BLACK
FALLS
Da série “sonhos que sonhei”
Era um sonho. Um sonho louco, escuro, obscuro,
duro. Um sonho que se repetia com imagens elaboradas, em um preto e branco de
fortes contrastes. Um sonho que não ia embora, não saia, não acabava.
Gigantesca queda. Uma Niagara, Victoria ou
Foz de Iguaçu em tamanho, volume d’água. Mas era uma cachoeira de águas negras.
Negras como a noite escura em um firmamento de estrelas gigantes e um sol frio,
platinado, misterioso.
Um sol onde se podia olhar diretamente. Um
sol que tinha a cor das estrelas e iluminava como a lua cheia.
Via a negritude das águas revoltas em
volutas barrocas em prata ardente. A queda em ferradura, concentrada, revolta,
ensurdecedora, dominante. As formas mutáveis e dançantes que se lançavam em um
abismo infinito. Via ao lado, cavado no negro basalto um caminho esculpido na
pedra bruta, sensual. Bailantes serpentinas argênteas entravam e saiam em túneis
paralelos à queda principal. Sem nela entrar, sem nela se misturar a serpente de
águas escuras e brilho de prata seguia o descer da queda num tobogã espiralado,
veloz, louco, de bordados borbulhantes.
Sabia não estar aqui. Sabia ser algo de uma
galáxia distante, um outro planeta, de um mundo ainda não visitado. Havia
semelhança nas formas mas não existiam cores. Era tudo negro, um platinado à
dançar sobre um branco ofuscante.
Se sonhos são feitos de imagens compiladas,
este não o era. Era sim o exemplo do desdobramento do espírito a ver aquilo que
os olhos nunca fitaram.
E assim, de repente, uma visão celestial
surgiu.
E era linda… Em cores cintilava sobre o
pano escuro que a emoldurava. Totalmente nua a diva de cabelos dourados e olhos
de cristal rosáceo flutuava sobre o manto líquido, iluminava a noite escura, tremeluzia
sobre as águas de ébano, contrastava com a prata reluzente e seduzia com o mais
divino sorriso.
Com a mão estendida levou-me à serpente de água
que descia paralela à grande queda. Puxou-me gentilmente, deixando-me sentir o
envolver do líquido que me tomava em uma viagem de curvas tão intensas quanto aquelas
de seu corpo despido.
Não resistí… sucumbindo a um desejo
inconfesso me perdí. Me achei em seus braços, molhado, rodopiando nas volutas
barrocas dos insanos movimentos do negrume líquido. Descí o infernal tobogã na
velocidade da luz. Era macio, leve, molhado e ensurdecedor. Nunca soltei sua mão,
e assim, ao fundo cheguei, em um remanso calmo, iluminado pelo sol prateado
refletido no negro espelho.
A musa sorriu. Nunca ouví o som de sua voz.
Não sei quão lindo seria. Nunca quis dalí sair, nem sei se podia.
Acordei e pensei. Que lindo sonho era, que
bela terra escura, que suave fragância me envolvia, que loucuras eu sentia. Pedí
para voltar…
Sonho, de novo, em sonhar e a bela
novamente achar…
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