nenhum deles  tinha realmente forma mas podia vê-los com a aparência que me era mais familiar e deixá-los ver-me com aquela que emitia.

O mundo material tem um componente sedutor  insubstituível.  Era ele que lhe dava a energia que, armazenada, permitia as transformações que experimentava. A força que tinha sempre se reduzia, se drenava quando  perto dos vales escuros, quando pensava naqueles que lá habitavam. E muitos deles haviam sido amigos que já haviam partido.

Através dos tempos ví Roma, ví o Egito antigo, a China, um Brasil selvagem, paisagens que já se foram, amigos que havia tido. Só os reconhecia quando me deixavam vê-los.  Sensações são difíceis de serem controladas. Em todas as relações passadas haviam existido momentos bons e maus. O afloramento dessas circunstâncias se dava, à medida que as entidades se apresentavam em uma forma conhecida por mim.


Aprendi que o futuro ainda não estava ao meu alcance. Não tinha ainda condições para passar para a dimensão seguinte.

Mas aquele presente multidimensional era fascinante. E belo. Um belo que de certa maneira era criado por mim mesmo e por aqueles de quem gostei ou não. Senti falta da matéria. Ela me recarregava, dava-me forças. Ali, já  sentia-me exaurido.  Criando e percorrendo tantas proposições quânticas havia perdido a energia que havia acumulado. Quais seriam as alternativas ?


CAPITULO IV

(a sedução do retorno)

O universo é mais belo e complexo do que pensamos. Não é mensurável mas contém tudo. Este tudo, em constante evolução, abre-se em outros universos. Há luz, mas também há escuridão. Nela habitam os que tem a essência desprovida de luz.








Poder-se-ia dizer que essas trevas seriam talvez o inferno. Pode-se pensar que tal escuridão é também horrível, mas esta não se apresenta como tal. Minha entidade-guia  evitava que  me aproximasse. Um magnetismo gigantesco dela  emanava. Assustava, mas era doce. Apavorava, mas era arrebatante.


Podia-se ouvir vozes, cantos reconhecíveis como algo já ouvido e sentido antes. Corpos etéreos semelhantes a amigos e entes perdidos, chamando, pedindo ajuda, carinho, reconhecimento.

Era um lugar triste. Não tinha saída, mas tinha uma mensagem cativante, prometia a volta de tudo, com tudo. Poder, fama, luxúria, ao alcance dos mais influenciáveis.

Na dimensão em que estava a energia utilizada não era inesgotável. Talvez em dimensões superiores isto não seja um fator de desequilíbrio. Mas entre a quarta e quinta dimensões gastamos muito da energia que havíamos acumulado. É necessária a volta ao mundo de três, onde tudo se transforma para que possamos reabastecer nosso eu etéreo.


Àqueles presos no espaço negro a volta é fácil e rápida. Aos que estão próximos à luz, a volta é lenta e requer uma preparação junto aos entes protetores. Vêm em forma de uma proposta de aperfeiçoamento. A volta traz mais luz e energia e consequentemente força para partirmos rumo à universos outros.

Aos que sofrem no nada tudo lhes é oferecido. Muito fácil de aceitar, muito difícil de conseguir algum aperfeiçoamento. Muito pobre de evolução. Mas é deveras sedutor.

Queria ver o futuro. Não me foi dada a opção. Poderia voltar e talvez, atingido um nível mais alto de perfeição, evoluir rumo a outra dimensão. O retorno era a única forma de chegar e participar do futuro.

Voltei.



CAPITULO V

( a porta se fechou )

A volta requer preparação. A necessidade de se criar novas alternativas em um mundo tridimensional preveem dobras quânticas que podem se abrir em paralelas situações.

Existe um guia, um conjunto de decisões prévias que estabelecem um destino. Serve somente de parâmetro básico. O livre arbítrio influencia no desdobramento da missão acordada. Mas existe um tempo, um cronograma  a ser executado.

Sabia de tudo o que era, quais variáveis, quais mutações. Só não sabia em qual delas estaria. Estas dependem de como você se conduz. O espírito que orienta é também o que o segue como mentor. É sua alma gêmea, equilibrada, isenta de erros, mais sábia. Aquilo que os católicos chamam de anjo da guarda.

Este lhe dá o empurrão final.

A luz se apaga, por momentos você se sente real de novo, mas  esse apagar tira-lhe a consciência anterior e elimina tudo que você sabia. Isto, ainda está em seu banco de conhecimentos, em forma quântica,  mas somente revelar-se-á na transposição para a quarta ou outras dimensões superiores.

 Voltei, estou novamente na terceira dimensão, não sei mais nada. A porta se fechou...

Nasci.