segunda-feira, 25 de maio de 2020


ERA IMPRESSIONISMO?

Dizem que pintava…tudo.
Mas nada pintava.
Na tela mal se via uma linha, uma pincelada, um pingo de tinta. Até rabiscos faltavam.
Já a havia assinado. Isto ele soube fazer. Enquanto a inspiração não vinha, assinou-a, e…caprichou.
Mas a tela, hora após hora, nada agora, nada depois.
Pensou em desistir. Quis que a noite chegasse. Esta, escura, lhe seria mais dócil. Um pincelar negro, um piscar de estrelas em pingos argênteos. Entusiasmou-se.
Teria chegado o sonho, a visão?
Mas a noite chegou e a tela branca ficou…assinada.
Na eletrola colocou um LP antigo. O som era lindo. Viu Starry Night em música, ouviu Van Gogh traduzido em sons macios, sentimentais, lânguidos. Viu os pincéis bailarem na paleta vazia.
Abriu um Jack. Sorveu-o direto do gargalo em goles trôpegos, engasgantes. Deixou-se flutuar no som divino e no álcool inebriante. Em espirais sua mente turbilhou. Havia cores em seus olhos fechados. Centelhas pulsantes em volutas gregas. Lábios acesos, luxuriantes, umedecidos. Um baton de um carmim intenso, um jato de sangue esfuziante. Espalhavam-se na tela como os óleos da paleta seca. Borravam, dançavam, esculpiam piruetas em tintas coloridas.
Ousou abrir os olhos…a tela continuava nua, assinada.
Desesperou-se. Em gemidos depressivos contorceu-se. Enrolado em tosca manta sentiu o frio da decepção. A noite se acabava e a tela não mudava. Muda ficava…muda estava.
O cannabis na mesa o convidava à reflexão. Não aquela do quadro mudo, mas aquela da viagem à mundos que, se ainda não vistos, se materializariam em sua tela desnuda. Bastava experimentar…quem sabe com o ácido que o levaria ao Nirvana? Não hesitou…
Do Jack ao ácido, do cannabis ao sonho, a visão lhe chegou.
Em pinceladas frenéticas e puntilistas cobria o tecido vazio. Em girassóis insanos se perdia nos movimentos enlouquecidos, palpitantes. O rufar de tambores selvagens, o pulsar de corações frenéticos, o entrelaçar de corpos desnudos, o sexo louco, despudorado, o desfalecer dos sentidos refletidos no pano que lhe recusava a forma.
Sentiu-se partindo. A noite havia voltado. Voltado em sua mente já turva e confusa.
Lutou por um momento de luz, de lucidez, de claridade…
Seus olhos entreabertos lhe deixaram ver, por um breve instante, sua mais intensa obra de arte. Do impressionismo que queria ficou-lhe somente a impressão.
A tela continuava vazia…assinada.
Morreu.
Alí, caído, o corpo inerte em estertor único e último moveu-se em um fibrilar descontrolado. Sua trêmula mão, o pincel, as tintas, as cores entremeadas, rodopiaram na tela vazia.
Foi realmente seu melhor quadro…
Pena que nunca o viu…


SONHO DE ARQUITETO



O projeto perfeito, a publicação na melhor revista, o prêmio de arquitetura, a mostra na Bienal. Sonhos de um arquiteto jovem, ainda estudante, com vontade de mudar o mundo.

Vestibular, trote de calouro, cabelos pintados metade louro, desfile pela Afonso Pena. Eu era o Profumo, aquele Primeiro Ministro inglês que fez o que a maioria deles fazem, sexo  com uma mulher voluptuosa, no caso, a tal Christine, alegria dos tablóides da ilha.

A primeira aula, foi dada por um quinto-anista disfarçado de professor. A turma que mais mulheres tinha, até então, acreditou no que viu.

Um ano antes havia recebido um convite de ilustre médico. Neuro-cirurgião, professor, estava a escrever um livro que necessitava de gravuras demonstrando um procedimento cirúrgico.

Eu era bom de pena, bico de pena neste caso. O dinheiro que ganharia dava para poder estocar muitas cervejas. À estas alturas já havia abandonado meu hábito por coca-colas.

Estudei o texto, vi outras gravuras semelhantes e parti para o observatório da sala de operação no hospital. Arranjei minhas penas e papel e, de cima, fiquei à observar.

No início tudo bem. Com paciente embrulhado em lençóis e com a cabeça raspada  passaram-lhe à desenhar formas geométricas em seu crânio, com compasso e tudo mais. Até aí nada demais. A retirada do tecido descolado  já me deixou um tanto estranho. Dois furos com uma furadeira pioraram a situação.

Num determinado momento surgiu uma serra elétrica. Com seu ruído enervante aproximou-se das linhas marcadas, um pedaço de osso foi retirado e o cérebro exposto. A visão daquela coisa meio cinza, meio avermelhada pelo sangue, foi o suficiente para meu estômago virar como uma roda gigante, em alta velocidade.

Abandonei minhas belas penas e sem pena do que iria acontecer fugi para não mais voltar.

Cheguei à Escola de Arquitetura com fama de desenhar bem. Apesar do fracasso do ano anterior todos compreendiam que arquitetos não são muito fans de sangue, gostam mesmo é de coisas belas, mulheres, por exemplo, mas inteiras, sem cortes de serras elétricas.

Fui logo convidado para fazer parte de um time com o pessoal do quarto e quinto anos. Haveria uma competição para selecionar o trabalho que representaria a Escola na Bienal de Arquitetura de São Paulo.

O ambiente era intenso. Os trabalhos mantidos em segredo e as horas eram contínuas na Escola onde nunca se dorme. Às vezes nos encontrávamos no telhado para fumar ou beber uma cerveja, entretanto acho que a verdadeira razão para o fuzuê eram as belas garotas do prédio em frente, que se despiam regularmente às onze. Certamente serviriam de inspiração à obra em criação.

Não ganhamos. Ficamos em segundo e segundo não conta. O que realmente contou foi a vontade de um dia estar lá, em São Paulo, com um trabalho assinado.

Com o tempo percebi que para fazer arquitetura de alto nível teria de sair do Brasil.  Fi-lo um ano após formado. Ainda sonhava com trabalhos publicados, sonhava com a Bienal.

Consegui o que queria especialmente após ter alguns projetos selecionados para a World Architecture e isto talvez tenha levado a direção da Sala a me convidar para expor na mostra do ano 1999. Achei que teria finalmente meu sonho realizado, mas não foi bem assim.


A comissão julgadora selecionou três dos meus projetos: o Allen Theater em restauração, Dayton Daily News a mais moderna oficina gráfica até então e a sede da Applied Industrial Technologies. Me deixariam muito felizes se não fosse o fato que a Bienal os listou como obras de um arquiteto estrangeiro.


Não fui reconhecido como brasileiro que era, recebi o certificado como arquiteto americano, que não era. Não foi bem o que queria...mas enfim, era um sonho que virou realidade, mesmo sendo sonho de gringo!

Fiquei por lá quase 30 anos. Muitos projetos, muitas publicações e prêmios de arquitetura. Fiz tudo o que queria, até meus sonhos de arquiteto.




domingo, 17 de maio de 2020


      SALTOS DO GUAIRÁ        SETE QUEDAS


Maravilhas que não mais existem.

Dezenove saltos que agrupados em sete deram o nome, no lado brasileiro, de Saltos das Sete Quedas.
Era o conjunto de cachoeiras mais fantástico do mundo. Duas vezes mais volumosas do que Niagara Falls, com 13.300 m3/segundo despejando um rio em um cânion de 4 km de extensão com profundidades incríveis, entre 140 e 170 metros.

Deixou de existir… Mas, não antes de levar 32 turistas que lá estavam para vê-las pela última vez, partirem para o “after life”, em janeiro de 1982, com a queda da ponte (pinguela) Presidente Roosevelt.
Guairá, em tupi-guarani, “o intransitável”, “além do que não se pode passar”, um bom nome para uma cachoeira que, de tão portentosa, rugia em suas entranhas produzindo sons audíveis até 30 km de distância.
Quando a Terra ainda tinha a Pangea como maior massa continental, houve nela uma ruptura tectônica há cerca de 130 milhões de anos quando o extravasamento de lavas vulcânicas basálticas, fundidas em grandes profundidades subiram à superfície através de fraturas de distensão, provocando o derramamento de material vulcânico em camadas diversas e sobrepostas.

Esta atividade gerou uma divisão criando terras que corriam para o mar à leste e o restante, para dentro da América do Sul, por onde correm os rios Paraná e Iguaçu, formando um conjunto de quedas d’água gigantesco e de beleza incomparável. A foz do Iguaçu, que ainda existe e as Sete Quedas submersas pelo lago da Usina de Itaipu, na tríplice fronteira Brasil/Argentina e Paraguai, são uma expressão fantástica da natureza e dos feitos do homem.

O rio Paraná que caía em si mesmo ao longo dos quatro km do cânion formado por uma fratura basáltica gigantesca, transformou-se em um lago. Hoje, em períodos de seca e quando a Usina Hidroelétrica verte suas águas ressurge parte das quedas num espetáculo estranho no meio do lago.

Fica aqui um registro para a posteridade. A memória do homem é curta, infelizmente.


sábado, 2 de maio de 2020


COQUINHO



Você me disse que só queria viver 40 anos.
Linda que era, não queria envelhecer…
Mas o tempo lhe fez bem.
Mais linda ficou, mais sábia, mais mulher.
Me deu outros trinta.
Que bom.
Que saudade.
Parabéns meu amor, hoje é seu aniversário…
Seria setenta e quatro…