segunda-feira, 11 de novembro de 2019


URSO



Disse ele: é lindo! Gostei, acho que voltaria. Brazil is beautiful!

Americano, não havia visto nada igual. Também, vejam o menu:

O tira-gosto era ótimo. Lá no Bracarense, no Leblon, a cerveja era gelada e o ambiente descontraído pintavam um Brasil gostoso de se ver e saborear.

Fomos para o Bofetada, em Ipanema. Tinha um hospital do outro lado da rua. Os médicos de lá desciam e se reuniam num canto do bar com seus instrumentos. Não os bisturis e outros de gênero, mas o cavaquinho, o bandolim e o violão. E de lá saía o som mais delicioso, um chorinho da melhor qualidade. Embalavam os doentes....só nesta terra.

O chope, servido em minúsculas mesas que se espalhavam pelo passeio e adentravam a rua, era gelado e com colarinho de padre. Dentro do figurino. Quando vinha um carro a gente levantava, puxava a mesa e esperava para passar. Voltava-se à música, com prazer.

Quem nos levou, com sua barbicha branca e olhar sereno foi o Bill. O Bill era um urso, de sobrenome e tamanho, mas gentil e mordaz. Tinha sido o pianista da Luz Del Fuego, uma diva do Rio de outrora que nua se enrolava com uma serpente, na Lapa e em Copacabana.... Grande época das vedetes.

Conhecia a sua terra adotiva, pois tinha nascido em Juiz de Fora... como a palma da mão. Em especial os basfonds da Lapa. E com ele vinham os melhores pontos para se comer, de sardinhas, empadinhas a outros petiscos nunca sem antes passar por um café da manhã, à americana, no Cafeína.

Daí a exclamação é lindo...não tinha facada em ciclistas, arrastão de praia, assalto de celular. Só levava aonde sabia que você ia adorar.

De tão inteligente foi pescado pela GE e levado para Cleveland. Vejam só, do Rio de céu anil, sol à mil, para os cinquenta tons de cinza do lago Erie. Chegou a inventar um líquido mágico que passava em seu terno. Ficava avesso às chuvas. Foi assim que conheceu uma flor que se chamava Flor, ela de sombrinha e ele na chuva sem se molhar.

Nunca esqueceu dos pés sujos do Rio. Era muito mais carioca do que mineiro, mas já tinha um quê de gringo. Também, 60 anos por lá tinham que fazer alguma diferença.

Foi embora, como todos vamos um dia. No Brazil, com z, só via encantos mil. Flor, mais satírica, avistava somente o Pindorama.

Faz muita falta. Machuca o coração.

Ganhou Luz Del Fuego. Poderá ver seu antigo companheiro de novo, sem as cobras, é claro. À nós sobra o Pindorama que sem ele, não e mais bonito...
não é Brasil

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