quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O PARADOXO DE MORFEU

Cinza, cinza, gray, eram as montanhas…
Névoa esbranquiçada, algodão do firmamento.
Chuva fina, fina piova, light rain…

Aqui, uma coisa linda…
Só um sonho, sonho cinza, de uma história infinda…
Mas porque sonho este sonho, se meu amor em seu sonho sonha?
E, no sonho dela sonha o meu sonho?
Só Morfeu explica…
Paradoxo de sonhos, encontro de devaneios…
Eu sonho seu sonho e você sonha o meu…


Sonhava…era uma noite gostosa, de chuva fina… 
Estava no seu fim, perto da manhã que se avizinha, bruma espessa, silêncio mudo.

Ela também. Não aqui estava, mas estava em sonho outro, nuvens brancas, o amanhã chegando, silêncio que falava nos bicos dos pássaros que encantavam o sonho louco, que era dela e dela não era…era meu…

Mas eu sonhava que outra era, não ela, mas outra bela, singela como ela, enrubecida pela nudez despida de pudor, mas cheia de amor.

E ela, nua em gaze envolvida, rodopiava ao som da dança silente de um sonho quente, de um amado outro, que outro era e não seu querido, que ali não era.

E ele fiel, não queria a diva, que despida implorava pelo amor insano. Pensou no preço do amor traído, do olhar em chamas, do silêncio rude, do desamor nascente.

A bela amada, sonhando com amado que não era seu, chorou feliz por sentir, em outras plagas, amor sincero, que era dela e não se apaga.

No abrir dos olhos, o cinza havia, a bruma fria e a cama vazia. Na casa ao lado, a cena igual, o calor infernal de uma certeza abismal.

Traíram ninguém, amaram tudo. No paradoxo, em braços de Morfeu, sentiram mais amor e, juntos, em um abraço infinito, esperaram pelo entardecer, onde as cores do sol, nas nuvens de primavera, trariam o verão que tanto esperavam.


Morfeu sorriu…
Nos seus braços sentiu…
Que o amor de verdade,
Não tem idade, tem cumplicidade,
A reciprocidade…
De apaixonados, amados,
Que perdidos,
Em um paradoxo sem fim, se encontram rendidos
Em explosão de calor,
Em seu abraço sedutor…


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Paradoxo Temporal





Capítulo V

(trip to nowhere, um conto sobre viagens à outros mundos)

O paradoxo temporal se iniciara. Uma onda gravitacional varreu aquela dimensão.

A bolha se destruiu.

Dois gnomos desapareceram. Um outro momento quântico originou-se e um gnomo surgiu na Terra, em um outro universo em um outro tempo. Neste, a Terra não havia sido colidida pelo asteroide que exterminou os dinossauros.

O homem como espécie não tinha ainda evoluído. As criaturas jurássicas dominavam o planeta.
Ao ser expelido da bolha o gnomo duplicata se materializou. Sua expressão de pânico era total. Ali naquele mundo inóspito havia aterrizado na mesma região onde hoje permanece, ou seja no Arkansas. Reconhecia o terreno mas lá não havia humanos, somente dinossauros e alguns deles, os tais velociráptors o rodeavam. 

Acredita-se que o gnomo do Arkansas pereceu nas garras dos ditos cujos. Dizem, nos alfarrábios quânticos que era o gnomo original…

O outro voltou à Conception of the Deep Weeds. Não se lembrava de nada mas lá estava, em um universo no qual nada existia em termos de vida humana. 

Estava sozinho, perdido, sem sua guitarra, seu cavalo, seus amigos. 

Entendia tudo sobre a teoria dos mundos paralelos, mas de nada lhe valia. Seu consolo era que tinha certeza que existia em outros mundos, mas aquela versão dele, naquele universo, naquela Terra sem humanos, era solitária, abandonada. 


Rezou para que outro gnomo conseguisse fazer a bolha passar por lá, em um outro tempo, o encontrasse e o salvasse. 

Afinal, quando escorregou e gerou o paradoxo, outro momento quântico se iniciou. O momento que não aconteceu, aquele da bolha, que continuava à existir com os três gnomos dentro, em outro universo.

Porém ali, naquele plano quântico, era ele, e ele somente.

Naquela manhã, no dia seguinte a epopeia, em Conceição do Mato Dentro, um cavalo arreado, com uma guitarra na sela, entrou em passos lentos pela rua principal da cidade. Somente o cavalo, sem o cavaleiro.

Gnomo havia desaparecido. Seus colegas cavaleiros choravam desolados. 

As noites de Conceição ficaram tristes, os bares sem a alegre figura que os coloria fecharam-se em um luto etéreo .

Conception of The Deep Weeds havia perdido seu gringo residente…

Minha filha, conhecedora da peça, somente balançou a cabeça…

"Isto é coisa de gnomo, falou…

Tenho certeza que aparecerá, de novo…em algum lugar…

Em outras bolhas do tempo."..



FIM



terça-feira, 28 de novembro de 2017

ST. LO FRAKS
St. Lo Fraks
29 11 1918

(palavras para um pai que se foi)
O Grande Adolpho Gilberti


Noventa e Nove…

Quase cem anos de seu nascimento. O terceiro de cinco filhos de um casal de italianos da Emilia Romagna.

Se fizeram outra criatura tão maravilhosa, jogaram a forma fora.

Como bom italiano fez sete quando se casou com uma circunspecta garota das Minas Gerais. Ela, ainda circunspecta, já está nos seus 96, indestrutível, severa, verdadeira mineira dos tempos de outrora.

Ele, trazia consigo o sorriso. Dizia que usava óculos cor-de-rosa para ver o mundo melhor. E, com sua doce maneira de ser, nos fez melhores.

Quando se foi, deixou um vazio tão grande que é impossível de ser preenchido.

Mas nós o amamos meu pai, eu, minha irmã, meus irmãos e, certamente, todos seus amigos, parentes e  sua irmanzinha ainda viva, a nossa querida tia Vilma. 

Amamos tanto que resolvemos canonizá-lo.

Assim, a confraria dos Gilbertis, que inclui também os Gibertis, por aclamação, proclama o digníssimo Sr. Adolpho Saturnino Gilberti, 

Saint Lo Fraks.

Neste ato, ficam revogadas quaisquer disposições contrárias, inclusive as de nossa ilustre matriarca. Isto porque ela certamente irá dizer…”Mas seu pai nunca foi santo!!!”

Bobagem, foi, pois foi por nós proclamado, e… ponto final.


Dia 29 de Novembro dia de St. Lo Fraks
A Viagem


Capitulo IV
(trip to nowhere, um conto sobre viagens à outros mundos)


Já havia anos que o gnomo viajante vagava por incontáveis universos paralelos. Ali, naquele momento, fora a primeira vez que encontrou um outro “eu”. Estava extasiado.

Entretanto, nosso gnomo e sua teorias de conspiração trazia a experiência de ser o gnomo original, ou seja, aquele que gerou todos os outros gnomos em universos diferentes através de suas decisões quânticas. Assim sabia que havia aquele que morou em Florença e lá continuava. Também aquele que se casou com a bela brasileira e continuava casado, aquele que se mudou para o Arkansas e lá estava, e assim por diante.

Trazia um novo conhecimento que excedia o do gnomo viajante. De onde ele havia vindo não se sabia, mas era também produto dele mesmo. E isto era um problema pois o original era desastrado.

Na sua primeira viagem foram ate Florença, num passado recente. Lá conseguiram cooptar a versão que havia ficado naquele universo. Trouxeram-no para dentro da bolha.

Embora grande e etérea a bolha estava sobrecarregada. Os gnomos não poderiam se tocar pois gerariam um paradoxo temporal, mas gnomos não obedecem as leis do bom senso e, nosso herói desequilibrou-se e, no processo, tocou o gnomo viajante. Uma onda gravitacional imediatamente se formou distorcendo o espaço-tempo. Não havia como parar o fenômeno desencadeado.

O gnomo florentino foi o primeiro a desaparecer, em seguida o gnomo viajante.

O original foi novamente duplicado e enviado a dois universos diferentes. Neles o tempo havia distorcido, era presente mas não era igual ao que havia sido. O paradoxo havia mudado tudo…

GNOMO MAN








Amanhã o último capítulo : O Paradoxo Temporal  
Aguardem…e verão um final surpreendente!


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Convite


( A trip to nowhere, um conto sobre viagens à outros mundos)

Capítulo III


A bolha não era exatamente uma nave. Não existia matéria em seu interior. 

Tudo que ali estava era holográfico.

Por não possuir matéria não se relacionava com as conhecidas leis da física. 

Era o contrário de um buraco negro. Para estar em seu interior somente o DNA quântico ali estava presente. E este DNA não era constituído de matéria, mas carregava todos os códigos do que transportava.

A bolha era capaz de se deslocar ao longo da linha do tempo. No presente, passado e futuro. Como não possuía massa penetrava em planos dimensionais diferentes. Transitava através de universos paralelos. No seu interior possuía todas as 11 dimensões.

Deslocando-se em velocidade instantânea a bolha pairava sobre o sumidouro. Ali havia um portal quântico, um “worm hole”. Por ele transmutava-se comandada pelo tablete de cristal.

Gnomo estupefato absorvia todo o conhecimento transmitido pelo seu outro eu. Aprendeu que este, já havia tempo, transmudava-se para outros universos à procura dele mesmo, em outras vidas. Não havia encontrado nenhum outro ele, até aquele momento.

Recebeu o convite para viajar, o qual imediatamente aceitou.

A película externa da bolha agia como um escudo de energia. Do lado de fora as forças tradicionais do universo entre as quais a da gravidade. Dentro, simplesmente nada, a não ser um momento quântico contínuo. Para nela entrar bastava um comando do gnomo de dentro, através da placa de cristal. 

Era necessário retirar tudo que não fosse parte do DNA do visitante, assim, no momento da entrada, as forças gravitacionais externas destruiriam o que vestia, o que transportava. Dentro somente seu DNA quântico. O resto, pulverizado em forma de átomos, permanecia do lado de fora.

Como duas entidades idênticas não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo, nosso gnomo foi alertado a não tocar o gnomo viajante. Um paradoxo temporal poderia se formar caso isto acontecesse.

Gnomo adentrou…sentiu um formigamento louco enquanto sua matéria era pulverizada, sentiu uma leveza incrível quando dentro da bolha se descobriu etéreo, reluzente.

Seu outro eu, satisfeito,  iniciou a transmudação.

Pelo worm hole desapareceram…


Amanhã o quarto capítulo : A Viagem…aguardem pois fica ainda melhor!


domingo, 26 de novembro de 2017

A BOLHA DO TEMPO


Trip to Nowhere
Capítulo II
(Um conto sobre viagens à outros mundos)



Não era uma bolha qualquer. Era enorme. Tinha por volta de três metros de circunferência, película leve, idêntica à uma bolha de sabão, transparente e reluzente. Dentro, uma figura humana despida, flutuando em seu centro. Era a cópia fiel do nosso gnomo, um pouco mais bem tratado, mais iluminado.

No seu estado natural a criatura trazia somente uma placa de cristal, do tamanho de um smart phone, entranhada em seu braço direito. Um implante certamente. Algo que fazia parte daquele ser.

Gnomo aproximou-se. Quando tocou a bolha sentiu uma descarga de energia. Como um formigamento a se espalhar pelo corpo, incomodante, irritante. A bolha cedia mas à medida que tentava se aproximar de seu centro e da criatura, ficava mais rígida e as descargas de energia aumentavam ao ponto de se tornarem insuportáveis.

Sentiu que aquele ser desejava se comunicar. Mas não produzia nenhum som. Pensamentos entravam em sua cabeça e o aquietavam quanto ao mistério ali presente. Sentiu-se aliviado.

A bolha parecia uma espécie de nave. Não voava, era estática. Mas demonstrava ser capaz de se deslocar, não no sentido linear que conhecemos mas em todas as direções, simultaneamente. Ou seja, capaz de ali estar e no momento seguinte ter-se esvanecido num piscar de olhos.

A criatura lhe transmitia dados que o levavam a tais deduções. Vinha de outro mundo, uma réplica do nosso, através do tempo e das dobras entre universos distintos. Ali estava em mais uma destas incursões. Ali estava em uma missão específica e esta, incluía gnomo.

A esfera era capaz de perfurar uma dobra quântica, atravessando dimensões e universos paralelos. Era conduzida pelo tablete de cristal, algo capaz de criar um vórtex temporal. Algo capaz de atravessar o tecido de mundos paralelos. Algo capaz de desvendar nossas vidas simultâneas em outros universos, vidas que existiriam como produtos de decisões quânticas que nos fazem existir em universos onde as decisões tomadas se diferem daquelas que aqui escolhemos.

No livre arbítrio dos universos, vivemos em missões que assumem o papel de todas aquelas decisões feitas ou tomadas. Uma vez tomadas, atravessamos a barreira entre os planos universais e nelas a vida segue, com outros “nós”, com outras situações adversas ou semelhantes. Gnomo conhecia a teoria dos mundos paralelos. A criatura lhe havia dado algo de fato, algo real, que pudesse acreditar.

Mas por que era tão semelhante a ele mesmo?

Lentamente apercebeu-se que aquele ser era ele mesmo. Vindo de outra dimensão, vindo de um outro tempo, vindo de outro universo….



Amanhã: Terceiro capítulo   O Convite   Não percam!

sábado, 25 de novembro de 2017

A TRIP TO NOWHERE

VIAGEM POR OUTROS MUNDOS


Capítulo I  

Gnomo em Conceição

Ele era diferente. Eu, gostava da criatura que achava que eu não gostava dela. Mas na verdade, gostava.

Tinha um jeito irlandês, meio judeu, mas embora mais italiano que tudo, era americano. Não aquele que torcia para o time, mas o tal nascido em berço de Uncle Sam.

Para ele, o mundo era uma conspiração contínua. De políticos, empresários e mega milionários tudo conspirava contra todos, até os alienígenas de outros planetas. Sim, pois não só acreditava existirem quanto já os havia visto. Tinha de todo tipo, altos, baixos , verdes, magrelos, horrorosos, reptílicos e outros mais. Uns moravam debaixo da terra em cavernas, outros, capturados em Rosswell distribuíam tecnologias aos humanos sedentos por guerra, poder e subjugação. 

Era assim que os via…

No seu viver parecia um duende. Ganhou o apelido de gnomo não somente pela aparência mas pela maneira em que se movia. Surgia do nada e no nada desaparecia. Casou-se com minha filha…

Ela, equilibrada, artística e incrédula vivia às turras com os repentes do rapaz. Criativo e com um vozeirão tonitruante enchia todos os espaços e, no processo, os ouvidos dela. O melhor de tudo era sua simpatia. Não havia jeito de não gostar do dito cujo.

Um dia, entre fracassos nas telas que pintava e medo do fim do mundo que se aproximava, mudou-se para Conceição do Mato Dentro. Conception of the Deep Weeds era um local no meio do quadrilátero ferrífero do estado das Gerais, no sertão brasileiro. Paisagem linda, cidade nem tanto, sobravam uns dois prédios barrocos que os locais ainda não tinham tido a chance de dizimar. Mas havia calvalgadas. Coisa de louco…

Pelas montanhas, ao luar, viola em punho partiam de um lugar ermo para outro mais ermo ainda. Dormiam ao relento, liam e viam a Via Láctea, Milk Way para os gringos de plantão. Tocava o baixo. Diria que relativamente bem embora talvez fosse fruto da guitarra maravilhosa que lhe havia sido dada pela então amada esposa.


Conceição tem música, e muito boa. Tem também uns bares, boa comida e grandes linguiças. Terra de cachaça, irrigava as gargantas do cavaleiros quiçá de seus cavalos. E foi numa destas cavalgadas que se perdeu…no escuro de uma noite chuvosa.

Apavorado que era, entrou em um pânico irreversível. Via discos voadores, seres reptílicos à sua caça, cobras, serpentes, lagartos e, é claro, aquilo que mais temia…carrapatos. Gringos não gostam dos bichinhos.

Parou na escuridão pois não sabia para onde ia. A chuva havia cessado, o céu sem nuvens mostrava no escuro de lua nova, bilhões de estrelas à brilhar. 

À luz das mesmas pesquisou os arredores. Esqueceu-se de amarrar o cavalo. Quando deu por si já não mais o tinha.

Piorou tudo…e no terror desmaiou.

O dia amanheceu lindo. O sol timidamente se refletia nas gotas de orvalho. A bruma da manhã, preguiçosa e dolente se levantava rumo aos céus e na sua viagem se dissipava como algodão doce nos lábios da amada.

Ele acordou. Ainda sobressaltado não conseguiu descobrir onde estava.

O lugar era deveras diferente. Talvez como Milho Verde, um local onde as montanhas rodeavam um vale chato, de vegetação rasteira. Um local onde vertentes desciam pelas encostas e desapareciam no seu centro, num sumidouro aterrorizante.

Pior ficou…. Perto do tal sumidouro achou que iria sumir, ele mesmo, naquela terra sem nome.

Mas gnomos gostam de ouro e, como há ouro no fim de um arco-íris, para lá se foi pois o tal havia aparecido, brincava com a bruma, dançava ao sol nascente. Em sua procura tradicional descobriu algo que reluzia mais do que ouro, uma bolha dourada, transparente à flutuar sobre a relva. Dentro dela uma criatura que se assemelhava a ele mesmo.

Nenhum gnomo que se preza deixa sua curiosidade de lado. E esta, que mata os gatos mata também gnomos… Criou coragem, sorrateiramente se aproximou…


Primeiro capítulo da saga. Amanhã será postado o segundo…aguardem…

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A CASA VIVA



Eram três. Amigos de infância, irreverentes, corajosos. Eram impossíveis…

Na escola um problema certo. Em casa um horror. Bagunçados, desarrumados, viviam à falar sobre o sobrenatural. Uma curiosidade mórbida que florescia em suas mentes. Não tinham medo de nada.

Quando passaram à ler, liam histórias de terror. Não era à-toa que gostavam de Poe. Viam no retrato de Dorian Gray um pouco deles mesmos. Eram capazes de fazer um pacto com o demônio somente para descobrir se o outro lado era tão interessante como achavam.

Aos domingos iam à igreja, uma capela barroca do século XVII, com cemitério e tudo mais. Em sua nave principal os jazigos daqueles que pagaram para morrer mais perto de Deus, como se aquilo fosse realmente garantia do paraíso. Lá fora, em ruínas, o cemitério mal cuidado, mausoléus em desreparo, cruzes e caveiras de ferro fundido.

Gostavam de ir ao campo santo pois alí acharam um túnel subterrâneo que levava à uma cripta com ossos humanos empilhados desordenadamente. Isto era, para eles o máximo. Mas, embora aterrorizante, não os amedrontava. Queriam algo mais misterioso, perigoso, desafiador.

Seu professor de história gostava de coisas inexplicáveis. E foi por ele, o professor, que souberam da casa da fazenda de um Coronel. A casa, abandonada há anos, se situava nos arredores da pequena cidade onde viviam. Fora a sede de um pequeno sítio de férias de um homem importante, fundador da cidade, morador da capital e que mantinha um vínculo saudoso com o local de seu nascimento. Mas um homem de reputação ruim.

Contava o professor que o tal Coronel era mau, muito mau. Casou-se muitas vezes, todas as esposas faleceram e isto aconteceu naquela casa. 

Quando o dito Coronel morreu, não se sabia da forma em que partiu. Sabia-se que não mais existia. Foi reconhecido numa tarde na varanda da casa e, no dia seguinte, simplesmente sumiu. Nunca mais foi visto, daí suporem que havia morrido.

A casa em desreparo foi vítima do tempo. Era também considerada assombrada. Diziam que as almas das falecidas alí estavam presas num vórtex temporal. Clamavam por vingança. Ouvia-se o choro de mulheres nas noites sem luar, um choro triste, um lamento pungente, um grito desesperado, sufocado.

Os habitantes do local evitavam dela se aproximar. As histórias que contavam induziam ao medo e medo era aquilo que os três não tinham, isto é, até o dia em que fizeram um pacto…dormiriam naquela casa e lá ficariam. Prometeram aos espíritos das trevas que se o fizessem seriam por eles recompensados. Queriam ouro, as riquezas que diziam estar escondidas naquele lugar. Queriam a fortuna do Coronel. Prometeram suas almas, alí nas catacumbas do cemitério em uma noite de Halloween, na frente dos ossos insepultos.

Irreverentes que eram, prepararam uma deliciosa matula. Levaram até uma garrafa de aguardente. Pensavam em fazer como o preto-velho lá do centro de umbanda, ofertando a raivosa aos espirítos do além. Viam nisto uma oferenda de paz caso as almas penadas daquela casa se fizessem de aborrecidas.

Na escola havia uma bela loirinha de olhos azuis. Filha do prefeito, era toda arrumadinha mas tinha um espírito leve. Gostava dos três, gostava da imaginação deles, gostava da ousadia. Não foi adversa ao convite para passar a noite na casa assombrada. Muito pelo contrário achou a idéia incrível. Já havia visitado a cripta com eles e não se assustado com o que viu. Eles, achavam nela a diva que deixava seus corações à sonhar. 

Qual deles seria agraciado com um beijo? Talvez algo mais? Quem sabe? O certo e que ela somava, alegrava, trazia um ar de sensualidade à missão tenebrosa para a qual se haviam proposto.

A noite era escura. Chovia, e muito… Uma chuva densa, contínua, aborrecida.

Quando lá chegaram quase não viram a casa. Estava coberta por uma neblina densa.

Escura, triste e abandonada a casa os chamou. Sem aviso algum sua porta principal abriu-se como num convidar para uma festa. Velas que não sabiam existir lá estavam, acesas, tremulantes, à desenhar formas e sombras. Sombras que lembravam pinturas da Divina Comédia de Dante Alliguieri, dançando em um frenesí louco num inferno ardente.

Acharam o cenário ainda mais excitante. Somente a companheira assustou-se.

Intrépidos que eram, logo racionalizaram a estranha e inédita recepção. Era certamente a obra do pacto que fizeram. Os seres das trevas lhes desejavam sucesso. Aninharam-se no empoeirado sofá da sala.

As horas passavam lentas, talvez mais lentas do que seria normal. Por uma razão estranha, alí, naquela casa, o tempo não mudava. Mas algo incontrolável se mutava nas entranhas da edificação.

Não era uma casa grande. Havia uma escadaria imponente que levava ao segundo andar, sob a mesma uma outra, estreita e escura conduzia a um porão de pedras em arcos, mofado, fétido.

Exploravam o segundo andar quando a bela loirinha sentiu algo tocar-lhe nos ombros. Voltando-se rapidamente teve a sensação de que as paredes se aproximavam. Era como se o corredor estreitasse e o papel de parede vitoriano estivesse em movimento. Mas, fixando os olhos na penumbra que envolvia o comodo, não teve certeza do fato. Talvez fossem as imagens trêmulas causadas pelas chamas das velas. Aliás, estas se espalhavam por todos os lugares. Jurariam que havia mais velas acesas do que quando na casa entraram.

A noite não terminava. O relógio parado às doze.

Mais longa ficava, mais estranha, mais lúgubre.

Gemidos, no seu início tímidos, se faziam ouvir. Parecia que saiam das paredes. O volume aumentava e com ele soluços dilacerantes, e, enfim uivos e gritos ensurdecedores. Naquele momento sentiram medo. Um medo real, profundo, avassalador, devorante. De quatro amigos, sobraram três. O mais novo havia desaparecido.

Correram para o andar térreo. Tentaram sair pela porta da frente, mas esta não abria. Todas as janelas haviam se fechado, todas trancadas. 

Reunidos em frente à lareira seguravam os ferros de tiçar.

As paredes da lareira se fechavam e braços enormes saiam das pedras envolvendo-os num abraço demoníaco. Lutando tentavam se safar quando o corpo do amigo mais novo foi expelido de sua fornalha. Estava totalmente descarnado.

No pânico que lhes dominava lembraram-se das orações que ouviam quando iam à capela. Rezaram e o fizeram em bom som. Por um breve momento tudo parou. O relógio da sala continuava às 12 horas.

Mais recompostos tentaram analisar a situação. Buscavam uma solução, choravam pelo amigo perdido. Ofereceram a matula, a aguardente. 

Queriam acalmar os espíritos.

Um vulto em uniforme militar, com um sorriso diabólico surgiu saindo das paredes da casa. Era como que se a casa estivesse viva. Era como que precisasse de se alimentar. As almas das mulheres que alí faleceram se desenhavam em suas paredes. Dançavam uma dança de bruxas, rodopiavam e de suas mãos saia um sangue negro que tingia o assoalho.

O vulto militar comandava o espetáculo dantesco. Pequenos duendes pululavam ao seu redor. Seguravam potes cheios de ouro, colocavam-nos a seus pés.

O som de uma versão louca de Carmina Burana se fazia ouvir. Taças de vinho, cheias de sangue brindavam demônios.

Veni, veni, venias
Bibit servus
Bibit velox
Bibit piger
Bibit diabolus
Bibit anus

As criaturas se descolavam das paredes e se aproximavam. Cercados, não podiam mover. Cercados, se sentiram paralisados, cercados, sentiram seus corpos desmancharem. Descarnados, foram devorados.

Na casa de esposas mortas, na casa de um déspota do passado morreram, todos os quatro. Seus corpos nunca foram encontrados. A casa e seus espíritos deles se havia alimentado. Os seres das trevas cobraram a promessa feita. Lá eternamente ficaram.

Na pequena cidade onde moravam contava-se que a casa, após aquela noite, havia amanhecido mais nova, restaurada.

Era como se tivesse vida novamente.

Ali, à esperar, por alguém, amanhã, no vórtex do tempo…

Alguém que tivesse coragem para alí passar uma noite,


Somente…