PERPLEXO
A maçaneta
de bronze polido em uma porta de vermelho vivo mostrava o zelo em preservar aquela
moradia dos idos anos vinte, no século passado.
A casa
era perfeita.
Linda, bem
cuidada, aconchegante.
Eu ali
estava. Sabia que já a tinha visto, que ali estivera. Mas o saber não era o que
importava, era sim a perplexidade do que acontecia.
Com um
movimento leve abri a porta.
Foi ali
que a vi. A via, melhor dizendo. Bela, esvoaçante, coberta por um gaze
transparente, flutuava como um anjo, sorria um sorriso de doce, de mel e cravo,
picante, envolvente.
Chegava
perto e quanto mais perto, mais longe. Era como se minha mão estendesse num
pedido efêmero, por um toque mágico, que nunca se realizava. O abismo infinito
entre as pontas de meus dedos e sua pálida mão parecia encurtar-se aos
movimentos e alongar-se ao meu desejo de me fundir, em um só corpo, uma só
alma, um só ser.
Estava
apaixonado.
Aquela porta,
suas ferragens de bronze, o entalhe da madeira, o esculpido de formas leves,
barrocas, tingidas de rubro, marcavam meus pensamentos. Era o cartão de visita
para lá voltar.
E, lá
voltei. Muitas vezes. Tantas eram que já não sabia quando começou.
Sabia que
o amor existiu, como um raio fulminante, descido de uma tempestade de luz, num
túnel do tempo, onde ele, imóvel, não passava. Na relatividade de tudo, o
presente, o passado e o futuro eram um só.
Minha
mente, em um turbilhão de emoções tentou racionalizar.
Pensamentos mecânicos, lógica
prevalente, raciocínio compilativo.
Inútil exercício. Fugaz pretensão…
Era um
sonho ou realidade?
Tinha
todos os ingredientes do dito, mas era absolutamente igual, repetitivo.
Era um
delírio, alucinação de um amante apaixonado, perdido na irracionalidade do sentimento
mais puro de um homem?
Era real?
Acontecia
no espaço-tempo em que vivia ou era uma manifestação quântica… a porta
vermelha…a passagem para outro mundo paralelo, onde eu vivia, igualmente àquele
de onde vim.
Mas tinha
um quê de mistério, um tempero de um ingrediente mágico, quiçá louco. Tão louco
era que já não sabia se eu existia ou não. Na loucura dos momentos vividos e
reprisados finalmente senti seu propósito maior.
Perplexo
entendi…
Não
sonhava, não existia…
Havia
morrido.



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