O
MENINO TRISTE
Quando
esperava, dizia que aquela criança era o bebê mais delicado que havia visto.
Flutuava como uma pena, parecia vibrar em seu ventre, doce, gentilmente…
Quando
nasceu, não sentiu nada. Um nada em termos físicos, um tudo em um tsunami de
amor.
Quando
crescia, não chorava. Parecia que cantava, uma canção que não se ouvia, mas se
sentia.
Quando
virou criança, em passos trôpegos, corria para os seus braços.
Corria sempre,
com um olhar triste e um sorriso iluminado. Corria célere, silente, radiante,
esfuziante.
De sua
boca nunca saiu um som, um choro, um murmúrio, Mas chorava, com seus olhos
azuis. Um azul do céu, profundo, triste e cheio de carinho.
Seus olhos falavam.
Nas
brigas dos irmãos trazia a paz com sua simples presença. Nos folguedos trazia
alegria, fugia a tristeza.
Disse
alguém que o vira perto de um sabiá morto. O carcará, em luta terrível o havia
abatido quando defendia seu ninho. Ali caído, inerte, com sua plumagem de tons
laranjas e cinzas da terra, estava estático, imóvel.
De seu dedo indicador uma
luz de um azul celestial brilhou por um interminável segundo. O pássaro voou e
no seu voo rodopiava a seu redor tocando-o levemente na face partindo com um cantar
de primavera. Dó, Mi, Sol…Dó, Mi, Sol…
Quando
na noite chorava, triste pelas desditas da vida, triste pelo amor perdido, o
marido que fugiu, a luta diária, o trabalho de mulher e homem que agora
enfrentava, o via se aproximar como se ao chão não tocasse e, flutuando a
beijava na testa. O choro fugia, um calor intenso penetrava em seu coração e ali,
naquele momento sentia-se a mais feliz das mães.
Mães não
veem defeitos em seus rebentos. Somente o belo, as virtudes que, se ainda não têm,
certamente as terão, um dia. Mães deixam o amor perpétuo envolver seus filhos.
Amor que nunca é maculado, mesmo quando o ingrato filho não consegue enxergá-lo.
Mas ele ingrato não era.
Era uma criatura que parecia não ser daqui. Nunca
falou, mas sempre disse tudo. Nunca se mostrou feliz, mas irradiava a paz, a
harmonia, o carinho.
Parecia
sempre cantar. Ouvia-se um Mozart quando fitava. Ouvia-se um Puccini quando
Butterfly perdia seu filho, num momento pungente de um coração dilacerado.
Ouvia-se o cantar de anjos. Mas nada era tocado, nada era ouvido, tudo era
sentido, um tudo em tudo. Era somente ele, ali, a olhar. O silêncio mais
ruidoso que alguém poderia sentir.
E um
dia ela adoeceu. Em sua doença, sentiu que partiria. As lágrimas vertidas
queimavam sua face. Que seria de sua prole. Que seria do triste menino, que
nada falava e tudo dizia, que seria de sua família?
Pediu
ao Pai, num momento de contrição e fé indescritível que a poupasse. Que lhe
desse tempo para encaminhá-los na vida, que os abençoasse. Pediu perdão por tudo,
até por existir. Pediu pelo triste menino…
No dia
seguinte acordou. Não mais se encontrava enferma. Não mais desenganada.
Sentia-se jovem, mais linda, cheia de energia e amor. Em um movimento rápido
correu para beijar seus filhos. Agradecer à Deus por ali estar, agradecer por
poder tocá-los, agradecer por poder velá-los.
Achou-os
todos, menos o menino triste.
Em sua
pequenina cama, impecavelmente arrumada… um bilhete.
Não
era um bilhete qualquer. Reluzia…
Letras
prateadas contavam uma pequena mensagem:
Mãezinha, são estas
minhas palavras, as primeiras e últimas. Vim para velar por ti, pois a ti amo e
sempre amei. Quando fores realmente embora nos encontraremos e lá viveremos,
mais uma vez, o amor que sempre tivemos.
Uma lágrima
de sua face rolou, e, no papel de letras prateadas tocou, este, em suas mãos
desmanchou.
O menino
triste de olhos cor do céu, de carinho infinito havia partido. E em seu anjo da
guarda transformou…
E o
sabiá novamente cantou…Dó, Mi, Sol…Dó, Mi, Sol…
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| Sabia Laranjeira |