A BELA DO QUARTO AO LADO
( o quarto de
duas dimensões )
Cleveland, numa noite fria de inverno.
O frio em Cleveland é cruel. Dois ou três minutos fora de casa e congela-se
um nariz, uma orelha.
O aquecimento à vapor nos deixava esquecer quão frio era. Estava eu enfurnado no quarto de TV. Ficava
ao fim do corredor. No seu início estava o quarto de minha bela filha, cuja
porta abria-se bem em frente a esse corredor.
Preparava-se ela para sair, ía e voltava ao espelho. Minha mulher estava em nosso quarto, ao lado do dela.
Uma breve palavra, um gesto rápido e se despediu da mãe descendo as
escadas. “Estou saindo.Vou
ao cinema, volto logo”.
Quase que imediatamente após, esta
sai do quarto e atravessando o corredor
entrou no de nosso outro filho . Eu continuava à
assistir um programa. Em poucos
segundos conscientizou-se de haver visto algo insólito, notando que alguma coisa se movia no quarto da filha.
Achou que talvez ainda não tivesse partido, mas como poderia ser? Ela a havia visto descer
as escadas para sair....
Resolveu dar uma espiada. Estava
demorando demais, iria perder o filme. Levantou-se olhou para a porta aberta e... lá
estava ela. Esta, olhando
para ela moveu-se em direção ao banheiro, ocultando-se...
A aparência era a mesma da filha. O mesmo pijama velho, já cinza,
de tantas lavagens com cores misturadas, produto normal da vida
universitária americana. Era seu preferido. Por que
estaria alí, de pijama, outra vez?
Perguntou: “ Ainda não foi? Por quê mudou de roupa?”
Não havendo resposta, intrigada aproximou-se da porta. Viu de novo a moça,
desaparecendo dentro do
banheiro. Mas não era ela...ao fixar os
olhos viu outra mulher, que ao
ser fitada atravessou a porta fechada e desapareceu.
Voltou correndo e esbaforida, tentando explicar o inexplicável. Confundiu-se toda. Achou que seria uma
mensagem, um aviso. Ficou nervosa e somente se acalmou quando ela voltou, mais
tarde, sã e salva.
O quarto se portava como uma porta para outra dimensão. Nela, no
presente, vivia nossa
filha. Nela, em outra dimensão a moça que morava naquela casa, em outro
mundo. Uma porta quântica se abriu, dois mundos paralelos coexistiram por um
instante.
A visão da mãe, sua reação, sua estupefação foi registrada por mim.
Havia também ouvido as perguntas que havia feito. Havia visto quando foi ao
quarto e voltou assustada. Havia também pressentido a presença de alguém
naquele momento.
Naquela casa , às vezes, sentia-se o passado e o presente ao mesmo tempo.
Era como se vivêssemos em duas casas diferentes. Uma nesta dimensão. A outra,
nos sonhos, nas aparições inexplicáveis. Todas elas benéficas, nenhuma assustadora, felizmente...
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