sábado, 16 de novembro de 2019


WRONG TICKET


A estação já havia sido bonita. Em seus dia de glória, um burburinho frenético enchia as galerias. O ir e voltar de pessoas pareciam pintar movimentos sem destino. E este, deixou-a despida, envelhecida, quase abandonada.
Em seus trilhos passavam dois trens, depois da meia noite. Neles também desfilavam cargueiros sem o charme dos vagões prateados, das janelas panorâmicas onde se podia ver o viajante em seus sonhos distantes, olhares perdidos, à procura de um destino.
No alto da noite, sempre fria, o barulho metálico das rodas sobre trilhos, anunciava o chegar da composição suja, desgastada e sempre atrasada.
O guichê, atendido por um insípido funcionário, mal vestido e sonolento, vendia passagens que quase não eram mais ali compradas. Mesmo assim, ele, que não era dado às modernidades tecnológicas, em voz rouca pelo tardio da madrugada, solicitou o bilhete de um só destino.
Não o conferiu.
Achou que era melhor se acomodar no vagão de poltronas rôtas, talvez com um cochilo adornado pelo balançar monótono, no estalar metálico de rodas em aço surrado pelo tempo. Colocou-o ao seu lado, à espera do condutor.
Dormiu.
Não percebeu o vazio do carro. Não percebeu o escuro cinzento, o zumbido enlouquecedor de lâmpadas em curto, amareladas, cansadas de iluminar.
Não percebeu que os estalos metálicos já não mais se faziam ouvir.
Dormia em sono profundo. Dormia como se estivesse em outro mundo. Nem sonhos sonhava…
Quando abriu seus olhos, não viu o que vira antes. Via um corredor enorme, ladeado por portas escuras, em uma cadência alucinadora como os reflexos de espelhos paralelos em uma casa de horrores. O cinza prevalecia, a ausência de cores indicava uma tristeza permeante que entrava em seu ser, devorando-o, subjugando-o à sensações que não havia ainda experimentado.
Olhou para o seu lado. O bilhete ali estava como deixado. Tomou-o em suas mãos e o leu, pela primeira vez.
. One Way Ticket to Hell. No refund. No exchange
Não acreditou no que via. Leu, releu. Apavorou-se. Um frio, de proporções árticas, subiu-lhe a espinha.
Que teria acontecido?
Lembrou-se do atendente. Lembrou-se de subir no vagão, olhando a estação vazia, e, recordou-se do carro, cinza, sujo, decrépito e lúgubre. Refez todos os seus últimos movimentos. Sabia que dormira, mas por razão que não conseguia explicar, sentia-se ainda preso ao sono absorvente que mostrava-se não ter terminado.
O corredor sem fim parecia alongar-se. Uma porta de almofadas negras surgiu do nada, emoldurando o seu possível fim.
Moveu-se lentamente, olhando em todas as direções. Aproximou-se…
Com um estrondo súbito, estridente e esganiçado, abriu-se…
Uma figura de expressão indescritivelmente má surgiu-lhe à frente.
Era um homem. Teria a idade daqueles que a idade não conta, nem é contada. Seus trajes, em frangalhos indicavam estilo somente ligado à velhos marinheiros do século XVIII. Azul marinho, que nem marinho era mais. Botões largos, frouxos, desbotados.
Tinha um saco às costas. Segurava-o como se alí existisse algo de mais precioso.
Sua boca era larga, seus dentes podres, hálito fétido, sujo, sebento, com rugas em sua face que mais pareciam cicatrizes de guerras certamente perdidas.
Não era amistoso. Avançou, babando uma baba amarela, gosmenta. Seus dentes pareciam afiados, pingavam o que parecia ser sangue.
Ele, desesperado sentiu-se perdido. Encostou-se em uma das portas esperando o desfecho que já deixava a dor do pânico incontido, devorando seu ser.
No torpor da morte certa sentiu em suas mãos um bastão. Não sabia de onde veio, mas alí estava.
Com força e fúria descomunais desferiu um golpe sêco, no alto da cabeça da criatura.
Esta, caiu, estatelada, inerte…
De seu saco saiu uma serpente. Um monstro. Esverdeada, escamada e vazando um líquido verde, pastoso e ácido. Imensas presas se faziam mostrar. Seu enrolar indicava um ataque iminente.
O sibilar e a visão da língua bifurcada perto do seu rosto lhe deu talvez o último movimento de defesa.
Novamente, sem explicar como, surgiu, em suas mãos uma barra de ferro, afiada, pesada e longa. Com ela desferiu uma estocada certeira no cérebro da víbora, transfixando-o, em um só golpe. O monstro, que não havia ainda morrido, tentou envenená-lo com um ferrão venenoso, localizado em sua cauda.
Não conseguindo evitar o ataque, foi picado e alí ficou, paralisado, vendo mas não sentindo, pensando, mas em turbilhões, sem sentido, sonolento, como que se aquele sono do vagão ainda estivesse presente.
Pensou que ia morrer. Pensou que o inferno que o rodeava era o presente pela sua vida anterior, pelas suas falhas, incompreenes, orgulho e traições.
Não sabia rezar. Nunca soube.
Mas rezou…
Rezou a reza confusa dos seres em confusão. Rezou a reza triste dos seres em desespero. Rezou a reza constrita dos que imploram pelo perdão de última hora.
O bilhete comprado lhe havia levado ao juízo final.
Mas aquele bilhete não era o que havia pedido ao atendente.
Queria Chicago.
Na sua reza final, lembrou-se disto. Era um bilhete errado. Não era seu, era para outro alguém, um amaldiçoado em desventura.
Sentiu seus pés sendo puxados, arrastados. O corredor se tornava longo, novamente. Parecia que retrocedia. No voltar ouviu uma voz distante… “O que fazes aí?”…
Acordou…
Em bicas, suava, a cama molhada, lençóis embolados, olhos esbugalhados…balbuciou…
My God!
Me venderam o bilhete errado!



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