sexta-feira, 22 de novembro de 2019


A  PRANCHETA  E  A  REALIDADE




Gênios urbanistas, projetando à distância, sem verem o sítio natural, houveram por bem dar a Belo Horizonte um traçado de Washington ao pé da Serra do Curral. Assim, criaram ruas e avenidas que se encontravam em aclives ou declives dignos dos jogos olímpicos de inverno.

Menos mal, no seu traçado original elas pelo menos se encontravam.

Outros gênios que se seguiram apresentavam seus projetos em papel, mostrando sequentes avenidas expandidas do conjunto original. Os departamentos de aprovação municipal chancelavam estas joias urbanas.

Com elas temos vias que se “encaixam” com outras 30 metros abaixo. Avenidas sobre córregos e terrenos doados ao patrimônio público em brejos ou grotões.

Pior ainda, permitiram os adensamentos desordenados, antigas favelas, hoje batizadas de aglomerados, como se o mero trocar de palavras as desse “status” maior.

Há solução?...Sim há.

Em 2516 um arqueólogo examinando os restos de uma cidade destruída por um artefato atômico, conclui que este era o sítio urbano mais idiota da terra. Haviam esquecido da topografia, das curvas de nível, dos acidentes geográficos, dos cursos naturais, do sítio natural.

A bomba havia feito um bem.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019


A  FORMA  É  ÚNICA?
Oscar Niemeyer's building in Belo Horizonte, Brazil
Em 1922, em Berlin, na Alemanha, o arquiteto Ludwig Mies Van Der Rohe iniciava uma série de estudos sobre edificações em vidro. Um destes ensaios tornou-se bastante célebre influenciando outros grandes designers que vieram a seguir, tais como o finlandês Alvar Aalto, os suiços Herzog & De Meuron e o nosso Oscar Niemeyer.
A versão construída destes estudos veio a ser concluída por seus discípulos John Heinrich e George Schipporeit em 1968, no famoso prédio de
apartamentos a beira do lago Michigan, em Chicago, chamado de Lake Point Tower, onde hoje mora Oprah Winfried.

A estrutura inspiradora tinha em sua forma uma expressão mais livre. Dela resultou o vaso de cristal de Alvar, o Aalto Vase, em 1937. Os apartamentos de Chicago, em forma de “Y” estariam em linha com a interpretação de Niemeyer no seu edifício na praça da Liberdade, em 1954.
Alvar Aalto's vase

Mais tarde, Herzog e seu companheiro arquiteto criaram o museu da Universidade de Cottbus, na Alemanha, uma obra prima que interpretava a transparência advogada por Mies e replicada no vaso de Aalto, de forma translúcida e não transparente como nos apartamentos de Chicago e Belo Horizonte, este , introduzindo as linhas cilíndricas horizontais a flutuar na leveza do vidro.

Como escultura, objeto de admiração, a obra de Niemeyer é deliciosa de se ver. Como forma em um conjunto neo-clássico e equilibrado como a praça da Liberdade ela distoa pela altura disproporcional.

Quando criada, o conjunto superior assentava-se sobre pilotis abertos e convidativos, estabelecendo a tão nescessária procissão de entrada, preconizada por Paladio. A adição de gradis ao longo do perímetro afronta o conceito original e enclausura o edifício em relação a convidativa praça onde se situa .

Como toda a sua obra, de caráter genial, Niemeyer esquece-se da função para prestigiar a forma.  A solução diagramática dos apartamentos é pouco prática e carece de um detalhamento mais fino. Também a qualidade dos detalhes construtivos prejudica a pureza da forma criada. Nisto a obra se difere bastante daquela feita em Chicago, por Heinrich e Schipporeit.
Lake Point Tower
Chicago
Mies Van Der Rohe

Não difere, entretanto, no conceito básico, aquele estudado por Mies Van Der Rohe, um dos grandes mestres do movimento Bauhaus. Prova que tudo que é grande na genialidade humana evolve em peças e obras tão espetaculares como aquelas da criação original. A arquitetura é uma arte em evolução. A base é a mesma, calcada no que serve de exemplo para as interpretações estéticas do futuro. A forma evolve e se adapta a novas funções. A engenharia segue os passos do criador arquiteto.

  

segunda-feira, 18 de novembro de 2019


HOJE É DIA DE ANIVERSÁRIO DA PRIM
E as brabuletas azuis

Com suas asas azuis
Com suas asas azuis
Com suas asas azuis…
Parabéns Quequel! Hoje é seu aniversário!
Que você seja sempre feliz
Linda e maravilhosa filha!


sábado, 16 de novembro de 2019


WRONG TICKET


A estação já havia sido bonita. Em seus dia de glória, um burburinho frenético enchia as galerias. O ir e voltar de pessoas pareciam pintar movimentos sem destino. E este, deixou-a despida, envelhecida, quase abandonada.
Em seus trilhos passavam dois trens, depois da meia noite. Neles também desfilavam cargueiros sem o charme dos vagões prateados, das janelas panorâmicas onde se podia ver o viajante em seus sonhos distantes, olhares perdidos, à procura de um destino.
No alto da noite, sempre fria, o barulho metálico das rodas sobre trilhos, anunciava o chegar da composição suja, desgastada e sempre atrasada.
O guichê, atendido por um insípido funcionário, mal vestido e sonolento, vendia passagens que quase não eram mais ali compradas. Mesmo assim, ele, que não era dado às modernidades tecnológicas, em voz rouca pelo tardio da madrugada, solicitou o bilhete de um só destino.
Não o conferiu.
Achou que era melhor se acomodar no vagão de poltronas rôtas, talvez com um cochilo adornado pelo balançar monótono, no estalar metálico de rodas em aço surrado pelo tempo. Colocou-o ao seu lado, à espera do condutor.
Dormiu.
Não percebeu o vazio do carro. Não percebeu o escuro cinzento, o zumbido enlouquecedor de lâmpadas em curto, amareladas, cansadas de iluminar.
Não percebeu que os estalos metálicos já não mais se faziam ouvir.
Dormia em sono profundo. Dormia como se estivesse em outro mundo. Nem sonhos sonhava…
Quando abriu seus olhos, não viu o que vira antes. Via um corredor enorme, ladeado por portas escuras, em uma cadência alucinadora como os reflexos de espelhos paralelos em uma casa de horrores. O cinza prevalecia, a ausência de cores indicava uma tristeza permeante que entrava em seu ser, devorando-o, subjugando-o à sensações que não havia ainda experimentado.
Olhou para o seu lado. O bilhete ali estava como deixado. Tomou-o em suas mãos e o leu, pela primeira vez.
. One Way Ticket to Hell. No refund. No exchange
Não acreditou no que via. Leu, releu. Apavorou-se. Um frio, de proporções árticas, subiu-lhe a espinha.
Que teria acontecido?
Lembrou-se do atendente. Lembrou-se de subir no vagão, olhando a estação vazia, e, recordou-se do carro, cinza, sujo, decrépito e lúgubre. Refez todos os seus últimos movimentos. Sabia que dormira, mas por razão que não conseguia explicar, sentia-se ainda preso ao sono absorvente que mostrava-se não ter terminado.
O corredor sem fim parecia alongar-se. Uma porta de almofadas negras surgiu do nada, emoldurando o seu possível fim.
Moveu-se lentamente, olhando em todas as direções. Aproximou-se…
Com um estrondo súbito, estridente e esganiçado, abriu-se…
Uma figura de expressão indescritivelmente má surgiu-lhe à frente.
Era um homem. Teria a idade daqueles que a idade não conta, nem é contada. Seus trajes, em frangalhos indicavam estilo somente ligado à velhos marinheiros do século XVIII. Azul marinho, que nem marinho era mais. Botões largos, frouxos, desbotados.
Tinha um saco às costas. Segurava-o como se alí existisse algo de mais precioso.
Sua boca era larga, seus dentes podres, hálito fétido, sujo, sebento, com rugas em sua face que mais pareciam cicatrizes de guerras certamente perdidas.
Não era amistoso. Avançou, babando uma baba amarela, gosmenta. Seus dentes pareciam afiados, pingavam o que parecia ser sangue.
Ele, desesperado sentiu-se perdido. Encostou-se em uma das portas esperando o desfecho que já deixava a dor do pânico incontido, devorando seu ser.
No torpor da morte certa sentiu em suas mãos um bastão. Não sabia de onde veio, mas alí estava.
Com força e fúria descomunais desferiu um golpe sêco, no alto da cabeça da criatura.
Esta, caiu, estatelada, inerte…
De seu saco saiu uma serpente. Um monstro. Esverdeada, escamada e vazando um líquido verde, pastoso e ácido. Imensas presas se faziam mostrar. Seu enrolar indicava um ataque iminente.
O sibilar e a visão da língua bifurcada perto do seu rosto lhe deu talvez o último movimento de defesa.
Novamente, sem explicar como, surgiu, em suas mãos uma barra de ferro, afiada, pesada e longa. Com ela desferiu uma estocada certeira no cérebro da víbora, transfixando-o, em um só golpe. O monstro, que não havia ainda morrido, tentou envenená-lo com um ferrão venenoso, localizado em sua cauda.
Não conseguindo evitar o ataque, foi picado e alí ficou, paralisado, vendo mas não sentindo, pensando, mas em turbilhões, sem sentido, sonolento, como que se aquele sono do vagão ainda estivesse presente.
Pensou que ia morrer. Pensou que o inferno que o rodeava era o presente pela sua vida anterior, pelas suas falhas, incompreenes, orgulho e traições.
Não sabia rezar. Nunca soube.
Mas rezou…
Rezou a reza confusa dos seres em confusão. Rezou a reza triste dos seres em desespero. Rezou a reza constrita dos que imploram pelo perdão de última hora.
O bilhete comprado lhe havia levado ao juízo final.
Mas aquele bilhete não era o que havia pedido ao atendente.
Queria Chicago.
Na sua reza final, lembrou-se disto. Era um bilhete errado. Não era seu, era para outro alguém, um amaldiçoado em desventura.
Sentiu seus pés sendo puxados, arrastados. O corredor se tornava longo, novamente. Parecia que retrocedia. No voltar ouviu uma voz distante… “O que fazes aí?”…
Acordou…
Em bicas, suava, a cama molhada, lençóis embolados, olhos esbugalhados…balbuciou…
My God!
Me venderam o bilhete errado!



segunda-feira, 11 de novembro de 2019


URSO



Disse ele: é lindo! Gostei, acho que voltaria. Brazil is beautiful!

Americano, não havia visto nada igual. Também, vejam o menu:

O tira-gosto era ótimo. Lá no Bracarense, no Leblon, a cerveja era gelada e o ambiente descontraído pintavam um Brasil gostoso de se ver e saborear.

Fomos para o Bofetada, em Ipanema. Tinha um hospital do outro lado da rua. Os médicos de lá desciam e se reuniam num canto do bar com seus instrumentos. Não os bisturis e outros de gênero, mas o cavaquinho, o bandolim e o violão. E de lá saía o som mais delicioso, um chorinho da melhor qualidade. Embalavam os doentes....só nesta terra.

O chope, servido em minúsculas mesas que se espalhavam pelo passeio e adentravam a rua, era gelado e com colarinho de padre. Dentro do figurino. Quando vinha um carro a gente levantava, puxava a mesa e esperava para passar. Voltava-se à música, com prazer.

Quem nos levou, com sua barbicha branca e olhar sereno foi o Bill. O Bill era um urso, de sobrenome e tamanho, mas gentil e mordaz. Tinha sido o pianista da Luz Del Fuego, uma diva do Rio de outrora que nua se enrolava com uma serpente, na Lapa e em Copacabana.... Grande época das vedetes.

Conhecia a sua terra adotiva, pois tinha nascido em Juiz de Fora... como a palma da mão. Em especial os basfonds da Lapa. E com ele vinham os melhores pontos para se comer, de sardinhas, empadinhas a outros petiscos nunca sem antes passar por um café da manhã, à americana, no Cafeína.

Daí a exclamação é lindo...não tinha facada em ciclistas, arrastão de praia, assalto de celular. Só levava aonde sabia que você ia adorar.

De tão inteligente foi pescado pela GE e levado para Cleveland. Vejam só, do Rio de céu anil, sol à mil, para os cinquenta tons de cinza do lago Erie. Chegou a inventar um líquido mágico que passava em seu terno. Ficava avesso às chuvas. Foi assim que conheceu uma flor que se chamava Flor, ela de sombrinha e ele na chuva sem se molhar.

Nunca esqueceu dos pés sujos do Rio. Era muito mais carioca do que mineiro, mas já tinha um quê de gringo. Também, 60 anos por lá tinham que fazer alguma diferença.

Foi embora, como todos vamos um dia. No Brazil, com z, só via encantos mil. Flor, mais satírica, avistava somente o Pindorama.

Faz muita falta. Machuca o coração.

Ganhou Luz Del Fuego. Poderá ver seu antigo companheiro de novo, sem as cobras, é claro. À nós sobra o Pindorama que sem ele, não e mais bonito...
não é Brasil

domingo, 10 de novembro de 2019

Nas Gerais


TROCARAM  O  DEFUNTO



A Filó morreu!

Meu Deus, logo a Filó? Tão jovem, tinha um mundo pela frente.

Estavam no carro. O WhatsApp corria célere. Notícia ruim é assim, voa como o vento. Vovó chorou...um choro triste e copioso. Tadinha da Filó. Tão bonitinha...

Vovó, a Filó tinha 80.

Mas era bonitinha...

O telefone não parava. Qual Filó? A do Tio Asdrúbal ou do Bené? Tá aí, não sei...toca à dedilhar...qual foi?

Foi a do Bené. Meu Deus, era mais velha ainda...

Mas era bonitinha, disse a vovó, chorando.

O pimenteiro é às quatro. Pera aí, corrijo, o enterro é às quatro.

Já avisou as outras irmãs? Tô fazendo...

Tio Tatão desmaiou. O Bené também. Disse que estava olhando para ela, parecia tão viva...

Pera aí, tá chegando outra mensagem...Não foi a Filó do Bené, nem a do Asdrúbal...Foi a do Genésio!

Era bonitinha também, disse a vovó. E chorava de novo.

Mas vovó, a Filó do Genésio morreu no ano passado. Eu fui no pimenteiro...

Olha, o tio Tatão disse que a Filó está mexendo...Então não morreu...Deve ter sido a do Asdrúbal.

Pera um pouco. São três Filós. Uma já tinha morrido, a outra ainda está viva e a terceira tá aqui com a gente, no carro.

Desliga esta desgraça, só dá notícia ruim. Mas quem morreu então? Já vou saber, tô perguntando à tia Genovilda. Ela sabe de todas as fofocas.

A Genovilda não, disse a vovó, ela é feia. Não toma banho à mais de dez anos, é meio excêntrica.

Mas sabe de tudo vovó. Se tem um pimenteiro, digo enterro, alguém morreu...quem foi?

Já tenho a resposta, a Genovilda não falha...Foi a Filó mesmo, mas a do vizinho...

Essa eu não conheço, ainda bem que mataram a Filó errada.

Mas era bonitinha, também... e parou de chorar.

sábado, 9 de novembro de 2019


TRIÂNGULO


Nasceu à sombra das pirâmides.
Nem árabe era, mas era equilátero.
Talvez isósceles…
Certamente hetero.


Não pensava em uma linha, mas em três.
Assim, não tinha vez…
Prolixo, se achava,
Tinha GPS, se triangulava.


Um dia descobriu ângulos…
Tinha os seus.
Mas queria a bissetriz,
Não a sua, pois não a tinha.
Mas sabia que acharia,
Uma outra, uma gracinha.

Apaixonou-se por um tetraedo.
Casou com o poliedro.
Em triângulos se perdeu.
Mas uma bissetriz achou,
E por ela morreu…


A morte é escalena,
Lhe levou com a bela Lena.
Num triângulo amoroso,
Se encontrou com o tinhoso.


No inferno que ficou,
Descobriu, não o triângulo,
Mas π (pi) bem redondinho…
Num mundo sem nenhum ângulo.
Alí, no tridente, espetado…
E, cozinhado,
Lá estava, assadinho…






TIME AND LIFE


Time and life are both like lines. Moving linearly, never coming back.

Time continues, forward. Life ends, suddenly.

When you live a life, is like a script of a plot, with interacting actors, that can love, exist, or become known to each other. The plot tells the story of successes and disappointments, love, and hate, always forward. There is no flash back.

Time plays with life as they move alongside each other. From young we become old, from close we become distant, we change tastes as we change lovers. The plot never repeats itself. It is only played once. Like in a train, “all aboard”, shouts the conductor. If you miss it, it will never come back, moves only ahead.

There is empathy between the beings that live in this linear drama. For some inexplicable reason, we believe that we knew each player of this plot. For an even more strange reason, we think that we will see them, again, in that so called “after life”.

But the plot, unique in its story, unique in its performance, can exist in books, reports, notes and scribbles, even in the small talk of the ones left aside, the ones that stayed after the show is over.

But the life, when extinct, does not register no more. It is gone. 

In the other world, while in the station, life waits for the train about to arrive. A new script is written. A new story will be told. A new time line, in its own relativity, will be there, going in the same direction, always forward.

A new plot is drawn, with different roles for the same old actors.

All of them will think that know each other, all will feel that there is an inexplicable sensation of a “déjà vu”.

But the faces are not the same, neither the names, their roles. In truth, they barely know who they are. They may not even like some of the players, but they know they were being part of an old play, a play they will never remember.

A new script will be created, with its own time line.

 It may tell of a love to be found. Could it be the one from the previous story?

Maybe... More certain, in this new story, will be of different loved ones, nothing like the ones that once were.

When life was gone, the other side opened its door. One may say that the lives that extinguished may communicate, may encounter each other. But they will have no form. There will be no hugs, there will be no kisses. In there, only the certainty that there is love, magic empathy. A brief moment is created, just enough to adjust and learn the new script.

The train arrives. “All aboard” will say the conductor. The new game of life will start, somewhere, sometime, somehow, in another theater.

The time, parallel to life, will follow forward. There will be only the assurance that time will move along, but the show…ah…the show certainly will have an end.

I would like if I could choose my role. Maybe I chose the one that I currently perform. But like the time that passes along, my lines are finishing and the others, which are yet to be written, will tell another story.

In that plot, I do not know who I will be.




THOUGHTS

I think I think. Having thoughts, thinking things…
So, I thought, if I think that thinking would make me think better.
But thinking is a thing that, when you do it, you are supposed to do better.
But thoughts are not always for better, so thinking things, may make not make you think at all.
So, if I think better would my thoughts be a thing of beauty?
Ah…silly thought. Not a thing. Just kidding, I think.
And I think that I lost my train of thoughts.
So much for that…