domingo, 21 de junho de 2020


A BELA DO QUARTO AO LADO

( o quarto de duas dimensões )




Cleveland, numa noite fria de inverno.

O frio em Cleveland é cruel. Dois ou três minutos fora de casa e congela-se um nariz, uma orelha.

O aquecimento à vapor nos deixava esquecer quão frio era. Estava eu enfurnado no quarto de TV. Ficava ao fim do corredor. No seu início estava o quarto de minha bela filha, cuja porta abria-se bem em frente a esse corredor. Preparava-se ela para sair, ía e voltava ao espelho. Minha mulher estava em nosso quarto, ao lado do dela.

Uma breve palavra, um gesto rápido e se despediu da mãe descendo as escadas. “Estou saindo.Vou ao cinema, volto logo”.

Quase que imediatamente após, esta sai do quarto e atravessando o corredor  entrou no de nosso outro filho . Eu continuava à assistir um programa. Em poucos segundos  conscientizou-se de haver visto algo insólito, notando que alguma coisa se movia no quarto da filha. Achou que talvez ainda não tivesse partido, mas como poderia ser? Ela a havia visto descer as escadas para sair....

 Resolveu dar uma espiada. Estava demorando demais, iria perder o filme. Levantou-se olhou para a porta aberta e... lá estava ela. Esta, olhando para ela moveu-se em direção ao banheiro, ocultando-se...

A aparência era a mesma da filha. O mesmo pijama velho,  já cinza, de tantas lavagens com cores misturadas, produto normal da  vida  universitária americana. Era seu preferido. Por que estaria alí, de pijama, outra vez?

Perguntou: “ Ainda não foi? Por quê mudou de roupa?”

Não havendo resposta, intrigada aproximou-se da porta. Viu de novo a moça, desaparecendo dentro do banheiro.  Mas não era ela...ao fixar os olhos viu outra mulher, que ao ser fitada atravessou a porta fechada e desapareceu.

Voltou correndo e esbaforida, tentando explicar o inexplicável. Confundiu-se toda. Achou que seria uma mensagem, um aviso. Ficou nervosa e somente se acalmou quando ela voltou, mais tarde, sã e salva.

O quarto se portava como uma porta para outra dimensão. Nela, no presente, vivia nossa filha. Nela, em outra dimensão a moça que morava naquela casa, em outro mundo. Uma porta quântica se abriu, dois mundos paralelos coexistiram por um instante.

A visão da mãe, sua reação, sua estupefação foi registrada por mim. Havia também ouvido as perguntas que havia feito. Havia visto quando foi ao quarto e voltou assustada. Havia também pressentido a presença de alguém naquele momento.

Naquela casa , às vezes, sentia-se o passado e o presente ao mesmo tempo. Era como se vivêssemos em duas casas diferentes. Uma nesta dimensão. A outra, nos sonhos, nas aparições inexplicáveis. Todas elas benéficas, nenhuma assustadora, felizmente...

sexta-feira, 5 de junho de 2020


A CÂMARA DO TEMPO


CAPÍTULO UM
O PAPIRO

Era um dia enevoado.
A neblina espessa trazia imagens de um passado londrino há 150 anos atrás.
Havia uma certa tristeza em ver a demolição de Shottle Bop. Linda edificação do século XVII. Ornada, em uma esquina, dois andares, típica de uma Londres de outrora.
Peter Stonehenge sabia disto.
Pelos últimos 20 anos lá estava, toda vez que vinha àquela ilha, para um drink às 17 horas, um folhear pelos livros antigos, um encontrar com o que restava dos grandes exploradores do Império Britânico.
Shottle Bop era um anagrama de Bottle Shop. Uma casa de surpresas, entre shots de maltes irlandeses e antiguidades estranhas. De livros de bruxas à papiros egípcios, de exemplares de penny dreadful à ferramentas usadas em seus contos sanguinários. A faca de Jack, o Estripador, a navalha de Todd Sweeney, o barbeiro demoníaco de Fleet Street, pipetas de Dr. Frankenstein, livros de encantamento e até originais de manuscritos ilustrados por monges da idade média.
Dr. Stonehange sabia que seria a última vez que veria seu local favorito.
A gigantesca bola de ferro fundido usada em demolições oscilou como um pêndulo impiedoso. Um barulho surdo de tijolos, o esganiçar de lascas de madeira estalando e, em poucos segundos, simplesmente uma pilha de amorfas peças do que outrora fora o ponto de encontro “con gusto”, conforme dito pelos antigos arqueólogos frequentadores. A poeira se levantou…no rolar do que restou do magnífico prédio notou, a seus pés, um olho de falcão em cristal e ônix… o olho de Horus. Colocou-o em seu bolso pensando…nada existe por acaso…
Lembrou-se que havia ali estado no verão passado. Comprara um dos livros feitos à mão pelos monges de um monastério grego. Nele havia citações sobre uma estranha sala ainda não encontrada na piramide de Gizé. Pensou em ali voltar e tentar achar o papiro mencionado no tal livro. Os monges tinham feito um segundo e misterioso exemplar dando continuidade ao mistério egípcio. Felizmente havia chegado um dia antes da data marcada. Foi o tempo necessário para um ultimo shot de Glenfiddish de 50 anos. Uma jóia, diretamente de uma barrica, a de número 27 e, acima dela, em uma prateleira empoeirada, lá estava o outro exemplar dos mesmos monges. Ali, na prateleira, “for the take”…
Comprou-o bem como o restante do precioso malte.
Soube então que seu favorito “hang out” estava fadado à demolição.
Tudo muda neste mundo de hoje, até a alma tradicional dos britânicos, talvez o último dos povos a sucumbir às trivialidades do mundo moderno. Ele, um arqueólogo, sabia disto mais do que ninguém.
Peter Stonehenge formou-se em arqueologia em Yale. Era estudioso. Embora conhecedor de paleontologia em detalhes, gostava mesmo era de egiptologia. O Peabody Museum era para ele uma fonte inesgotável. Ao longo dos anos explorações patrocinadas pela universidade havia gerado um acervo incalculável, não somente material mas também intelectual, através de seus eméritos professores. Dr. Stonehenge os tinha como mentores queridos.
Stonehenge não era casado. A mulher que sempre amou faleceu em um acidente. Nunca amou de novo.
Amava sim, arqueologia. Os livros que descobrira traziam algo nunca antes explorado…Traziam indagações para as quais ainda não havia respostas.
Parou por um segundo, de seu container de prata bebeu um gole do precioso single malt e, fazendo uma última homenagem à querida Shottle Bop, voltou ao seu quarto de hotel.

Não quiz esperar por nada. Assim que chegou abriu o livro. Folheava suas deliciosas páginas cheias de desenhos em carmim e ouro. Entre citações gregas e romanas encontrou, em sua página 126 um texto em hieróglifos.

Junto, um pedaço de um papiro, nele figuras de Hórus, em ouro, o Deus falcão, homem-falcão, Deus do céu. Os cartuchos continham Hórus duplamente, e isso era uma novidade. Hórus em dupla refletia Khufu ou Quéops, o grande e implacável faraó que reinou entre 2589 a.c. a 2566 a.c. Olhou para sua mão esquerda. Seus dedos brincavam com o olho do falcão, amuleto favorito dos reis egípcios e pensou…
“Por quê Khufu e duas imagens de Hórus? Por quê tinha o amuleto? O acaso existe?”


CAPÍTULO DOIS

O ENIGMA DE HÓRUS


Hórus o Deus homem, o falcão dos céus, tinha seu corpo composto por matérias preciosas. Era dotado de um poder de transformação. Diziam que suas lágrimas poderiam gerar o surgimento de seres e minerais. Em sua forma maior era Ra, o Deus Sol, quando ostentava o disco de ouro sobre sua cabeça.
Hórus era filho de Osíris e Ísis. Seus olhos representavam o sol e a lua. Perdeu um deles, o olho da lua, em batalha contra Set. O olho da lua era usado como amuleto nas coroas dos faraós. Aquele, em suas mãos, era certamente de uma coroa faraônica. O olho mítico continha poderes sobrenaturais.
“Mas por quê Hórus estava presente no cartucho encontrado no livro dos monges? E, por quê o cartucho duplo?”
Dr. Stonehenge se aprofundou na análise do papiro. Em Yale consultou um de seus professores, especialista em hieróglifos e, para sua surpresa, o texto ali encontrado revelava duas interpretações diferentes. O processo de tradução já era feito com auxílio de inteligência artificial. O texto era escaneado e comparado com um banco de dados contendo diversas interpretações para cada símbolo e sua interação nas frases subsequentes. Os monges o haviam traduzido na forma antiga. Não deram valor ao cartucho duplo. Pelos monges, o texto descrevia a chegada de alguém próximo a Khufu ou Quéops, o construtor da maior pirâmide. Quéops era o segundo faraó da IV dinastia. Dizia-se filho de Ra, na sua forma de falcão com o disco solar. Teve uma filha, Hetepheres II, bela e incontrolável. Construiu a maior pirâmide para ser sua porta de entrada no “after life”, uma obra perfeita com 146 metros de altura, feita de 2.3 milhões de blocos de pedra, cada um pesando cerca de 2,5 toneladas.
A pirâmide continha duas câmaras principais. A chamada câmara do rei, onde foi encontrado seu sarcófago de pedra e outra menor, erroneamente chamada de câmara da rainha. Esta, entretanto, fora enterrada em outro monumento, fora da pirâmide. Uma terceira câmara se situava nos subterrâneos da estrutura.

O papiro contava, em sua primeira interpretação, que o faraó, após sua morte, reinaria em um mundo onde encontraria seus inimigos sumérios e nele enfrentaria a batalha de todos os tempos. Dizia também que um outro filho de Hórus apareceria para ajudá-lo à vencer a guerra. Mas parte do papiro estava rasgada e seu professor não conseguiu completar o texto. O mesmo havia acontecido na tradução dos monges.
Entretanto, a inteligência artificial foi capaz de deduzir algumas alternativas para os hieróglifos desaparecidos.
Baseando no duplo Hórus o computador concluiu que era outro Khufu, ou seja um outro eu do faraó, vindo de outro mundo, igual em tudo e capaz de levá-lo à vitória.  
Anexo ao texto existia uma poesia dedicada ao Deus falcão. Contando enigmaticamente a relação de Hórus com Osíris lançava um mistério maior sobre o cartucho duplo.
A poesia seria a chave para a abertura de uma porta que ligaria o mundo dos mortos ao mundo presente. Um mundo de Hórus Ra e Hórus Homem. Um mundo indecifrável.
Assim dizia:

Oh…benevolente Ísis,
Que protegeu seu irmão Osíris,
Que procurou por ele incansavelmente,
Que atravessou o país enlutada,
E nunca descansou antes de tê-lo encontrado,
Ela, que lhe proporcionou sombra com suas calças,
E lhe deu ar com suas penas,
Que se alegrou e levou seu irmão para a casa,
Ela, que reviveu o que, para o desesperançado estava morto,
Que recebeu a sua semente e concebeu herdeiro,
E que o alimentou na solidão,
Enquanto ninguém sabia quem era…
Este poema, encontrado em 1400, lido em conjunto com o papiro e racionalizado pela inteligência artificial sugeria que Ísis, mãe de Hórus, protegeu um misterioso outro “eu” do faraó, cujo nome era Osíris. Este, quando encontrado por ela o traria de volta à casa do irmão. Sua chegada levaria o desespero embora e os dois, protegidos pela sombra de Hórus, levariam vitória ao povo egípcio, enquanto ninguém saberia quem era… Vitória sobre os Sumérios, arqui-inimigos da coroa. Deduziu ser o cartucho duplo de Hórus a porta. O poema a chave.
Stonehenge estava estupefato.
Como poderia usar o que tinha aprendido? Pensou em viajar imediatamente para o Egito, ir até a câmara do faraó e procurar por outras pistas que completassem a charada.
Pausou para um café. Na realidade, foi direto ao seu estoque de Glenfiddish. Sorveu duas deliciosas doses. Sentia seus neurônios fervilharem de emoção.
Sentou-se.
Fitava a janela de seu quarto com os olhos em transe. Em sua cabeça passavam imagens de um passado distante. Um mundo de luxúria nunca visto. Um mundo de intrigas e romances. Achou-se jovem, um faraó talvez. Achou-se amando de novo.
Em seu devaneio deparou-se com um exemplar do New York Times. Nele, uma chamada em primeira página…”Haveria uma outra câmara secreta na pirâmide de Quéops?”
Não existem coincidências na história do homem. Tudo que existe lá está por uma razão. A porta, a chave no poema descrita, o olho da lua…

CAPÍTULO TRÊS

A CÂMARA SECRETA

Em novembro de 2017 uma equipe de cientistas internacionais havia descoberto uma câmara com cerca de 30 metros de extensão dentro da pirâmide de Gizé. Utilizando-se de uma técnica com emissão de múons a equipe concluiu que estas partículas, que são absorvidas por objetos sólidos, se aglutinavam em um vazio de proporções gigantes. Esta descoberta seria indicativa da existência de uma outra câmara, ainda não conhecida, ao lado da câmara do rei. Como o governo Egípcio descartava qualquer possibilidade de chegar-se a tal câmera através de túneis, restava para a comunidade científica o uso de técnicas menos invasivas para apurar a veracidade da descoberta, tais como raios X ou outros processos sofisticados. Nada havia se habilitado até então.

Era o que bastava para Stonehenge.
Formulou uma teoria…
“Se existiria tal câmara, seria através dela que a alma do faraó partiria para o mundo dos mortos? Se Hórus em sua forma dupla era o Homem e Deus, ao mesmo tempo, aquele que abrisse a porta com sua chave poderia se encontrar em outra dimensão? Para que serviria o olho da lua?”
Decidiu então ir para o Egito, tinha certeza que suas descobertas indicariam o caminho correto para chegar até a nova sala. Era amigo do Ministro das Antiguidades. Certamente obteria dele permissão para entrar na câmara do rei.
Em suas elocubrações estudou sobre a morte de Khufu. Sabia o dia exato. Até o momento em que partiu e foi colocado na cripta. Registrou seus cálculos em seu laptop, tirou o olho de Hórus de seu bolso e beijando-o murmurou… “sei que serás meu amuleto da sorte…”

Na conhecida sala do rei deparou-se com milhares de anos de vandalismo. Afrescos destruídos pelo tempo, relevos desgastados, corroídos . No centro, o sarcófago de pedra e sua imensa tampa. Nada mais ali estava.
Cuidadosamente procurava por algo em suas paredes que indicasse as duas figuras de Hórus.  Havia deduzido que os cartuchos representavam o local da porta. O poema era a chave. “E o amuleto?”
Estudando a orientação da sala em relação ao conjunto das três pirâmides observou com mais detalhes a parede que se situava à oeste do rio Nilo, na direção do sol poente. Com seu GPS traçou as coordenadas da constelação de Órion deduzindo a diferença no alinhamento da terceira pirâmide. O resultado o levou a uma surpreendente descoberta.
Com uma lanterna à laser traçou o caminho do sol poente no escuro da câmara. Em seu computador havia deduzido a posição do sol no ano 2778 a.c. bem como a hora em que a tumba de Quéops foi cerrada. Interpolou o feixe de luz e…bingo!
Na parede suja e desgastada o feixe luminoso reluziu sobre dois cartuchos, quase imperceptíveis, de Hórus. Ali estaria a porta…
Em Yale, Stonehenge havia pedido aos seus professores que o ensinassem a ler o texto do poema de Hórus em egípcio antigo. Na melhor das hipóteses sairia algo perceptível. Se não soasse como tal, o efeito que esperava poderia não acontecer. Já havia chegado até ali. Pediu aos deuses do Egito antigo que o iluminasse.
Dr. Peter Stonehenge nunca tinha estado tão nervoso.
Declamou o poema.
Por um momento, que pareceu interminável, nada aconteceu.
Subitamente, um som arrastado se fez ouvir. Era como se algo imóvel, estático, imutável, parado, resolvesse sair de sua inércia eterna. A parede se abriu entre as juntas de dois blocos enormes. Uma abertura tímida, mas capaz de permitir passagem para uma pessoa, se fez presente.
Havia luz do outro lado. Uma luz azul, etérea, móvel, pulsante.
Stonehenge adentrou o espaço. As pedras se fecharam…

CAPÍTULO QUATRO

A CÂMARA DO TEMPO

A câmara era linda, mas vazia.
Nas paredes somente baixo-relevos contando a história dos feitos de Khufu. No seu ponto mais oeste uma inscrição estranha.
A luz azul era suave e oscilante. Dançava como chamas de uma vela, gerava sombras nos relevos, criando imagens diferentes, fazendo com que as inscrições do fundo da câmara projetassem novos e estranhos cartuchos.
Estudou os hieróglifos. Seu laptop lhe serviu bem.
Conseguiu deduzir que o texto representava uma mensagem ao faraó. Uma passagem do livro dos mortos. Indicava-lhe o que fazer.
Stonehenge traçou os primeiros momentos do faraó após o fechamento da tumba. Sua alma adentrou a câmara secreta através do portal. Lá, o faraó retirou um amuleto de sua coroa, o olho de Horus e o levou ao extremo oeste da sala. A depressão no canto direito da pedra maior era na forma do olho. Este, quando lá inserido, levaria sua alma ao mundo dos mortos. Era o token de Charon, o óbulo do barqueiro do rio Styx, como veio a ser conhecido na mitologia grega. Bastava confirmar…
Com suas mãos trêmulas Dr. Peter Stonehenge colocou seu olho de Horus na depressão.
A luz azul intensificou seu brilho.
As paredes da câmara pareciam transformarem-se em uma gelatina azul, tremulante, etérea. Ao tocá-la Stonehenge sentiu-se desmaterializar.
Desfaleceu.
Ao acordar o sol estava alto. O dia radiante.
Um tapete vermelho se estendia da base da grande pirâmide a um caminhamento flanqueado por colunas em granito preto. Entre elas, sentado em um corpo de leão, efígies de Quéops.


Tudo era perfeito. Não existiam ruínas, Era um mundo vivo, na terra dos mortos. Era um mundo onde ele, Stonehenge era um vivo do mundo dos vivos em um lugar no after life. Era um mundo, um universo paralelo, onde o tempo não mudava, somente estava.
Era um mundo onde Quéops reinava e ele, o faraó, era idêntico a ele mesmo, Stonehenge…
Guardas imperiais perfilavam. Trombetas espiraladas anunciavam a chegada de um nobre. O rufar de tambores, em rítmo pulsante, o reluzir do ouro, a liteira suportada por 50 escravos núbios em passos constantes, perfeitos no tempo, perfeitos na forma.
Sentiu que o esperavam. Sentiu que ali pertencia.
Aliás, desde que havia se transladado àquele mundo sentiu-se despir de seus conhecimentos, até de suas próprias vestimentas. Ouvia egípcio, entendia e para sua surpresa…falava.

Do outro lado da colunada aproximava-se Quéops em sua liteira. Totalmente ornado em ouro, segurando o cetro do alto e baixo Nilo, com uma coroa cônica. Na sua frente, o olho de Hórus. Representava Ra, o Deus sol, falcão-homem, divino e imortal. E era a sua imagem e semelhança.
O som dos passos cadenciados pelo rufar dos tambores, as trombetas em agudos fortes e o staccato final geraram um momento de expectativa, pompa e grandiosidade. Khufu desce de sua liteira, aproxima-se de Stonehenge e o abraça.
Estava esperando por ti irmão. Agora, a profecia se realizará. Bem vindo filho de Hórus em tua forma de homem. Bem vindo irmão prateado. Que a luz de nossa mãe , a Lua, te ilumine, que o os raios de meu pai, o Sol, te engrandeça.”
A câmara secreta era a porta do mundo dos mortos. Um outro universo onde o tempo estava e não mudava. Onde as almas do mundo dos vivos completavam suas missões para volta gloriosa ao mundo de antes, sob as bençãos dos deuses, num tempo imutável, paralelo, sofismático e paradoxo.
Stonehenge era um vivo no mundo dos mortos.
Era o próprio faraó Quéops, na sua forma dupla, Quéops-Khufu, sob o ar das penas de Hórus, sob os olhos do Sol e da Lua.
Stonehenge era a profecia se tornando realidade, era a glória perdida, a vitória almejada, o caminho da reincarnação.

CAPÍTULO CINCO

OURO E PRATA

Vestiram-no de prata.
Ornado, maravilhosamente iluminado, Stonehenge era a cópia exata de Khufu. Uma cópia em prata de um faraó em ouro.
Juntos subiram na liteira. Os 50 escravos núbios se levantaram e, ao som das trombetas e o marcar dos passos partiram para o palácio do rei.

Seus aposentos eram decorados com objetos argênteos. Até os tecidos eram prateados. Situava-se oposto aos aposentos dourados de Khufu. Entre eles o quarto de sua filha Hetepheres II.

A arquitetura de Memphis era representativa do havia de melhor à época do Egito Antigo. Fundada por Menes por volta de 3000 a.c. teve sua glória maior durante o reinado de Khufu. Ali, subsequentemente, foram construídas as grandes pirâmides e foi a capital do Grande Império até o surgimento de Thebas durante o Novo Império.

Stonehenge a via como havia sido. Perfeita, encaixada no delta do Nilo, esplendorosa. Praças e esplanadas com escadarias em mármore e granito, do porto aos grandes muros, destes aos monumentos e dalí às edificações.
Colunadas gigantescas, estátuas de deuses e faraós, escadas e monolitos em uma procissão de eventos que levavam a pompa e circunstância dos homens aos pés de seus deuses antigos.
O quarto onde estava, todo em prata, era cercado por colunas de cinco metros de altura. Seus capitéis, em cores, tinham a forma de um papiro aberto, seguravam um entablamento trabalhado em frisas contando a história de Hórus e suas formas divinas. Estas suportavam enormes vigas de pedra e madeira formando um teto folheado em prata e decorado com desenhos e figuras em um vermelho intenso.
Atravessou a enorme porta que o levava a uma ante-sala com uma mesa central. Nela, meticulosamente arrumado, frutas e flores.
Observava tudo com avidez e espanto. Sentia-se cada vez mais egípcio. Mais perto daquela época, mais identificado com seu outro eu. No imerso de seus pensamentos nem sequer notou que ao seu lado se encontrava a figura esplendorosa de uma mulher. Quando a olhou não acreditou no que via.
Hetepheres II, a filha de Quéops, ali estava. Linda, suave, deslumbrante.

Hetepheres era a imagem perfeita de sua amada Hattie, aquela que havia perdido em um acidente. Era ela, de novo, em sua frente, tão real quanto a última vez que a tinha visto. Ali, no mundo dos mortos, espíritos se cruzavam, refletindo um passado de reincarnações entre almas afins.
Seus olhares se encontraram. Por um instante o mundo parou e, no estacionar do tempo, se beijaram, num beijo de uma só alma, de um só amor. Eterno como eterno era o lugar. Eterno como a morada dos deuses. Tão eterno, que transcendia os mundos, o passado e o presente, os vivos e os mortos.

CAPÍTULO SEIS

HATTIE

Tinha somente 17 anos. Era linda e delicada.
Stonehenge a viu pela primeira vez, em um salão de baile, vestida de dourado. Lá estava ela, sorrindo, cercada de admiradores. Ele, tímido, se aproximou. Sentiu um mundo estático, o tempo imutável. Sentiu uma paixão tão intensa que inebriado de amor disse-lhe algo, que não mais se lembra, mas algo que tão forte foi que ela o seguiu e não mais o deixou.
Mas o destino tem suas viradas cruéis. Perdeu-a em um acidente inconsequente. Perdeu-a para o mundo dos mortos. Perdeu-a para o mundo de Anubis.
Mas ali estava ela, de novo, mais linda ainda.
Na morada dos que partiram, onde o tempo não tinha tempo para existir.
No momento eterno que se criou Stonehenge pediu que dali não mais partisse. Queria amá-la. Queria possuí-la. Para a câmara prateada a conduziu, fizeram amor com intensidade tamanha que parecia existirem em um só. Um momento eterno no eterno da eternidade.
Estava feliz.
Hattie lhe contou sobre Khufu, da sua espera pelo seu lado da lua. O Deus Sol havia partido do mundo dos vivos. Ali, na eternidade dos tempos existia para cumprir sua missão e poder voltar, reincarnado. No universo dos mortos os feitos da Terra se entremeiam com o destino daqueles que se cruzaram em ambos os mundos. Khufu tinha contas a acertar com Mesalin, rei sumério, seu arqui-inimigo.
Mesalin controlava seu império em Kish, cidade jardim, esplendorosa, perto de onde mais tarde seria Babilônia, às margens da confluência do Tigre com o Eufrates. Em suas idéias hegemônicas Mesalin se aventurou em direção à terras egípcias. O confronto seria inevitável, porém ambos, Khufu e Mesalin morreram antes da batalha final. Levaram sua rixa ao mundo dos mortos. Ao mundo de Anubis. Lá se preparavam para a mãe de todas as batalhas. Aquela que decantada em baixo-relevos era a profecia de Khufu.
O grande faraó, filho do Deus Sol, Ra, sob as penas de Hórus e a proteção de sua forma humana, o Deus da Lua, em prata, destruiria o invasor sumério, em uma única e cruenta batalha, nos fins do universo.
Khufu esperava por sua alma gêmea. Esperava por aquele momento para poder completar sua missão no after life e voltar ao mundo dos vivos. Seu outro eu viria daquele mundo, não poderia ser destruído no mundo dos mortos. Seu outro eu era Stonehenge.
Hetepheres, olhando em seus olhos, disse:
“Vá querido, cumpra a profecia, honre seu irmão, destrua o inimigo. Só assim, então, poderemos viver novamente, eu e você, meu amor, meu amado, no mundo dos encarnados…”

CAPÍTULO SETE

A MÃE DE TODAS AS BATALHAS

Os exércitos de Khufu eram incríveis. Divididos em batalhões dourados e prateados, liderados por duas divindades, suas linhas eram compostas de uma cavalaria leve, em bigas egípcias, com arqueiros e lanceiros. Batalhões de infantaria com escudos e lanças eram precedidos por arqueiros de longo alcance. Suas espadas em cobre reluzente, suas adagas e couraças em ouro e prata, estandartes vermelho sangue. Um espetáculo impressionante e majestoso. À frente de cada divisão os reis-divindade, Horus do Sol e Horus da Lua.
No mundo dos mortos não mais se morria. Era o domínio de Anubis. Guardião dos túmulos e juiz dos mortos, Anubis ali estava para julgar. Filho de Néftis, a Deusa dos Desertos com o Deus Osíris presidiria a pesagem dos corações pela qual decidiria o destino das almas de seu dono. Ali julgaria o combate final. Este seria destrutivo, doloroso e cruel. Nele corpos despedaçariam, cabeças seriam separadas de seus corpos. Soldados transfixados por lanças e flexas. Mas, apesar de destruídos, não morreriam, simplesmente voltariam ao mundo dos vivos, reincarnados, em suas novas missões, conforme estabelecido por Anubis, conforme o gráu de heroísmo e coragem.

A batalha se deu às margens do Eufrates, ao sul de Kish, em Ur, perto do delta do Tigre/Eufrates. Os egípcios, vindo do leste encurralaram as tropas de Mesalin contra o as margens do rio. Cercados ao norte e ao sul os sumérios partiram para o confronto direto. Sua cavalaria era assustadora. Bigas conduzidas por arqueiros e leões alados. Ferozes criaturas que dilaceravam os cavalos egípcios.

Estes, retrucavam com uma chuva de flexas douradas e prateadas. Eram tantas e tão constantes que, uma a uma, as bigas sumérias foram atingidas. Seus leões alados mortos, seus arqueiros aprisionados.

Stonehenge liderava o flanco sul com seu exército prateado. Sua biga em prata e alabastro em um arcabouço de ébano era magnífica. Ele, que nunca pensou ser um militar, ali estava, em plena batalha, junto aos seus, heroicamente liderando uma incursão incisiva através do meio do exército sumério.
Mesalin não entendia o que via. Havia dois faraós? Era seu inimigo um ser protegido pelos deuses, alguém que poderia se duplicar no campo de batalha? Começou a sentir que estava abandonado por seus deuses. Pensou em se retirar. Pensou em se entregar ao julgamento de Anubis. Porém, naquele momento em que quase desistia, uma lança atirada na direção de Stonehenge encontrou o coração do faraó de prata.
Stonehenge caiu. Enquanto seus olhos ainda estavam abertos viu Khufu avançar pelo lado norte e, chegando perto de Mesalin golpeá-lo com sua espada de ouro. A espada de Khufu trazia a decisão de Anubis.
A batalha terminava com a morte de Mesalin.
Para Stonehenge seu corpo não mais ali estava. Vindo do mundo dos vivos não poderia morrer onde somente os mortos existem. Voltou ao universo que pertencia. Seu corpo desapareceu. Assim como havia entrado pela câmara do tempo, sentiu um formigamento intenso antes de se desmaterializar. Sentiu-se desfalecer. Partiu.
Khufu levanta sua espada e proclama a profecia realizada. Hetepheres, ao longe, sorri. A guerra havia sido vencida pelos egípcios há 2500 atrás, hoje, naquele momento.
O faraó Deus Sol, na sua forma de Hórus, o falcão, havia cumprido sua missão.

CAPÍTULO OITO
NO PEABODY MUSEUM


Dr. Peter Stonehenge havia voltado.
No laboratório de egiptologia fora encontrado. Segurava em sua mão direita o amuleto de Hórus, o olho da lua.
Seus professores, que ali estavam, não acreditavam no que viam. Havia surgido do nada, vestido em uma incrível armadura de prata, articulada e decorada com hieróglifos em lápis-lazuli. Ostentava uma coroa, também em prata, com desenhos em vermelho intenso, incrustações em ouro e um bico enorme, tambem em lápis. Suas mãos e antebraços cobertos por lâminas de prata articuladas em escamas flexíveis. Seus dedos alongados por tubos de prata e garras em alabastro. O mesmo acontecia com suas pernas e pés. Em volta, nas costas, penas de falcão em leque, interligadas por fios de ouro. Em sua mão esquerda uma espada magnificamente talhada e coberta de sangue.
Era Hórus, em sua forma de homem. Um falcão homem, imponente, incrível, estupefaciente.

Era a relíquia do passado mais perfeita já vista, ali na frente de seus incrédulos mestres. Algo que mudaria o ensinamento de egiptologia e reformularia os dogmas de seus scholars.
Stonehenge sorriu.
Antes de que qualquer pergunta lhe fosse feita disse:
“Amigos, o passado é uma porta que por ela passaremos todos. Lá o tempo não muda. É a morada daqueles que cumprem sua última missão antes de voltar, ao futuro, pela mesma porta. Agora, que isto sei, parto, não para o passado, mas para o futuro onde encontrarei minha amada,  e a amarei,de novo.”
Apertando o amuleto, deixou cair toda a vestimenta, todos os adornos.
Desapareceu em busca de seu amor…


FIM