quarta-feira, 31 de janeiro de 2018


CHUVA

Chove chuva, chove molhada, assanhada…
Chove… manhã cinza.
Sem graça, embaça a vidraça…
Mas chove gostoso, de jeito dengoso,
Molha molhado, molha com graça!

Chora na chuva…
Um choro molhado…
Chora coração…
Perdido ou achado.
Me deixa um pedaço, que eu quero um abraço.

Chega chuva…
Chega do espaço.
Chove, me molha…
Leva a tristeza, traz a beleza…

Dos campos molhados, dos galhos suados.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018


JACK OR JOÃO?

Barrica numero sete. Ol’Daniels you’re back!

A tarde se perde na escura noite. O sol fugidio em último estertor se divide em cores ainda não pinceladas. Mas, pitadas em um Cohiba e uma taça na mão, me dão esperança, que neste último instante, à luz das estrelas, me verei coberto em raios argênteos.

Por isso me perco, no dourado do líquido me liquido, sonhando com o ouro dos cabelos e o doce sabor de lábios de mel, da bela musa, sereia de mil sonhos, ali despida, desnuda, desfalecida de amor…
Mas me acho de novo, do Jack ao João, o Johnny dos íntimos, no verde feltro de um casino de loucos, em deserto pintado, em roletas rolantes, inebriantes, vermelho no preto, falência e demência.
Joãozinho por que andas? Ol’Daniels be back! Oh!... my sweet Valentine, a quero, em um Ballantines. Crystal em cristalina taça, Martinis à parte, my name is Bond, sou James, não Johnny, me chame de Jack.

Em Vegas encontro, bela loira, linda morena. Se perdido já estava, mais lost fiquei.

Oh Daniels…be back!

Preciso de Bacco, preciso de espaço,

Me despedaço!



domingo, 28 de janeiro de 2018


MOTO CONTÍNUO
Dedicado à Sheila van Leyen, no dia do amigo {julho 2017}

1.
Nasceu pequeno, chorando, pedindo só amor.
Um pedaço de dois, cheio de carinho e calor,
Alí, sozinho, com o mundo esperando.
Um senhor daquele espaço, à procura um abraço.
Passa o tempo, passa a vida, passa sempre pra frente…
E, como um trem, passa dolente…
Vai devagar, para aquele pequeno,
Que sem paciência quer ser logo velho.
Não sabe ainda, que mundo bonito, também tem veneno.        
Não ouve seus pais, não gosta do espelho.
Quer o vento tomar, empurrar o tempo, sem tempo…
Pro tempo esperar…


Passa o tempo, sopra o vento…
Passam amores, desamores.
Ficam beijos, ficam lágrimas…
Choram sonhos, sonham flores.

2.
Num momento do tempo, soprou-lhe um vento,
De momentos felizes, alegrias e alentos.
Amores achados, amigos amados,
Embevecido ficou, inebriado de amor…
Em falsos abraços achou seu espaço.
Não era o de fato, mas sim sem calor,
E dos amores verdadeiros, dos acalentos ardentes,
Ficou só o gelo, da falsa ilusão…
Que o mundo de então era só perdição,
Sem o brilho da luz, de uma estrela cadente.


Passa o tempo, sopra o vento…
Alegrias e sorrisos,
Ficam memórias, ficam brilhos,
Choram amores e amadas…




3.
E então o tempo com seu vento,
No trem da vida, ficou velho, ficou lento.
Mas o pequeno menino, de pressa apressada,
Mais velho ficou, perdendo, com a pressa,
O amor que passou…
Chorou, não se achou, seu corpo vergou,
Amigos perdidos, amores fugidos.
Nas lágrimas vertidas, somente o suspiro,
Num copo de um bar, num brinde sem gosto,
Num enterro do amigo, chorou de desgosto…




Passa o tempo, passa o vento,
Chora a alma, choram dores,
Amigos achou, de todos fugiu.
Choram sonhos, choram amores.




4.
Mais frio no tempo, seus brancos cabelos,
Voam ao vento procurando modelos,
Que ainda lembrava, menino, brinquedos,
Nas barras das saias de quem sempre amou,
Que com alvos cabelos com carinho o beijou,
Acariciou e deixou, a saudade infinita,
Que sua alma criança em carícias infindas,
Marcou de tristeza, com aquela beleza,
Que agora sabia, não mais voltaria,
Num pranto de dor, chorou e sentiu, perdão lhes pediu…



Passa o tempo, passa o vento,
Esfria a alma e o coração.
No velho da vida, sentiu esperança,
Choram sonhos, choros de criança.



5.
No ocaso tão triste, da vida partistes,
Deixando uma prece, achou que sorristes,
Mas quando perdido encontrastes,
Uma outra porta abristes,
Para nela saber porque tu existes,
Pois a vida querido, é uma coisa partida…
Em pedaços de dor e em bocados de amor…
Nunca acaba, só passa…
Para outro pequeno, com seu choro escaleno,
Fugir do veneno, que o tempo sereno, certamente trará.



Passa o tempo, passa o vento,
Nasce outro lindo rebento,
Ficam amores, ficam amigos,
Sonham sonhos infinitos, sonham sonhos mais bonitos…



Summer's flowers

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

DIA MALUCO

Dia de nada. Às vezes um nada, que é tudo.
Dia de tempo perdido, em mundo não achado.
Dia de capeta que não morre, mas da justiça corre…
Pois capeta discorre, besteiras mil,
Neste bobo Brasil, de um povo servil.
Capeta escorrega, quiabo que é.
Capeta não quer, mas capeta quer…
Que o inferno, que é dele,
Seja também seu, lhe corroa a pele.
Dia maluco, se não prende, solta…
Se solta não prende.
Se rouba, mas faz, pode o povo roubar…
País de maluco, dia de maluco, relógio cuco,
Marcando a hora…

Da cadeia chegar.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

domingo, 21 de janeiro de 2018


A DIMENSÃO DO ARQUITETO
Capítulo 1

EM YALE

Era um arquiteto.

Formou-se em outras plagas, mas sua alma de arquiteto o fazia um cidadão do mundo.

Teria tido sucesso onde quisesse. Formou-se e mandou-se. Mandou-se para as terras do norte.

Lá, pensava, teria seu trabalho publicado em magazines. Teria um reconhecimento mais amplo, seria mais feliz. Mas como felicidade é um estado de espírito, o teria sido em qualquer lugar.

Em uma terra onde se prestigia o arquiteto acabou por ser convidado a projetar, em parceria com um criativo colega de Washington, um edifício singular. Laboratórios de ciência do meio ambiente justapostos ao famoso Peabody Museum.
Yale é uma universidade fantástica. Em seu campus exemplos da melhor arquitetura. Mas é pelos seus edifícios de expressão gótica que se destaca. Afinal, é uma universidade da Ivy League.
Ali, os arquitetos escolhidos são, via de regra, ex-alunos de sua faculdade de arquitetura e, embora não o fosse, recebeu o prestigioso convite.

Arquitetura à parte, foi ali, após sua execução, que teve sua maior aventura.

Havia um laboratório de física quântica. Nele experimentos avançados estudavam a possibilidade de abertura de uma passagem para outras dimensões ou mundos paralelos. No laboratório, uma estranha máquina criava um espaço virtual que supostamente interagia com outras dimensões.

No edifício, em sua entrada principal, existia um esqueleto completo de um velociráptor. Realmente espetacular… os ossos da criatura do passado pareciam levá-lo novamente à vida, aterrorizando à todos que ali chegavam. Era uma cross section…passado e futuro.


Junto aos laboratórios, criados com as melhores condições e equipamentos de controle havia coleções de fósseis raríssimos amealhados ao longo da história da universidade por cientistas e arqueólogos que marcaram época pelos descobrimentos. Eram todos pertencentes ao acervo do Peabody Museum.

A edificação era em estilo gótico. Uma representação moderna de algo de um passado nobre, adaptada as exigências dos códigos atuais. Mas existia em perfeita harmonia com a arquitetura do museu ao seu lado.

Marcus Antonius, Mark para os amigos, era um arquiteto ousado.

Em seus sonhos, queria conquistar o mundo. Neles se via como um Indiana Jones, um Frank Lloyd Wright, um Andrea Paladio. Sua vontade de criar espaços equilibrados e eficientes era igual à sua mente inquisitiva a procura de aventuras e desafios.

A sala quântica o deixou pasmo.


Era um domingo. Estava ali, apesar do museu fechado. Era o arquiteto e por isso deram-lhe a autorização. Mais precisamente eram 18:39. Sabia do tempo pois o grande relógio digital à porta do laboratório o dizia, em luz azul.

Máquinas estranhas interligadas por fios, cabos, tubos de vidro. Ao centro uma trama, em forma de cubo, paredes, tetos e piso, num emaranhado de tubos dispostos geometricamente. Dentro deles um líquido azul, transparente, reluzente.

Uma série de monitores interligados entre si indicavam a complexidade das informações ali expostas. Alguns continham fórmulas, outros gráficos, luzes piscantes, imagens não discerníveis. Eram todos intrigantes e novos. 

Não se lembrava ter projetado aquele laboratório para o que ali continha. Deduziu ser algo desenvolvido após o término do projeto. Talvez algo secreto, não explicado à época de sua programação.

Mas ali estava e era real.

E Mark, ousado que era, não se limitou a simplesmente olhar…resolveu apertar uns botões…

E então…

Capítulo 2

O PORTAL



Já havia algum tempo desde que alguns cientistas se propuseram a criar um portal que nos levasse a outras dimensões. O objetivo era o tempo, como controlar a quarta e quinta dimensões.

A ideia de time travel se baseava em encurtar o tempo à frente e esticá-lo após passar pelo cubo, e vice-versa. O cubo não se moveria. O tempo acelerado levaria aqueles que estivessem dentro da trama a viajarem para o future ou passado, sem sair do lugar onde estavam.

Nas tentativas que tinham sido feitas anteriormente nada havia se concretizado. Estavam por abandonar a ideia.
Mark era curioso e era também bom em física quântica. Muito bom.

Estudava a formula que estava exposta no monitor maior. Notou que a equação abria as portas para uma mudança de objetivo. Não se limitaria ao movimento dimensional mas sim permitiria a abertura de um portal para um universo paralelo. Afinal, quando acionada, a trama criava uma distorção quântica, um worm hole. Ali estava a chave do portal.

A teoria dos universos paralelos indicava que quando uma decisão quântica é tomada os universos se desdobram. 

Naquele momento o tomador da decisão existiria onde estava e, ao mesmo tempo, no mundo desdobrado onde seguiria seu outro caminho com a decisão não tomada.

Equivaleria dizer que, se um gato na palma de sua mão estivesse à frente de um petisco e, ao fechar a mão, com o gato e o petisco, duas coisas poderiam acontecer no momento em que a mão fosse aberta. O gato comeria o petisco ou o gato ali estaria ainda em frente ao mesmo. Mas na realidade ambos os casos acontecem. Antes mesmo da mão se abrir já escolheríamos o que quereríamos ver. Assim se o gato comeu o petisco, ele também não o comeu. Somente que, na segunda hipótese, isso aconteceu em um universo paralelo.

Mark também havia estudado arqueologia. Não no sentido acadêmico, mas era um leitor ávido. Já teria até arriscado explorar as ruínas de Tikal. Lá encontrara indícios de outros edifícios enterrados pela floresta. Seu conhecimento de arquitetura o levava a deduções lógicas pelo simples acompanhamento da disposição das edificações entre si.

Por isso apertou o botão.

Não era um botão qualquer. Situava-se ao centro de uma larga mesa. Acionava as máquinas que distribuíam fótons desmembrados e replicados através dos tubos. Transmutação em escala gigantesca. Teleportação em consequência direta.

Ajustou a equação e ativou o main frame. Os computadores entraram em transe. Rapidamente equações eram resolvidas e a velocidade dos fótons nos tubos, aumentada.

A trama iluminou-se.


Uma estranha e volátil membrana começou a se formar. 
Parecia uma camada de água, verticalmente disposta. Luminescia. A cor era esverdeada, a película tênue.

Adentrou o cubo. Sentiu uma estranha sensação formigante ao atravessar a barreira virtual. Era como se a lâmina de luz analisasse cada átomo de seu corpo. Sentiu-se dono de tudo, corajoso, intrépido. Era o Indiana Jones do futuro…

O redutor quântico emitiu um som estridente. Junto, um vórtex, a princípio tímido, se formou.
Mark dele se aproximou e enfiando a mão dentro do campo magnético sentiu-se preso. Tentou retirar a mão, mas não conseguiu. Um pouco assustado tentou desligar a máquina com a mão livre. A distância era muito grande. Falhou.

Perdeu a consciência por um breve momento. Quando a recobrou, achava-se do outro lado do vórtex.
Havia penetrado um outro universo. Havia criado um portal quântico.

Mark, o intrépido, estava estarrecido.

Capítulo 3

O OUTRO MUNDO


Não era o que esperava.

Um mundo de vegetação intensa, luxuriosa, estranha. Poder-se-ia dizer que estava em um parque jurássico. Insetos gigantes, criaturas fantásticas, répteis…muitos dentes. Não era o mundo de onde veio, era um mesmo mundo, em outro universo. Havia se transladado através do worm hole. Estava perdido…não havia volta.

Cuidadosamente estudou o local. Usou seu conhecimento de arqueologia, estudou amostras do solo, esfarinhou-as em sua mão.

Um calafrio o fez realizar que ali, naquele universo, a Terra não havia sido atingida por um grande meteoro. Estava intacta. Isso significava que os dinossauros ainda existiam e se existiam, não havia o homem e, se este ainda não ali estava significava que era o único. E único humano em terra de répteis gigantes significava somente uma coisa…era o prato do dia.

Lembrou-se do esqueleto do velociráptor no hall de entrada. 

Tinha sido sua ideia quando projetou o edifício. Agora, em pânico, deduziu que ali, onde estava, eles existiriam, em carne e osso.

Um som semelhante ao de marrecos barulhentos se fez ouvir. Atrás dos arbustos olhos amarelados, como de uma águia, focalizados estacionariamente em sua figura.


O monstro era feio e exuberante. Tinha penas mas não pena dele, pois em um movimento súbito, arreganhou sua garra maior, em forma de gancho.

Mark não durou muito. Outros velociráptors juntaram-se ao frenesi gerado. Foi devorado, despedaçado, picado, exterminado. Cessou de existir…

Eram 8:39 da manhã do dia seguinte.
Acordou ao lado da máquina, dentro da trama. Notou-se vivo.

Intrigado, repassou os momentos que lembrava desde que colocou sua mão através do vórtex.

Olhou os monitores, repassou as imagens registradas nas câmeras. Viu-se à frente do warm hole, colocando a mão, sendo sugado, desaparecendo. Mas viu-se também caído, do lado de fora, desmaiado.

Olhou novamente para o relógio digital. Às 8:39 havia acordado. Lembrou-se da teoria dos universos paralelos. 

Deduziu ter criado um momento quântico.

Mark, o intrépido, foi levado à um universo onde a Terra ainda existia com seus dinossauros. Mark também ficara onde estava, desacordado, mas vivo. Havia se desdobrado. 

Havia atravessado o portal. Deduziu ser o universo onde estava a dimensão própria para um arquiteto. Na outra, morreu. Desligou a máquina. Ainda trêmulo deixou o prédio, passando por baixo do esqueleto do velociráptor. Sentiu algo estranho em seu corpo. Poderia jurar que havia visto aquela coisa viva. Tinha penas, era colorido, espetacular…e extremamente mau.


Ao sair notou que em sua mão esquerda, fechada ainda pelos músculos contraídos pela experiência sentida havia uma pequena bola azul. Era uma esfera virtual. Abria-se e comprimia-se à medida que ele a manipulasse.

Seria uma chave? Algo que abrisse portais em outros lugares? Algo que o fizesse tentar novamente ver o que havia além daquela dimensão? Guardando-a em seu bolso pensou…talvez…em outro lugar…

Sete meses se passaram.

Marcus Antonius sentado à frente de sua prancheta, segurando um tira-linhas, traçava linhas em um pedaço de papel tela azulado. Brincava com os instrumentos do passado. Trabalhava em um roteiro exploratório para Tikal. 

Em sua mente inquisitiva se via no topo da pirâmide maior, à 72 metros acima da grande praça, com a esfera azul. 
Planejava abrir um portal quântico. Havia ajustado a fórmula para trabalhar somente no tempo. Quem sabe conseguiria ver os sacrifícios humanos que ali existiram por ocasião da grande seca. Em seus estudos, havia deduzido que o abandono de Tikal, pelos Maias se deu por volta do  ano de 900 d.c. Peste e fome os fizeram deixar a magnífica cidade, não antes de perpetrarem centenas de sacrifícios humanos aos deuses.

Mark para lá se foi.

No topo do templo da piramide IV, construída no ano de 721 d.c. depositou a esfera azul sobre o altar dos sacrifícios humanos. Ali em Tikal, “O Lugar das Vozes”, Jasaw Chan K’awiil II liderou os sacrifícios ao longo de um mês. Tentava aplacar os deuses do Popol Vuh.
Tentava salvar seu povo da extinção. Mark queria recriar o momento. A esfera azul o levaria àquela viagem ao passado.

Mark invoca Tepeu e Gucomatz, criadores do homem.
A esfera se amplia gerando um campo holográfico. O passado é sugado e acelerado como um filme. Mark vê imagens das festividades, dos sacrifícios, do rei Jasaw, dos sacerdotes extraindo os corações pulsantes das vítimas e, em seguida, as decapitando.
O sangue inundava os degraus de pedra caindo em cascata, tingindo a pirâmide de rubro. Cânticos estranhos acompanhados por atabaques em rítmo pulsante. Um cenário digno do Inferno de Dante.

Aquilo certamente não era a dimensão em que queria estar. 

Não havia dúvidas que Tikal era uma cidade maravilhosa. 
Duas grandes pirâmides, opostas uma à outra, emolduravam a praça principal. Esta, cercada de edificações harmônicas, emolduravam o conjunto que se assentava em largos degraus formando uma imensa plataforma que servia de arquibancada aos espectadores ávidos de sangue. 
Mas aquela civilização era barbárica. O rei Jasaw parecia se deliciar com os gritos dos que iriam morrer. Implorava a Tepeu e Gucomatz que salvasse seu povo.
Mark hesitou. Até aquele momento não havia tocado no vórtex. Não queria criar um paradoxo temporal. Lembrou-se do tinha acontecido em Yale.

Mas até os mais prudentes cometem seus erros. No afã de entender mais sobre a arquitetura magnífica que deslumbrava, Mark se inclinou em demasia e foi sugado.

Encontrou-se encarnado em Jasaw Chan.

Não mais voltou…

FIM

Dedicado ao meu colega arquiteto Marco Antônio de Pádua, nestas linhas nosso herói, como também o é na vida real. História de ficção com pitadas de realidade. Um pouco do que eu vivi, junto com devaneios de um arquiteto. Retiro, 20 de Janeiro de 2018.
CRÉDITOS:
Yale's ESF
Design Architect : David Schwarz
Architects of Record : GSI Architects
Celso Gilberti  Principal
Peter Spittler
Steve Zannoni
Gary Ogrocki





terça-feira, 16 de janeiro de 2018


CLONED
Capítulo Um

2052
The Testimony

O relógio batia 13 horas de um dia frio em um novembro triste às sombras dos edifícios góticos do campus de Yale. Era um dos poucos relógios analógicos que ainda existiam. O solene repicar do gongo ecoava no austero plenário da corte de justiça do estado de Connecticut.

A seleta audiência composta em sua maioria de jornalistas e advogados esperava a entrada da Senadora McFee.

Conhecida pela objetividade e argúcia iria presidir o painel de congressistas e juízes prontos à lidar com o primeiro caso de um suposto assassinato cibernético. Um evento sobre um ato nunca antes perpetrado para o qual não existia jurisprudência e muito menos leis aplicáveis.

O som do martelo trouxe ordem e silêncio.

À mesa, figuras do judiciário à esquerda, liderados pelo famoso Juiz Cortoni, chefe da Suprema Corte Norte-Americana, à direita congressistas de ambas as casas, Senado e Câmara. À frente, uma pequena mesa. Ao lado uma cadeira ainda vazia.

O silêncio era ensurdecedor.

Ecoando no painéis de mogno trabalhado os passos lentos e firmes de uma deslumbrante figura de mulher atraiam os olhos de todos. 

Era realmente uma bela criatura. Olhos azuis, cabelos cor de fogo com mechas alaranjadas, vestido curto, negro, bem talhado. Uma gargantilha dourada, com um único pingente, contrastava com brincos tímidos e discretos. Os sapatos Prada, também negros, com estiletos em ouro, marcavam um compasso inebriante, como um tango ainda a ser tocado.

Sentou-se, cruzando suas longas e bem torneadas pernas. Olhou para a mesa.

Uma nova batida do martelo.

Bem vinda Doutora Specter…

A voz solene da Senadora McFee contrastava com sua figura simples. Vestida em um tailleur azul e vermelho de corte elegante McFee tinha em seus olhos a fúria do mundo. Havia recebido a alcunha de “whip”, ou seja aquela que tinha o poder de açoitar, com palavras, tudo que achasse necessário.

Specter balançou gentilmente a cabeça…não retrucou.

Senhores e Senhoras, é mister estabelecermos, neste momento, os fundamentos básicos para estes trabalhos. Rogo a atenção de todos e, em especial da nossa convidada, Dra. Specter.

Sabemos todos que um suposto crime foi cometido. Digo suposto pois ainda não podemos definí-lo como tal à luz das leis vigentes e de jurisprudência inexistente.

Mas algo extraordinário aconteceu. Tão complexo que se torna necessária a intervenção de dois poderes. Encontramo-nos na encruzilhada de algo novo que contrasta com a ordenação das coisas como conhecemos. O limiar de um comportamento social ainda não estruturado.

Dra Specter é a causa da destruição de um clone, dela própria, por ela mesma.

Ações entre o Ministério Público e a defesa da Dra. Specter resultaram em um acordo que será respeitado por este painel.

Diz tal acordo que a máxima ne bis in idem deverá ser aplicada, ou seja, qualquer que for o resultado do presente questionamento não poderá ser usado, à posteriori, de forma alguma, em prejuízo da ilustre Doutora, mesmo que seja este resultado criador de leis restritivas que poderiam levar a uma condenação de qualquer espécie.

Assim o risco duplo, double jeopardy, será observado. Dra. Specter não sofrerá penalidade alguma ao fim de seu testemunho, nem poderá sofrer, mesmo em caso de leis e jurisprudências futuras sobre igual matéria.

É sabido que, na noite de 12 de julho de 2052, às 23:43, em sua residência, o clone de nome Specter Two deixou de existir.

Peço então à Dra. Specter que inicie seu testemunho, em detalhes, de maneira que possamos entender como proceder, no futuro, em casos semelhantes.

Com a palavra a Dra. Specter.


Capítulo Dois

Long Ago

Prezados e ilustres membros deste painel.
Meu nome é Elizabeth Specter. Detenho dois mestrados em Bioengineering e Quantum Biology e doutorado em Quantum Teleportation of Genetic Materials.

Formei-me na Yale University. Foi lá também que encontrei meu marido, Cyrus Specter.
Cy é especialista em Quantum Entanglement. Tem um doutorado em Quantum Mechanics.

Ambos, Cy e eu, pertencemos a Skull & Bones, onde após iniciação, conhecemos um grupo de magnatas que se interessaram pelo nosso projeto.

Cy havia conseguido separar duas partículas quânticas, ambas totalmente interligadas que, mesmo após sua separação, uma influenciava a outra, independentemente da distância entre elas. Eu havia sugerido ser possível fazê-lo em escala maior, utilizando material genético.

Propus ser factível clonar, via sinais eletromagnéticos, através de quantum teleportation. Propus ainda ser possível duplicar a espiral quântica do genoma humano, em forma holográfica.

Não colocaram restrições financeiras em nossas experiências. A própria Universidade abriu seus laboratórios para as pesquisas e ensaios. O projeto foi bem sucedido. Os resultados não tinham limites.

Como não se tratava de clonar um ser humano via embriões, esta nova forma criava condições de fazê-lo no campo virtual, portanto não sujeito à restrições éticas.

Entretanto, à medida que avançávamos em nossos experimentos ficou claro que o quantum entanglement permitia que a duplicata contivesse tudo o que a original possuía. Reagia imediatamente à qualquer influência, ou seja, existia em outro lugar.

Partimos para a duplicação do genoma quântico de um ser humano. 

Meu genoma foi utilizado.

Cy era muito bom em física quântica. Criou uma impressora tridimensional de material genético. Através dela conseguimos gerar o primeiro clone. O componente da espiral quântica do meu DNA foi replicado à distância.Uma vez replicado, esta, a réplica, foi incentivada a produzir, via impressora, uma versão virtual de mim mesma.
Chegou até à existir por algumas horas, porém este primeiro clone, Specter One, não sobreviveu. A gravação feita fotograficamente, em um campo tridimensional, não era estável. Era necessário que a impressora se utilizasse de material genético em escala maior, capaz de sustentar a criação de uma cópia com todas as características da original.
Assim, quando fizemos o Specter Two, ela era idêntica à mim mesma. Uma mistura de carne e osso em um campo holográfico sólido, real, apalpável. Mas era virtual… Não era material biológico real… Não sofria decadência, era eterno. Não necessitava de energia, já a tinha em seus fótons reordenados.

Specter Two era perfeita. Uma versão de mim mesma, que sentia o que eu sentia, que não envelhecia.

Entretanto, Specter Two não possuía a essência da vida como nós, humanos, temos. Não havia restrições no que fazia. Os sentimentos e emoções não eram censuráveis. Era um ser completo, insensível, capaz de reações semelhantes aos nossos sentimentos. Mas era antes de tudo, absorvente.

Parecia querer ser ela e eu, ao mesmo tempo.

Cy ficava confuso. Não sabia, às vezes, se falava comigo… ou com ela.

E…foi assim que aconteceu…

Capítulo Três
The Affair

Conheci Cy em High School. Sempre fora meu parceiro.
Inteligente, já despontava como um dos melhores alunos da escola. Não foi à toa que ele ganhou uma bolsa integral para Yale.
Meu pai era dono de um laboratório farmacêutico gigante. Detinha 59% de suas ações. Para mim dinheiro nunca foi problema. Segui Cy até Yale. Continuávamos juntos.
Suas experiências no primeiro ano da faculdade já eram objeto de louvor. Teleportou um fóton para outro lugar distante do original. 

Descobriu que estas partículas integralmente juntas dividiam a mesma existência tanto que, quando separadas, a outra mais distante, era influenciada pelas mesmas reações da original. Daí partiu para teleportation.

Quando apresentamos nossas idéias ao grupo de magnatas da Skull & Bones nos foi dito que este tipo de avanço tecnológico era o que buscavam. Não hesitaram em abrir a cornucópia. Dinheiro nunca faltou.

Cy e eu eramos apaixonados.

Quando Specter Two surgiu ficou extasiado.

Sei que sou uma muher atraente, mas duas de mim, igualmente poderosas era dose dupla difícil de Cy entender.

No início Specter Two ficava somente no laboratório. Nunca saía de lá. Eram necessárias medidas e experimentos complementares com ela. Estavamos escrevendo um artigo para o Science Journal e uma tese sobre duplicação humana fora dos padrões de controle éticos. Specter Two ajudava. Sabia de tudo o que eu sabia. Não se continha, passava dos limites conhecidos, não hesitava em avançar.

Chegou a nos dizer, um dia, que se outros como ela viessem à existir, o mundo seria diferente. Não reproduziria pelos meios normais, tudo seria através do duplicador quântico e sua impressora tridimensional. Niguém mais morreria, viveríamos para sempre. Teríamos réplicas de nós mesmos. E isto, em particular, fascinava os investidores.
Enquanto falava, me dava a sensação de que era eu mesma falando. Quando se expressava com mais veemência, era como se eu o tivesse feito. Quando olhava para Cy, era como se meus olhos o fizessem. Quando o tocava, eu sentia sua pele. Descobri que ambas, eu e Two, amávamos Cy. Sentí ciúmes…

Não sei por que a levei para casa.

Diria que foi um erro. Mas levei…

Sua interação com Cy aumentava. Eu sabia de tudo, pois tudo via e sentia através dela. Acho que ela também sabia e sentia.

Cy se perdeu.

Nunca mais soube qual de nós era a verdadeira Specter. Acabou por beijar a que não era, foi para a cama, fizeram sexo.

Two era muito mais desinibida do que eu. Não havia limites morais, consciência. Era um furacão. Quase acabou com Cy em sua primeira noite. Meu amado nem soube o que aconteceu, desmaiou de prazer. Disse-me depois que havia tido 3 orgasmos consecutivos. 

Perguntou-me o que havia acontecido…ainda achava que era eu mesma.

Eu, até que gostei, pois sentí tudo aquilo que ela sentiu. Mas não era eu, era ela. O ciúme se tornava incontrolável. Não queria dividir meu amor comigo mesma. Queria Cy somente para mim.Não podia culpá-lo pelo que acontecia. Na verdade, nem saberia como fazê-lo. Éramos iguais, idênticas, perfeitas. Para ele éramos uma só.

Deixei tudo acontecer por algum tempo. Deve ter sido meu maior erro.

Não havia como nos separarmos para permitir que Cy descobrisse quem era a verdadeira Specter. Acredito que o tempo diria, pois Two não envelheceria. Eu, entretanto, estava fadada aos efeitos da natureza e, se assim continuasse, eventualmente o perderia para mim mesma.

Assim, resolvi que isto teria que parar.

Capítulo Quatro

Is Two Original?

Senadora McFee incomodou-se.

Cochichou aos ouvidos do Chief Justice Cortoni. Algo a incomodava.

Sentia que a Dra. Specter era sincera. Os fatos eram surpreendentes. A historia incrível…

Perguntava ao ilustre magistrado se o clone poderia ser considerado uma criatura. Afinal o homem já havia legislado sobre ele mesmo, havia legislado sobre os animais, sobre coisas e costumes. Sobre tudo que se tinha conhecimento. Mas sobre o clone virtual? Era humano? Humanóide? Que direitos teria? Se era uma réplica que não envelhecia, se era a própria pessoa de onde veio, o que era então?

Bateu seu martelo mais uma vez.

O som parecia mais alto. A sala muda, como mudos estavam seus espectadores. Até os fotógrafos se esqueceram o porque ali estavam. Não se viam flashes.

Specter impávida aguardava o aceno da Senadora. Esta, com um leve balançar indicou que prosseguisse.

Expliquei a Cy o que acontecia. Cy não entendeu. A princípio concordou, mas, logo depois mencionou que este assunto já havia sido abordado por ela. Só que eu não lembrava. Sugeriu então que tentássemos uma análise bioquímica. Uma leitura do DNA. Uma amostra do tecido.

Para minha surpresa Two concordou. Pediu que o mesmo fosse feito comigo. Acho que ela tinha isto em mente. Confundiu Cy ainda mais.

Os exames demonstraram exatidão das amostras. Eram iguais. Não havia como dizer qual era qual. Quem era quem. Pior, os efeitos da transmutação, originalmente de ordem holográfica haviam se adaptados. Specter Two era uma cópia de um mundo paralelo vivendo no mesmo mundo do original. Só não tinha alma, e como almas não são mensuráveis…era absolutamente igual…

Fiquei cada vez mais enciumada. Two não parecia ligar…

Cy estava feliz. Nunca pensou que estava com uma ou outra. Para ele eram a mesma, uma só. Mas eu achava que ele já tinha preferências. Quando estava comigo perguntava se não queria fazer assim ou assado. Sentia falta da espontaneidade de Two. Mas não sabia que havia feito sexo com ela. Somente eu sabia, pois sentia quando era feito.

Perguntei a mim mesma…Um clone pode morrer?

Se não envelhecia, não morreria. Talvez se morta fosse, por arma, acidente, desmembramento, isto seria possível. E se não fosse?

A réplica era de um outro mundo. Não obedecia as leis da física do lugar em que estava. Seria possível destruí-la?

Resolvi planejar a eliminação de Two. Só não esperava que os fatos subsequentes me levassem ao improviso.

Voltando de Yale onde havia reunido com os investidores e relatado sobre o progresso dos experimentos a encontrei nua, na cama, com Cy. Fiz um escândalo. Cy não se importou. Na verdade, perguntou por que eu, um clone, me comportava daquela maneira. Não acreditou ser eu mesma, a original.

Naquela mesma noite, enquanto dormia, cortei-lhe o pescoço. Foi muito mais difícil do que pensei. O sangue saía em jatos pulsantes. Ela não morria. Desesperada busquei as ferramentas que usava para autópsias e comecei a desmembrá-la. Minha fúria era tamanha que cortava pedaço por pedaço, separando os membros, separando partes, retirando órgãos.

Ela morreu…

Cy acordou e não acreditou no que havia feito. Perguntou por quê?
Expliquei calmamente o que estava acontecendo. Ele acabou entendendo. Queria saber o que faria então.

Disse-lhe que chamaria a polícia.

Mas, Elizabeth, eles vão prendê-la.

Não acredito, respondi. Ela não existe…é um outro eu…de outra dimensão.

Mas, olhe querida, todo este sangue…como vai explicar isso?

Cy, esta é Two…eu sou a original…

Capítulo Cinco
Ne Bis In Idem

Dra. Specter…a senhora matou Two?

Não, senhora Senadora.

Como?

Somente eliminei uma réplica de mim mesma.

Mas, Dra…ela não estava viva?

Vida é um conceito ligado à seres que habitam neste universo. Se ela tinha vida, esta existia no outro universo, de onde veio. Aqui não a tinha, sequer a alma.

Mas ,Dra…a senhora há de convir que ela vivia.

Isto é para os senhores decidirem…

A polícia chegou em menos de 20 minutos. Specter foi presa.

De início um furor midiático. Famosa cientista assassina seu próprio clone! Na delegacia, ninguém soube o que fazer com ela.

Ante as alegações de que a morta era um clone, os policiais não conseguiram enquadrá-la em nenhum crime. Seu advogado logo a libertou.

O Ministério Público insistia em um crime hediondo. Mas que tipo de crime?

É hediondo esquartejar um ser de outro planeta? Um animal de uma espécie ainda não conhecida? Uma criatura não catalogada? O que dizer dos experimentos científicos toda vez que algo novo é descoberto?

Se crime não era, o que era então?

Os investidores dos Specters não se deram por vencidos. Aquilo abria possibilidades infindas para um futuro altamente lucrativo. 

Bastava sugerir à Washington que havia necessidade de adaptação das leis vigentes e incluir os direitos dos clonados. Uma nova era, uma nova jurisprudência, um novo mundo. Se era possível transmutar através de portais quânticos para outras dimensões e universos paralelos teríamos de estar juridicamente preparados para tal.

Um painel de notáveis com membros da Câmara, Senado e Suprema Corte foi empossado, sob a liderança da Senadora McFee. 

Chief Justice Cortoni lembrou à todos que como não havia nada em termos jurídicos para enquadrar o suposto crime, não poderiam legislar para punir a Dra, Specter. Mais ainda, uma vez criada a nova legislação o princípio da double jeopardy deveria ser aplicado.

Ne Bis In Idem, risco duplo, double jeopardy.

Dra. Specter havia concordado com seus advogados que, se ela testemunhasse sobre o incidente, em sua inteira realidade de eventos, capazes de elucidar e iluminar os fatos e decisões futuras, ela Dra. Specter, não seria condenada, mesmo que a conclusão indicasse que um crime havia sido cometido.

Epílogo

As 18:25 daquele dia frio de novembro, Senadora McFee agradece a presença de Elizabeth Specter e todos os outros membros do painel, espectadores, advogados e jornalistas.

Batendo o martelo mais uma vez, declara encerrada a sessão.

Ao se levantar ouve um pedido…

Senhora Senadora…

Sim Dra. Specter…

O princípio de Ne Bis In Idem está valendo?

Sim Doutora…

Por que?

Linda e escultural Specter se levanta. O olhar de todos a acompanham. Seus cabelos de fogo reluziam, seus lábios rubros, impecavelmente contornados por um batom reluzente indicavam o desejo de uma última declaração. Após leve hesitação sua voz macia é ouvida e, para estupefação geral…

Senhora Senadora McFee…Eu sou o clone…
Eu sou Specter Two.

FIM