sexta-feira, 30 de novembro de 2018


SABIÁ NA PORTEIRA
sabia-barranco

Fez seu ninho.
Em um vaso pequeno, redondo, de cor anil…
Cantava feliz, seu canto um encanto, no canto da porta, ali perto, pertinho, do meu violão.
Olhei para ele e ele para mim, bravo ficou, seus filhinhos pelados, ao lado, pedindo comida,pedindo carinho.
Eu lhe disse que não…
Não queria seu ninho, não queria aquela braveza, com certeza.
Pois o sabiá que cantava, me encantava, com uma música tão doce que a minha viola ficava sem fala…
Volte pro ninho, volte meu sabiá, não deixe seus bichinhos com fome ficar.
O tempo vai passar pois agora eu sei que dois mais sabiás vão me ensinar,
No meu violão tocar,
As notas macias de lindos bichinhos que vieram ao mundo para…
No meu coração ficar.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018


100 ANOS

Hoje, há 100 anos atrás nascia ADOLPHO Saturnino Gilberti (carinhosamente chamado de LoFraks)
Figura ímpar, pai maravilhoso, deixou saudades
Aonde estiveres, sejas feliz, meu pai!
29 de Novembro de 2018

domingo, 25 de novembro de 2018


A CASA VIVA

Eram três. Amigos de infância, irreverentes, corajosos. Eram impossíveis…
Na escola um problema certo. Em casa um horror. Bagunçados, desarrumados, viviam à falar sobre o sobrenatural. Uma curiosidade mórbida que florescia em suas mentes. Não tinham medo de nada.
Quando passaram à ler, liam histórias de terror. Não era à-toa que gostavam de Poe. Viam no retrato de Dorian Gray um pouco deles mesmos. Eram capazes de fazer um pacto com o demônio somente para descobrir se o outro lado era tão interessante como achavam.
Aos domingos iam à igreja, uma capela barroca do século XVII, com cemitério e tudo mais. Em sua nave principal os jazigos daqueles que pagaram para morrer mais perto de Deus, como se aquilo fosse realmente garantia do paraíso. Lá fora, em ruínas, o cemitério mal cuidado, mausoléus em despreparo, cruzes e caveiras de ferro fundido.
Gostavam de ir ao campo santo pois ali acharam um túnel subterrâneo que levava à uma cripta com ossos humanos empilhados desordenadamente. Isto era, para eles o máximo. Mas, embora aterrorizante, não os amedrontava. Queriam algo mais misterioso, perigoso, desafiador.
Seu professor de história gostava de coisas inexplicáveis. E foi por ele, o professor, que souberam da casa da fazenda de um Coronel. A casa, abandonada há anos, se situava nos arredores da pequena cidade onde viviam. Fora a sede de um pequeno sítio de férias de um homem importante, fundador da cidade, morador da capital e que mantinha um vínculo saudoso com o local de seu nascimento. Mas um homem de reputação ruim.
Contava o professor que o tal Coronel era mau, muito mau. Casou-se muitas vezes, todas as esposas faleceram e isto aconteceu naquela casa. Quando o dito Coronel morreu, não se sabia da forma em que partiu. Sabia-se que não mais existia. Foi reconhecido numa tarde na varanda da casa e, no dia seguinte, simplesmente sumiu. Nunca mais foi visto, daí suporem que havia morrido.
A casa em despreparo foi vítima do tempo. Era também considerada assombrada. Diziam que as almas das falecidas ali estavam presas num vórtex temporal. Clamavam por vingança. Ouvia-se o choro de mulheres nas noites sem luar, um choro triste, um lamento pungente, um grito desesperado, sufocado.
Os habitantes do local evitavam dela se aproximar. As histórias que contavam induziam ao medo e medo era aquilo que os três não tinham, isto é, até o dia em que fizeram um pacto…dormiriam naquela casa e lá ficariam. Prometeram aos espíritos das trevas que se o fizessem seriam por eles recompensados. Queriam ouro, as riquezas que diziam estar escondidas naquele lugar. Queriam a fortuna do Coronel. Prometeram suas almas, ali nas catacumbas do cemitério em uma noite de Halloween, na frente dos ossos insepultos.
Irreverentes que eram, prepararam uma deliciosa matula. Levaram até uma garrafa de aguardente. Pensavam em fazer como o preto-velho lá do centro de umbanda, ofertando a raivosa aos espirítos do além. Viam nisto uma oferenda de paz caso as almas penadas daquela casa se fizessem de aborrecidas.
Na escola havia uma bela loirinha de olhos azuis. Filha do prefeito, era toda arrumadinha mas tinha um espírito leve. Gostava dos três, gostava da imaginação deles, gostava da ousadia. Não foi adversa ao convite para passar a noite na casa assombrada. Muito pelo contrário achou a ideia incrível. Já havia visitado a cripta com eles e não se assustado com o que viu. Eles, achavam nela a diva que deixava seus corações à sonhar. Qual deles seria agraciado com um beijo? Talvez algo mais? Quem sabe? O certo e que ela somava, alegrava, trazia um ar de sensualidade à missão tenebrosa para a qual se haviam proposto.
A noite era escura. Chovia, e muito… Uma chuva densa, contínua, aborrecida.
Quando lá chegaram quase não viram a casa. Estava coberta por uma neblina densa.
 Escura, triste e abandonada a casa os chamou. Sem aviso algum sua porta principal abriu-se como num convidar para uma festa. Velas que não sabiam existir lá estavam, acesas, tremulantes, à desenhar formas e sombras. Sombras que lembravam pinturas da Divina Comédia de Dante Alliguieri, dançando em um frenesi louco num inferno ardente.
Acharam o cenário ainda mais excitante. Somente a companheira assustou-se.
Intrépidos que eram, logo racionalizaram a estranha e inédita recepção. Era certamente a obra do pacto que fizeram. Os seres das trevas lhes desejavam sucesso. Aninharam-se no empoeirado sofá da sala.
As horas passavam lentas, talvez mais lentas do que seria normal. Por uma razão estranha, ali, naquela casa, o tempo não mudava. Mas algo incontrolável se transformava nas entranhas da edificação.
Não era uma casa grande. Havia uma escadaria imponente que levava ao segundo andar, sob a mesma uma outra, estreita e escura conduzia a um porão de pedras em arcos, mofado, fétido.
Exploravam o segundo andar quando a bela loirinha sentiu algo tocar-lhe nos ombros. Voltando-se rapidamente teve a sensação de que as paredes se aproximavam. Era como se o corredor estreitasse e o papel de parede vitoriano estivesse em movimento. Mas, fixando os olhos na penumbra que envolvia o comodo, não teve certeza do fato. Talvez fossem as imagens trêmulas causadas pelas chamas das velas. Aliás, estas se espalhavam por todos os lugares. Jurariam que havia mais velas acesas do que quando na casa entraram.
A noite não terminava. O relógio parado às doze.
Mais longa ficava, mais estranha, mais lúgubre.
Gemidos, no seu início tímidos, se faziam ouvir. Parecia que saiam das paredes. O volume aumentava e com ele soluços dilacerantes, e, enfim uivos e gritos ensurdecedores. Naquele momento sentiram medo. Um medo real, profundo, avassalador, devorante. De quatro amigos, sobraram três. O mais novo havia desaparecido.
Correram para o andar térreo. Tentaram sair pela porta da frente, mas esta não abria. Todas as janelas haviam se fechado, todas trancadas. Reunidos em frente à lareira seguravam os ferros de atiçar.
As paredes da lareira se fechavam e braços enormes saiam das pedras envolvendo-os num abraço demoníaco. Lutando tentavam se safar quando o corpo do amigo mais novo foi expelido de sua fornalha. Estava totalmente descarnado.
No pânico que lhes dominava lembraram-se das orações que ouviam quando iam à capela. Rezaram e o fizeram em bom som. Por um breve momento tudo parou. O relógio da sala continuava às 12 horas.
Mais recompostos tentaram analisar a situação. Buscavam uma solução, choravam pelo amigo perdido. Ofereceram a matula, a aguardente. Queriam acalmar os espíritos.
Um vulto em uniforme militar, com um sorriso diabólico surgiu saindo das paredes da casa. Era como que se a casa estivesse viva. Era como que precisasse de se alimentar. As almas das mulheres que ali faleceram se desenhavam em suas paredes. Dançavam uma dança de bruxas, rodopiavam e de suas mãos saia um sangue negro que tingia o assoalho.
O vulto militar comandava o espetáculo dantesco. Pequenos duendes pululavam ao seu redor. Seguravam potes cheios de ouro, colocavam-nos a seus pés.
O som de uma versão louca de Carmina Burana se fazia ouvir. Taças de vinho, cheias de sangue brindavam demônios.
Veni, veni, venias
Bibit servus
Bibit velox
Bibit piger
Bibit demus
Bibit anus
As criaturas se descolavam das paredes e se aproximavam. Cercados, não podiam mover. Cercados, se sentiram paralisados, cercados, sentiram seus corpos desmancharem. Descarnados, foram devorados.
Na casa de esposas mortas, na casa de um déspota do passado morreram, todos os quatro. Seus corpos nunca foram encontrados. A casa e seus espíritos deles se havia alimentado. Os seres das trevas cobraram a promessa feita. Lá eternamente ficaram.
Na pequena cidade onde moravam contava-se que a casa, após aquela noite, havia amanhecido mais nova, restaurada.
Era como se tivesse vida novamente.
Ali, à esperar, por alguém, amanhã, no vórtex do tempo…
Alguém que tivesse coragem para ali passar uma noite,
Somente…


sábado, 24 de novembro de 2018


A CÂMARA DO TEMPO

CAPÍTULO UM
O PAPIRO

Era um dia enevoado.
A neblina espessa trazia imagens de um passado londrino há 150 anos atrás.
Havia uma certa tristeza em ver a demolição de Shottle Bop. Linda edificação do século XVII. Ornada, em uma esquina, dois andares, típica de uma Londres de outrora.
Peter Stonehenge sabia disto.
Pelos últimos 20 anos lá estava, toda vez que vinha àquela ilha, para um drink às 17 horas, um folhear pelos livros antigos, um encontrar com o que restava dos grandes exploradores do Império Britânico.
Shottle Bop era um anagrama de Bottle Shop. Uma casa de surpresas, entre shots de maltes irlandeses e antiguidades estranhas. De livros de bruxas à papiros egípcios, de exemplares de penny dreadful à ferramentas usadas em seus contos sanguinários. A faca de Jack, o Estripador, a navalha de Todd Sweeney, o barbeiro demoníaco de Fleet Street, pipetas de Dr. Frankenstein, livros de encantamento e até originais de manuscritos ilustrados por monges da idade média.
Dr. Stonehange sabia que seria a última vez que veria seu local favorito.
A gigantesca bola de ferro fundido usada em demolições oscilou como um pêndulo impiedoso. Um barulho surdo de tijolos, o esganiçar de lascas de madeira estalando e, em poucos segundos, simplesmente uma pilha de amorfas peças do que outrora fora o ponto de encontro “con gusto”, conforme dito pelos antigos arqueólogos frequentadores. A poeira se levantou…no rolar do que restou do magnífico prédio notou, a seus pés, um olho de falcão em cristal e ônix… o olho de Horus. Colocou-o em seu bolso pensando…nada existe por acaso…
Lembrou-se que havia ali estado no verão passado. Comprara um dos livros feitos à mão pelos monges de um monastério grego. Nele havia citações sobre uma estranha sala ainda não encontrada na piramide de Gizé. Pensou em ali voltar e tentar achar o papiro mencionado no tal livro. Os monges tinham feito um segundo e misterioso exemplar dando continuidade ao mistério egípcio. Felizmente havia chegado um dia antes da data marcada. Foi o tempo necessário para um ultimo shot de Glenfiddish de 50 anos. Uma joia, diretamente de uma barrica, a de número 27 e, acima dela, em uma prateleira empoeirada, lá estava o outro exemplar dos mesmos monges. Ali, na prateleira, “for the take”…
Comprou-o bem como o restante do precioso malte.
Soube então que seu favorito “hang out” estava fadado à demolição.
Tudo muda neste mundo de hoje, até a alma tradicional dos britânicos, talvez o último dos povos a sucumbir às trivialidades do mundo moderno. Ele, um arqueólogo, sabia disto mais do que ninguém.
Peter Stonehenge formou-se em arqueologia em Yale. Era estudioso. Embora conhecedor de paleontologia em detalhes, gostava mesmo era de egiptologia. O Peabody Museum era para ele uma fonte inesgotável. Ao longo dos anos explorações patrocinadas pela universidade havia gerado um acervo incalculável, não somente material mas também intelectual, através de seus eméritos professores. Dr. Stonehenge os tinha como mentores queridos.
Stonehenge não era casado. A mulher que sempre amou faleceu em um acidente. Nunca amou de novo.
Amava sim, arqueologia. Os livros que descobrira traziam algo nunca antes explorado…Traziam indagações para as quais ainda não havia respostas.
Parou por um segundo, de seu container de prata bebeu um gole do precioso single malt e, fazendo uma última homenagem à querida Shottle Bop, voltou ao seu quarto de hotel.
Não quis esperar por nada. Assim que chegou abriu o livro. Folheava suas deliciosas páginas cheias de desenhos em carmim e ouro. Entre citações gregas e romanas encontrou, em sua página 126 um texto em hieróglifos. Junto, um pedaço de um papiro, nele figuras de Hórus, em ouro, o Deus falcão, homem-falcão, Deus do céu. Os cartuchos continham Hórus duplamente, e isso era uma novidade. Hórus em dupla refletia Khufu ou Quéops, o grande e implacável faraó que reinou entre 2589 a.c. a 2566 a.c. Olhou para sua mão esquerda. Seus dedos brincavam com o olho do falcão, amuleto favorito dos reis egípcios e pensou…
“Por quê Khufu e duas imagens de Hórus? Por quê tinha o amuleto? O acaso existe?”


CAPÍTULO DOIS

O ENIGMA DE HÓRUS

Hórus o Deus homem, o falcão dos céus, tinha seu corpo composto por matérias preciosas. Era dotado de um poder de transformação. Diziam que suas lágrimas poderiam gerar o surgimento de seres e minerais. Em sua forma maior era Ra, o Deus Sol, quando ostentava o disco de ouro sobre sua cabeça.
Hórus era filho de Osíris e Ísis. Seus olhos representavam o sol e a lua. Perdeu um deles, o olho da lua, em batalha contra Set. O olho da lua era usado como amuleto nas coroas dos faraós. Aquele, em suas mãos, era certamente de uma coroa faraônica. O olho mítico continha poderes sobrenaturais.
“Mas por quê Hórus estava presente no cartucho encontrado no livro dos monges? E, por quê o cartucho duplo?”
Dr. Stonehenge se aprofundou na análise do papiro. Em Yale consultou um de seus professores, especialista em hieróglifos e, para sua surpresa, o texto ali encontrado revelava duas interpretações diferentes. O processo de tradução já era feito com auxílio de inteligência artificial. O texto era escaneado e comparado com um banco de dados contendo diversas interpretações para cada símbolo e sua interação nas frases subsequentes. Os monges o haviam traduzido na forma antiga. Não deram valor ao cartucho duplo. Pelos monges, o texto descrevia a chegada de alguém próximo a Khufu ou Quéops, o construtor da maior pirâmide. Quéops era o segundo faraó da IV dinastia. Dizia-se filho de Ra, na sua forma de falcão com o disco solar. Teve uma filha, Hetepheres II, bela e incontrolável. Construiu a maior pirâmide para ser sua porta de entrada no “after life”, uma obra perfeita com 146 metros de altura, feita de 2.3 milhões de blocos de pedra, cada um pesando cerca de 2,5 toneladas.
A pirâmide continha duas câmaras principais. A chamada câmara do rei, onde foi encontrado seu sarcófago de pedra e outra menor, erroneamente chamada de câmara da rainha. Esta, entretanto, fora enterrada em outro monumento, fora da pirâmide. Uma terceira câmara se situava nos subterrâneos da estrutura.
O papiro contava, em sua primeira interpretação, que o faraó, após sua morte, reinaria em um mundo onde encontraria seus inimigos sumérios e nele enfrentaria a batalha de todos os tempos. Dizia também que um outro filho de Hórus apareceria para ajudá-lo à vencer a guerra. Mas parte do papiro estava rasgada e seu professor não conseguiu completar o texto. O mesmo havia acontecido na tradução dos monges.
Entretanto, a inteligência artificial foi capaz de deduzir algumas alternativas para os hieróglifos desaparecidos.
Baseando no duplo Hórus o computador concluiu que era outro Khufu, ou seja um outro eu do faraó, vindo de outro mundo, igual em tudo e capaz de levá-lo à vitória.  
Anexo ao texto existia uma poesia dedicada ao Deus falcão. Contando enigmaticamente a relação de Hórus com Osíris lançava um mistério maior sobre o cartucho duplo.
A poesia seria a chave para a abertura de uma porta que ligaria o mundo dos mortos ao mundo presente. Um mundo de Hórus Ra e Hórus Homem. Um mundo indecifrável.
Assim dizia:
Oh…benevolente Ísis,
Que protegeu seu irmão Osíris,
Que procurou por ele incansavelmente,
Que atravessou o país enlutada,
E nunca descansou antes de tê-lo encontrado,
Ela, que lhe proporcionou sombra com suas calças,
E lhe deu ar com suas penas,
Que se alegrou e levou seu irmão para a casa,
Ela, que reviveu o que, para o desesperançado estava morto,
Que recebeu a sua semente e concebeu herdeiro,
E que o alimentou na solidão,
Enquanto ninguém sabia quem era…
Este poema, encontrado em 1400, lido em conjunto com o papiro e racionalizado pela inteligência artificial sugeria que Ísis, mãe de Hórus, protegeu um misterioso outro “eu” do faraó, cujo nome era Osíris. Este, quando encontrado por ela o traria de volta à casa do irmão. Sua chegada levaria o desespero embora e os dois, protegidos pela sombra de Hórus, levariam vitória ao povo egípcio, enquanto ninguém saberia quem era… Vitória sobre os Sumérios, arqui-inimigos da coroa. Deduziu ser o cartucho duplo de Hórus a porta. O poema a chave.
Stonehenge estava estupefato.
Como poderia usar o que tinha aprendido? Pensou em viajar imediatamente para o Egito, ir até a câmara do faraó e procurar por outras pistas que completassem a charada.
Pausou para um café. Na realidade, foi direto ao seu estoque de Glenfiddish. Sorveu duas deliciosas doses. Sentia seus neurônios fervilharem de emoção.
Sentou-se.
Fitava a janela de seu quarto com os olhos em transe. Em sua cabeça passavam imagens de um passado distante. Um mundo de luxúria nunca visto. Um mundo de intrigas e romances. Achou-se jovem, um faraó talvez. Achou-se amando de novo.
Em seu devaneio deparou-se com um exemplar do New York Times. Nele, uma chamada em primeira página…”Haveria uma outra câmara secreta na pirâmide de Quéops?”
Não existem coincidências na história do homem. Tudo que existe lá está por uma razão. A porta, a chave no poema descrita, o olho da lua…

CAPÍTULO TRÊS

A CÂMARA SECRETA

Em novembro de 2017 uma equipe de cientistas internacionais havia descoberto uma câmara com cerca de 30 metros de extensão dentro da pirâmide de Gizé. Utilizando-se de uma técnica com emissão de múons a equipe concluiu que estas partículas, que são absorvidas por objetos sólidos, se aglutinavam em um vazio de proporções gigantes. Esta descoberta seria indicativa da existência de uma outra câmara, ainda não conhecida, ao lado da câmara do rei. Como o governo Egípcio descartava qualquer possibilidade de chegar-se a tal câmera através de túneis, restava para a comunidade científica o uso de técnicas menos invasivas para apurar a veracidade da descoberta, tais como raios X ou outros processos sofisticados. Nada havia se habilitado até então.
Era o que bastava para Stonehenge.
Formulou uma teoria…
“Se existiria tal câmara, seria através dela que a alma do faraó partiria para o mundo dos mortos? Se Hórus em sua forma dupla era o Homem e Deus, ao mesmo tempo, aquele que abrisse a porta com sua chave poderia se encontrar em outra dimensão? Para que serviria o olho da lua?”
Decidiu então ir para o Egito, tinha certeza que suas descobertas indicariam o caminho correto para chegar até a nova sala. Era amigo do Ministro das Antiguidades. Certamente obteria dele permissão para entrar na câmara do rei.
Em suas elucubrações estudou sobre a morte de Khufu. Sabia o dia exato. Até o momento em que partiu e foi colocado na cripta. Registrou seus cálculos em seu laptop, tirou o olho de Hórus de seu bolso e beijando-o murmurou… “sei que serás meu amuleto da sorte…”
Na conhecida sala do rei deparou-se com milhares de anos de vandalismo. Afrescos destruídos pelo tempo, relevos desgastados, corroídos . No centro, o sarcófago de pedra e sua imensa tampa. Nada mais ali estava.
Cuidadosamente procurava por algo em suas paredes que indicasse as duas figuras de Hórus.  Havia deduzido que os cartuchos representavam o local da porta. O poema era a chave. “E o amuleto?”
Estudando a orientação da sala em relação ao conjunto das três pirâmides observou com mais detalhes a parede que se situava à oeste do rio Nilo, na direção do sol poente. Com seu GPS traçou as coordenadas da constelação de Órion deduzindo a diferença no alinhamento da terceira pirâmide. O resultado o levou a uma surpreendente descoberta.
Com uma lanterna à laser traçou o caminho do sol poente no escuro da câmara. Em seu computador havia deduzido a posição do sol no ano 2778 a.c. bem como a hora em que a tumba de Quéops foi cerrada. Interpolou o feixe de luz e…bingo!
Na parede suja e desgastada o feixe luminoso reluziu sobre dois cartuchos, quase imperceptíveis, de Hórus. Ali estaria a porta…
Em Yale, Stonehenge havia pedido aos seus professores que o ensinassem a ler o texto do poema de Hórus em egípcio antigo. Na melhor das hipóteses sairia algo perceptível. Se não soasse como tal, o efeito que esperava poderia não acontecer. Já havia chegado até ali. Pediu aos deuses do Egito antigo que o iluminasse.
Dr. Peter Stonehenge nunca tinha estado tão nervoso.
Declamou o poema.
Por um momento, que pareceu interminável, nada aconteceu.
Subitamente, um som arrastado se fez ouvir. Era como se algo imóvel, estático, imutável, parado, resolvesse sair de sua inércia eterna. A parede se abriu entre as juntas de dois blocos enormes. Uma abertura tímida, mas capaz de permitir passagem para uma pessoa, se fez presente.
Havia luz do outro lado. Uma luz azul, etérea, móvel, pulsante.
Stonehenge adentrou o espaço. As pedras se fecharam…

CAPÍTULO QUATRO

A CÂMARA DO TEMPO

A câmara era linda, mas vazia.
Nas paredes somente baixo-relevos contando a história dos feitos de Khufu. No seu ponto mais oeste uma inscrição estranha.
A luz azul era suave e oscilante. Dançava como chamas de uma vela, gerava sombras nos relevos, criando imagens diferentes, fazendo com que as inscrições do fundo da câmara projetassem novos e estranhos cartuchos.
Estudou os hieróglifos. Seu laptop lhe serviu bem.
Conseguiu deduzir que o texto representava uma mensagem ao faraó. Uma passagem do livro dos mortos. Indicava-lhe o que fazer.
Stonehenge traçou os primeiros momentos do faraó após o fechamento da tumba. Sua alma adentrou a câmara secreta através do portal. Lá, o faraó retirou um amuleto de sua coroa, o olho de Horus e o levou ao extremo oeste da sala. A depressão no canto direito da pedra maior era na forma do olho. Este, quando lá inserido, levaria sua alma ao mundo dos mortos. Era o token de Charon, o óbulo do barqueiro do rio Styx, como veio a ser conhecido na mitologia grega. Bastava confirmar…
Com suas mãos trêmulas Dr. Peter Stonehenge colocou seu olho de Horus na depressão.
A luz azul intensificou seu brilho.
As paredes da câmara pareciam transformarem-se em uma gelatina azul, tremulante, etérea. Ao tocá-la Stonehenge sentiu-se desmaterializar.
Desfaleceu.
Ao acordar o sol estava alto. O dia radiante.
Um tapete vermelho se estendia da base da grande pirâmide a um caminhamento flanqueado por colunas em granito preto. Entre elas, sentado em um corpo de leão, efígies de Quéops.
Tudo era perfeito. Não existiam ruínas, Era um mundo vivo, na terra dos mortos. Era um mundo onde ele, Stonehenge era um vivo do mundo dos vivos em um lugar no after life. Era um mundo, um universo paralelo, onde o tempo não mudava, somente estava.
Era um mundo onde Quéops reinava e ele, o faraó, era idêntico a ele mesmo, Stonehenge…
Guardas imperiais perfilavam. Trombetas espiraladas anunciavam a chegada de um nobre. O rufar de tambores, em ritmo pulsante, o reluzir do ouro, a liteira suportada por 50 escravos núbios em passos constantes, perfeitos no tempo, perfeitos na forma.
Sentiu que o esperavam. Sentiu que ali pertencia.
Aliás, desde que havia se transladado àquele mundo sentiu-se despir de seus conhecimentos, até de suas próprias vestimentas. Ouvia egípcio, entendia e para sua surpresa…falava.
Do outro lado da colunada aproximava-se Quéops em sua liteira. Totalmente ornado em ouro, segurando o cetro do alto e baixo Nilo, com uma coroa cônica. Na sua frente, o olho de Hórus. Representava Ra, o Deus sol, falcão-homem, divino e imortal. E era a sua imagem e semelhança.
O som dos passos cadenciados pelo rufar dos tambores, as trombetas em agudos fortes e o staccato final geraram um momento de expectativa, pompa e grandiosidade. Khufu desce de sua liteira, aproxima-se de Stonehenge e o abraça.
Estava esperando por ti irmão. Agora, a profecia se realizará. Bem vindo filho de Hórus em tua forma de homem. Bem vindo irmão prateado. Que a luz de nossa mãe , a Lua, te ilumine, que o os raios de meu pai, o Sol, te engrandeça.”
A câmara secreta era a porta do mundo dos mortos. Um outro universo onde o tempo estava e não mudava. Onde as almas do mundo dos vivos completavam suas missões para volta gloriosa ao mundo de antes, sob as bençãos dos deuses, num tempo imutável, paralelo, sofismático e paradoxo.
Stonehenge era um vivo no mundo dos mortos. Era o próprio faraó Quéops, na sua forma dupla, Quéops-Khufu, sob o ar das penas de Hórus, sob os olhos do Sol e da Lua.
Stonehenge era a profecia se tornando realidade, era a glória perdida, a vitória almejada, o caminho da reincarnação.

CAPÍTULO CINCO

OURO E PRATA

Vestiram-no de prata.
Ornado, maravilhosamente iluminado, Stonehenge era a cópia exata de Khufu. Uma cópia em prata de um faraó em ouro.
Juntos subiram na liteira. Os 50 escravos núbios se levantaram e, ao som das trombetas e o marcar dos passos partiram para o palácio do rei.
Seus aposentos eram decorados com objetos argênteos. Até os tecidos eram prateados. Situava-se oposto aos aposentos dourados de Khufu. Entre eles o quarto de sua filha Hetepheres II.
A arquitetura de Memphis era representativa do havia de melhor à época do Egito Antigo. Fundada por Menes por volta de 3000 a.c. teve sua glória maior durante o reinado de Khufu. Ali, subsequentemente, foram construídas as grandes pirâmides e foi a capital do Grande Império até o surgimento de Thebas durante o Novo Império.
Stonehenge a via como havia sido. Perfeita, encaixada no delta do Nilo, esplendorosa. Praças e esplanadas com escadarias em mármore e granito, do porto aos grandes muros, destes aos monumentos e dali às edificações.
Colunadas gigantescas, estátuas de deuses e faraós, escadas e monólitos em uma procissão de eventos que levavam a pompa e circunstância dos homens aos pés de seus deuses antigos.
O quarto onde estava, todo em prata, era cercado por colunas de cinco metros de altura. Seus capitéis, em cores, tinham a forma de um papiro aberto, seguravam um entablamento trabalhado em frisas contando a história de Hórus e suas formas divinas. Estas suportavam enormes vigas de pedra e madeira formando um teto folheado em prata e decorado com desenhos e figuras em um vermelho intenso.
Atravessou a enorme porta que o levava a uma ante sala com uma mesa central. Nela, meticulosamente arrumado, frutas e flores.
Observava tudo com avidez e espanto. Sentia-se cada vez mais egípcio. Mais perto daquela época, mais identificado com seu outro eu. No imerso de seus pensamentos nem sequer notou que ao seu lado se encontrava a figura esplendorosa de uma mulher. Quando a olhou não acreditou no que via.
Hetepheres II, a filha de Quéops, ali estava. Linda, suave, deslumbrante.
Hetepheres era a imagem perfeita de sua amada Hattie, aquela que havia perdido em um acidente. Era ela, de novo, em sua frente, tão real quanto a última vez que a tinha visto. Ali, no mundo dos mortos, espíritos se cruzavam, refletindo um passado de reincarnações entre almas afins.
Seus olhares se encontraram. Por um instante o mundo parou e, no estacionar do tempo, se beijaram, num beijo de uma só alma, de um só amor. Eterno como eterno era o lugar. Eterno como a morada dos deuses. Tão eterno, que transcendia os mundos, o passado e o presente, os vivos e os mortos.

CAPÍTULO SEIS

HATTIE

Tinha somente 17 anos. Era linda e delicada.
Stonehenge a viu pela primeira vez, em um salão de baile, vestida de dourado. Lá estava ela, sorrindo, cercada de admiradores. Ele, tímido, se aproximou. Sentiu um mundo estático, o tempo imutável. Sentiu uma paixão tão intensa que inebriado de amor disse-lhe algo, que não mais se lembra, mas algo que tão forte foi que ela o seguiu e não mais o deixou.
Mas o destino tem suas viradas cruéis. Perdeu-a em um acidente inconsequente. Perdeu-a para o mundo dos mortos. Perdeu-a para o mundo de Anubis.
Mas ali estava ela, de novo, mais linda ainda.
Na morada dos que partiram, onde o tempo não tinha tempo para existir.
No momento eterno que se criou Stonehenge pediu que dali não mais partisse. Queria amá-la. Queria possuí-la. Para a câmara prateada a conduziu, fizeram amor com intensidade tamanha que parecia existirem em um só. Um momento eterno no eterno da eternidade.
Estava feliz.
Hattie lhe contou sobre Khufu, da sua espera pelo seu lado da lua. O Deus Sol havia partido do mundo dos vivos. Ali, na eternidade dos tempos existia para cumprir sua missão e poder voltar, reincarnado. No universo dos mortos os feitos da Terra se entremeiam com o destino daqueles que se cruzaram em ambos os mundos. Khufu tinha contas a acertar com Mesalin, rei sumério, seu arqui-inimigo.
Mesalin controlava seu império em Kish, cidade jardim, esplendorosa, perto de onde mais tarde seria Babilônia, às margens da confluência do Tigre com o Eufrates. Em suas idéias hegemônicas Mesalin se aventurou em direção à terras egípcias. O confronto seria inevitável, porém ambos, Khufu e Mesalin morreram antes da batalha final. Levaram sua rixa ao mundo dos mortos. Ao mundo de Anubis. Lá se preparavam para a mãe de todas as batalhas. Aquela que decantada em baixo-relevos era a profecia de Khufu.
O grande faraó, filho do Deus Sol, Ra, sob as penas de Hórus e a proteção de sua forma humana, o Deus da Lua, em prata, destruiria o invasor sumério, em uma única e cruenta batalha, nos fins do universo.
Khufu esperava por sua alma gêmea. Esperava por aquele momento para poder completar sua missão no after life e voltar ao mundo dos vivos. Seu outro eu viria daquele mundo, não poderia ser destruído no mundo dos mortos. Seu outro eu era Stonehenge.
Hetepheres, olhando em seus olhos, disse:
“Vá querido, cumpra a profecia, honre seu irmão, destrua o inimigo. Só assim, então, poderemos viver novamente, eu e você, meu amor, meu amado, no mundo dos encarnados…”

CAPÍTULO SETE

A MÃE DE TODAS AS BATALHAS

Os exércitos de Khufu eram incríveis. Divididos em batalhões dourados e prateados, liderados por duas divindades, suas linhas eram compostas de uma cavalaria leve, em bigas egípcias, com arqueiros e lanceiros. Batalhões de infantaria com escudos e lanças eram precedidos por arqueiros de longo alcance. Suas espadas em cobre reluzente, suas adagas e couraças em ouro e prata, estandartes vermelho sangue. Um espetáculo impressionante e majestoso. À frente de cada divisão os reis-divindade, Horus do Sol e Horus da Lua.
No mundo dos mortos não mais se morria. Era o domínio de Anubis. Guardião dos túmulos e juiz dos mortos, Anubis ali estava para julgar. Filho de Néftis, a Deusa dos Desertos com o Deus Osíris presidiria a pesagem dos corações pela qual decidiria o destino das almas de seu dono. Ali julgaria o combate final. Este seria destrutivo, doloroso e cruel. Nele corpos despedaçariam, cabeças seriam separadas de seus corpos. Soldados transfixados por lanças e flexas. Mas, apesar de destruídos, não morreriam, simplesmente voltariam ao mundo dos vivos, reincarnados, em suas novas missões, conforme estabelecido por Anubis, conforme o gráu de heroísmo e coragem.
A batalha se deu às margens do Eufrates, ao sul de Kish, em Ur, perto do delta do Tigre/Eufrates. Os egípcios, vindo do leste encurralaram as tropas de Mesalin contra o as margens do rio. Cercados ao norte e ao sul os sumérios partiram para o confronto direto. Sua cavalaria era assustadora. Bigas conduzidas por arqueiros e leões alados. Ferozes criaturas que dilasceravam os cavalos egípcios.
Estes, retrucavam com uma chuva de flexas douradas e prateadas. Eram tantas e tão constantes que, uma a uma, as bigas sumérias foram atingidas. Seus leões alados mortos, seus arqueiros aprisionados.
Stonehenge liderava o flanco sul com seu exército prateado. Sua biga em prata e alabastro em um arcabouço de ébano era magnífica. Ele, que nunca pensou ser um militar, ali estava, em plena batalha, junto aos seus, heroicamente liderando uma incursão incisiva através do meio do exército sumério.
Mesalin não entendia o que via. Havia dois faraós? Era seu inimigo um ser protegido pelos deuses, alguém que poderia se duplicar no campo de batalha? Começou a sentir que estava abandonado por seus deuses. Pensou em se retirar. Pensou em se entregar ao julgamento de Anubis. Porém, naquele momento em que quase desistia, uma lança atirada na direção de Stonehenge encontrou o coração do faraó de prata.
Stonehenge caiu. Enquanto seus olhos ainda estavam abertos viu Khufu avançar pelo lado norte e, chegando perto de Mesalin golpeá-lo com sua espada de ouro. A espada de Khufu trazia a decisão de Anubis.
A batalha terminava com a morte de Mesalin.
Para Stonehenge seu corpo não mais ali estava. Vindo do mundo dos vivos não poderia morrer onde somente os mortos existem. Voltou ao universo que pertencia. Seu corpo desapareceu. Assim como havia entrado pela câmara do tempo, sentiu um formigamento intenso antes de se desmaterializar. Sentiu-se desfalecer. Partiu.
Khufu levanta sua espada e proclama a profecia realizada. Hetepheres, ao longe, sorri. A guerra havia sido vencida pelos egípcios há 2500 atrás, hoje, naquele momento.
O faraó Deus Sol, na sua forma de Hórus, o falcão, havia cumprido sua missão.

CAPÍTULO OITO
NO PEABODY MUSEUM

Dr. Peter Stonehenge havia voltado.
No laboratório de egiptologia fora encontrado. Segurava em sua mão direita o amuleto de Hórus, o olho da lua.
Seus professores, que ali estavam, não acreditavam no que viam. Havia surgido do nada, vestido em uma incrível armadura de prata, articulada e decorada com hieróglifos em lápis-lazuli. Ostentava uma coroa, também em prata, com desenhos em vermelho intenso, incrustrações em ouro e um bico enorme, tambem em lápis. Suas mãos e antebraços cobertos por lâminas de prata articuladas em escamas flexíveis. Seus dedos alongados por tubos de prata e garras em alabastro. O mesmo acontecia com suas pernas e pés. Em volta, nas costas, penas de falcão em leque, interligadas por fios de ouro. Em sua mão esquerda uma espada magnificamente talhada e coberta de sangue.
Era Hórus, em sua forma de homem. Um falcão homem, imponente, incrível, estupefaciente.
Era a relíquia do passado mais perfeita já vista, ali na frente de seus incrédulos mestres. Algo que mudaria o ensinamento de egiptologia e reformularia os dogmas de seus scholars.
Stonehenge sorriu.
Antes de que qualquer pergunta lhe fosse feita disse:
“Amigos, o passado é uma porta que por ela passaremos todos. Lá o tempo não muda. É a morada daqueles que cumprem sua última missão antes de voltar, ao futuro, pela mesma porta. Agora, que isto sei, parto, não para o passado, mas para o futuro onde encontrarei minha amada,  e a amarei,de novo.”
Apertando o amuleto, deixou cair toda a vestimenta, todos os adornos.
Desapareceu em busca de seu amor…

FIM












quinta-feira, 22 de novembro de 2018


SANDICES DO SANDERS


Ahh Bernie…
You are a communist!
Convidar “the brazilian post” para ser parte de uma organização internacional de esquerda mostra pelo menos duas coisas:
-Você é um comunista!
-Você não entende nada de Brasil !
Sinistro!
Você sabia que o mesmo é indiciado em 5 ações criminosas?
Você sabia que é réu em uma delas e certamente o será nas outras?
Passo a suspeitar que existe uma conspiração de esquerda no mundo. Por que se assanhar em defender o indefensável? A esquerda não presta, nunca prestou. Só serve aos seus próprios interesses. E estes, são escusos.
Acha que Vermont é exemplo? De que?
Prefere uma Cuba com médicos de exportação?
Você deixaria médicos cubanos, não certificados nos Estados Unidos, praticar medicina em sua terra?
Ahh Bernie…
Por favor, me poupe!
Guarde suas esquerdas idéias para você mesmo ou as dê de presente para quem gosta. A disléxica Dilma, por exemplo, ou a histérica Gleisi. Quem sabe você deva deixar o Boulos invadir a sua casa? Não quer o Lula para hóspede?
Estude Geografia e História. Nos capítulos da America do Sul veja se consegue localizar o Brasil. Sorry. Sei que é difícil para americanos…
And last, but not least, deixe nosso eleito presidente em paz.
Ele ainda não começou seu mandato.
Give the man some credit!
O seu já acabou!

domingo, 18 de novembro de 2018


O FLAUTISTA

(homenagem ao meu cunhado Paulo, que até hoje toca flauta deste jeito)


Ganhou uma flauta doce.
O som era macio. Notas leves à voar, enchendo os ouvidos em desarranjos que não sabia.
Achou-se o máximo.
Flauteava.
Mas, flauteava sem saber o que fazia. Somente produzia notas que não se achavam entre si.
Na dissonância se achava Mozart.
Pensou que olhavam para ele porque era um músico.
Pensou que era o maestro que jamais havia existido.
Pensou que era um virtuoso.
Mas virtude não tinha.
Somente um bando de deletérios acordes que assustavam quase tudo que vivia.
Sentiu que o seguiam. Teriam, enfim, aprendido à apreciar seu gênio?
No flautear podia se ver seu sorriso maroto de felicidade plena.
Queria saber quem o seguia, até onde iriam. Tinha receio que se olhasse perderia sua mágica concentração, o feitiço do momento.
Andou, subiu, desceu, por campos passou.
Ainda era seguido…
Num ato repentino, de vontade e curiosidade, parou. E virou-se…
Viu…
Todos os ratos da cidade o seguiram…
Por isso sorriram quando passava…
Não era por sua música.

(Nem o pied piper de Hamelin)

sábado, 17 de novembro de 2018


PINTOR QUE PINTAVA


Pintava tudo.
Era um pintor.
Até as paredes que pintava as fazia com amor.
Na loucura de pincelar se perdeu em movimentos loucos, sem sentido.
De início, paredes brancas, no fim, nada, somente latas de tinta…vazias…
Mas, quando o fazia era ao som de um samba. Um samba louco que ritmava movimentos bailantes de um pincel maluco numa paleta confusa.
Pois era um artista.
Cada pincelada um ato de fé.
Cada detalhe, de tão intrincados, ninguém os via…nem ele mesmo.
Não o fazia por dinheiro.
Queria cores em tudo, se sentiu dono do arco iris.
Obras de arte, paredes vibrantes, vivas, pulsantes.
Somente ele, e ele somente, fazia do nada um tudo, do branco, o por do sol, do negro, a luz da lua.
Pintava a água. Difícil, pois movimentava. Pintava o céu, quase impossível, pois sempre mudava.
Pintou a amada, não sentiu nada. Tentou a luz pintar, mas nela, a tinta não pegava.
Tinha brochas, pincéis, espátulas. Paleta de cores mil. Tinha um jaleco surrado que de tantas cores impregnado ficou engomado.
Mas o seu pintar, cada vez mais clássico, se perdeu em Beethoven. Na quinta enlouqueceu.
Pintou tudo. Pintou a si próprio.
Na cadência dos acordes, seu pincel, como uma batuta maestral, desenhava borbulhantes cores que se espalhavam pelo mundo.
Em tintas afogado, deu seu último suspiro.
Como a luz, fruto de todas as cores, desapareceu.
Todas as misturas de cores do mundo, em pinceladas mexidas na luz se fundiram, e nela, o pintor se entregou, e em luz assim se transformou…