terça-feira, 26 de setembro de 2017

BLACK FALLS

Da série “sonhos que sonhei”

Era um sonho. Um sonho louco, escuro, obscuro, duro. Um sonho que se repetia com imagens elaboradas, em um preto e branco de fortes contrastes. Um sonho que não ia embora, não saia, não acabava.

Gigantesca queda. Uma Niagara, Victoria ou Foz de Iguaçu em tamanho, volume d’água. Mas era uma cachoeira de águas negras. Negras como a noite escura em um firmamento de estrelas gigantes e um sol frio, platinado, misterioso.

Um sol onde se podia olhar diretamente. Um sol que tinha a cor das estrelas e iluminava como a lua cheia.

Via a negritude das águas revoltas em volutas barrocas em prata ardente. A queda em ferradura, concentrada, revolta, ensurdecedora, dominante. As formas mutáveis e dançantes que se lançavam em um abismo infinito. Via ao lado, cavado no negro basalto um caminho esculpido na pedra bruta, sensual. Bailantes serpentinas argênteas entravam e saiam em túneis paralelos à queda principal. Sem nela entrar, sem nela se misturar a serpente de águas escuras e brilho de prata seguia o descer da queda num tobogã espiralado, veloz, louco, de bordados borbulhantes.

Sabia não estar aqui. Sabia ser algo de uma galáxia distante, um outro planeta, de um mundo ainda não visitado. Havia semelhança nas formas mas não existiam cores. Era tudo negro, um platinado à dançar sobre um branco ofuscante.

Se sonhos são feitos de imagens compiladas, este não o era. Era sim o exemplo do desdobramento do espírito a ver aquilo que os olhos nunca fitaram.

E assim, de repente, uma visão celestial surgiu.

E era linda… Em cores cintilava sobre o pano escuro que a emoldurava. Totalmente nua a diva de cabelos dourados e olhos de cristal rosáceo flutuava sobre o manto líquido, iluminava a noite escura, tremeluzia sobre as águas de ébano, contrastava com a prata reluzente e seduzia com o mais divino sorriso.

Com a mão estendida levou-me à serpente de água que descia paralela à grande queda. Puxou-me gentilmente, deixando-me sentir o envolver do líquido que me tomava em uma viagem de curvas tão intensas quanto aquelas de seu corpo despido.

Não resistí… sucumbindo a um desejo inconfesso me perdí. Me achei em seus braços, molhado, rodopiando nas volutas barrocas dos insanos movimentos do negrume líquido. Descí o infernal tobogã na velocidade da luz. Era macio, leve, molhado e ensurdecedor. Nunca soltei sua mão, e assim, ao fundo cheguei, em um remanso calmo, iluminado pelo sol prateado refletido no negro espelho.

A musa sorriu. Nunca ouví o som de sua voz. Não sei quão lindo seria. Nunca quis dalí sair, nem sei se podia.

Acordei e pensei. Que lindo sonho era, que bela terra escura, que suave fragância me envolvia, que loucuras eu sentia. Pedí para voltar…

Sonho, de novo, em sonhar e a bela novamente achar…



domingo, 24 de setembro de 2017

040
(cosiderações sobre uma estrada ridícula)


Coisa de doidos…

Privatizaram, em estilo PT, uma estrada federal que liga a atual federal capital à ex-capital federal. O estilo é coisa de gênios pelegos…Pedágio barato “para demagogia típica”, prováveis pixulecos de praxe = estrada de engenharia silvícola. Economês “socialista” = retorno no investimento negativo.

Já estão devolvendo a dita, é claro…

Fim do mundo…e olha que a concessionária pediu para administrar o anel rodoviário, em BH.

Seria porque queria tirar a responsabilidade criminal dos diretores do tal DNIT?
O dito anel é fábrica de defuntos.

A estrada, não duplicada, é um vexame. Mal sinalizada, desnivelada, cheia de quebra-molas, curvas descompensadas, um verdadeiro exemplo de como não fazer uma rodovia. E tem que pagar pedágio.

Em qualquer lugar do mundo o pedágio vem depois das obras feitas. Aqui paga-se primeiro…pasmem, para não ter as obras feitas ou mal feitas.

Os limites de velocidade são variados e variáveis. Em um km troca-se de limites cinco a seis vezes. Pergunta-se…deve-se prestar a atenção na via, nos veículos que nela estão, mão e contra-mão, ou nas placas que mudam de 110 a 40 em 200 metros? Que tal 70 e 90 virando 60 e 40 intermitentemente ao longo de curtos espaços?

Haja freios…

O motorista enlouquece. Ver sinais, radares, pardais, quebra-molas instantâneos ou ver o tráfego, a curva, o buraco, o veículo na contra-mão?

Devem achar que somos todos palhaços ou que a nossas vidas nada valem. Vale somente os vales que retiram de nosso bolso para sustentar demagogia barata, burrice crônica, corrupção sistêmica, incompetência plena.

Bando de imbecis. Políticos cretinos. Voltem ao inferno de onde vieram. Levem consigo seus pútridos ditames, seus vícios nojentos, suas faces safadas.

Vade Retrum

Aproveitem e levem também suas vermelhas bandeiras.





quarta-feira, 20 de setembro de 2017


THE GRIM REAPER
brincando com a morte
The grim reaper, a morte …

Dizem que nascemos com uma certeza absoluta…um dia morreremos.

Ao nosso lado estará a figura assustadora que ceifa a corda que nos une à alma. Não a vemos, mas lá está, silente, imponente, assustadora. Nos visita na hora marcada. Não tarda, não erra. Nada diz, mas é a personificação do além, a tal “afterlife”, se realmente existe.

Dizem que é masculina em sua natureza, mas em outras mitologias, como a eslávica, é uma figura feminina, chamada Mazanna.

Prefereria morrer nas lâminas da segunda.

Um grande amigo, em suas horas de filosofia fúnebre pediu: “Quando partir quero deixar um estipêndio para ser gasto em um ventilador, uma mão de lata enferrujada, articulada, presa à minha lápide. O ventilador será para prover o vento que a movimentará para a esquerda e direita, como um adeus mecânico em um moto perpétuo. Peço colocá-lo em frente à minha tumba com as inscrições…se houver vida após a morte…Até Breve…se não…Adeus Para Sempre.”

Se ao morrer, ceifado, desconectado desta vida, sentirmos o desligar, e, neste momento o apagar das luzes, saberemos, nem que por um instante, que isto aconteceu, então…estaremos vivos. Só que em outro lugar, dimensão, inferno ou redenção.

Se nosso não tão caro companheiro, o Grim Reaper, simplesmente nos desconectar, então nada saberemos e nem mesmo o veremos. A negritude do nada prevalescerá. O fim será realmente finito, caput, nyet, nada.

Que pena…valerão os esforços passados? Valerá a vida exemplar, o sofrimento sofrido, a tristeza mais triste? Ou deveríamos ter vivido a vida no egoísmo, na embriaguês do poder, no vício, na traição e na luxúria?

A certeza de que nosso companheiro dos últimos instantes alí estará serviria como a existência de um passaporte para outra vida?

O barqueiro do rio Styx pede pela moeda, o óbulo. Sem ela não nos levará ao outro lado, é necessário portanto, o pagamento. Dizem, e não sei por que, que se parecem. O Grim Reaper e Caronte, filho de Nix, a noite. Mas Caronte o levará ao lado de Hades, senhor das trevas. Sem o pagamento irás vagar por cem anos nesta margem.

E os anjos? Almas luminosas existiriam para não seres presos pelas garras de Hades? Para estas almas merecedoras de um outro fim mais nobre, caberia uma recompensa?

Corro os olhos para a humanidade. Vejo a ganância, o ódio, a corrupção, o desvairio, a tragédia, o desalento. Destruição de tudo, até de nossa mãe Gaia, que nos acalenta.

Me lembra a mitologia que a mãe terra, Gaia, era vingativa com quem a traía. Até Zeus, filho de Reia e Cronos sentiu sua ira. O que a impede hoje, de fazer o mesmo com o homem, filho mortal e insensato?

No ocaso da idade sinto o Grim Reaper mais perto. O hálito da morte perdeu suas nefastas emanações oloríficas. Chego até pensar que há um perfume misterioso no viajar à “afterlife”. Não o temo. Digo que, se me aturou por tanto tempo, não deve ser tão mau assim.

Já reservei meu óbulo. Não sei se comprarei o ventilador e a mãozinha enferrujada do meu amigo, muito menos a lápide, pois não acredito em ocupar o espaço dos vivos nos braços de Gaia. Serei cremado e a ela retornarei, agradecido.

Mas, caso tenha de atravessar o rio Styx, terei comigo o preço da passagem.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

CERTO OU ERRADO?
Considerações sobre a mostra Queermuseu

Dizem que arte é a manifestação do homem ao por em prática uma ideia. Atividade que supõe a criação de sensações ou estados de espírito, geralmente de caráter estético, mas carregados de vivência íntima e profunda.

Arte é a capacidade criadora de expressar ou transmitir sensações ou ainda aquela, natural ou adquirida, de levar adiante os meios necessários para se obter  resultados.

Na sua forma vanguardista é aquela que apresenta características inovadoras na forma e no conteúdo, opondo-se geralmente aos padrões aceitos pelo consenso geral.

Dessa maneira define-se arte, pelo menos em dicionários.

Mas arte é também uma travessura, mágica, espetáculo e até aquela do diabo, seja por desgraça ou infelicidade. Fazer arte fica mais para pintar o sete do que pintar o belo.

Arte não representa necessariamente a beleza. É até mais fácil usá-la para expressar uma ação qualquer. Boa ou má.

Museus e mostras contemporâneas se deleitam em ver a reação de todos. Às vezes, quanto pior, melhor. Falem mal, mas falem…e falem muito.

Em arte se mostra o bom e o mau gosto.  Existem os que querem sempre ver o primeiro, como existem os que gostam do segundo.

O fato é que não deveríamos privar a manifestação de um ou outro, mesmo que o segundo, o mau gosto, seja geralmente ruim.

Em Inhotim, um magnífico museu de arte contemporânea, existem mostras excelentes. Mas também há outras de qualidade duvidosa.

É certo que o tempo deixará sobreviver somente aquelas que realmente poderiam serem qualificadas de inovadoras ou vanguardistas. E, na peneira do tempo, pouquíssimas sobreviverão.

No MOMA encontramos um quadrado branco sobre uma tela branca. Kazimir Malevich assim o fez em 1918. Causou reações, todas variadas, e ainda as causa. Sobreviveu, mas isto não significa que se alguém pintar um quadrado amarelo sobre uma tela da mesma cor terá o mesmo êxito.

Em Porto Alegre, um desavisado banco patrocinou uma exposição cujo conteúdo tinha muito pouco de arte e uma dose exagerada de política e maus costumes.

Misturaram a vontade de serem criativos na forma e conteúdo e se perderam em uma mixórdia de qualidade técnica pobre, composições desequilibradas, arte deformada em linhas, texto, contexto e forma.

Causaram reação por oporem-se à padrões e consenso geral.

Causaram espécie ao transmitir sensação de revolta. Por isso, não  pode ser desprezada como manifestação, seja ela, a exposição, quase-artística, semi ou até mesmo anti.

Era uma mostra de mau gosto. Péssima por natureza, horrível por conteúdo, pobre por imaginação, ridícula por pretensão.

Mas era uma mostra e, como tal tinha seu direito a ser vista por quem quer assim quisesse, menos por crianças.

Pois a verdade atrás da miserável obra jazia o intuito subliminar de deformar aqueles que ainda não estão preparados para discernir sobre imposições ideológicas cuja essência não tem respaldo científico.

Infelizmente, em um mundo que pensa à esquerda se inclina mais ainda à sinistra. Sinistru, do latim, o que é de mau agouro, fúnebre funesto. Pois funesta é a mentalidade daqueles que usam a arte como subterfúgio para expressar suas doentias mentes.

Uma travessura, pintando o sete em brincadeira sem graça. Sem arte nenhuma…

Uma idiotice à ocupar espaço de maneira inútil. Tão pobre quanto as mentes que as criaram.




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O DESPERTAR DE UM SONHO


Noite de sonhos loucos. Noite de sonhos em que sonhos se sonham. Um entrelaçar de imagens que não fazem sentido mas causam o sentir de um estranho e etéreo mundo.

Noite de sonhos claros em escuros aros. Círculos de luz difusa, rodas de fogo fátuo. Fatos sem nexo e histórias desconexas.

Noite de sonhos acordados. De acordes sem som, de sonhos desacordados. No desmaio da alma, do subconsciente, no confuso do mundo difuso, louco, sem o sentido das coisas, ordem da desordem, vagas divagações.

Noite de fogo insano, de luzes apagadas, de negro escuro, de luz inexistente, de um sol poente.

Noite em decúbito, em morte lenta e despertar desfalecido. Pois se abrem os olhos sem se olhar, se abre a alma que já morreu. Morreu na mixórdia de imagens, na loucura da história que nada contava e tudo dizia.

Perdido se achou, não mais procurou. Pois alí, na cama dolente, no embalo da mente, se mente por não acreditar que sonhando estava, se achava, vivo era.

Assim acordou…

E o sonho se foi…

Ficou…

Somente o ácido, na boca seca, nos lábios rachados, no gosto do fel, da maldição negra que sua alma sofreu.

Desfaleceu…


Ao sonho, que não era sonho, voltou…

Fire in the mountains

Dante's inferno

domingo, 17 de setembro de 2017

QUEIMADAS

Palavras em um momento de desalento com o ser humano ao ver o incêndio, por ele provocado, destruir a beleza das serras do rola moça e calçada. (setembro 2017)

Chega setembro…
O vento frio foge, deixando a bruma tomar o horizonte.
Seca, cinza, quente e sem graça ofusca as estrelas, descolore o sol.

Mas, mesmo assim, sem a graça do verde da primavera, sem o frio das noites cintilantes, sem  o cheiro das flores, ouve-se o trinar dos pássaros em cânticos de amor. Pois a primavera está logo alí, na primeira curva, pedindo passagem, pedindo para o mundo colorir.

Mas em setembro têm os homens. Criaturas que aqui, em Gaia, também existem… Mas não coexistem…Pois homem é a criatura que não pensa que a Terra o acolhe por amor. Pensa que dela é dono. Um dono desleixado, arrogante, pretencioso, que finge amar, mas não sabe. Pois amar é dar, e não tomar…

Em setembro, brinca com fogo... E fogo é coisa do demônio. Hades, com seu capacete invisível os comanda, incitando suas almas incendiárias, covardes e destruidoras. Pois este, o homem, é aquele que nesta época seca, triste, no ocaso da vegetação as incendeia, só para ver como fica. E em danças insanas, em um balé obsceno, pulula ao crepitar do fogo, adorando a destruição, a morte das coisas, o decúbito da beleza.

Morre a natureza linda… Morrem as criaturinhas que nela viviam, more o belo, morre até o crepúsculo em cores esmaecidas. Fica o desamor, a desolação, a bruma espessa, o ofuscado sol poente.

Não canta o sabiá, não voam os sanhaçus. Não te vê o bem-te-ví, não voa o colibrí.

Fica o homem, o piromaníaco estúpido, filho das entranhas da Terra, protegido de Hades.

Outrora amado pelos deuses do Olimpo, hoje, frio, seco, desprovido de amor por Gaia, este, que nela vive como um cancer, despreza sua beleza, vive de seu egoísmo, suga-lhe a seiva, o mel que o abençoaria. Mel que lhe desce como fel. Seiva que o envenena pelo ódio ao belo, rejeitando o amor da mãe que o acalenta, rejeitando o carinho de todos aqueles que nela habitam, coexistem e a respeitam.

Assim queima.

Assim dança, num frenesi insano balança, pula, canta, se inferna. Se queima, se morre, se mata.


E nas chamas que lançou, nos braços de Hades se entrelaça,  para que no inferno que criou… dele nunca mais queira sair…

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

VILAS MAIS VIVAS




Ao longo dos anos e até nos paises mais desenvolvidos,  cidades nasceram e cresceram com  áreas menos desenvolvidas como parte viva de sua história.

Em Roma o aventino era a área menos desejada. Naquela época, até as vilas gregas não eram tão bonitas, brancas e sedutoras. Eram feitas de edificações em madeira ou alvenaria sem acabamento. Toscas na forma e aparência.

De uma certa maneira as nossas favelas assim o são. Mas são feias porque não são acabadas. O mal de deixar as edificações nuas, em sua cor de tijolos furados deixa a impressão de desalento e desamor. E isso acontece pela cidade afora.

Se, por um momento de brilhantismo, nossos ilustres urbanistas, arquitetos, sociólogos e políticos penssassem em nossas favelas como obras acabadas, estes mesmos casebres que se apresentam tão desnudados, uma vez rebocados e pintados de branco, transformados em vilas mais vivas, nos dariam um visual mais próximo à um monte grego e não um de entulhos.

Substituir uma favela pode se tornar inviável social e economicamente. Arrumá-la, pintá-la, acabá-la pode trazer paz e harmonia.

E que isto seja feito sem penalizar o morador com impostos, mas sim através da isenção dos mesmos.


Uma vila mais viva eleva a alma de seus habitantes, Para os que passam ao largo, eleva a autoestima de um povo.

Home

Home Sweet Home

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A GAIOLA DOURADA

Não sabia que era um pássaro. Ave rara, emplumada.
Vivia feliz pois se achava livre. Entre cores de suas penas e penas de suas cores pululava de galho em galho sempre a trinar.

Cantava, compunha, voava. E em vôos mil se sentia um dono do mundo.

Curioso, via nestes vôos uma gaiola dourada à brilhar, pendurada na varanda de um bangalô.

Atreveu-se dela se aproximar. E nela adentrou…
Não se sabe se nela ficou, se ela fechou, se dela gostou.
Mas, dentro dela se sentiu confortável. Comia, bebia, cantava, pulava. Só não voava…

A bela que o adorava gostava de suas plumas, de seu canto. Pela bela ficava nela, a gaiola, que brilhava aos raios do sol poente, dourada que era.

Mas um pássaro é livre, quer ser sempre livre. Sem seus vôos ficou triste. E pássaro triste não canta, então, não encanta.

A bela sentiu que não mais o tinha, abriu as portas da casa dourada. Deixou que procurasse aquilo que o fizesse feliz, deixou-o livre, a voar.

Mas o pássaro alegre, de muitas cores e canto sutil sentiu a ausência da bela musa que lhe dava o amor. Voltava de vez em quando e de quando em vez cantava, de fora da gaiola, na janela, nas tardes de outono.

A gaiola abandonada se enferrujou. Seu brilho de ouro apagou, suas portas cairam, suas grades partiram. Mas o pássaro cantante com suas penas brilhantes feliz saltitava, e, em trinados alegres dizia à musa que dela, longe... não ficaria.

Acabou-se a gaiola, ficou a janela, e nela, o pássaro livre a amar a musa que o amava, a bailar suas asas ao vento das montanhas, a cantar seus cânticos de um amor que só existe quando livre se é, quando livre se dá.

E a musa, dia após dia, feliz esperava a visita daquele que seu coração conquistara.

E o pássaro livre mais lindo cantou…

E o pássaro livre nunca mais a deixou…



domingo, 3 de setembro de 2017

VERTICALIDADE   INCLINADA

A lei da gravidade e um fio de prumo não são usados nos postes de nossas ruas. Talvez seja a vontade premente de se fazer arte com os mesmos já que aliados aos fios criam desenhos estapafúrdios, de caráter quase tão surrealista quanto as obras de Dali.

E difícil encontrar um poste em prumo. Na verdade, como êles muitas vezes são usados para faixas e cartazes provincianos, empastelados por mensagens de amores a serem achados ou retornados são também alvos dos nossos excelentes motoristas que os usam para paradas extremamente rápidas ou como ferramenta para redecorar a forma de suas viaturas.

As cidades organizadas não precisam de ter investimentos altíssimos para serem agradáveis aos olhos. Basta um pouco de bom gosto e aplicação severa das posturas municipais. Os passeios, meio fios, postes e outros mobiliários urbanos quando bem colocados e assentados demonstram uma sensação de ordem e equilíbrio. E isso e perceptível ao nosso subconsciente.

Em vez disto encontramos postes ao lado de postes, árvores podadas para parecerem aleijadas, fios desorganizados, embolados, pendurados, puxados, abandonados, postes desaprumados, inclinados em direções diversas, amassados, arrebentados, entortados de forma a parecerem criaturas de uma outra perdida dimensão.


Que tal usar o prumo? Será que ja não sabem o que significa?
URBANISMO DESUMANO



Na ciência urbana a preocupação maior é organizar  espaço e edificações de maneira harmônica e agradável aos olhos humanos.

Parece pouco, mas é muito.  As mais belas cidades deslumbram pelo equilíbrio das massas edificadas e seus corredores de acesso. Os prédios primam por alturas semelhantes, fachadas equilibradas e equidistantes. As vias por evitarem a descontinuidade e desequilíbrio de seu mobiliário.

Assim se vê uma Paris ou Ouro Preto.

Aqui, inventaram o prédio sobre uma calçada recuperada. Este é um termo técnico para explicar a construção no limite frontal do terreno para andares ou marquises superiores, recuando a fachada ao rés-do-chão. Criam-se assim  volumes enormes e desproporcionais impedindo a visão e sufocando o transeunte. Tudo isto para guardar uns carros.

Horrível! Cria-se um efeito visual brutalista e desumano. Há que se pensar em forma melhor de alargar passeios e ruas.

Que tal não permitir a construção em lotes tão pequenos?  Ou limitar a altura das fachadas?  Ou até colocar as garagens no subsolo?


A cidade não é para veículos, mas para gente.  O resto é complementar.