sábado, 31 de março de 2018


REALIDADE IRREAL


Vivo?

Acho que sim, pois os que me acercam também assim pensam.

Mas se viver, por mais material que seja, é simplesmente virtual?

Um sonho perfeito. Sente-se, acha-se, encontra-se, ama-se e se perde.

Mas já tive sonhos reais. Tão reais que sentia tudo o que se sente no mundo real…

Então, se meu sonho era real, seria a vida real, irreal? Virtual?

Nos universos infinitos vivemos histórias complementares às decisões que tomamos e não tomamos.

Aqui casei, mas poderia não ter casado com ela, mas aquela. Só que casei com ela e também aquela.

Acho que fiquei aqui com ela e no outro universo com aquela.

São ambas reais ou irreais?

Vou deixar a parte quântica do meu DNA decidir. Por enquanto, acho que é real, mas não me surpreenderei se for irreal.

E se eu morri?

Bem, isto é outra história…



sexta-feira, 30 de março de 2018




SUNFLOWER
sunflowers
Vincent VanGogh

Linda…
Em cores que nunca vi.
Em formas que nunca toquei.
Em perfumes que jamais senti.

Linda…
Nasceu no meu jardim.
Cresceu no meu coração,
Apaixonado, à procura de um amado amor.

Bela…
Ela era.
Singela,
Amarela…

Ao sol procurava.
Rodopiava, dançava,
Com o astro rei,
Deixei-a em tela…

Oh…flor mais bela.



sábado, 24 de março de 2018



SUPREMO MENOS


Supremus, Maximus, Supra, Minimus…

Antes indicativo de mais alta corte (minúsculos) hoje Mínimo Tribunal Federal (MTF).

Legisla contra si próprio. Entendimentos colegiados, súmulas publicadas, antes dogmas para todo juiz de carreira, hoje nada mais são do que uma assertiva que a lei não é para todos. É exclusiva, ou seja, inaplicável para quem tem dinheiro e poder. Mas, se você roubou uma galinha…aí, o buraco é mais em baixo. Passível de prisão perpétua, se houver, ou poderá haver ante o despautério de pseudo juízes de notórios??? conhecimentos e ilibada reputação???

MTF, o tribunal de um país onde o crime compensa.

O criminoso julgado e condenado unanimemente está solto.

Solto porque um bando de analfabetos em jurisprudência acatou um pedido extemporâneo durante um julgamento. Jamais algo tão imbecil havia sido perpetrado.

Mas, à julgar pela necessidade de pegar avião, viajar para o exterior, sair para a cervejinha amiga depois das seis, nada como deixar solto um bandido.

Condenados em segunda instância vão para a cadeia em qualquer lugar deste planeta…menos no Pindorama. Aqui todos os bandidos são inocentes. Mais ainda se forem os de colarinho branco, ainda mais se forem políticos e totalmente inocente, se for o tal de “Nove Dedos”. Afinal este, é mais honesto do que Jesus Cristo.

Se querem absolvê-lo, que tal, no dia 4 próximo, logo após a data da ressurreição do menos honesto, argumentar perante o colegiado, que se o meliante é mais honesto do que Ele, pedir-se-ia sua imediata absolvição. É claro que seria com base de que não se pune ninguém que é melhor do que Deus, ou mais honesto…

Se agirem rapidamente poderão pegar outros voos e tomar outras cervejinhas.

Enquanto isso, na terra de Alice no país das maravilhas o chapeleiro maluco toma chimarrão com a rainha de copas em caravanas no sul levando tomatadas na cabeça.

O gato de Cheshire, ou aquele que ri, debochadamente balança sua cabeça…aqui nada faz sentido!

Eta Brasil!!!



sexta-feira, 23 de março de 2018



PAÍS IMORAL

Em vergonhosas manobras, em volutas escuras, em salões de narizes empinados, empertigados, mofados, morféticos, chafurdam os porcos engordados com o dinheiro de outrem em sórdidas mancomunações.

Uma imprensa safada, vendida, ideologicamente rota, dança uma dança de demônios, de mentiras, de manipulações fingidas, tingidas pelo sangue dos pobres e alimentada com o ouro roubado da nação, do surripiar de sua alma, de seus sonhos, de suas vontades.

Políticos podres em alma e corpo, sapos gordos, tortos, deformados, safados e picaretas.

Reis que não são reis, se acham e não se encontram, mentem e não tem vergonha, roubam e nem sequer negam, se julgam vestais nos prostíbulos que os os afagam.

Falsos religiosos, profetas do nada, sugam o dízimo dos que não têm, vendem esperanças que não existem e jamais existirão, abusam dos tolos e dos inocentes.

Todos…

Matam pelo destruir dos sonhos. Matam pelo esvaziamento das mentes, Matam pelo descaso.

Roubam porque se acham no direito de fazê-lo. Tomam porque acham que lhes pertence.

Estupram, violentam, sequestram pelas drogas que vendem. Pelas drogas que difundem, Pelas drogas dos pensamentos podres que incutem nas mentes dos inocentes.

Neste cenário pífio, desolado, desamado, desesperançado, me pergunto:

Tenho em que acreditar?

Acreditar no Brasil?

Nem em sonhos.

Nunca mais…


terça-feira, 20 de março de 2018




A TERRA É CONVEXA

Minha Santa Pelônia!!!

A Terra não é redonda. Não é aquela bolinha azul no universo. 

Não é aquela coisa linda que os astronautas da viagem à lua fotografaram.

A Terra é convexa!!!

Sábios cientistas brasileiros, liderados por um tal Urandir da Dakila Pesquisas provaram que a dita bolinha azul é uma tábua convexa, cercada por montanhas gigantescas de gelo e até, pasmem, um novo continente!

Sábias criaturas, certamente.

Afinal, no país da Mulher Sapiens e do grande Babalorixá de Nove Dedos nossas brilhantes universidades lideradas por esquerdopatas de plantão, são definitivamente capazes de formar cérebros tão iluminados.

Iluminados por lâmpadas de gás, velas, e achatados em uma mesa de autópsia, lubrificados por doses homeopáticas de leitura vermelha e outras do gênero.

Um baseado aqui, outro ali e sete anos depois sai a obra.

Já mereceram uma página inteira do tabloide O Tempo, a de número 15 da edição de 17 de Março.

Se duvidam poderão vê-la (a tal obra) no Cineart Shopping Cidade, pagando 20 mangos.

Primor da ciência brasileira!

De vez em quando algo com um certo grau de luminosidade. 

Outro cientista, não tão desmiolado quanto o defensor da terra plana sugeriu não haver um “big bang”.

Arguia que o universo se contrai e expande, não tendo existido uma grande explosão inicial. Verossímil? Talvez. Certamente mais substancioso intelectualmente.

O que diria Stephen Hawking?

domingo, 18 de março de 2018


MOÇA FANTASMA

Vejo você, mas não a vejo.
Se a visse diria…
Que vi a coisa mais linda.

Se a visse, meus olhos se iluminariam,
De amor, de alegria infinda.
Mas não a vejo…

Pois você é um fantasma, delicioso,
Com um jeito fantasioso,
Sedutor, arrebatador, encantador…

Moça fantasma…
Feita de plasma, de beijos de mel.
Tire de mim este fel.

Que corrói meu coração!


sábado, 17 de março de 2018



APAIXONADO

Era apaixonado…
Amado, amava, em mel se derramava.
Alma boa, macia como a garoa,
Que cobre as manhãs em pálidos tons,
E que se coloria, ardia,
E se perdia, no coração da amada,
Com um sorriso triste, como se fosse nada.

Era apaixonado…
Não pensava senão na bela,
Linda, singela,
E, por ela se mataria,
Se sacrificaria, choraria,
Se perderia, nos braços, nos abraços…
De seus imensos amassos.

Era apaixonado…
Cego ficou.
Não via, nem ouvia…
Somente sentia…
O amor que lhe tomou, devorou, dilascerou…
E… numa noite escura,
Em loucuras de amantes, num louco furor…

Se matou. E ao mundo, não mais voltou…


sexta-feira, 16 de março de 2018


E CONFÚCIO DISSE…

Pensei que tu querias…
Mas não quisestes.
Dissestes querer antes, mas não depois.
Tu não entendes, eu queria, mas não queria.
Por quê tu acharias que se eu queria, teria de continuar à querer?
Mas, pensei que querias…
Por isso planejei algo que achei que irias querer.
Isso de querer está só na tua cabeça…na minha…
Bem, na minha eu queria, assim, assim…
Mas, não queria tanto assim à ponto de continuar querendo.
Não entendi.
Tu não queres entender!
É…deve ser…

Confúcio disse:
Quem acha que de uma mulher entende…
Então não esta querendo entender…

Bem, se ele não disse, digo eu!

Oh… Gafanhoto…


quinta-feira, 15 de março de 2018


JOÃO GALAFOICE

(Ou os mistérios do Boitatá e o Fogo Fátuo)
Salada folclórica para as noites sem lua

Menino teimoso paga prenda…

Eram dois amigos, João Bosta e Zé Titica. Tais desmerecedores apelidos tinham sua razão. Só faziam merda.

Os pais já tinham deixado de acreditar que dariam para algo de bom. Mas, peraltas que eram, daquelas peraltices de um passado que não mais existe, não eram tão ruins assim. Só faziam coisas de moleques travessos, salvo melhor juízo, é claro.

Na velha Vila de Sant’Elmo havia um cemitério. Meio abandonado, com lápides em desreparo, ficava ao lado da Matriz. Seus quase duzentos anos traziam um aspeto triste à algo que outrora fora lindo. Duas torres, uma meio quebrada, beiral de três beiras, significava outrora, dinheiro na algibeira.

Hoje, estava mais para um refúgio de almas penadas do que uma casa onde penitentes fieis, à procura de um perdão, certamente não o obteriam. Não nesta vida, pois era uma cidade pecadora.

Nas manhãs, às seis em ponto, lá estava o vigário, com seu megafone, acordando as preguiçosas criaturas que lá habitavam…Acorda Sant’Elmo pecadora!!... Mas isto em nada mudava. Continuava pecadora.

Sim, pois à partir das seis da tarde, o mundo se virava, de bruços, em orgias regadas à mais fina das pingas locais. E o vigário…chorava, na igreja vazia.

João Bosta e Zé Titica se utilizavam do momento satânico para fazer um pouco mais de suas traquinagens. Iam ao cemitério e violavam sepulturas. No afã de surripiar os valores dos mortos, anéis, dentes de ouro e coisas do tipo, deixavam as tampas dos sepulcros entreabertas. Usavam os ganhos para comprar papel de seda, linha e manivelas para seus papagaios. Mas fins não justificam meios e a dupla estava com seus dias contados para pagar as dívidas contraídas.

Era uma noite particularmente escura. Não havia lua, enevoada, fria e desolada, mas isso, não impedia que os dois pilantras fizessem suas artes. 

Entretanto, o abrir de sepulturas deixava sair o ar impregnado de coisas mortas. No contato com o espaço aberto aquelas substâncias deletérias se acendiam num espetáculo de Fogo Fátuo assustador.

Ante a surpresa, os traquinas fugiram em desabalada carreira. É o Boitatá gritavam, enquanto as chamas serpenteavam e os seguiam por entre as covas puxadas pelo ar que movimentavam. Apavorados tropeçaram e caíram em um dos túmulos. Ali ficaram, escondidos, esperando para o Boitatá passar.

A coisa estava literalmente preta para os traquinas. O céu indicava uma tempestade próxima, relâmpagos eram vistos à distância e as torres da Matriz se acenderam num espetáculo dantesco de chamas azuladas tremulantes, redesenhando seus contornos no negro pano de fundo. A igreja fazia jus ao seu nome. O Fogo de Santelmo se fazia presente num cenário aterrador digno dos portais do inferno de Dante Alighieri.

Com mais medo, abriram o portão de ferro do mausoléu entrando em seu interior. A luz dos relâmpagos mostravam uma passagem localizada atrás do esquife que ali estava. No fundo, bem ao fundo, uma porta entreaberta. Uma luz trêmula, amarelada, contrastava com o brilho azul do Fogo Fátuo e o dançar das labaredas de Santelmo.

Não tendo como fugir os incautos moleques atravessaram o portal…

Do outro lado uma escada estreita os levava aos porões da Matriz. O caminho era antigo mas se mostrava bem utilizado.

Nas entranhas do santuário uma revelação surpreendente. Um grupo de encapuzados, em vestimentas vermelhas e liderados por um negro alto se reuniam em um círculo ao redor de uma mesa de pedra. Cantavam cânticos em um latim profano. Perfaziam um ritual estranho, empunhando crucifixos de cabeça para baixo. Velas vermelhas, centenas delas, iluminavam o espaço fétido pelo mofo dos tempos.

Pensaram em voltar. Mas o medo do Boitatá era maior.

Lembraram dos conselhos da mãe. Ela dizia: “Nas noites escuras o João Galafoice pega os meninos que fogem e eles não voltam mais”

João Galafoice era uma figura lendária. Se rivalizava com o Boitatá. Aparecia nas noites escuras, no Fogo Fátuo dos cemitérios e pântanos. Seguia à procura das incautas crianças que desobedeciam seus pais. E, naquela noite mais escura, as sepulturas violadas, Santelmo à dançar pelas beiras da Matriz, compunham uma conjunção de coisas do demônio prestes à realizar suas indescritíveis maldades.


O líder negro parecia com o Galafoice.

João Bosta e Zé Titica estavam apavorados.

O cântico lúgubre aumentava em volume e cadência.

Ignis Fatuus
Ignis Fatuus
Ignis Sant’Elmus
Qui nos pacis hic peccatum
Anima nostra devorandum

Uma missa negra, encapuzados em um porão condenado pelos espíritos do mal. Maldade, perversidade, insanidade. Uma combinação de fatores que só o demônio deles se deleitaria. João Galafoice havia sentido o cheiro das crianças, agora, era a hora de sacrificá-las. A hora de devorá-las. Pois eram canibais os monstros daquela amaldiçoada cidade. Ali, sob os efeitos do fogo dos mortos, Ignis Fatuus, Santelmo e as forças negras da natureza, Galafoice vivia nas entranhas condenadas da Matriz.

Mas João Bosta e Zé Titica eram mestres em escapadas.

Com a velocidade de uma mula-sem-cabeça zuniram como um foguete. Era melhor enfrentar o Boitatá do que ser comido pelo Galafoice. Correndo por entre os túmulos tropeçaram e caíram.

Menino teimoso paga prenda… E a prenda não foi nada boa.

A tempestade aumentou, um raio caiu, a torre da igreja ruiu.
No dançar de um Fogo de Santelmo nunca antes visto foram fritados. Ficaram pretinhos.

Dois Sacis-Pererê de duas pernas.

Assim ficaram…


FIM



segunda-feira, 12 de março de 2018

Hybiscus



RELATIVO
Acordei.

Teria eu acordado, realmente?
Ou sonhei que assim o tinha feito?
Abri meus olhos.
Se os abri, vi alguma coisa.
Mas tinha visto, ou sonhado que vi?
Abri meus olhos em um sonho?
Ou estava acordado?
Olhei para o lado…
A cama ainda estava lá.
Então, estava deitado…
Acordado?
Sei lá, vou voltar a dormir…
Ou continuar…
Quem sabe se acordo?
De um sonho…
Da realidade…

É tudo tão relativo…

sexta-feira, 9 de março de 2018


THE CUBE OF MEMORIES
(O Cubo das Memórias)


Viveu 64 anos.

Era um arquiteto das formas e palavras. Mas era uma pessoa difícil…

Acreditava em teorias quânticas, simetria absoluta, universos paralelos. Acreditava na forma, não como elemento estático mas como representativa do equilíbrio, da harmonia. Via em cristais um belo exemplo de um mundo perfeito, transparente, reluzente.

Gostava do passado, de onde fora moldado, de onde mantinha suas referências.

Mas era difícil…

Teve três filhos. Uma conservadora de arte, e dois arquitetos. Um, tão chato quanto ele. Para este deixou a chave de sua última criação.

Ganhou muito dinheiro.

Quando morreu, não deixou nada, somente a chave, entregue ao seu segundo filho, com um simples bilhete:  “Para ser usada no cubo das memórias” Não disse quando, nem onde.

O tempo passou…

Um belo dia, quente, de um verão ensolarado, às margens do lago Michigan, Ren, seu filho do meio, recebeu uma estranha caixa de cristal. Um cubo perfeito. Media 16x16x16 centímetros. Continha 4 vezes cubos de 4 centímetros, justapostos nas quatro faces, para um total de 64 peças. No centro da trama uma abertura em forma de fechadura.


Notou que a mesma tinha a forma da chave que havia herdado por ocasião da morte de seu pai. Notou também que um dos cubos era destacável. Este, continha uma tomada que se assemelhava a um portal USB de um computador, também em cristal. Encaixava-se perfeitamente na sua contra parte dentro do cubo.

Ren era um excelente arquiteto. Falava cinco idiomas, com projetos em diversas partes do mundo. Gostava de arquitetura. Casado com uma arquiteta, tinha uma filha. Uma bonequinha ruiva de olhos verdes. Era de uma certa maneira ranheta igual ao pai. Perfeccionista, gostava de tudo em equilíbrio constante, porém, suas obras continham uma pitada desconstrutivista. Quebrava a harmonia perfeita, violava as regras de Mies. Violava as regras de seu pai.

Mas era extremamente inteligente. Por isso havia sido escolhido para receber a chave.

Deduziu ser a chave de cristal algo que poderia funcionar em seu laptop. E assim a testou…

A mensagem de seu pai se abriu em sua tela. Não era clara. Era sim, enigmática.

“Yellowstone River Falls, near but not so near, seen but quite invisible, beautiful but not from this Earth. Just come, you, Raf and Rach. See you all in another dimension. Don’t forget, you will be looking for a cube.” “(Nas quedas do Yellowstone River, perto mas nem tanto, à vista mas bem invisível, belo mas não deste mundo. Venha, você, Raf and Rach. Vejo vocês em outra dimensão. Não se esqueçam, vocês estarão procurando por um cubo.)”

Raf, o mais velho era cético. Incrédulo e sistemático reagiu com um simples balançar da cabeça. Bobagem, pensou. Coisas de um velho pai.

Já Rach, a artista, viu nisto uma maneira de encontrar com aquele que amava, do seu jeito, no mundo dos sonhos, longe da realidade.

Mas, embora diferentes todos concordaram, e para lá foram.

O Cubo


Yellowstone é lindo. Um vulcão ainda ativo, sonolento e aplicado. 

Dava seus sinais de vida em horas já previamente marcadas. Mas estava constantemente em ação, por debaixo de um magnífico parque, entre cenários deslumbrantes, flora rica e intensa fauna. 

Cortado por dois rios principais, Snake e Yellowstone, com quedas d’água, rápidos e geisers assanhos e sistematicamente fiéis à suas aparições, Yellowstone é um paraíso.

A queda de cima, do Yellowstone River gerava uma neblina que se escondia nos grotões do cânion cercado de formações basálticas e vegetação densa. O cubo deveria se encontrar ali, em sua parte mais baixa, ao sopé da queda d’água. Mas não era possível vê-lo. As poucas instruções deixadas na caixa diziam ser difícil achá-lo, mas persistência e atenção se fariam necessárias para localizar a suposta edificação.

Vestidos como exploradores partiram para a base da queda pela trilha árdua e pedregosa. Em determinado momento sentiram que a paisagem flutuava de maneira estranha. Imagens mistas e repetidas se entremeavam com os arredores. A névoa agia como uma gaze etérea, confundindo a luz, misturando imagens. Na confusa visão, nem sequer notaram que já haviam chegado ao local. Rach, com sua acurada percepção por cores notou que os reflexos eram provenientes de uma imensa estrutura de cristal. Um cubo de 16 metros em cada lado, perfeito, subdividido em cubos menores de 4 por 4 por 4 metros.


Estava ali invisível, o tempo todo.

Seus reflexos e imagens refletidas se confundiam com o cenário magnífico, borbulhante e místico da grande queda. Era como se lá não estivesse, perfeitamente camuflado, perfeitamente integrado à natureza. Uma obra incrível, típica do pai que tinham.

Com dificuldade conseguiram subtrair os efeitos dos reflexos. Em determinados ângulos era possível enxergar a estrutura inteira, por breves instantes. O constante flutuar da neblina agia como um manto, uma cobertura invisível. Mas Rach era persistente. 

Utilizando-se de métodos usados em técnicas de restauro sentiu pelo tato a superfície lisa do cubo e procurou pela abertura de 16 por 16 centímetros.

A abertura para a chave de cristal…

Junto às instruções recebidas havia uma nota sobre o cubo menor. 

Nela, dizia sê-lo feito  de cristal, programado como uma tela de reconhecimento pelo DNA do portador. A chave, ou cubo, só permitiria o seu uso por alguém que tivesse a mesma estrutura do DNA de seu criador. Por conseguinte, permitiria a entrada daqueles que fossem seus descendentes.
Somente aqueles que na parte quântica da estrutura fossem oriundos da mesma linha ancestral.
Assim a esposa de Ren não poderia entrar no cubo, mas sua filha sim.

Experimentaram…

A chave servia. Encaixava-se perfeitamente. As paredes do cristal pareciam ter a fluidez de uma lâmina d’água. Tocaram-na.
Como se nada existisse penetraram no cubo. Havia sido feito para recebê-los.

Os Cômodos de Cristal

O gigantesco cubo de cristal era dividido em cubos menores, cada um com 4 por 4 por 4 metros. Adentraram o primeiro, o cubo de numero 64. Paredes, teto e chão em cristal, azuladas, perfeitas. Nada existia no espaço, porém ao tocar suas paredes sentia-se que as mesmas se integravam com seus pensamentos. Tinham vida, não uma vida humana, mas uma vida virtual, sensível, inquisitiva e interativa.

Raf imediatamente reagiu de maneira cética. Tocando a parede exclamou: “Que é isto? Onde estamos? Outra maluquice de meu pai?”


As paredes se acenderam. Imagens da construção do cubo, explicações sobre seu conceito, diagramas, plantas, planilhas de cálculos se espalhavam pelos espaços vítreos, pelas paredes, tetos e até mesmo o piso. Ren se deliciava nos cálculos e equações. Rach adorava as composições plásticas. Ali estava toda a história da criação do mesmo. Desde a escolha do sítio à conceituação básica, seu propósito, sua ligação com outras dimensões. Até Raf ficou surpreso.

O cubo era composto somente de cristal. No seu centro existia um cubo menor do mesmo tamanho do cubo chave. Dentro deste cubo, aprisionado em uma centrifuga quântica estava o bóson de Higgs, partícula mãe do universo, chave de todas as dimensões, portal de universos paralelos.


A edificação se localizava no Yellowstone Park exatamente por ser próxima a uma fonte inesgotável de energia térmica. Um fuste de uma milha de extensão havia sido construído para captar a fonte geotérmica do magma terrestre. Este alimentava uma centrífuga espiralada que gerava um vórtex contínuo capaz de isolar o bóson de Higgs. Uma vez isolado e preso no cubo central, este era jogado contra as paredes do cristal, abrindo um portal quântico que se espalhava pelas paredes de todos os 64 cubos. Todo os cubos eram energizados pela fonte geotérmica por conversores localizados nas fundações encrustadas no basalto da queda d’água. Esta era o refrigerante necessário para as trocas de calor. O sistema era auto suficiente e perpétuo.

As paredes de cristal foram construídas como telas interativas de um computador. Reconheciam o DNA quântico do usuário e assim respondiam ao toque, ao som e até ao pensamento. Tinham sua própria inteligência. Artificial ou não, esta mostrava a alma de seu criador. Uma vez acionadas agiam como um imenso campo virtual, tridimensional, etéreo, quase real. Era real em sua história, irreal em sua mostra, e nesta, contava os feitos de seu criador e sua criação, em cada cubo, um para cada ano de sua vida, num total de 64 .

O portal quântico permitia ver a história passada como um filme multidimensional. Entretanto, não era possível nada mudar ou interagir, pois eram fragmentos de um passado capturados e projetados como um teatro real. Uma peça única, que embora executada uma única vez, ali estava, para ser vista quantas vezes fossem pedidas. Uma viagem no tempo, através das quarta e quinta dimensões, em um cubo fechado, aberto a uma dobra quântica. Uma obra de física quântica inimaginável.

O cubo de número 64 os convidava à viajar pelo tempo.

Em cada outro cubo um outro ano de vida, uma biblioteca virtual do que havia sido feito e nela, a presença de todos os três guardada como num livro de memórias. Os cubos permitiam o deslocamento horizontal e vertical, bastando tocar suas paredes, piso ou teto até chegar ao cubo de número um. Ali, no nascimento de seu criador havia uma última porta para um mundo de ancestrais, um túnel do tempo. Nela, uma vez adentrada, não havia volta. Passava-se ao mundo dos mortos, o after life, pois o nascimento e a morte se fundem em um só. Local de encontro de todos aqueles que um dia foram parte de toda sua história genealógica. Não havia passagem para o futuro. O tempo existia no passado, mas o futuro ainda  seria criado.

Era o cubo das memórias…


Ren achou a obra fenomenal, seu irmão a viu como um desperdício de tempo e dinheiro. Morria de medo do cubo número um.

Já Rach, não titubeou, após estudar cada cômodo em detalhe, partiu para o primeiro e não mais voltou.

FIM