domingo, 21 de junho de 2020


A BELA DO QUARTO AO LADO

( o quarto de duas dimensões )




Cleveland, numa noite fria de inverno.

O frio em Cleveland é cruel. Dois ou três minutos fora de casa e congela-se um nariz, uma orelha.

O aquecimento à vapor nos deixava esquecer quão frio era. Estava eu enfurnado no quarto de TV. Ficava ao fim do corredor. No seu início estava o quarto de minha bela filha, cuja porta abria-se bem em frente a esse corredor. Preparava-se ela para sair, ía e voltava ao espelho. Minha mulher estava em nosso quarto, ao lado do dela.

Uma breve palavra, um gesto rápido e se despediu da mãe descendo as escadas. “Estou saindo.Vou ao cinema, volto logo”.

Quase que imediatamente após, esta sai do quarto e atravessando o corredor  entrou no de nosso outro filho . Eu continuava à assistir um programa. Em poucos segundos  conscientizou-se de haver visto algo insólito, notando que alguma coisa se movia no quarto da filha. Achou que talvez ainda não tivesse partido, mas como poderia ser? Ela a havia visto descer as escadas para sair....

 Resolveu dar uma espiada. Estava demorando demais, iria perder o filme. Levantou-se olhou para a porta aberta e... lá estava ela. Esta, olhando para ela moveu-se em direção ao banheiro, ocultando-se...

A aparência era a mesma da filha. O mesmo pijama velho,  já cinza, de tantas lavagens com cores misturadas, produto normal da  vida  universitária americana. Era seu preferido. Por que estaria alí, de pijama, outra vez?

Perguntou: “ Ainda não foi? Por quê mudou de roupa?”

Não havendo resposta, intrigada aproximou-se da porta. Viu de novo a moça, desaparecendo dentro do banheiro.  Mas não era ela...ao fixar os olhos viu outra mulher, que ao ser fitada atravessou a porta fechada e desapareceu.

Voltou correndo e esbaforida, tentando explicar o inexplicável. Confundiu-se toda. Achou que seria uma mensagem, um aviso. Ficou nervosa e somente se acalmou quando ela voltou, mais tarde, sã e salva.

O quarto se portava como uma porta para outra dimensão. Nela, no presente, vivia nossa filha. Nela, em outra dimensão a moça que morava naquela casa, em outro mundo. Uma porta quântica se abriu, dois mundos paralelos coexistiram por um instante.

A visão da mãe, sua reação, sua estupefação foi registrada por mim. Havia também ouvido as perguntas que havia feito. Havia visto quando foi ao quarto e voltou assustada. Havia também pressentido a presença de alguém naquele momento.

Naquela casa , às vezes, sentia-se o passado e o presente ao mesmo tempo. Era como se vivêssemos em duas casas diferentes. Uma nesta dimensão. A outra, nos sonhos, nas aparições inexplicáveis. Todas elas benéficas, nenhuma assustadora, felizmente...

Nenhum comentário:

Postar um comentário