domingo, 13 de maio de 2018



PERPLEXO



A maçaneta de bronze polido em uma porta de vermelho vivo mostrava o zelo em preservar aquela moradia dos idos anos vinte, no século passado.

A casa era perfeita.

Linda, bem cuidada, aconchegante.

Eu ali estava. Sabia que já a tinha visto, que ali estivera. Mas o saber não era o que importava, era sim a perplexidade do que acontecia.

Com um movimento leve abri a porta.

Foi ali que a vi. A via, melhor dizendo. Bela, esvoaçante, coberta por um gaze transparente, flutuava como um anjo, sorria um sorriso de doce, de mel e cravo, picante, envolvente.

Chegava perto e quanto mais perto, mais longe. Era como se minha mão estendesse num pedido efêmero, por um toque mágico, que nunca se realizava. O abismo infinito entre as pontas de meus dedos e sua pálida mão parecia encurtar-se aos movimentos e alongar-se ao meu desejo de me fundir, em um só corpo, uma só alma, um só ser.

Estava apaixonado.


Aquela porta, suas ferragens de bronze, o entalhe da madeira, o esculpido de formas leves, barrocas, tingidas de rubro, marcavam meus pensamentos. Era o cartão de visita para lá voltar.

E, lá voltei. Muitas vezes. Tantas eram que já não sabia quando começou.

Sabia que o amor existiu, como um raio fulminante, descido de uma tempestade de luz, num túnel do tempo, onde ele, imóvel, não passava. Na relatividade de tudo, o presente, o passado e o futuro eram um só.

Minha mente, em um turbilhão de emoções tentou racionalizar. 

Pensamentos mecânicos, lógica prevalente, raciocínio compilativo. 

Inútil exercício. Fugaz pretensão…

Era um sonho ou realidade?

Tinha todos os ingredientes do dito, mas era absolutamente igual, repetitivo.

Era um delírio, alucinação de um amante apaixonado, perdido na irracionalidade do sentimento mais puro de um homem?

Era real?

Acontecia no espaço-tempo em que vivia ou era uma manifestação quântica… a porta vermelha…a passagem para outro mundo paralelo, onde eu vivia, igualmente àquele de onde vim.

Mas tinha um quê de mistério, um tempero de um ingrediente mágico, quiçá louco. Tão louco era que já não sabia se eu existia ou não. Na loucura dos momentos vividos e reprisados finalmente senti seu propósito maior.

Perplexo entendi…


Não sonhava, não existia…

Havia morrido.

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