domingo, 18 de novembro de 2018


O FLAUTISTA

(homenagem ao meu cunhado Paulo, que até hoje toca flauta deste jeito)


Ganhou uma flauta doce.
O som era macio. Notas leves à voar, enchendo os ouvidos em desarranjos que não sabia.
Achou-se o máximo.
Flauteava.
Mas, flauteava sem saber o que fazia. Somente produzia notas que não se achavam entre si.
Na dissonância se achava Mozart.
Pensou que olhavam para ele porque era um músico.
Pensou que era o maestro que jamais havia existido.
Pensou que era um virtuoso.
Mas virtude não tinha.
Somente um bando de deletérios acordes que assustavam quase tudo que vivia.
Sentiu que o seguiam. Teriam, enfim, aprendido à apreciar seu gênio?
No flautear podia se ver seu sorriso maroto de felicidade plena.
Queria saber quem o seguia, até onde iriam. Tinha receio que se olhasse perderia sua mágica concentração, o feitiço do momento.
Andou, subiu, desceu, por campos passou.
Ainda era seguido…
Num ato repentino, de vontade e curiosidade, parou. E virou-se…
Viu…
Todos os ratos da cidade o seguiram…
Por isso sorriram quando passava…
Não era por sua música.

(Nem o pied piper de Hamelin)

Um comentário:

  1. Nossaaa poderia ganhar uma grana limpando as cidades por onde passava...

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