WRONG TICKET
A estação já
havia sido bonita. Em seus dia de glória, um burburinho frenético enchia as galerias. O ir e voltar de pessoas pareciam
pintar movimentos sem destino. E este, deixou-a despida, envelhecida, quase
abandonada.
Em seus trilhos passavam dois trens,
depois da meia noite. Neles também desfilavam cargueiros sem o charme dos vagões prateados, das
janelas panorâmicas onde se podia
ver o viajante em seus sonhos distantes, olhares perdidos, à procura de um
destino.
No alto da noite, sempre fria, o
barulho metálico das rodas sobre
trilhos, anunciava o chegar da composição suja, desgastada e sempre atrasada.
O guichê, atendido por um insípido funcionário, mal vestido e
sonolento, vendia passagens que quase não eram mais ali compradas. Mesmo assim, ele, que não era dado às modernidades tecnológicas, em voz rouca
pelo tardio da madrugada, solicitou o bilhete de um só destino.
Não o conferiu.
Achou que era melhor se acomodar no
vagão de poltronas rôtas, talvez com um
cochilo adornado pelo balançar
monótono, no estalar metálico de rodas em aço surrado pelo tempo.
Colocou-o ao seu lado, à
espera do condutor.
Dormiu.
Não percebeu o vazio do carro. Não percebeu o escuro
cinzento, o zumbido enlouquecedor de lâmpadas em curto, amareladas, cansadas de iluminar.
Não percebeu que os estalos metálicos já não mais se faziam
ouvir.
Dormia em sono profundo. Dormia como
se estivesse em outro mundo. Nem sonhos sonhava…
Quando abriu seus olhos, não viu o que vira
antes. Via um corredor enorme, ladeado por portas escuras, em uma cadência alucinadora como
os reflexos de espelhos paralelos em uma casa de horrores. O cinza prevalecia,
a ausência de cores indicava
uma tristeza permeante que entrava em seu ser, devorando-o, subjugando-o à sensações que não havia ainda
experimentado.
Olhou para o seu lado. O bilhete ali estava como deixado.
Tomou-o em suas mãos e
o leu, pela primeira vez.
. One Way Ticket to Hell. No refund. No exchange
Não acreditou no que via. Leu, releu. Apavorou-se. Um frio,
de proporções árticas, subiu-lhe a
espinha.
Que teria acontecido?
Lembrou-se do atendente. Lembrou-se
de subir no vagão,
olhando a estação vazia, e,
recordou-se do carro, cinza, sujo, decrépito e lúgubre.
Refez todos os seus últimos
movimentos. Sabia que dormira, mas por razão que não
conseguia explicar, sentia-se ainda preso ao sono absorvente que mostrava-se não ter terminado.
O corredor sem fim parecia
alongar-se. Uma porta de almofadas negras surgiu do nada, emoldurando o seu
possível fim.
Moveu-se lentamente, olhando em
todas as direções. Aproximou-se…
Com um estrondo súbito, estridente e
esganiçado, abriu-se…
Uma figura de expressão indescritivelmente má surgiu-lhe à frente.
Era um homem. Teria a idade daqueles
que a idade não conta, nem é contada. Seus trajes,
em frangalhos indicavam estilo somente ligado à velhos marinheiros do século XVIII. Azul marinho, que nem marinho era mais. Botões largos, frouxos,
desbotados.
Tinha um saco às costas. Segurava-o
como se alí existisse algo de
mais precioso.
Sua boca era larga, seus dentes
podres, hálito fétido, sujo, sebento,
com rugas em sua face que mais pareciam cicatrizes de guerras certamente
perdidas.
Não era amistoso. Avançou, babando uma baba amarela, gosmenta. Seus dentes
pareciam afiados, pingavam o que parecia ser sangue.
Ele, desesperado sentiu-se perdido.
Encostou-se em uma das portas esperando o desfecho que já deixava a dor do pânico incontido,
devorando seu ser.
No torpor da morte certa sentiu em
suas mãos um bastão. Não sabia de onde veio,
mas alí estava.
Com força e fúria descomunais
desferiu um golpe sêco,
no alto da cabeça da
criatura.
Esta, caiu, estatelada, inerte…
De seu saco saiu uma serpente. Um
monstro. Esverdeada, escamada e vazando um líquido verde, pastoso e ácido. Imensas presas se faziam mostrar. Seu enrolar
indicava um ataque iminente.
O sibilar e a visão da língua bifurcada perto
do seu rosto lhe deu talvez o último
movimento de defesa.
Novamente, sem explicar como,
surgiu, em suas mãos
uma barra de ferro, afiada, pesada e longa. Com ela desferiu uma estocada
certeira no cérebro da víbora, transfixando-o,
em um só golpe. O monstro, que
não havia ainda morrido,
tentou envenená-lo com um ferrão venenoso, localizado
em sua cauda.
Não conseguindo evitar o ataque, foi picado e alí ficou, paralisado,
vendo mas não sentindo, pensando,
mas em turbilhões, sem sentido,
sonolento, como que se aquele sono do vagão ainda estivesse presente.
Pensou que ia morrer. Pensou que o
inferno que o rodeava era o presente pela sua vida anterior, pelas suas falhas,
incompreensões, orgulho e traições.
Não sabia rezar. Nunca
soube.
Mas
rezou…
Rezou
a reza confusa dos seres em confusão. Rezou a reza triste dos seres em desespero. Rezou a reza
constrita dos que imploram pelo perdão de última
hora.
O
bilhete comprado lhe havia levado ao juízo final.
Mas
aquele bilhete não era
o que havia pedido ao atendente.
Queria
Chicago.
Na
sua reza final, lembrou-se disto. Era um bilhete errado. Não era seu, era para
outro alguém, um amaldiçoado em desventura.
Sentiu
seus pés sendo puxados,
arrastados. O corredor se tornava longo, novamente. Parecia que retrocedia. No
voltar ouviu uma voz distante… “O que fazes aí?”…
Acordou…
Em
bicas, suava, a cama molhada, lençóis embolados, olhos esbugalhados…balbuciou…
My God!
Me
venderam o bilhete errado!
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