CLONED
Capítulo Um
2052
The Testimony
O relógio batia 13 horas de um dia frio em um novembro triste às sombras dos edifícios góticos do campus de Yale. Era um dos
poucos relógios analógicos que ainda existiam. O solene
repicar do gongo ecoava no austero plenário da corte de justiça do estado de Connecticut.
A seleta
audiência composta em sua maioria de jornalistas e advogados
esperava a entrada da Senadora McFee.
Conhecida
pela objetividade e argúcia iria presidir o painel de
congressistas e juízes prontos à lidar com o primeiro caso de um suposto assassinato cibernético. Um evento sobre um ato nunca antes perpetrado para o
qual não existia jurisprudência e muito menos leis aplicáveis.
O som do
martelo trouxe ordem e silêncio.
À mesa, figuras do judiciário à esquerda, liderados pelo famoso Juiz
Cortoni, chefe da Suprema Corte Norte-Americana, à direita congressistas de ambas as
casas, Senado e Câmara. À frente, uma pequena mesa. Ao lado
uma cadeira ainda vazia.
O silêncio era ensurdecedor.
Ecoando no
painéis de mogno trabalhado os passos lentos e firmes de uma
deslumbrante figura de mulher atraiam os olhos de todos.
Era realmente uma bela
criatura. Olhos azuis, cabelos cor de fogo com mechas alaranjadas, vestido
curto, negro, bem talhado. Uma gargantilha dourada, com um único pingente, contrastava com brincos tímidos e discretos. Os sapatos Prada, também negros, com estiletos em ouro, marcavam um compasso
inebriante, como um tango ainda a ser tocado.
Sentou-se,
cruzando suas longas e bem torneadas pernas. Olhou para a mesa.
Uma nova
batida do martelo.
Bem vinda Doutora Specter…
A voz solene
da Senadora McFee contrastava com sua figura simples. Vestida em um tailleur
azul e vermelho de corte elegante McFee tinha em seus olhos a fúria do mundo. Havia recebido a alcunha de “whip”, ou seja
aquela que tinha o poder de açoitar, com palavras, tudo que achasse
necessário.
Specter
balançou gentilmente a cabeça…não retrucou.
Senhores e Senhoras, é mister estabelecermos,
neste momento, os fundamentos básicos para estes trabalhos. Rogo a atenção
de todos e, em especial da nossa convidada, Dra. Specter.
Sabemos todos que um suposto crime foi cometido. Digo
suposto pois ainda não podemos definí-lo
como tal à
luz das leis vigentes e de jurisprudência inexistente.
Mas algo extraordinário aconteceu. Tão
complexo que se torna necessária a intervenção
de dois poderes. Encontramo-nos na encruzilhada de algo novo que contrasta com
a ordenação
das coisas como conhecemos. O limiar de um comportamento social ainda não
estruturado.
Dra Specter é a causa da destruição
de um clone, dela própria, por ela mesma.
Ações entre o Ministério
Público
e a defesa da Dra. Specter resultaram em um acordo que será
respeitado por este painel.
Diz tal acordo que a máxima ne
bis in idem deverá ser aplicada, ou seja, qualquer que for
o resultado do presente questionamento não poderá ser usado, à
posteriori, de forma alguma, em prejuízo
da ilustre Doutora, mesmo que seja este resultado criador de leis restritivas
que poderiam levar a uma condenação de qualquer espécie.
Assim o risco duplo, double jeopardy, será
observado. Dra. Specter não sofrerá penalidade alguma ao
fim de seu testemunho, nem poderá sofrer, mesmo em caso
de leis e jurisprudências futuras sobre igual matéria.
É
sabido que, na noite de 12 de julho de 2052, às 23:43, em sua residência,
o clone de nome Specter Two deixou de existir.
Peço então à
Dra. Specter que inicie seu testemunho, em detalhes, de maneira que possamos
entender como proceder, no futuro, em casos semelhantes.
Com a palavra a Dra. Specter.
Capítulo Dois
Long Ago
Prezados e ilustres membros
deste painel.
Meu nome é Elizabeth Specter. Detenho
dois mestrados em Bioengineering e Quantum Biology e doutorado em Quantum
Teleportation of Genetic Materials.
Formei-me na Yale
University. Foi lá também que encontrei meu marido, Cyrus Specter.
Cy é especialista em Quantum
Entanglement. Tem um doutorado em Quantum Mechanics.
Ambos, Cy e eu, pertencemos
a Skull & Bones, onde após iniciação, conhecemos um grupo de magnatas que se interessaram pelo nosso projeto.
Cy havia conseguido separar
duas partículas quânticas, ambas totalmente
interligadas que, mesmo após sua separação, uma influenciava a outra, independentemente da distância entre elas. Eu havia
sugerido ser possível fazê-lo em escala maior, utilizando material genético.
Propus ser factível clonar, via sinais
eletromagnéticos, através de quantum teleportation.
Propus ainda ser possível duplicar a espiral quântica do genoma humano, em forma holográfica.
Não colocaram restrições financeiras em nossas experiências. A própria Universidade abriu
seus laboratórios para as pesquisas e
ensaios. O projeto foi bem sucedido. Os resultados não tinham limites.
Como não se tratava de clonar um
ser humano via embriões, esta nova forma criava condições de fazê-lo no campo virtual, portanto não sujeito à restrições éticas.
Entretanto, à medida que avançávamos em nossos
experimentos ficou claro que o quantum entanglement permitia que a duplicata
contivesse tudo o que a original possuía. Reagia imediatamente à qualquer influência, ou seja, existia em outro lugar.
Partimos para a duplicação do genoma quântico de um ser humano.
Meu
genoma foi utilizado.
Cy era muito bom em física quântica. Criou uma impressora
tridimensional de material genético. Através dela conseguimos gerar o primeiro clone. O componente da espiral
quântica do meu DNA foi
replicado à distância.Uma vez replicado,
esta, a réplica, foi incentivada a
produzir, via impressora, uma versão virtual de mim mesma.
Chegou até à existir por algumas horas,
porém este primeiro clone,
Specter One, não sobreviveu. A gravação feita fotograficamente,
em um campo tridimensional, não era estável. Era necessário que a impressora se utilizasse de material genético em escala maior, capaz
de sustentar a criação de uma cópia com todas as características da original.
Assim, quando fizemos o
Specter Two, ela era idêntica à mim mesma. Uma mistura de carne e osso em um campo holográfico sólido, real, apalpável. Mas era virtual… Não era material biológico real… Não sofria decadência, era eterno. Não necessitava de energia, já a tinha em seus fótons reordenados.
Specter Two era perfeita.
Uma versão de mim mesma, que sentia
o que eu sentia, que não envelhecia.
Entretanto, Specter Two não possuía a essência da vida como nós, humanos, temos. Não havia restrições no que fazia. Os
sentimentos e emoções não eram censuráveis. Era um ser completo, insensível, capaz de reações semelhantes aos nossos sentimentos. Mas era antes de tudo,
absorvente.
Parecia querer ser ela e
eu, ao mesmo tempo.
Cy ficava confuso. Não sabia, às vezes, se falava comigo…
ou com ela.
E…foi assim que aconteceu…
Capítulo Três
Conheci Cy em High School.
Sempre fora meu parceiro.
Inteligente, já despontava como um dos
melhores alunos da escola. Não foi à toa que ele ganhou uma bolsa integral para Yale.
Meu pai era dono de um
laboratório farmacêutico gigante. Detinha 59%
de suas ações. Para mim dinheiro nunca
foi problema. Segui Cy até Yale. Continuávamos juntos.
Suas experiências no primeiro ano da
faculdade já eram objeto de louvor.
Teleportou um fóton para outro lugar distante do original.
Descobriu que estas partículas integralmente juntas
dividiam a mesma existência tanto que, quando separadas, a outra mais distante, era
influenciada pelas mesmas reações da original. Daí partiu para teleportation.
Quando apresentamos nossas
idéias ao grupo de magnatas da
Skull & Bones nos foi dito que este tipo de avanço tecnológico era o que buscavam. Não hesitaram em abrir a
cornucópia. Dinheiro nunca faltou.
Cy e eu eramos apaixonados.
Quando Specter Two surgiu
ficou extasiado.
Sei que sou uma muher
atraente, mas duas de mim, igualmente poderosas era dose dupla difícil de Cy entender.
No início Specter Two ficava
somente no laboratório. Nunca saía de lá. Eram necessárias medidas e experimentos complementares com ela. Estavamos
escrevendo um artigo para o Science Journal e uma tese sobre duplicação humana fora dos padrões de controle éticos. Specter Two ajudava.
Sabia de tudo o que eu sabia. Não se continha, passava dos limites conhecidos, não hesitava em avançar.
Chegou a nos dizer, um dia,
que se outros como ela viessem à existir, o mundo seria diferente. Não reproduziria pelos meios normais, tudo seria através do duplicador quântico e sua impressora
tridimensional. Niguém mais morreria, viveríamos para sempre. Teríamos réplicas de nós mesmos. E isto, em particular, fascinava os investidores.
Enquanto falava, me dava a
sensação de que era eu mesma
falando. Quando se expressava com mais veemência, era como se eu o tivesse feito. Quando olhava para Cy, era
como se meus olhos o fizessem. Quando o tocava, eu sentia sua pele. Descobri
que ambas, eu e Two, amávamos Cy. Sentí ciúmes…
Não sei por que a levei para
casa.
Diria que foi um erro. Mas
levei…
Sua interação com Cy aumentava. Eu sabia
de tudo, pois tudo via e sentia através dela. Acho que ela também sabia e sentia.
Cy se perdeu.
Nunca mais soube qual de nós era a verdadeira Specter.
Acabou por beijar a que não era, foi para a cama, fizeram sexo.
Two era muito mais
desinibida do que eu. Não havia limites morais, consciência. Era um furacão. Quase acabou com Cy em sua primeira noite. Meu amado nem soube o
que aconteceu, desmaiou de prazer. Disse-me depois que havia tido 3 orgasmos
consecutivos.
Perguntou-me o que havia acontecido…ainda achava que era eu
mesma.
Eu, até que gostei, pois sentí tudo aquilo que ela
sentiu. Mas não era eu, era ela. O ciúme se tornava incontrolável. Não queria dividir meu amor
comigo mesma. Queria Cy somente para mim.Não podia culpá-lo pelo que acontecia. Na
verdade, nem saberia como fazê-lo. Éramos iguais, idênticas, perfeitas. Para ele éramos uma só.
Deixei tudo acontecer por
algum tempo. Deve ter sido meu maior erro.
Não havia como nos separarmos
para permitir que Cy descobrisse quem era a verdadeira Specter. Acredito que o
tempo diria, pois Two não envelheceria. Eu, entretanto, estava fadada aos efeitos da
natureza e, se assim continuasse, eventualmente o perderia para mim mesma.
Assim, resolvi que isto
teria que parar.
Is Two Original?
Senadora
McFee incomodou-se.
Cochichou
aos ouvidos do Chief Justice Cortoni. Algo a incomodava.
Sentia que a
Dra. Specter era sincera. Os fatos eram surpreendentes. A historia incrível…
Perguntava
ao ilustre magistrado se o clone poderia ser considerado uma criatura. Afinal o
homem já havia legislado sobre ele mesmo, havia legislado sobre os
animais, sobre coisas e costumes. Sobre tudo que se tinha conhecimento. Mas
sobre o clone virtual? Era humano? Humanóide? Que direitos teria? Se era uma réplica que não envelhecia, se era a própria pessoa de onde veio, o que era então?
Bateu seu
martelo mais uma vez.
O som
parecia mais alto. A sala muda, como mudos estavam seus espectadores. Até os fotógrafos se esqueceram o porque ali
estavam. Não se viam flashes.
Specter impávida aguardava o aceno da Senadora. Esta, com um leve balançar indicou que prosseguisse.
Expliquei a Cy o que
acontecia. Cy não entendeu. A princípio concordou, mas, logo depois mencionou que este assunto já havia sido abordado por ela.
Só que eu não lembrava. Sugeriu então que tentássemos uma análise bioquímica. Uma leitura do DNA.
Uma amostra do tecido.
Para minha surpresa Two
concordou. Pediu que o mesmo fosse feito comigo. Acho que ela tinha isto em
mente. Confundiu Cy ainda mais.
Os exames demonstraram
exatidão das amostras. Eram
iguais. Não havia como dizer qual era
qual. Quem era quem. Pior, os efeitos da transmutação, originalmente de ordem
holográfica haviam se adaptados.
Specter Two era uma cópia de um mundo paralelo vivendo no mesmo mundo do original. Só não tinha alma, e como almas
não são mensuráveis…era absolutamente
igual…
Fiquei cada vez mais
enciumada. Two não parecia ligar…
Cy estava feliz. Nunca
pensou que estava com uma ou outra. Para ele eram a mesma, uma só. Mas eu achava que ele já tinha preferências. Quando estava comigo
perguntava se não queria fazer assim ou assado. Sentia falta da espontaneidade de
Two. Mas não sabia que havia feito
sexo com ela. Somente eu sabia, pois sentia quando era feito.
Perguntei a mim mesma…Um
clone pode morrer?
Se não envelhecia, não morreria. Talvez se morta
fosse, por arma, acidente, desmembramento, isto seria possível. E se não fosse?
A réplica era de um outro
mundo. Não obedecia as leis da física do lugar em que
estava. Seria possível destruí-la?
Resolvi planejar a eliminação de Two. Só não esperava que os fatos
subsequentes me levassem ao improviso.
Voltando de Yale onde havia
reunido com os investidores e relatado sobre o progresso dos experimentos a
encontrei nua, na cama, com Cy. Fiz um escândalo. Cy não se importou. Na verdade, perguntou por que eu, um clone, me
comportava daquela maneira. Não acreditou ser eu mesma, a original.
Naquela mesma noite,
enquanto dormia, cortei-lhe o pescoço. Foi muito mais difícil do que pensei. O sangue saía em jatos pulsantes. Ela não morria. Desesperada busquei as ferramentas que usava para autópsias e comecei a desmembrá-la. Minha fúria era tamanha que cortava
pedaço por pedaço, separando os membros,
separando partes, retirando órgãos.
Ela morreu…
Cy acordou e não acreditou no que havia
feito. Perguntou por quê?
Expliquei calmamente o que
estava acontecendo. Ele acabou entendendo. Queria saber o que faria então.
Disse-lhe que chamaria a
polícia.
Mas,
Elizabeth, eles vão prendê-la.
Não acredito, respondi. Ela não existe…é um outro eu…de outra
dimensão.
Mas,
olhe querida, todo este sangue…como vai explicar isso?
Cy, esta é Two…eu sou a original…
Ne Bis In Idem
Dra. Specter…a senhora matou Two?
Não, senhora Senadora.
Como?
Somente eliminei uma réplica de mim mesma.
Mas, Dra…ela não estava viva?
Vida é um conceito ligado à
seres que habitam neste universo. Se ela tinha vida, esta existia no outro
universo, de onde veio. Aqui não a tinha, sequer a alma.
Mas ,Dra…a senhora há de convir que ela
vivia.
Isto é para os senhores decidirem…
A polícia chegou em menos de 20 minutos. Specter foi presa.
De início um furor midiático. Famosa cientista assassina seu
próprio clone! Na delegacia, ninguém soube o que fazer com ela.
Ante as
alegações de que a morta era um clone, os policiais não conseguiram enquadrá-la em nenhum crime. Seu advogado
logo a libertou.
O Ministério Público insistia em um crime hediondo.
Mas que tipo de crime?
É hediondo esquartejar um ser de outro planeta? Um animal de
uma espécie ainda não conhecida? Uma criatura não catalogada? O que dizer dos experimentos científicos toda vez que algo novo é descoberto?
Se crime não era, o que era então?
Os
investidores dos Specters não se deram por vencidos. Aquilo abria
possibilidades infindas para um futuro altamente lucrativo.
Bastava sugerir à Washington que havia necessidade de adaptação das leis vigentes e incluir os direitos dos clonados. Uma
nova era, uma nova jurisprudência, um novo mundo. Se era possível transmutar através de portais quânticos para outras dimensões e universos paralelos teríamos de estar juridicamente preparados para tal.
Um painel de
notáveis com membros da Câmara, Senado e Suprema Corte foi
empossado, sob a liderança da Senadora McFee.
Chief Justice
Cortoni lembrou à todos que como não havia nada em termos jurídicos para enquadrar o suposto crime,
não poderiam legislar para punir a Dra, Specter. Mais ainda,
uma vez criada a nova legislação o princípio da double jeopardy deveria ser aplicado.
Ne Bis In Idem, risco duplo, double jeopardy.
Dra. Specter
havia concordado com seus advogados que, se ela testemunhasse sobre o
incidente, em sua inteira realidade de eventos, capazes de elucidar e iluminar
os fatos e decisões futuras, ela Dra. Specter, não seria condenada, mesmo que a conclusão indicasse que um crime havia sido cometido.
Epílogo
As 18:25
daquele dia frio de novembro, Senadora McFee agradece a presença de Elizabeth Specter e todos os outros membros do painel,
espectadores, advogados e jornalistas.
Batendo o
martelo mais uma vez, declara encerrada a sessão.
Ao se levantar
ouve um pedido…
Senhora Senadora…
Sim Dra. Specter…
O princípio de Ne Bis In Idem está valendo?
Sim Doutora…
Por que?
Linda e
escultural Specter se levanta. O olhar de todos a acompanham. Seus cabelos de
fogo reluziam, seus lábios rubros, impecavelmente
contornados por um batom reluzente indicavam o desejo de uma última declaração. Após leve hesitação sua voz macia é ouvida e, para estupefação geral…
Senhora
Senadora McFee…Eu sou o clone…
Eu
sou Specter Two.
FIM