quarta-feira, 30 de outubro de 2019


O TEMPO E A VIDA



O tempo e a vida são lineares. Passam, não voltam mais.

O tempo continua, para frente. A vida acaba, de repente.

Quando se vive a vida, se vive com um “script”, um enredo, com personagens que se interagem, amam, se conhecem ou se tornam conhecidos. O enredo traça a história, os amores e desamores, sempre para a frente. Não há “flash back”.

O tempo brinca com a vida que passa ao largo. De novos, ficamos velhos, de perto, ficamos longe, de gostos mudamos e de amores trocamos. O enredo não se repete. Só é executado uma vez. É como um único trem. “All aboard”! Se perder, não voltará mais, seguirá em frente.

Há empatia entre os seres que vivem este drama linear. Por alguma inexplicável razão achamos que já os conhecíamos. Por uma razão, mais estranha ainda, achamos que vamos vê-los, de novo, no tal de “after life”.

Mas o enredo, único em sua história, único em sua performance, poderá existir em livros, em relatos, até no boca à boca dos que ficaram ao lado, dos que ficaram depois que o show acabou.

Mas a vida, extinta, não registra mais nada do que foi. Já era.

Do outro lado, na estação do trem que ainda está por chegar, um novo roteiro é formado. Uma nova história será escrita. Uma outra linha do tempo, com sua natural relatividade, ali estará, na mesma direção, sempre para frente.

No novo roteiro, papéis diferentes para partícipes antigos. Todos acharão que se conhecem, todos acharão que há um “deja vu”, intrínseco, inexplicável.

Mas não são os mesmos rostos, os mesmos nomes. Na verdade mal se conhecem, no início. Às vezes nem bem se dão. Mas já foram de um roteiro antigo, que jamais se lembrarão. Este novo “script”, tem também sua linha do tempo. Alguém terá de conquistar um amor. Seria este, o amor passado?

Talvez. Mais certo seria, que nesta nova história, serão todos amores diferentes, nada como outrora foram.

Quando a vida se foi, o outro lado surgiu. Deve-se sentir que as vidas extintas se encontrem, se comuniquem. Mas não terão forma. Não existirão abraços, não existirão beijos. Só a certeza de um amor comum. Uma empatia mágica. Um momento breve para se ajustar ao novo enredo.

O trem chega, “all aboard” dirá o condutor. O novo jogo da vida se iniciará, não sei aonde, quando ou em que teatro.

O tempo emparelhado seguirá em frente. Somente existirá a certeza de que ele, o tempo, continuará, mas o show... este... certamente terá um fim.

Gostaria de escolher meu papel. Talvez tenha até escolhido o que presentemente performo. Mas como o tempo que passa, minhas linhas se acabam e as outras, que estão por serem escritas, contarão uma outra história.

Nesta, não sei quem serei.

terça-feira, 29 de outubro de 2019


O  NADA  E  A  MORTE




O nada existe. A morte não.

Existe porque sempre existiu. Nele tem tudo, passa tudo, até a luz.

A morte é somente um evento. É finita até o ponto em que cessa. Mas se você tem consciência da morte, então não morreu. Foi só um instante onde uma porta se abriu.

O nada é mais onipresente. Mesmo sem ser nada ou nada ser. Ele existia antes. Sua constatação é comparativa. E a qualquer coisa que veio depois, pois antes de tudo começar ele estava lá, esperando para que o tudo aparecesse. Até a morte, que assusta por ser aparentemente finita estava lá, aparentemente, pois se nunca existiu antes não pode ter matado nada.

Dai o nada prevalece.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019


NOWHERE MAN

Dedicated to Reuben Grossberg

I lived in a world of colors. There were flowers in the gardens, flowers in the vases, flowers painted in the walls surrounding me. Flowers of many colors.

There were colors to make me happy, to paint my life, to tint my heart.

There was color in the convertible I rode, flying trough winding roads colored by the leaves of fall. The wind blowing, dancing the tunes of Ravel’s bolero, tediously repeating it’s never ending accords.

I was happy. I had a friend named God. He created me with a specific purpose, a purpose that we discussed while the bolero set the pace of the script we wrote together.

But I left my friend in Cleveland. I no longer have these moments with him, only the memories.

I use to be everywhere. Laughing with friends, telling stories, holding the hands of my beloved wife, the one that painted my life with colors. She was the ray of sunshine that colored the world I lived in.

But, one day it all became gray. She left and took the pallet with her. Left me in a gray world.

Too many shades of gray…a monotonous mix of black and white. Like in Pepperland, it all stopped. The music was gone. She was gone. I no longer had her, my friend and other dear loved ones.

I became nowhere man.

Stompers, meanies, gloves and colorless creatures surrounded me. They stole the colors. My roadster still made the winding curves, but there was no music, no conversation, and no colors. A few loved ones keep me afloat.

I know that the Beatles would have told me that please listen, you don’t know what you are missing; the world is at your command.

But I’m in a nowhere land, making nowhere plans for nobody. I no longer have a point of view.

I’m waiting for a comet. A little prince will tell me that I’m not alone, that the friends I made are asking for me to be responsible. Be back, they say. Look around, we’re all a bit like you. We’re also blown by the shades of gray. Don’t let it down.

So I say, yesterday, my troubles were so far away, but yesterday came so suddenly, I don’t know why she had to go.

Now I need to believe that yesterday will be back, and another loving game is yet to play.

To paint my world with many colors, to paint my heart, to paint my life…





LÍNGUA  DO 



Pedro Pereira Pinto.  Pronto Patrão!  Pinta o Pê na portinha e no portão!

Passo pensando pela porta procurando por um tal pintor pintando Pê na porta e no portão.

Porém pasmado perguntei pelo passado, pelo tal palavreado, pelas provas de pintor.

Porém poeta, perguntei pelo pateta, professor pintou profeta, pra provar a profissão.


Mais um dia, mais uma estória de meu pai, quando éramos pequenos. Estupefatos com tanto Pê, pela velocidade em que falava esperavamos pela língua esquisita, que viria depois. Uma pausa, e comecava tudo de novo, na língua do Pê.

Popoispis épé ipissopo quepê voupou fapalarpar paparapa vopocespês. Hopojepê nóspós vapamospos sapairpir paparapa copomerper umpum sorporvepetepe.

Quepe talpal?

Saudades. Isso não mais aconteceria. Hoje quais crianças ouviriam o pai contar uma estória destas?

Fica o registro para não ser esquecido.

domingo, 27 de outubro de 2019


MALEDETTO?



Quando fiz a casa me utilizei de tudo que sabia sobre técnicas modernas. Em arquitetura, com pinceladas ecléticas trouxe um pouco de Wright ao barroco mineiro. Em sua forma espacial brinquei com espaços interativos numa dança constante ao longo de uma escada central como um fuste espiralando cômodos simétricos. Um jogo de xadrez tridimensional.

Quando fiz a casa não estava aqui. Controlava de longe algo que  podia ser feito nos Estados Unidos mas  não havia condição de replicar aqui. Só soube disto mais tarde em surpresas escondidas entre paredes, invisíveis aos olhos, mas surpreendentes pela criatividade com que foram feitas erradamente.

Quando fiz a casa contratei quem me indicaram achando que por serem profissionais seguiriam os desenhos com esmero e dedicação. Desisti de assim pensar quando me perguntaram que língua eu falava. Pareciam que entendiam mas não era verdade. E eu só falava em português correto...ledo engano!

No início morreu um. Cortaram-lhe a cabeça. Havia se metido com a mulher de um traficante. Penalizados ajudamos a mãe chorosa. Era um rapaz alegre, de olhos azuis.

Depois morreu outro, um eletricista, de coração. Já estava velhinho, me parecia bom. O serviço que havia feito foi abandonado pois ninguém sabia onde estavam os conduítes.

Morreu também a esposa do pintor. Não mais pintou direito após o desenlace.

O mestre-de-obras era uma praga. Vivia etílico. Caiu do telhado uma vez, foi salvo pela corda que o havia obrigado a usar. Foi para o beleléu quando a obra acabou. Havia esvaziado alguns galões de pinga vagabunda. Deveria ter ido antes. Teria me poupado mil dissabores sem mencionar os muitos dólares.

Tinha também o eletricista novo. Guapo rapaz, dirigia um Crossfox amarelo igual ao meu, porém mais novo e mais bem equipado. Conversa mansa, jeito faceiro, sonso, o dito havia seduzido uma garota de versatilidade infinita. Era a dona do carro. Vim a saber depois da terrível desdita à ele cometida. Um dia apareceu na obra com quatro sulcos profundos em uma das bochechas. Indagado, disse que havia sido apanhado namorando...outra. recebeu um corretivo.

Não aprendeu a lição,Traiu a prostituta. De novo. Erro fatal. A dita enraivecida procurou vingança. Contratou sicários sedentos de sangue e estes o emboscaram descarregando alguns pentes no dito cujo. Mais furado que peneira de servente o danado sobreviveu. Mas ficou tetraplégico.

Já estava com raiva dele pelos inúmeros malfeitos na rede elétrica. Havia recebido adiantado, cobrado por pontos invisíveis e distribuído fios de uma maneira tão convoluta que até hoje não consegui decifrar o quebra-cabeças.
O que aconteceu com ele foi além do que queria fazer. Fiquei com pena.

Mudamos em junho de 2008. Na véspera da mudança o marceneiro picareta roubou os degraus da escada, fugiu com os armários, algumas portas e janelas. Desastre total.

Em uma casa inoperante, incompleta e desarranjada passamos a terminá-la, muitas vezes, nós mesmos executando o trabalho dos incompetentes funcionários que tivemos. Terminada a obra, ficou encantadora. Mas guarda ainda surpresas inexplicáveis, tão estranhas que antes de escrevê-las relatei o ocorrido a um grande amigo e a meu irmão engenheiro, no momento em que os tais fenômenos aconteciam diante dos olhos estupefatos de minha querida  amada.

Voltava do clube após o habitual ritual etílico dos sábados. Planejava um banho gostoso em meu chuveiro ajustável. O dia terminava, o calor insuportável, os cachorrinhos inquietos. Hora de usar a tecnologia que havia implementado. O sistema hidráulico pressurizado iria propiciar uma ducha de qualidade ímpar. Abri o chuveiro. Caíram duas gotas...

Desci até o quadro de chaves, uma delas havia caído. Armei-a de novo. Subi, abri a torneira e pluft, nenhuma gota caiu de novo. Usei minha cabeça de engenheiro, segui o rastro do problema, chaves, disjuntores, fios, bomba, pressurizador. Não vi nada estranho. Liguei de novo a chave. Achei que a bomba havia queimado. Desisti.

Já com planos de quem chamar, na segunda feira, resolvi me recolher. Minha musa estava ao meu lado. Perguntava sobre tudo, não entendia nada.

No banheiro, sem luz, acendemos umas velas. Até ficou bem romântico. Abrindo a torneira da pia notei que a luz acendeu. Perguntei-lhe se havia ligado o disjuntor. Não, foi a resposta, não fiz nada... Fechei a torneira e a luz apagou. Abri a torneira do chuveiro e de novo a luz acendeu.

Isto não é possível. Ninguém acende uma lâmpada abrindo uma torneira. Só em filme dos Três Patetas. Examinei tudo de novo, fio por fio, tomada por tomada, conexão por conexão. Nada aparentava ser estranho. Testei de novo, liguei para meu amigo e meu irmão e relatei-lhes o que acontecia, de viva voz. Morreram de rir. Meu irmão foi mais enfático : “Isso não existe.”

Fomos dormir. Desliguei tudo. Deve haver uma maldição nesta casa. É maledetta, diria minha avó. O eletricista tetraplégico enviava seus eflúvios demoníacos. Estava perdido. Seria um fantasma, o espírito pinguço do mestre-de-obras? Deixei para explicar, na segunda, para um eletricista, formulando possíveis perguntas no intuito de fazer algum sentido. Já tinha certeza que me chamaria de louco.

Acordei. O sol brilhava, o horário novo já em vigor me pus para fora da cama de maneira modorrenta. Meio grogue entrei no banheiro. Instintivamente abri a torneira do chuveiro.
Tudo funcionou. Como se nada houvesse acontecido o pressurizador ia à toda potência, as luzes não haviam acendido pela torneira mas pelas tomadas, como era esperado. Minha mulher, com o mesmo olhar de antes, perguntou: “Como explica isso?”

Não sei. Deve ser maledetta, ou foi um sonho, um pesadelo para ser mais preciso. Vou ligar para meu dileto amigo e meu genial irmão engenheiro e perguntar-lhes se realmente liguei para eles ontem a noite.

Devem ter sido os torpedos que tomei lá no bar. Só pode ser...




LADRÕES INOCENTES



No Brasil todo ladrão é inocente.

Bandido é o cidadão honesto. Ele paga imposto, contas, não fala mentiras e comete um pecado gravíssimo: trabalha!

O ladrão, coitado, precisa do dinheiro dos outros. Todos eles, votados pelo povo, se acham donos do alheio. Para não serem tão sem-vergonhas assim, se dizem donos do erário público. O governo é deles.

O tal honesto é meio ruim de serviço. Não sabe votar. Se soubesse não colocaria estes energúmenos no poder.
O engraçado é que os tais energúmenos são espertos à beça.

Ladrão inocente é um direito conquistado. Assim, temos múltiplas instâncias nas lides do judiciário. São tantas que jamais chegam ao fim. Prescrevem, convenientemente.

Mas se você, cidadão honesto, sem jeito de ladrão inocente, roubar uma galinha, aí, meu caro,  você não escapa  das garras da (in)justiça.

Como roubar é instituição governamental, cabe aos honestos fazerem umas pilantragens do gênero afanante, tais como comprar coisas piratas, pagar flanelinhas, parar em fila dupla e outras coisas  semelhantes. Com este treinamento poderão chegar, um dia, à condição de ladrões honestos e se locupletarem daquilo que não lhes pertence.

Caso você deseje não fazer parte nem de um tipo ou de outro, sugiro não votar no PT, não gostar da Dilma e muito menos do Lula. Uma vez extirpados estes mafiosos do poder, poderemos pensar em defenestrar outros da mesma laia.

Lembre-se, no Brasil a Máfia deu certo.

sábado, 26 de outubro de 2019

Pontal do Atalaia
Arraial do Cabo - RJ
2019



Turning roasted
Cabo Frio
2019
(with a fake tatoo)

Pontal do Atalaia
Rio de Janeiro
2019


ÍCARO



Teceu suas asas em penas e cera.

Do topo da serra deliciou-se com o sol em decúbito. Os tons rubros tingiam o céu em pinceladas barrocas.

Queria seu calor, sua proximidade. Queria tocá-lo.

Em um salto único se desfez num arco iris de penas coloridas.

O abismo lhe pareceu ardente.

Caiu, não mais voltou.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

My Mother
going 99 years old
Brand new...


O BANHO DO CAPITÃO


Quarenta quilômetros. Da rua Juiz de Fora até Água Limpa, marchando, em julho, num frio danado.

Nossa turma do CPOR era muito especial. Tinha sido selecionada à dedo, os melhores atletas, tudo isso para dar uma surra na Academia Militar de Agulhas Negras no basquete, futebol de salão e no vôlei.Trabalho impecável do capitão encarregado do recrutamento.

Como em toda turma de aspirantes existiam aqueles que gostavam de fugir à qualquer esfôrço, os tais morcegos, apelido dado pelos colegas mais compenetrados. Para fins desta estória chama-lo-emos de Morcegão. Este, com a turma do segundo pelotão eram impossíveis de se controlar.

O bivouac, acampamento a dois por barraca era montado nas encostas à leste da lagoa. Trincheiras eram cavadas e a turma do primeiro ano se postava pronta para repelir um suposto ataque do segundo ano. Este ataque nunca acontecia mas os primeiro-anistas não sabiam.

Na BR3 existia um bar. Nele alguns foragidos se reuniam e compravam cachaça para enfrentar o frio da noite, em guarda, no meio da mais densa neblina. Entre os foragidos estava o Morcegão.

A noite era gelada, a neblina densa.  Mais cedo a turma do pelotão dois havia cavado uma fossa ao longo da encosta da colina. Tinha seus 10 metros de comprimento e era bem funda. É óbvio que à medida que o dia se passava era mais usada e já continha uma massa abjeta e volumosa.

Existia um capitão, chato, pentelho e ranheta. O tal primava por procurar defeito em tudo. Arvorou-se em inspetor chefe, azucrinando e patrulhando em momentos mais desagradáveis. Não queria que ninguém dormisse. Tínhamos de estar prontos para o ataque.

Os tradicionais fugitivos, liderados pelo Morcegão, já haviam voltado reabastecidos de álcool puro. Ocupavam a trincheira mais próxima da latrina.

O frio mordia os ossos. Lá pelas duas da matina o tal capitão ranheta resolveu passar revista nas tropas. E, sorrateiramente, esperava surpreender os incautos.

Tínhamos ordem para disparar nossas balas de festim se aquele que se aproximasse não soubesse a senha. E aquele capitão não sabia.

O estalar de galhos secos, os passos arrastados, o grito de “quem vem lá?” a falta de resposta desencadeou um tiroteio infernal. Não se via nada, ninguém. O espoucar dos fuzis, o clarão da pólvora, a confusão total.
O capitão escorregou. Estava lá pelas bandas do segundo pelotão. Na fossa submergiu.  Seus gritos e palavreado rico de expressões chulas fizeram com que ninguém ousasse ali chegar, muito menos içá-lo do poço fecal.

Ao amanhecer, reconhecendo o fiasco do tal ataque eis que surge o Major comandante e depara com a cena dantesca. O guapo capitão em bosta estava, meio rouco, muito puto. Retiraram-lhe de lá. A vingança não tardou.

Sabendo que os que iniciaram o tiroteio eram das bandas do segundo pelotão colocou-os em forma e perguntou: “quem deu o primeiro tiro?...” não houve resposta.

Soldados têm esta mania boba de não revelar quem fez a besteira. O chato foi cruel, mandou-os todos pular dentro da fossa. E assim aconteceu.

Devidamente embostados a turma do segundo, liderada pelo Morcegão, seguiu marchando para a lagoa, onde um por um, nela entraram.

Morcegão ficou no ostracismo por um tempo muito grande. Também não gostava muito de tocar no assunto.  Não queria lembrar que foi dele o primeiro tiro.

terça-feira, 8 de outubro de 2019


NAMORADO NO BALAIO



Namorar mulher bonita não é fácil.  Se ela é inteligente fica ainda mais difícil.

Uma sábia e doce sogra dizia para a filha que, uma vez encontrado alguém que gostasse, devia por o dito em um balaio, guardando-o para um dia futuro caso outro melhor não aparecesse. Igual se faz com a galinha que veio do mercado.

Apaixonei-me de cara. Foi um “fulmine”, segundo os italianos. Cai, “fulminato”!

Era carnaval, a sedutora criatura parecia acessível. Ledo engano, conquistá-la era caso para um profissional do ramo, um Alain Delon, um James Dean ou um Paul Newman.

Eram, aliás, aqueles que ela mencionava serem os favoritos.

Não durou muito, antes do próximo carnaval já tinha sido dispensado. Foi um desastre. Recuperei-me à duras penas, caí nos braços de uma outra, não tão bonita, mas que gostava de tocar Blue Moon para mim. Ela não o fazia.

Não me convidou para seu aniversário de 15 anos. Nunca a perdoei por isso. Falha lamentável. Dançou a valsa com um energúmeno revoltante. Quebrei-lhe o nariz por isso.

Quando a vi de novo estava mais linda ainda. Convidei-a para dançar. Dançando me disse que quem gosta de meia é pé. Se quisesse continuar tinha de acabar com a outra. Atravessei a rua, fui à casa dela e acabei. Voltamos à dançar com data marcada para um encontro no próximo sábado.

Já estava no balaio, eu, é claro.

O sábado chegou. Eu sempre fui pontual e ela sabia disto. Não havia ainda terminado com o outro namorado, um quinto-anista de medicina, xodó do papai dela. O miserável chorava ao ser extirpado, não queria ir. Devo ter cruzado com o dito, no passeio, perto de sua casa.

Salvei-a de um erro certo. Não se daria bem com chorões. Bonzinho demais, só sabia ser médico. Eu, entretanto, estudava arquitetura, vestia a farda do CPOR, jogava basquete. Tinha um papo mais interessante. Aliás, já estava no balaio e nem sabia.

Contou-me mais tarde que havia namorado um Manoel, vejam bem, devia ser um portuga, aquele das piadas. Dizia-se rico e fazendeiro. Queria levá-la para cuidar de suas vaquinhas. Erro irreparável. A bela não gostava de carrapatos e vida silvestre. Era uma diva das urbis, do borborinho, das luzes da ribalta. Salvei-a de outro erro.

O James Dean já tinha partido para o Nirvana. A Romi Schneider pegou o Alain Delon. Sobrou o Paul Newman. Quando o encontrou em Cleveland, se decepcionou. Era baixinho, menor do que ela. Salvei-a, de novo.

Na minha vida, dentro do balaio, não percebia que lá estava. Era persistente, levei-a ao altar e à conhecer o mundo, valeu a pena o trabalhão. De vez em quando ou de quando em vez saía com uma história de um tal Pierre, genuinamente francês, que surgiu antes que a conhecesse. Não me pareceu competição, devia ser um truque para me manter quietinho, no balaio.

Quando fomos salvar nossa amada filha das agruras e escorpiões da Guatemala, estivemos em uma repartição pública local, sei lá para quê. Uma senhora, com seus trajes típicos estava sentada à minha frente com um balaio ao lado. Dentro, uma galinha.

De repente percebi que o balaio era da minha amada, a galinha eu mesmo. Havia lá estado por mais de quarenta anos e nem vi o tempo passar.

Hoje, ciente e consciente nem penso de lá sair. Sábia era minha sogra...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019


FARRA  EM  SPANDAU




Berlim, cidade linda. O muro tinha caído. Estávamos ao lado do Bradenburg Gate. Eu, minha bela, meu sócio e sua amada. Um alemão de trejeitos ortodoxos nos levara à conhecer a cidade.

O hotel era seis estrelas. Tínhamos três dias em uma conferência, as divas os tinham para fazer compras. Na KDV, é claro.

Chegamos e à noite fomos conhecer  o calabouço do castelo de Spandau. O Rudolph Hess ainda estava lá, no topo da torre. Em baixo, nas antigas masmorras ficava o restaurante, à moda medieval, com música e tudo mais.

Pedimos cerveja, as belas queriam vinho. Sorviam como discípulas de Bacco, estavam ficando tão alegres quanto os alemães que chegavam sérios e sóbrios e, em questão de minutos, passavam à cantar, dançar e beber sem parar. Serviram também honey wine, em chifres de boi. Não dava para descansar, tinham de tomar tudo. Preferi a cerveja e assim escapei da desdita final.

Atrás de nossa mesa doze valkírias bebiam e cantavam. Eram do tipo versátil, ou seja, adeptas de Lesbos. Estavam de olho na mulher de meu sócio, uma loura do midwest americano, olhos azuis, seios fartos e protúberos. Verdadeiro K.O. de mulher.

Lá para as tantas resolveu ir ao banheiro. A mesa de trás se esvaziou. Voltou vinte minutos depois com um olhar meio morno, hipnotizada. Algo havia acontecido. Disse-me que não se lembrava de nada.

Comia-se com as mãos. Bebia-se em chifres e conchas. A quantidade farta indicava um final esfuziante. O show medieval, com bruxas, duendes, bardos e fanfarrões infernava o espaço. Os alemães cantavam, brindavam e dançavam. Acho que não dava para o Herr Hess dormir bem, lá em cima. Também, para quem fez tanta sacanagem contra os coitados dos judeus, que ficasse acordado...merecia.

Ao sair pegamos um táxi. Daqueles mixurucas. Era só uma Mercedes, cheirando à nova. Novo também era o chofer, um alemão do leste, só falava alemão e olhe lá.

A bela loira estava fora de controle. Como toda americana não entendia porque o coitado não falava inglês. Ante a recusa, dava-lhe safanões possantes em seu braço direito. O carro zigzagueava pelas ruas.

Chegamos ao destino. Descemos e ela correu à frente achando, no processo, um bar onde um australiano de tamanho gigantesco tocava Garota de Ipanema. Pediu seis caipirinhas.

As ditas chegaram e eram enormes. Ficou com duas para ela mesma, deu outras duas para o pianista. As demais acho que foram liquidadas pelo meu sócio.

Bacco havia sucedido em sua empreitada. As duas já haviam se entregado ao sabor dos ventos etílicos que emanavam e, assim, tentaram ir ao toalete. Para se refrescar, disseram.
Como bolas de boliche batiam nas paredes em um andar trôpego, tentando chegar ao destino pretendido. Disse-me, minha bela, que via um túnel sem fim à sua frente. O chão era macio e as paredes se assemelhavam a colchões de espuma delirantes.

Neste certo delírio voltaram à seus quartos não antes de sucumbirem à outras libações do mesmo gênero.

Os quartos se localizavam de maneira oposta. Um vão central trazia luz do teto. Da janela se via a outra, persianas levantadas.

A esfuziante loura chegou primeiro. Não percebeu a janela aberta. Despindo-se como em um filme pornô americano revelou toda a sua pujança quando , num  piscar de olhos, seus seios pularam fora da jaula que os continha. Eram incríveis.

Apaguei a luz, fechei as persianas e voltei-me para minha doce brunete. Notei que havia  desmaiado, nua, atravessada em diagonal na macia e convidativa cama. Ali ficou. Por mais de 24 horas não se mexeu. Gemia...sons estranhos e desconexos. Maldizia algo de natureza inexplicável. Estava meio verde.

Perderam a KDV. Não puderam fazer as compras que pretendiam...

De coração despedaçado concordaram a fazê-lo, conosco, no último dia. Não foi a mesma coisa.

Eu e meu sócio compramos tudo que estava à vista. Elas, tolhidas e com o pensamento ainda turvo pelo álcool, raciocinavam lentamente. Tão lento era o processo que dava para tirá-las da contemplação natural que as mulheres fazem antes de se decidirem a gastar dinheiro.

Era o que queríamos. Não compraram nada...nadinha mesmo.

Vingaram-se em Florença, um dia depois.





domingo, 6 de outubro de 2019


COMO SILENCIAR UM HINDU
(aventuras do Tirano)



Lá pelos idos 70, em São Paulo, morava o famoso Tirano em apartamento, no Sumaré.

Herói que já era, jurou defender a honra de sua amada Dantuzza. Disse-lhe uma vez: “querida nada de mal poderá lhe atingir, eu estarei sempre pronto a salvá-la.”

Morava no décimo primeiro andar. Acima, no décimo segundo entocava-se um hindu de hábitos estranhos. Ouvia suas músicas de instrumentos exóticos, uma mistura de cordas com percussão de tambores, sinos e reco-recos indianos.

Bebia muito este hindu. Cervejas e outros líquidos etéreos. Ficava com a porta aberta, ouvindo sua música e bebendo igual a um gambá. Jogava as latas pela porta, mirando a escada. As latas rolavam e aterrizavam em frente ao apartamento do Tirano. Batiam na porta e causavam medo à sua amada.

Um dia, chegando em casa a encontrou à chorar. Indignado procurou pelo seu melhor e maior martelo e subiu com olhos esbugalhados, espuma na boca e dentes em riste. Com um chute só (coisa de tirano enfurecido) pôs abaixo a porta do dito cujo hindu.

“Miserável  hindu, disse ele, você aterroriza minha doce Dantuzza. Vou exterminá-lo!”

O coitado, bêbado e escornado molhou suas calças. O Tirano implacável e enfurecido martelava sua eletrola produzindo piorras, válvulas, engrenagens em peças mil à voar pelo apartamento. De vez em quando brandia o martelo sobre a cabeça do mesmo. O terror era total.

Não satisfeito, atirou a eletrola do décimo segundo andar. Esta em um voo rápido espatifou-se no asfalto, em baixo. Por sorte não atingiu ninguém. Desceu a escadaria loucamente, como um projétil desgovernado. Em um tufão chegou ao solo e pulando como um orangotango pirado, esmagou o resto da malfadada eletrola.

Subiu como um bólido. Nem arfava. No décimo segundo chegou e mais uma vez se dirigiu ao estupefato hindu, ainda paralisado e borrado. “Energúmeno, deserdado de Shiva,amaldiçoado por Vishnu, condenada criatura,  não entrarás no Nirvana. Nunca mais faça isto, senão, voltarei para fazer o mesmo... Só que com sua cabeça”.

O filho de Brahma nunca mais produziu um som.

 Dantuzza fora salva.


sábado, 5 de outubro de 2019


 MULA  SEM  CABEÇA




Diz a lenda que a concubina de um sacerdote se transforma em noites de lua cheia em  uma mula sem cabeça, exalando fogo pelas narinas. Seu relinchar é assustador e às vezes soa como a voz de uma mulher desesperada. Assombra à todos e à tudo na espera pela redenção que não vem.

Lá pelos idos de Penedo, no Alagoas uma bela menina de olhos verdes e cabelos dourados se banhava nas águas do São Francisco. Tão linda ela era que atraiu os olhares do padre itinerante que por alí passava de quando em vez.

Não era um padre de boa alma. A sua, penada que já era, só se interessava pela nudez pura da inocente menina. Assolado pelo tinhoso houve por bem raptá-la numa noite escura, fugindo da cidade num galope frenético como se quisesse anunciar o despertar de uma maldição.

Os anos se passaram e nunca mais se ouviu falar da desditosa criança. Seus pais e irmãos, entretanto, haviam marcado de morte o vil sacerdote. E esta o encontrou quando, achando que não mais o reconheceriam, passou de novo, pelo mesmo caminho, encontrando o fim nas mãos de sicários já avisados.

A verdade diz que a linda moça adulta se tornou. Seus filhos, bem cuidados com os proventos do padre cresceram saudáveis e felizes. Diz também, que com a morte do vigário um tesouro foi encontrado dentro de um baú, trazendo à estória um final feliz.

Mas como em qualquer lenda, a figura da mula sem cabeça prevalece. O assombrar continua e quem sabe pula de alma em alma, pois anos depois vim a encontrar outra bela criatura, de olhar meigo e maneiras doces seduzida por outro destes padres pululantes, do tipo estrangeiro, quiçá faceiro.

Ouso por isso, disputar o final trágico da lenda original.

Que vire mula sem cabeça eu concordo. Que virem concubinas dos tais padres também parece lógico. O que não é lógico é elas penarem por aqueles que romperam seus sagrados votos. Proponho, então, que mulas não sejam. Que sejam burros sem cabeça, soltando fogo pelas narinas e pagando o pecado por seduzirem doces e inocentes criaturas. Que seus berros sejam horríveis como as horríveis coisas que fizeram. À estes burros só Belzebu explica...e espera.


AS CORES DO CORAÇÃO



As cores da pátria, em estandartes, nas vestimentas, nos adereços são carregadas com orgulho por todos os cantos do globo.

Os americanos se deleitam com o tricolor de sua bandeira, os franceses com le bleu no coração e nos olhos, os ingleses com sua geometria simétrica, nossos hermanos no azul e branco.

Em terra brasiliensis, o verde e amarelo só é lembrado no esporte. Como é mais fácil ver um brasileiro com a camisa de seu time de futebol!   Em qualquer lugar do mundo.  Às vezes nos lembramos delas em passeatas, mas, por favor, sem aquelas dos movimentos sociais.

Em Minas, onde o vermelho marca nossa bandeira em seu triângulo glorioso, não se veneram as cores e sua simbologia como devíamos. Estamos esquecidos de nossa inconfidência.

E, para não sermos menos inconfidentes sugiro que comecemos por reformar a aparência de nossas instituições estaduais.

Que tal iniciarmos uma total reformulação de nossa polícia? Um novo uniforme, as cores do estado em destaque nas suas viaturas, algo novo e elegante.  Menos aparência de milícia bolivariana e mais sintonia com o moderno, com as nossas tradições e história.

Quero ver nosso vermelho cintilando ideias libertárias. Ainda que tardias.





ARQUITETURA SEM LITURGIA



Frank O. Gehry deslumbra o mundo com criações cada vez mais ousadas. Mas, como apologista da forma, abandona o essencial, qual seja, a função a que elas se destinam.

Em nossa terra, o mesmo pecado é feito nas lindas e plásticas formas de Niemeyer, prédios esculpidos para agradar aos olhos mas pouco práticos no seu uso.

É mais evidente ainda quando se trata das igrejas que projetou. Dir-se-ia que igreja seria um termo um tanto ao quanto elástico, pois sua obra as retrata como capelas e não como basílicas, catedrais e até as próprias igrejas cujas formas e uso obedecem a um ritual religioso  de suntuosidade correspondente no cumprimento das máximas litúrgicas.

Ele, Niemeyer não acreditava na pompa e circunstância que marca a função destas edificações. Optou por sugerir uma outra forma de relacionar o fiel com a casa de Deus. Colocou política e ideologia na mistura.

Bonito, mas irreal.

Suas igrejas, brilhantes como esculturas são meros capelões. E assim será erigido outro, do mesmo naipe, em Belo Horizonte.

Só que desta vez Niemeyer criou um monstro de forma dissociada àquela que a edificação pretende ser. Localizada em um buraco as margens da Linha Verde, a catedral (capelão) do Cristo Rei é feia e não acrescentará nada ao portfólio dele, muito menos o de nossa Arquidiocese. Urbanisticamente, esta no lugar errado.

Barcelona, onde arquitetura e urbanismo andam lado a lado em harmonia, a catedral da Sagrada Família é um exemplo máximo de forma e função. Gaudi, o grande mestre, deixou sua marca na cidade de maneira indelével. A catedral respeita a liturgia e traz a merecida pompa e respeito no templo de Deus. Um arquiteto que sabia o que fazia.

Niemeyer também o fez em Belo Horizonte mas suas igrejas, até mesmo a de São Francisco, não são da estirpe de uma obra de Gaudi.

Sua ausência de compromisso com a religião faz-se clara na função das mesmas.

Não seria a hora de nossa Arquidiocese solicitar ajuda de quem realmente entende de arquitetura religiosa?

Pena que Aleijadinho não esteja mais disponível.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019


 MAXIMON



Formou-se em uma das melhores escolas do Midwest Americano. Misturou ciências políticas com arte. Acho que queria pintar o politicamente correto.

Como todo jovem houve por bem salvar o mundo em primeiro lugar. Assim, partiu para a distante Guatemala, com uma mochila, sem dinheiro e cheia de vontade.

Fazia um trabalho magnífico quando chegamos para visitá-la. Morava em um barracão cheio de escorpiões. Tomava banho de tacho e saía pelas favelas, adorada por crianças tão pequenas que achei que eu era o Gulliver, aquele de Lilliput.

Como fazia por onde andava, ela havia estudado os costumes locais e também os melhores lugares de se visitar. Alugamos um carro e fomos para Panarachel.

Havia três vulcões ativos ao redor de um lago. Do outro lado do mesmo uma  pequena cidade  onde iriamos visitar uma igreja colonial, entre outras coisas.

Era antes do meio dia, o sol à pino queimando minha careca. Não tinha onde esconder. O lago borbulhava depois das 12. Acho que os vulcões soltavam matéria ígnea no fundo. Correntes estranhas apareciam e as águas se revoltavam em bolhas polpudas.

Ao chegar corri para as barracas dos vendedores na a esperança de achar um chapéu. Minha digníssima consorte, impiedosamente, insistia por procurar um que fosse elegante. Eu só queria a sombra. Acabei por comprar algo que só a vovó Donalda usava na cabeça. Horroroso!

A igreja era colonial, mas pobre, muito pobre. Nada como a opulência de Ouro Preto. As imagens, pífias, vestidas em pano preto, cabelos de verdade, doados em troca de bençãos celestiais.

Do lado de fora a meninada de estatura minúscula. Eram todos descendentes dos maias. Os mais velhos, pigmeus como os outros, disparavam com “mamacitas”, cumprimento que faziam à intrépida desbravadora. Estes não eram bem recebidos.

Um pequeno maia se aproximou perguntando: Querem ver Maximon? Venham, só 25 quetzales. Fiz uma besteira, resolvi segui-lo. Sua estatura era a de uma criança de 4 anos em outros países, mas tinha na verdade uns 12 .

No caminho as ruas se estreitavam, ficavam mais sombrias. Ele insistia, venham, venham, é logo alí. O alí chegou, no fim de uma viela. Havia lá uma porta ladeada por dois maias parrudos e mal encarados. Dentro, escuro e decorado estranhamente, um caixão.

Atrás dos guarda-costas uma estátua de pedra, sentada em uma cadeira. Do seu lado, um prato com moedas, do outro cigarros soltos, no fundo o caixão. Dentro do esquife estava uma imagem de Judas, decorada com pequenas luzes e tinha ao seu redor oferendas diversas.

Minha querida amada não quis entrar. Realmente o ar era espesso, pesado e lúgubre. Pensei em voltar mas o pequenino guia insistia...“alí o Maximon”...

Nossa salvadora do mundo sabia tudo sobre os costumes maias. Disse-me que o tal Maximon era uma combinação de um deus maia (Max) com Judas (Simão). Eles haviam feito uma salada entre a religião deles e o catolicismo, por ocasião da dominação espanhola. O Judas se comportaria como o tal Max, daí o Maximon.

Rezava o costume que , à título de oferenda, era necessário comprar um cigarro e oferecê-lo à estátua do dito cujo. Eu o fiz, afinal os tais maias parrudos já me olhavam de maneira estranha. Disse-me o garoto: “tem que colocar na boca do Maximon.”

Meio titubeante coloquei o cigarro apagado na boca da estátua.

Acendeu-se sozinho e, em baforadas longas, a estátua consumiu o dito em poucos segundos.

Estupefato! Embasbacado! Esturvinhado! Completamente atônito, procurei por uma explicação lógica. Olhei debaixo da cadeira onde se situava, olhei para os lados, levantei os panos decorativos e não achei nada! Nenhum tubo, fio, qualquer coisa que explicasse como uma estátua de pedra se viciou em cigarros. Nada!...

Achei que era hora de uma retirada estratégica. O ar estava mais do que pesado. Dei uma gorjeta para o menino, botei mais uns quetzales no prato e pernas para que te quero, nos mandamos para o cais, eu com meu chapéu de vovó Donalda, minha bela e a intrépida exploradora.

Preferi enfrentar as águas borbulhantes do tal lago antes que um dos três vulcões resolvesse expelir a ira do Popol Vuh e nos mandar para qualquer um dos nove níveis de seus infernos.

Minha cabeça já estava tão vermelha quanto as lavas dos vulcões. O chapéu, tenho até hoje bem como umas máscaras maias, mal encaradas, mas de magnífica qualidade artística. Ficam no banheiro, para incentivar os trabalhos de praxe.

 COSMIC BUBBLES
NASA's picture of somewhere in our Milky Way
I have a painting by VanDuzer
It looks like his work
Beautiful

terça-feira, 1 de outubro de 2019


CASTANHO E O PERIGO HABIBE


Castanho teve de mudar de nome.
Revelado por este blog, o agente do Mossad foi descoberto. Habibes do mundo inteiro se reuniram para uma intifada, editando uma xaria contra o nosso herói.
Castanho então mudou a cor de suas madeixas que, de castanho que eram, outrora grisalhas, para negro piche no afã de não mais ser reconhecido. O colorido agente passou à agir nos jardins do Canadá, conquistando novos corações de garotas embevecidas pelo seu charme de galã espião.
Mas os habibes também têm seus recursos e, com auxílio do Aburrachid o aiatolado, metralharam a praça.
Penas voavam para todos os lados. Castanho, agora Negroni, soltou diversos “schwein” ( porquinhos), que por afinidade correram em direção à habibada. Gritos de “ranzir, ranzir, ranzir” se ouviam e eles apavorados fugiram.
Sua nova e apaixonada bela derreteu-se de amores. Negroni aproveitando o momento de fraqueza propôs-lhe casamento.
Assim, num domingo frio e ensolarado surgiu no bar das montanhas portando o retrato da amada e declarando publicamente suas intenções. Munido de suas abelhinhas eletrônicas Negroni as soltou para criar ao seu redor um halo de proteção contra investidas dos habibes. Os “schwein” continuavam correndo atrás dos ditos. O mundo estava mais uma vez salvo.
Novamente Bibi, seu mentor e líder lhe agracia a famosa medalha “zobra”, de prata, símbolo da luta contra aiatolás. Por uma razão estranha, nem explicada por Negroni, o Castanho, Bibi havia sido convidado para formar outro governo…embora tenha perdido a eleição. Coisas de Israel…
Negroni desaparece no horizonte prometendo novas aventuras contra os terríveis habibes.