A
CASA VIVA
Eram três. Amigos de infância, irreverentes,
corajosos. Eram impossíveis…
Na escola um problema certo. Em casa um horror.
Bagunçados, desarrumados, viviam à falar sobre o sobrenatural. Uma curiosidade
mórbida que florescia em suas mentes. Não tinham medo de nada.
Quando passaram à ler, liam histórias de terror. Não
era à-toa que gostavam de Poe. Viam no retrato de Dorian Gray um pouco deles
mesmos. Eram capazes de fazer um pacto com o demônio somente para descobrir se
o outro lado era tão interessante como achavam.
Aos domingos iam à igreja, uma capela barroca do século
XVII, com cemitério e tudo mais. Em sua nave principal os jazigos daqueles que
pagaram para morrer mais perto de Deus, como se aquilo fosse realmente garantia
do paraíso. Lá fora, em ruínas, o cemitério mal cuidado, mausoléus em
desreparo, cruzes e caveiras de ferro fundido.
Gostavam de ir ao campo santo pois alí acharam um
túnel subterrâneo que levava à uma cripta com ossos humanos empilhados
desordenadamente. Isto era, para eles o máximo. Mas, embora aterrorizante, não
os amedrontava. Queriam algo mais misterioso, perigoso, desafiador.
Seu professor de história gostava de coisas
inexplicáveis. E foi por ele, o professor, que souberam da casa da fazenda de
um Coronel. A casa, abandonada há anos, se situava nos arredores da pequena
cidade onde viviam. Fora a sede de um pequeno sítio de férias de um homem
importante, fundador da cidade, morador da capital e que mantinha um vínculo
saudoso com o local de seu nascimento. Mas um homem de reputação ruim.
Contava o professor que o tal Coronel era mau,
muito mau. Casou-se muitas vezes, todas as esposas faleceram e isto aconteceu
naquela casa.
Quando o dito Coronel morreu, não se sabia da forma em que
partiu. Sabia-se que não mais existia. Foi reconhecido numa tarde na varanda da
casa e, no dia seguinte, simplesmente sumiu. Nunca mais foi visto, daí suporem
que havia morrido.
A casa em desreparo foi vítima do tempo. Era também
considerada assombrada. Diziam que as almas das falecidas alí estavam presas
num vórtex temporal. Clamavam por vingança. Ouvia-se o choro de mulheres nas
noites sem luar, um choro triste, um lamento pungente, um grito desesperado,
sufocado.
Os habitantes do local evitavam dela se aproximar.
As histórias que contavam induziam ao medo e medo era aquilo que os três não
tinham, isto é, até o dia em que fizeram um pacto…dormiriam naquela casa e lá
ficariam. Prometeram aos espíritos das trevas que se o fizessem seriam por eles
recompensados. Queriam ouro, as riquezas que diziam estar escondidas naquele
lugar. Queriam a fortuna do Coronel. Prometeram suas almas, alí nas catacumbas
do cemitério em uma noite de Halloween, na frente dos ossos insepultos.
Irreverentes que eram, prepararam uma deliciosa
matula. Levaram até uma garrafa de aguardente. Pensavam em fazer como o
preto-velho lá do centro de umbanda, ofertando a raivosa aos espirítos do além.
Viam nisto uma oferenda de paz caso as almas penadas daquela casa se fizessem
de aborrecidas.
Na escola havia uma bela loirinha de olhos azuis.
Filha do prefeito, era toda arrumadinha mas tinha um espírito leve. Gostava dos
três, gostava da imaginação deles, gostava da ousadia. Não foi adversa ao
convite para passar a noite na casa assombrada. Muito pelo contrário achou a idéia
incrível. Já havia visitado a cripta com eles e não se assustado com o que viu.
Eles, achavam nela a diva que deixava seus corações à sonhar.
Qual deles seria
agraciado com um beijo? Talvez algo mais? Quem sabe? O certo e que ela somava,
alegrava, trazia um ar de sensualidade à missão tenebrosa para a qual se haviam
proposto.
A noite era escura. Chovia, e muito… Uma chuva
densa, contínua, aborrecida.
Quando lá chegaram quase não viram a casa. Estava
coberta por uma neblina densa.
Escura,
triste e abandonada a casa os chamou. Sem aviso algum sua porta principal
abriu-se como num convidar para uma festa. Velas que não sabiam existir lá
estavam, acesas, tremulantes, à desenhar formas e sombras. Sombras que
lembravam pinturas da Divina Comédia de Dante Alliguieri, dançando em um frenesí
louco num inferno ardente.
Acharam o cenário ainda mais excitante. Somente a
companheira assustou-se.
Intrépidos que eram, logo racionalizaram a
estranha e inédita recepção. Era certamente a obra do pacto que fizeram. Os
seres das trevas lhes desejavam sucesso. Aninharam-se no empoeirado sofá da
sala.
As horas passavam lentas, talvez mais lentas do
que seria normal. Por uma razão estranha, alí, naquela casa, o tempo não mudava.
Mas algo incontrolável se mutava nas entranhas da edificação.
Não era uma casa grande. Havia uma escadaria
imponente que levava ao segundo andar, sob a mesma uma outra, estreita e escura
conduzia a um porão de pedras em arcos, mofado, fétido.
Exploravam o segundo andar quando a bela loirinha
sentiu algo tocar-lhe nos ombros. Voltando-se rapidamente teve a sensação de
que as paredes se aproximavam. Era como se o corredor estreitasse e o papel de
parede vitoriano estivesse em movimento. Mas, fixando os olhos na penumbra que
envolvia o comodo, não teve certeza do fato. Talvez fossem as imagens trêmulas
causadas pelas chamas das velas. Aliás, estas se espalhavam por todos os
lugares. Jurariam que havia mais velas acesas do que quando na casa entraram.
A noite não terminava. O relógio parado às doze.
Mais longa ficava, mais estranha, mais lúgubre.
Gemidos, no seu início tímidos, se faziam ouvir.
Parecia que saiam das paredes. O volume aumentava e com ele soluços
dilacerantes, e, enfim uivos e gritos ensurdecedores. Naquele momento sentiram
medo. Um medo real, profundo, avassalador, devorante. De quatro amigos,
sobraram três. O mais novo havia desaparecido.
Correram para o andar térreo. Tentaram sair pela
porta da frente, mas esta não abria. Todas as janelas haviam se fechado, todas
trancadas.
Reunidos em frente à lareira seguravam os ferros de tiçar.
As paredes da lareira se fechavam e braços enormes
saiam das pedras envolvendo-os num abraço demoníaco. Lutando tentavam se safar
quando o corpo do amigo mais novo foi expelido de sua fornalha. Estava
totalmente descarnado.
No pânico que lhes dominava lembraram-se das orações
que ouviam quando iam à capela. Rezaram e o fizeram em bom som. Por um breve
momento tudo parou. O relógio da sala continuava às 12 horas.
Mais recompostos tentaram analisar a situação.
Buscavam uma solução, choravam pelo amigo perdido. Ofereceram a matula, a
aguardente.
Queriam acalmar os espíritos.
Um vulto em uniforme militar, com um sorriso diabólico
surgiu saindo das paredes da casa. Era como que se a casa estivesse viva. Era
como que precisasse de se alimentar. As almas das mulheres que alí faleceram se
desenhavam em suas paredes. Dançavam uma dança de bruxas, rodopiavam e de suas
mãos saia um sangue negro que tingia o assoalho.
O vulto militar comandava o espetáculo dantesco.
Pequenos duendes pululavam ao seu redor. Seguravam potes cheios de ouro,
colocavam-nos a seus pés.
O som de uma versão louca de Carmina Burana se
fazia ouvir. Taças de vinho, cheias de sangue brindavam demônios.
Bibit servus
Bibit velox
Bibit piger
Bibit diabolus
Bibit anus
As criaturas se descolavam das paredes e se
aproximavam. Cercados, não podiam mover. Cercados, se sentiram paralisados,
cercados, sentiram seus corpos desmancharem. Descarnados, foram devorados.
Na casa de esposas mortas, na casa de um déspota
do passado morreram, todos os quatro. Seus corpos nunca foram encontrados. A
casa e seus espíritos deles se havia alimentado. Os seres das trevas cobraram a
promessa feita. Lá eternamente ficaram.
Na pequena cidade onde moravam contava-se que a
casa, após aquela noite, havia amanhecido mais nova, restaurada.
Era como se tivesse vida novamente.
Ali, à esperar, por alguém, amanhã, no vórtex do
tempo…
Alguém que tivesse coragem para alí passar uma
noite,
Somente…