A DIMENSÃO
DO ARQUITETO
Capítulo 1
EM YALE
Era um arquiteto.
Formou-se em outras plagas, mas sua alma de arquiteto o fazia
um cidadão do mundo.
Teria tido sucesso onde quisesse. Formou-se e mandou-se.
Mandou-se para as terras do norte.
Lá, pensava, teria seu trabalho publicado em magazines. Teria
um reconhecimento mais amplo, seria mais feliz. Mas como felicidade é um estado
de espírito, o teria sido em qualquer lugar.
Em uma terra onde se prestigia o arquiteto acabou por ser
convidado a projetar, em parceria com um criativo colega de Washington, um edifício
singular. Laboratórios de ciência do meio ambiente justapostos ao famoso
Peabody Museum.
Yale é uma universidade fantástica. Em seu campus exemplos da
melhor arquitetura. Mas é pelos seus edifícios de expressão gótica que se
destaca. Afinal, é uma universidade da Ivy League.
Ali, os arquitetos escolhidos são, via de regra, ex-alunos de
sua faculdade de arquitetura e, embora não o fosse, recebeu o prestigioso
convite.
Arquitetura à parte, foi ali, após sua execução, que teve sua
maior aventura.
Havia um laboratório de física quântica. Nele experimentos
avançados estudavam a possibilidade de abertura de uma passagem para outras
dimensões ou mundos paralelos. No laboratório, uma estranha máquina criava um espaço
virtual que supostamente interagia com outras dimensões.
No edifício, em sua entrada principal, existia um esqueleto
completo de um velociráptor. Realmente espetacular… os ossos da criatura do
passado pareciam levá-lo novamente à vida, aterrorizando à todos que ali
chegavam. Era uma cross section…passado e futuro.
Junto aos laboratórios, criados com as melhores condições e
equipamentos de controle havia coleções de fósseis raríssimos amealhados ao
longo da história da universidade por cientistas e arqueólogos que marcaram época
pelos descobrimentos. Eram todos pertencentes ao acervo do Peabody Museum.
A edificação era em estilo gótico. Uma representação moderna
de algo de um passado nobre, adaptada as exigências dos códigos atuais. Mas
existia em perfeita harmonia com a arquitetura do museu ao seu lado.
Marcus Antonius, Mark para os amigos, era um arquiteto ousado.
Em seus sonhos, queria conquistar o mundo. Neles se via como
um Indiana Jones, um Frank Lloyd Wright, um Andrea Paladio. Sua vontade de criar
espaços equilibrados e eficientes era igual à sua mente inquisitiva a procura
de aventuras e desafios.
A sala quântica o deixou pasmo.
Era um domingo. Estava ali, apesar do museu fechado. Era o
arquiteto e por isso deram-lhe a autorização. Mais precisamente eram 18:39.
Sabia do tempo pois o grande relógio digital à porta do laboratório o dizia, em
luz azul.
Máquinas estranhas interligadas por fios, cabos, tubos de
vidro. Ao centro uma trama, em forma de cubo, paredes, tetos e piso, num
emaranhado de tubos dispostos geometricamente. Dentro deles um líquido azul,
transparente, reluzente.
Uma série de monitores interligados entre si indicavam a
complexidade das informações ali expostas. Alguns continham fórmulas, outros gráficos,
luzes piscantes, imagens não discerníveis. Eram todos intrigantes e novos.
Não
se lembrava ter projetado aquele laboratório para o que ali continha. Deduziu
ser algo desenvolvido após o término do projeto. Talvez algo secreto, não
explicado à época de sua programação.
Mas ali estava e era real.
E Mark, ousado que era, não se limitou a simplesmente
olhar…resolveu apertar uns botões…
E então…
Capítulo 2
O PORTAL
Já havia algum tempo desde que alguns cientistas se propuseram
a criar um portal que nos levasse a outras dimensões. O objetivo era o tempo,
como controlar a quarta e quinta dimensões.
A ideia de time travel
se baseava em encurtar o tempo à frente e esticá-lo após passar pelo cubo, e
vice-versa. O cubo não se moveria. O tempo acelerado levaria aqueles que
estivessem dentro da trama a viajarem para o future ou passado, sem sair do
lugar onde estavam.
Nas tentativas que tinham sido feitas anteriormente nada havia
se concretizado. Estavam por abandonar a ideia.
Mark era curioso e era também bom em física quântica. Muito
bom.
Estudava a formula que estava exposta no monitor maior. Notou
que a equação abria as portas para uma mudança de objetivo. Não se limitaria ao
movimento dimensional mas sim permitiria a abertura de um portal para um
universo paralelo. Afinal, quando acionada, a trama criava uma distorção quântica,
um worm hole. Ali estava a chave do
portal.
A teoria dos universos paralelos indicava que quando uma decisão
quântica é tomada os universos se desdobram.
Naquele momento o tomador da decisão
existiria onde estava e, ao mesmo tempo, no mundo desdobrado onde seguiria seu
outro caminho com a decisão não tomada.
Equivaleria dizer que, se um gato na palma de sua mão
estivesse à frente de um petisco e, ao fechar a mão, com o gato e o petisco,
duas coisas poderiam acontecer no momento em que a mão fosse aberta. O gato
comeria o petisco ou o gato ali estaria ainda em frente ao mesmo. Mas na
realidade ambos os casos acontecem. Antes mesmo da mão se abrir já escolheríamos
o que quereríamos ver. Assim se o gato comeu o petisco, ele também não o comeu.
Somente que, na segunda hipótese, isso aconteceu em um universo paralelo.
Mark também havia estudado arqueologia. Não no sentido acadêmico,
mas era um leitor ávido. Já teria até arriscado explorar as ruínas de Tikal. Lá
encontrara indícios de outros edifícios enterrados pela floresta. Seu
conhecimento de arquitetura o levava a deduções lógicas pelo simples
acompanhamento da disposição das edificações entre si.
Por isso apertou o botão.
Não era um botão qualquer. Situava-se ao centro de uma larga
mesa. Acionava as máquinas que distribuíam fótons desmembrados e replicados
através dos tubos. Transmutação em escala gigantesca. Teleportação em consequência
direta.
Ajustou a equação e ativou o main frame. Os computadores entraram em transe. Rapidamente equações
eram resolvidas e a velocidade dos fótons nos tubos, aumentada.
A trama iluminou-se.
Uma estranha e volátil membrana começou a se formar.
Parecia
uma camada de água, verticalmente disposta. Luminescia. A cor era esverdeada, a
película tênue.
Adentrou o cubo. Sentiu uma estranha sensação formigante ao
atravessar a barreira virtual. Era como se a lâmina de luz analisasse cada átomo
de seu corpo. Sentiu-se dono de tudo, corajoso, intrépido. Era o Indiana Jones
do futuro…
O redutor quântico emitiu um som estridente. Junto, um vórtex,
a princípio tímido, se formou.
Mark dele se aproximou e enfiando a mão dentro do campo magnético
sentiu-se preso. Tentou retirar a mão, mas não conseguiu. Um pouco assustado
tentou desligar a máquina com a mão livre. A distância era muito grande.
Falhou.
Perdeu a consciência por um breve momento. Quando a recobrou,
achava-se do outro lado do vórtex.
Havia penetrado um outro universo. Havia criado um portal quântico.
Mark, o intrépido, estava estarrecido.
Capítulo 3
O OUTRO MUNDO
Não era o que esperava.
Um mundo de vegetação intensa, luxuriosa, estranha.
Poder-se-ia dizer que estava em um parque jurássico. Insetos gigantes,
criaturas fantásticas, répteis…muitos dentes. Não era o mundo de onde veio, era
um mesmo mundo, em outro universo. Havia se transladado através do worm hole. Estava perdido…não havia
volta.
Cuidadosamente estudou o local. Usou seu conhecimento de
arqueologia, estudou amostras do solo, esfarinhou-as em sua mão.
Um calafrio o fez realizar que ali, naquele universo, a Terra
não havia sido atingida por um grande meteoro. Estava intacta. Isso significava
que os dinossauros ainda existiam e se existiam, não havia o homem e, se este
ainda não ali estava significava que era o único. E único humano em terra de répteis
gigantes significava somente uma coisa…era o prato do dia.
Lembrou-se do esqueleto do velociráptor no hall de entrada.
Tinha sido sua ideia quando projetou o edifício. Agora, em pânico, deduziu que
ali, onde estava, eles existiriam, em carne e osso.
Um som semelhante ao de marrecos barulhentos se fez ouvir. Atrás
dos arbustos olhos amarelados, como de uma águia, focalizados estacionariamente
em sua figura.
O monstro era feio e exuberante. Tinha penas mas não pena dele,
pois em um movimento súbito, arreganhou sua garra maior, em forma de gancho.
Mark não durou muito. Outros velociráptors juntaram-se ao
frenesi gerado. Foi devorado, despedaçado, picado, exterminado. Cessou de
existir…
Eram 8:39 da manhã do dia seguinte.
Acordou ao lado da máquina, dentro da trama. Notou-se vivo.
Intrigado, repassou os momentos que lembrava desde que colocou
sua mão através do vórtex.
Olhou os monitores, repassou as imagens registradas nas câmeras.
Viu-se à frente do warm hole,
colocando a mão, sendo sugado, desaparecendo. Mas viu-se também caído, do lado
de fora, desmaiado.
Olhou novamente para o relógio digital. Às 8:39 havia
acordado. Lembrou-se da teoria dos universos paralelos.
Deduziu ter criado um
momento quântico.
Mark, o intrépido, foi levado à um universo onde a Terra ainda existia com seus dinossauros. Mark também
ficara onde estava, desacordado, mas vivo. Havia se desdobrado.
Havia
atravessado o portal. Deduziu ser o universo onde estava a dimensão própria
para um arquiteto. Na outra, morreu. Desligou a máquina. Ainda trêmulo deixou o
prédio, passando por baixo do esqueleto do velociráptor. Sentiu algo estranho
em seu corpo. Poderia jurar que havia visto aquela coisa viva. Tinha penas, era
colorido, espetacular…e extremamente mau.
Ao sair notou que em sua mão esquerda, fechada ainda pelos músculos
contraídos pela experiência sentida havia uma pequena bola azul. Era uma esfera
virtual. Abria-se e comprimia-se à medida que ele a manipulasse.
Seria uma chave? Algo que abrisse portais em outros lugares? Algo
que o fizesse tentar novamente ver o que havia além daquela dimensão?
Guardando-a em seu bolso pensou…talvez…em outro lugar…
Sete meses se passaram.
Marcus Antonius sentado à frente de sua prancheta, segurando
um tira-linhas, traçava linhas em um pedaço de papel tela azulado. Brincava com
os instrumentos do passado. Trabalhava em um roteiro exploratório para Tikal.
Em
sua mente inquisitiva se via no topo da pirâmide maior, à 72 metros acima da
grande praça, com a esfera azul.
Planejava abrir um portal quântico. Havia
ajustado a fórmula para trabalhar somente no tempo. Quem sabe conseguiria ver
os sacrifícios humanos que ali existiram por ocasião da grande seca. Em seus
estudos, havia deduzido que o abandono de Tikal, pelos Maias se deu por volta
do ano de 900 d.c. Peste e fome os fizeram
deixar a magnífica cidade, não antes de perpetrarem centenas de sacrifícios
humanos aos deuses.
Mark para lá se foi.
No topo do templo da piramide IV, construída no ano de 721
d.c. depositou a esfera azul sobre o altar dos sacrifícios humanos. Ali em
Tikal, “O Lugar das Vozes”, Jasaw Chan K’awiil II liderou os sacrifícios ao
longo de um mês. Tentava aplacar os deuses do Popol Vuh.
Tentava salvar seu
povo da extinção. Mark queria recriar o momento. A esfera azul o levaria àquela
viagem ao passado.
Mark invoca Tepeu e Gucomatz, criadores do homem.
A esfera se amplia gerando um campo holográfico. O passado é
sugado e acelerado como um filme. Mark vê imagens das festividades, dos sacrifícios,
do rei Jasaw, dos sacerdotes extraindo os corações pulsantes das vítimas e, em
seguida, as decapitando.
O sangue inundava os degraus de pedra caindo em
cascata, tingindo a pirâmide de rubro. Cânticos estranhos acompanhados por
atabaques em rítmo pulsante. Um cenário digno do Inferno de Dante.
Aquilo certamente não era a dimensão em que queria estar.
Não
havia dúvidas que Tikal era uma cidade maravilhosa.
Duas grandes pirâmides,
opostas uma à outra, emolduravam a praça principal. Esta, cercada de edificações
harmônicas, emolduravam o conjunto que se assentava em largos degraus formando
uma imensa plataforma que servia de arquibancada aos espectadores ávidos de
sangue.
Mas aquela civilização era barbárica. O rei Jasaw parecia se deliciar
com os gritos dos que iriam morrer. Implorava a Tepeu e Gucomatz que salvasse
seu povo.
Mark hesitou. Até aquele momento não havia tocado no vórtex. Não
queria criar um paradoxo temporal. Lembrou-se do tinha acontecido em Yale.
Mas até os mais prudentes cometem seus erros. No afã de
entender mais sobre a arquitetura magnífica que deslumbrava, Mark se inclinou
em demasia e foi sugado.
Encontrou-se encarnado em Jasaw Chan.
Não mais voltou…
FIM
Dedicado
ao meu colega arquiteto Marco Antônio de Pádua, nestas linhas nosso herói, como
também o é na vida real. História de ficção com pitadas de realidade. Um pouco
do que eu vivi, junto com devaneios de um arquiteto. Retiro, 20 de Janeiro de
2018.
CRÉDITOS:
![]() |
| Yale's ESF Design Architect : David Schwarz Architects of Record : GSI Architects Celso Gilberti Principal Peter Spittler Steve Zannoni Gary Ogrocki |


















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