O TEMPO E A VIDA
O tempo e a vida são lineares. Passam, não
voltam mais.
O tempo continua, para frente. A vida
acaba, de repente.
Quando se vive a vida, se vive com um “script”,
um enredo, com personagens que se interagem, amam, se conhecem ou se tornam
conhecidos. O enredo traça a história, os amores e desamores, sempre para a
frente. Não há “flash back”.
O tempo brinca com a vida que passa ao
largo. De novos, ficamos velhos, de perto, ficamos longe, de gostos mudamos e
de amores trocamos. O enredo não se repete. Só é executado uma vez. É como um único
trem. “All aboard”! Se perder, não voltará mais, seguirá em frente.
Há empatia entre os seres que vivem este
drama linear. Por alguma inexplicável razão achamos que já os conhecíamos. Por
uma razão, mais estranha ainda, achamos que vamos vê-los, de novo, no tal de
“after life”.
Mas o enredo, único em sua história, único
em sua performance, poderá existir em livros, em relatos, até no boca à boca
dos que ficaram ao lado, dos que ficaram depois que o show acabou.
Mas a vida, extinta, não registra mais
nada do que foi. Já era.
Do outro lado, na estação do trem que
ainda está por chegar, um novo roteiro é formado. Uma nova história será
escrita. Uma outra linha do tempo, com sua natural relatividade, ali estará, na
mesma direção, sempre para frente.
No novo roteiro, papéis diferentes para
partícipes antigos. Todos acharão que se conhecem, todos acharão que há um “deja
vu”, intrínseco, inexplicável.
Mas não são os mesmos rostos, os mesmos
nomes. Na verdade mal se conhecem, no início. Às vezes nem bem se dão. Mas já
foram de um roteiro antigo, que jamais se lembrarão. Este novo “script”, tem
também sua linha do tempo. Alguém terá de conquistar um amor. Seria este, o
amor passado?
Talvez. Mais certo seria, que nesta nova
história, serão todos amores diferentes, nada como outrora foram.
Quando a vida se foi, o outro lado surgiu.
Deve-se sentir que as vidas extintas se encontrem, se comuniquem. Mas não terão
forma. Não existirão abraços, não existirão beijos. Só a certeza de um amor
comum. Uma empatia mágica. Um momento breve para se ajustar ao novo enredo.
O trem chega, “all aboard” dirá o
condutor. O novo jogo da vida se iniciará, não sei aonde, quando ou em que
teatro.
O tempo emparelhado seguirá em frente.
Somente existirá a certeza de que ele, o tempo, continuará, mas o show...
este... certamente terá um fim.
Gostaria de escolher meu papel. Talvez
tenha até escolhido o que presentemente performo. Mas como o tempo que passa,
minhas linhas se acabam e as outras, que estão por serem escritas, contarão uma
outra história.
Nesta, não sei quem serei.
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