domingo, 21 de janeiro de 2018


A DIMENSÃO DO ARQUITETO
Capítulo 1

EM YALE

Era um arquiteto.

Formou-se em outras plagas, mas sua alma de arquiteto o fazia um cidadão do mundo.

Teria tido sucesso onde quisesse. Formou-se e mandou-se. Mandou-se para as terras do norte.

Lá, pensava, teria seu trabalho publicado em magazines. Teria um reconhecimento mais amplo, seria mais feliz. Mas como felicidade é um estado de espírito, o teria sido em qualquer lugar.

Em uma terra onde se prestigia o arquiteto acabou por ser convidado a projetar, em parceria com um criativo colega de Washington, um edifício singular. Laboratórios de ciência do meio ambiente justapostos ao famoso Peabody Museum.
Yale é uma universidade fantástica. Em seu campus exemplos da melhor arquitetura. Mas é pelos seus edifícios de expressão gótica que se destaca. Afinal, é uma universidade da Ivy League.
Ali, os arquitetos escolhidos são, via de regra, ex-alunos de sua faculdade de arquitetura e, embora não o fosse, recebeu o prestigioso convite.

Arquitetura à parte, foi ali, após sua execução, que teve sua maior aventura.

Havia um laboratório de física quântica. Nele experimentos avançados estudavam a possibilidade de abertura de uma passagem para outras dimensões ou mundos paralelos. No laboratório, uma estranha máquina criava um espaço virtual que supostamente interagia com outras dimensões.

No edifício, em sua entrada principal, existia um esqueleto completo de um velociráptor. Realmente espetacular… os ossos da criatura do passado pareciam levá-lo novamente à vida, aterrorizando à todos que ali chegavam. Era uma cross section…passado e futuro.


Junto aos laboratórios, criados com as melhores condições e equipamentos de controle havia coleções de fósseis raríssimos amealhados ao longo da história da universidade por cientistas e arqueólogos que marcaram época pelos descobrimentos. Eram todos pertencentes ao acervo do Peabody Museum.

A edificação era em estilo gótico. Uma representação moderna de algo de um passado nobre, adaptada as exigências dos códigos atuais. Mas existia em perfeita harmonia com a arquitetura do museu ao seu lado.

Marcus Antonius, Mark para os amigos, era um arquiteto ousado.

Em seus sonhos, queria conquistar o mundo. Neles se via como um Indiana Jones, um Frank Lloyd Wright, um Andrea Paladio. Sua vontade de criar espaços equilibrados e eficientes era igual à sua mente inquisitiva a procura de aventuras e desafios.

A sala quântica o deixou pasmo.


Era um domingo. Estava ali, apesar do museu fechado. Era o arquiteto e por isso deram-lhe a autorização. Mais precisamente eram 18:39. Sabia do tempo pois o grande relógio digital à porta do laboratório o dizia, em luz azul.

Máquinas estranhas interligadas por fios, cabos, tubos de vidro. Ao centro uma trama, em forma de cubo, paredes, tetos e piso, num emaranhado de tubos dispostos geometricamente. Dentro deles um líquido azul, transparente, reluzente.

Uma série de monitores interligados entre si indicavam a complexidade das informações ali expostas. Alguns continham fórmulas, outros gráficos, luzes piscantes, imagens não discerníveis. Eram todos intrigantes e novos. 

Não se lembrava ter projetado aquele laboratório para o que ali continha. Deduziu ser algo desenvolvido após o término do projeto. Talvez algo secreto, não explicado à época de sua programação.

Mas ali estava e era real.

E Mark, ousado que era, não se limitou a simplesmente olhar…resolveu apertar uns botões…

E então…

Capítulo 2

O PORTAL



Já havia algum tempo desde que alguns cientistas se propuseram a criar um portal que nos levasse a outras dimensões. O objetivo era o tempo, como controlar a quarta e quinta dimensões.

A ideia de time travel se baseava em encurtar o tempo à frente e esticá-lo após passar pelo cubo, e vice-versa. O cubo não se moveria. O tempo acelerado levaria aqueles que estivessem dentro da trama a viajarem para o future ou passado, sem sair do lugar onde estavam.

Nas tentativas que tinham sido feitas anteriormente nada havia se concretizado. Estavam por abandonar a ideia.
Mark era curioso e era também bom em física quântica. Muito bom.

Estudava a formula que estava exposta no monitor maior. Notou que a equação abria as portas para uma mudança de objetivo. Não se limitaria ao movimento dimensional mas sim permitiria a abertura de um portal para um universo paralelo. Afinal, quando acionada, a trama criava uma distorção quântica, um worm hole. Ali estava a chave do portal.

A teoria dos universos paralelos indicava que quando uma decisão quântica é tomada os universos se desdobram. 

Naquele momento o tomador da decisão existiria onde estava e, ao mesmo tempo, no mundo desdobrado onde seguiria seu outro caminho com a decisão não tomada.

Equivaleria dizer que, se um gato na palma de sua mão estivesse à frente de um petisco e, ao fechar a mão, com o gato e o petisco, duas coisas poderiam acontecer no momento em que a mão fosse aberta. O gato comeria o petisco ou o gato ali estaria ainda em frente ao mesmo. Mas na realidade ambos os casos acontecem. Antes mesmo da mão se abrir já escolheríamos o que quereríamos ver. Assim se o gato comeu o petisco, ele também não o comeu. Somente que, na segunda hipótese, isso aconteceu em um universo paralelo.

Mark também havia estudado arqueologia. Não no sentido acadêmico, mas era um leitor ávido. Já teria até arriscado explorar as ruínas de Tikal. Lá encontrara indícios de outros edifícios enterrados pela floresta. Seu conhecimento de arquitetura o levava a deduções lógicas pelo simples acompanhamento da disposição das edificações entre si.

Por isso apertou o botão.

Não era um botão qualquer. Situava-se ao centro de uma larga mesa. Acionava as máquinas que distribuíam fótons desmembrados e replicados através dos tubos. Transmutação em escala gigantesca. Teleportação em consequência direta.

Ajustou a equação e ativou o main frame. Os computadores entraram em transe. Rapidamente equações eram resolvidas e a velocidade dos fótons nos tubos, aumentada.

A trama iluminou-se.


Uma estranha e volátil membrana começou a se formar. 
Parecia uma camada de água, verticalmente disposta. Luminescia. A cor era esverdeada, a película tênue.

Adentrou o cubo. Sentiu uma estranha sensação formigante ao atravessar a barreira virtual. Era como se a lâmina de luz analisasse cada átomo de seu corpo. Sentiu-se dono de tudo, corajoso, intrépido. Era o Indiana Jones do futuro…

O redutor quântico emitiu um som estridente. Junto, um vórtex, a princípio tímido, se formou.
Mark dele se aproximou e enfiando a mão dentro do campo magnético sentiu-se preso. Tentou retirar a mão, mas não conseguiu. Um pouco assustado tentou desligar a máquina com a mão livre. A distância era muito grande. Falhou.

Perdeu a consciência por um breve momento. Quando a recobrou, achava-se do outro lado do vórtex.
Havia penetrado um outro universo. Havia criado um portal quântico.

Mark, o intrépido, estava estarrecido.

Capítulo 3

O OUTRO MUNDO


Não era o que esperava.

Um mundo de vegetação intensa, luxuriosa, estranha. Poder-se-ia dizer que estava em um parque jurássico. Insetos gigantes, criaturas fantásticas, répteis…muitos dentes. Não era o mundo de onde veio, era um mesmo mundo, em outro universo. Havia se transladado através do worm hole. Estava perdido…não havia volta.

Cuidadosamente estudou o local. Usou seu conhecimento de arqueologia, estudou amostras do solo, esfarinhou-as em sua mão.

Um calafrio o fez realizar que ali, naquele universo, a Terra não havia sido atingida por um grande meteoro. Estava intacta. Isso significava que os dinossauros ainda existiam e se existiam, não havia o homem e, se este ainda não ali estava significava que era o único. E único humano em terra de répteis gigantes significava somente uma coisa…era o prato do dia.

Lembrou-se do esqueleto do velociráptor no hall de entrada. 

Tinha sido sua ideia quando projetou o edifício. Agora, em pânico, deduziu que ali, onde estava, eles existiriam, em carne e osso.

Um som semelhante ao de marrecos barulhentos se fez ouvir. Atrás dos arbustos olhos amarelados, como de uma águia, focalizados estacionariamente em sua figura.


O monstro era feio e exuberante. Tinha penas mas não pena dele, pois em um movimento súbito, arreganhou sua garra maior, em forma de gancho.

Mark não durou muito. Outros velociráptors juntaram-se ao frenesi gerado. Foi devorado, despedaçado, picado, exterminado. Cessou de existir…

Eram 8:39 da manhã do dia seguinte.
Acordou ao lado da máquina, dentro da trama. Notou-se vivo.

Intrigado, repassou os momentos que lembrava desde que colocou sua mão através do vórtex.

Olhou os monitores, repassou as imagens registradas nas câmeras. Viu-se à frente do warm hole, colocando a mão, sendo sugado, desaparecendo. Mas viu-se também caído, do lado de fora, desmaiado.

Olhou novamente para o relógio digital. Às 8:39 havia acordado. Lembrou-se da teoria dos universos paralelos. 

Deduziu ter criado um momento quântico.

Mark, o intrépido, foi levado à um universo onde a Terra ainda existia com seus dinossauros. Mark também ficara onde estava, desacordado, mas vivo. Havia se desdobrado. 

Havia atravessado o portal. Deduziu ser o universo onde estava a dimensão própria para um arquiteto. Na outra, morreu. Desligou a máquina. Ainda trêmulo deixou o prédio, passando por baixo do esqueleto do velociráptor. Sentiu algo estranho em seu corpo. Poderia jurar que havia visto aquela coisa viva. Tinha penas, era colorido, espetacular…e extremamente mau.


Ao sair notou que em sua mão esquerda, fechada ainda pelos músculos contraídos pela experiência sentida havia uma pequena bola azul. Era uma esfera virtual. Abria-se e comprimia-se à medida que ele a manipulasse.

Seria uma chave? Algo que abrisse portais em outros lugares? Algo que o fizesse tentar novamente ver o que havia além daquela dimensão? Guardando-a em seu bolso pensou…talvez…em outro lugar…

Sete meses se passaram.

Marcus Antonius sentado à frente de sua prancheta, segurando um tira-linhas, traçava linhas em um pedaço de papel tela azulado. Brincava com os instrumentos do passado. Trabalhava em um roteiro exploratório para Tikal. 

Em sua mente inquisitiva se via no topo da pirâmide maior, à 72 metros acima da grande praça, com a esfera azul. 
Planejava abrir um portal quântico. Havia ajustado a fórmula para trabalhar somente no tempo. Quem sabe conseguiria ver os sacrifícios humanos que ali existiram por ocasião da grande seca. Em seus estudos, havia deduzido que o abandono de Tikal, pelos Maias se deu por volta do  ano de 900 d.c. Peste e fome os fizeram deixar a magnífica cidade, não antes de perpetrarem centenas de sacrifícios humanos aos deuses.

Mark para lá se foi.

No topo do templo da piramide IV, construída no ano de 721 d.c. depositou a esfera azul sobre o altar dos sacrifícios humanos. Ali em Tikal, “O Lugar das Vozes”, Jasaw Chan K’awiil II liderou os sacrifícios ao longo de um mês. Tentava aplacar os deuses do Popol Vuh.
Tentava salvar seu povo da extinção. Mark queria recriar o momento. A esfera azul o levaria àquela viagem ao passado.

Mark invoca Tepeu e Gucomatz, criadores do homem.
A esfera se amplia gerando um campo holográfico. O passado é sugado e acelerado como um filme. Mark vê imagens das festividades, dos sacrifícios, do rei Jasaw, dos sacerdotes extraindo os corações pulsantes das vítimas e, em seguida, as decapitando.
O sangue inundava os degraus de pedra caindo em cascata, tingindo a pirâmide de rubro. Cânticos estranhos acompanhados por atabaques em rítmo pulsante. Um cenário digno do Inferno de Dante.

Aquilo certamente não era a dimensão em que queria estar. 

Não havia dúvidas que Tikal era uma cidade maravilhosa. 
Duas grandes pirâmides, opostas uma à outra, emolduravam a praça principal. Esta, cercada de edificações harmônicas, emolduravam o conjunto que se assentava em largos degraus formando uma imensa plataforma que servia de arquibancada aos espectadores ávidos de sangue. 
Mas aquela civilização era barbárica. O rei Jasaw parecia se deliciar com os gritos dos que iriam morrer. Implorava a Tepeu e Gucomatz que salvasse seu povo.
Mark hesitou. Até aquele momento não havia tocado no vórtex. Não queria criar um paradoxo temporal. Lembrou-se do tinha acontecido em Yale.

Mas até os mais prudentes cometem seus erros. No afã de entender mais sobre a arquitetura magnífica que deslumbrava, Mark se inclinou em demasia e foi sugado.

Encontrou-se encarnado em Jasaw Chan.

Não mais voltou…

FIM

Dedicado ao meu colega arquiteto Marco Antônio de Pádua, nestas linhas nosso herói, como também o é na vida real. História de ficção com pitadas de realidade. Um pouco do que eu vivi, junto com devaneios de um arquiteto. Retiro, 20 de Janeiro de 2018.
CRÉDITOS:
Yale's ESF
Design Architect : David Schwarz
Architects of Record : GSI Architects
Celso Gilberti  Principal
Peter Spittler
Steve Zannoni
Gary Ogrocki





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