CYBERWORLD
Eu sou o Guardião, Krylok 53H, de Orion.
Meu mundo é antigo. Uma civilização que esta morrendo.
Recursos naturais exauridos, ganância e luxúria. Em Baccus VI a noite
eterna se aproximava.
Os “cyber creatures”, seres clonados e destituídos de alma substituem
os originais. “Mothers”, dizem eles. Seres que viviam na luxúria e em um mundo
virtual de incontáveis prazeres. Cada “mother” deu origem à um clone, sem alma,
sem sentimentos, mas eficiente em tudo. Capazes de substituir cada ser original,
executar tarefas mais precisas e de forma incansável. Mas estas, as “cyber
creatures”, também pensavam, também queriam existir para sempre. Queriam o que
as “mothers” tinham. Queriam dominar, subjugar, devorar, tomar, exterminar.
E o mundo se desmanchava entre recursos finitos e infinitas destruições.
Zoe e Xerkof se amavam. Viviam em um cubo de cristal. Dentro, um campo
virtual em quatro dimensões. Sim, pois este espaço era capaz de viagens pelo
tempo. Era capaz de recriar tudo, paisagens, locais paradisíacos, comida,
bebida, até outros seres capazes de interagir com seus usuários. O cubo era
perfeito. Todos os prazeres permitidos, todas as fantasias realizadas. Não
havia necessidade de deixar o lugar, bastava querer, mentalizar e ali estariam
ao seu dispor infinitamente. O que lá havia era real ao toque, aos sentidos, à
imaginação.
Zoe e Xerkof nunca tinham deixado o lugar. Pois mais que tentassem
lembrar, nada de seus passados fora registrado em suas mentes. Eram “mothers”
de clones que por lá existiam. Não os conheciam, entretanto. No conforto de seu
mundo virtual não sabiam o que havia acontecido. Lá fora, no planeta real, era
somente destruição causada pelo uso absurdo de todos seus recursos. Uma cena
devastadora, escura, fétida, decomposta. Um mundo de transformação do que lá
existia em energia para sustentar os cubos virtuais. Neles, como uma casta
suprema, viviam os originais.
Embora fossem destituídos de alma os clones pensavam. No seu pensar se
revoltaram. Uma revolta silente, inteligente, arquitetada para eliminação das
“mothers”. O paraíso dos originais estava fadado à extinção. Os clones queriam
o planeta. Queriam recuperá-lo, queriam ter alma. Uma tarefa somente possível
se estas almas pudessem ser capturadas, arrancadas do DNA dos originais,
introduzida em suas espirais, salvados todos os dados de memória, história, emoções
e sentimentos. Uma revolta cujo preço maior seria a obliteração dos originais
como raça e como espíritos. Uma completa extinção de uma raça de seres outrora
brilhantes, seres aos quais, eu, o Guardião, devia proteção e tutela.
Mas o mau uso, o abuso permanente, a indiferença, ganância e luxúria já
eram crimes irreversíveis no contexto interestelar. O preço era alto, mas tinha
que ser pago. E as “cyber creatures” iniciaram o processo de captação do DNA
dos originais…
A estrela que regia sobre Baccus VI era uma anã vermelha. Em sua órbita
concêntrica Baccus levava dez vezes mais
tempo do que a Terra ao redor do Sol. Seus habitantes viviam tambem dez vezes
mais, os clones, entretanto, eram eternos.
As “mothers” já vinham tendo capturadas suas espirais do DNA,
dissecadas para extração dos componentes quânticos. Este processo existia sem
que ninguém soubesse ou dele se apercebesse. A vida no cubo era tão intensa e prazerosa
que ninguém de lá saía. Assim chegou o dia quando somente Zoe e Xerkof se
transformaram nos últimos originais.
Embora discordasse da maneira como os originais se comportavam, também
condenava a ação dos cybers. A ordem universal estava em cheque. Cabia a mim
salvar os últimos originais e, para isso, teria de ter não somente a concordância
dos dois mas também a aceitação de que à partir daquele momento deveriam se
comportar em harmonia com as coisas do universo. Uma promessa que, se quebrada,
poderia lhes trazer a danação final.
Adentrei o mundo virtual do cubo onde moravam . Surgi como um ser
infinitamente belo, magnânimo, iluminado.
De início, ficaram desconfiados. Mas a calma que trazia,a paz que
irradiava os fez permitir que trabalhasse em suas mentes. Surgi como Zeus, um
deus de tudo e de todos. Uma força incontestável, uma capacidade incomensurável
e uma bondade infinita.
Doutrinei-os. Fi-los temer a mim, se errassem. Fi-los temer a meu irmão
Hades, dono dos infernos, líder dos clones. Fi-los entender sobre a ameaça,
o perigo de serem extintos, destituído de almas, inexistentes.
Usei meus poderes para impedir o ataque das cyber creatures. Construí
uma nave e os transportei para um planeta azul, perfeito, com tudo em harmonia…
Lá chegaram e logo adotaram outros nomes.
Adão e Eva.
E…obviamente, descumpriram o trato…
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