terça-feira, 16 de janeiro de 2018


CLONED
Capítulo Um

2052
The Testimony

O relógio batia 13 horas de um dia frio em um novembro triste às sombras dos edifícios góticos do campus de Yale. Era um dos poucos relógios analógicos que ainda existiam. O solene repicar do gongo ecoava no austero plenário da corte de justiça do estado de Connecticut.

A seleta audiência composta em sua maioria de jornalistas e advogados esperava a entrada da Senadora McFee.

Conhecida pela objetividade e argúcia iria presidir o painel de congressistas e juízes prontos à lidar com o primeiro caso de um suposto assassinato cibernético. Um evento sobre um ato nunca antes perpetrado para o qual não existia jurisprudência e muito menos leis aplicáveis.

O som do martelo trouxe ordem e silêncio.

À mesa, figuras do judiciário à esquerda, liderados pelo famoso Juiz Cortoni, chefe da Suprema Corte Norte-Americana, à direita congressistas de ambas as casas, Senado e Câmara. À frente, uma pequena mesa. Ao lado uma cadeira ainda vazia.

O silêncio era ensurdecedor.

Ecoando no painéis de mogno trabalhado os passos lentos e firmes de uma deslumbrante figura de mulher atraiam os olhos de todos. 

Era realmente uma bela criatura. Olhos azuis, cabelos cor de fogo com mechas alaranjadas, vestido curto, negro, bem talhado. Uma gargantilha dourada, com um único pingente, contrastava com brincos tímidos e discretos. Os sapatos Prada, também negros, com estiletos em ouro, marcavam um compasso inebriante, como um tango ainda a ser tocado.

Sentou-se, cruzando suas longas e bem torneadas pernas. Olhou para a mesa.

Uma nova batida do martelo.

Bem vinda Doutora Specter…

A voz solene da Senadora McFee contrastava com sua figura simples. Vestida em um tailleur azul e vermelho de corte elegante McFee tinha em seus olhos a fúria do mundo. Havia recebido a alcunha de “whip”, ou seja aquela que tinha o poder de açoitar, com palavras, tudo que achasse necessário.

Specter balançou gentilmente a cabeça…não retrucou.

Senhores e Senhoras, é mister estabelecermos, neste momento, os fundamentos básicos para estes trabalhos. Rogo a atenção de todos e, em especial da nossa convidada, Dra. Specter.

Sabemos todos que um suposto crime foi cometido. Digo suposto pois ainda não podemos definí-lo como tal à luz das leis vigentes e de jurisprudência inexistente.

Mas algo extraordinário aconteceu. Tão complexo que se torna necessária a intervenção de dois poderes. Encontramo-nos na encruzilhada de algo novo que contrasta com a ordenação das coisas como conhecemos. O limiar de um comportamento social ainda não estruturado.

Dra Specter é a causa da destruição de um clone, dela própria, por ela mesma.

Ações entre o Ministério Público e a defesa da Dra. Specter resultaram em um acordo que será respeitado por este painel.

Diz tal acordo que a máxima ne bis in idem deverá ser aplicada, ou seja, qualquer que for o resultado do presente questionamento não poderá ser usado, à posteriori, de forma alguma, em prejuízo da ilustre Doutora, mesmo que seja este resultado criador de leis restritivas que poderiam levar a uma condenação de qualquer espécie.

Assim o risco duplo, double jeopardy, será observado. Dra. Specter não sofrerá penalidade alguma ao fim de seu testemunho, nem poderá sofrer, mesmo em caso de leis e jurisprudências futuras sobre igual matéria.

É sabido que, na noite de 12 de julho de 2052, às 23:43, em sua residência, o clone de nome Specter Two deixou de existir.

Peço então à Dra. Specter que inicie seu testemunho, em detalhes, de maneira que possamos entender como proceder, no futuro, em casos semelhantes.

Com a palavra a Dra. Specter.


Capítulo Dois

Long Ago

Prezados e ilustres membros deste painel.
Meu nome é Elizabeth Specter. Detenho dois mestrados em Bioengineering e Quantum Biology e doutorado em Quantum Teleportation of Genetic Materials.

Formei-me na Yale University. Foi lá também que encontrei meu marido, Cyrus Specter.
Cy é especialista em Quantum Entanglement. Tem um doutorado em Quantum Mechanics.

Ambos, Cy e eu, pertencemos a Skull & Bones, onde após iniciação, conhecemos um grupo de magnatas que se interessaram pelo nosso projeto.

Cy havia conseguido separar duas partículas quânticas, ambas totalmente interligadas que, mesmo após sua separação, uma influenciava a outra, independentemente da distância entre elas. Eu havia sugerido ser possível fazê-lo em escala maior, utilizando material genético.

Propus ser factível clonar, via sinais eletromagnéticos, através de quantum teleportation. Propus ainda ser possível duplicar a espiral quântica do genoma humano, em forma holográfica.

Não colocaram restrições financeiras em nossas experiências. A própria Universidade abriu seus laboratórios para as pesquisas e ensaios. O projeto foi bem sucedido. Os resultados não tinham limites.

Como não se tratava de clonar um ser humano via embriões, esta nova forma criava condições de fazê-lo no campo virtual, portanto não sujeito à restrições éticas.

Entretanto, à medida que avançávamos em nossos experimentos ficou claro que o quantum entanglement permitia que a duplicata contivesse tudo o que a original possuía. Reagia imediatamente à qualquer influência, ou seja, existia em outro lugar.

Partimos para a duplicação do genoma quântico de um ser humano. 

Meu genoma foi utilizado.

Cy era muito bom em física quântica. Criou uma impressora tridimensional de material genético. Através dela conseguimos gerar o primeiro clone. O componente da espiral quântica do meu DNA foi replicado à distância.Uma vez replicado, esta, a réplica, foi incentivada a produzir, via impressora, uma versão virtual de mim mesma.
Chegou até à existir por algumas horas, porém este primeiro clone, Specter One, não sobreviveu. A gravação feita fotograficamente, em um campo tridimensional, não era estável. Era necessário que a impressora se utilizasse de material genético em escala maior, capaz de sustentar a criação de uma cópia com todas as características da original.
Assim, quando fizemos o Specter Two, ela era idêntica à mim mesma. Uma mistura de carne e osso em um campo holográfico sólido, real, apalpável. Mas era virtual… Não era material biológico real… Não sofria decadência, era eterno. Não necessitava de energia, já a tinha em seus fótons reordenados.

Specter Two era perfeita. Uma versão de mim mesma, que sentia o que eu sentia, que não envelhecia.

Entretanto, Specter Two não possuía a essência da vida como nós, humanos, temos. Não havia restrições no que fazia. Os sentimentos e emoções não eram censuráveis. Era um ser completo, insensível, capaz de reações semelhantes aos nossos sentimentos. Mas era antes de tudo, absorvente.

Parecia querer ser ela e eu, ao mesmo tempo.

Cy ficava confuso. Não sabia, às vezes, se falava comigo… ou com ela.

E…foi assim que aconteceu…

Capítulo Três
The Affair

Conheci Cy em High School. Sempre fora meu parceiro.
Inteligente, já despontava como um dos melhores alunos da escola. Não foi à toa que ele ganhou uma bolsa integral para Yale.
Meu pai era dono de um laboratório farmacêutico gigante. Detinha 59% de suas ações. Para mim dinheiro nunca foi problema. Segui Cy até Yale. Continuávamos juntos.
Suas experiências no primeiro ano da faculdade já eram objeto de louvor. Teleportou um fóton para outro lugar distante do original. 

Descobriu que estas partículas integralmente juntas dividiam a mesma existência tanto que, quando separadas, a outra mais distante, era influenciada pelas mesmas reações da original. Daí partiu para teleportation.

Quando apresentamos nossas idéias ao grupo de magnatas da Skull & Bones nos foi dito que este tipo de avanço tecnológico era o que buscavam. Não hesitaram em abrir a cornucópia. Dinheiro nunca faltou.

Cy e eu eramos apaixonados.

Quando Specter Two surgiu ficou extasiado.

Sei que sou uma muher atraente, mas duas de mim, igualmente poderosas era dose dupla difícil de Cy entender.

No início Specter Two ficava somente no laboratório. Nunca saía de lá. Eram necessárias medidas e experimentos complementares com ela. Estavamos escrevendo um artigo para o Science Journal e uma tese sobre duplicação humana fora dos padrões de controle éticos. Specter Two ajudava. Sabia de tudo o que eu sabia. Não se continha, passava dos limites conhecidos, não hesitava em avançar.

Chegou a nos dizer, um dia, que se outros como ela viessem à existir, o mundo seria diferente. Não reproduziria pelos meios normais, tudo seria através do duplicador quântico e sua impressora tridimensional. Niguém mais morreria, viveríamos para sempre. Teríamos réplicas de nós mesmos. E isto, em particular, fascinava os investidores.
Enquanto falava, me dava a sensação de que era eu mesma falando. Quando se expressava com mais veemência, era como se eu o tivesse feito. Quando olhava para Cy, era como se meus olhos o fizessem. Quando o tocava, eu sentia sua pele. Descobri que ambas, eu e Two, amávamos Cy. Sentí ciúmes…

Não sei por que a levei para casa.

Diria que foi um erro. Mas levei…

Sua interação com Cy aumentava. Eu sabia de tudo, pois tudo via e sentia através dela. Acho que ela também sabia e sentia.

Cy se perdeu.

Nunca mais soube qual de nós era a verdadeira Specter. Acabou por beijar a que não era, foi para a cama, fizeram sexo.

Two era muito mais desinibida do que eu. Não havia limites morais, consciência. Era um furacão. Quase acabou com Cy em sua primeira noite. Meu amado nem soube o que aconteceu, desmaiou de prazer. Disse-me depois que havia tido 3 orgasmos consecutivos. 

Perguntou-me o que havia acontecido…ainda achava que era eu mesma.

Eu, até que gostei, pois sentí tudo aquilo que ela sentiu. Mas não era eu, era ela. O ciúme se tornava incontrolável. Não queria dividir meu amor comigo mesma. Queria Cy somente para mim.Não podia culpá-lo pelo que acontecia. Na verdade, nem saberia como fazê-lo. Éramos iguais, idênticas, perfeitas. Para ele éramos uma só.

Deixei tudo acontecer por algum tempo. Deve ter sido meu maior erro.

Não havia como nos separarmos para permitir que Cy descobrisse quem era a verdadeira Specter. Acredito que o tempo diria, pois Two não envelheceria. Eu, entretanto, estava fadada aos efeitos da natureza e, se assim continuasse, eventualmente o perderia para mim mesma.

Assim, resolvi que isto teria que parar.

Capítulo Quatro

Is Two Original?

Senadora McFee incomodou-se.

Cochichou aos ouvidos do Chief Justice Cortoni. Algo a incomodava.

Sentia que a Dra. Specter era sincera. Os fatos eram surpreendentes. A historia incrível…

Perguntava ao ilustre magistrado se o clone poderia ser considerado uma criatura. Afinal o homem já havia legislado sobre ele mesmo, havia legislado sobre os animais, sobre coisas e costumes. Sobre tudo que se tinha conhecimento. Mas sobre o clone virtual? Era humano? Humanóide? Que direitos teria? Se era uma réplica que não envelhecia, se era a própria pessoa de onde veio, o que era então?

Bateu seu martelo mais uma vez.

O som parecia mais alto. A sala muda, como mudos estavam seus espectadores. Até os fotógrafos se esqueceram o porque ali estavam. Não se viam flashes.

Specter impávida aguardava o aceno da Senadora. Esta, com um leve balançar indicou que prosseguisse.

Expliquei a Cy o que acontecia. Cy não entendeu. A princípio concordou, mas, logo depois mencionou que este assunto já havia sido abordado por ela. Só que eu não lembrava. Sugeriu então que tentássemos uma análise bioquímica. Uma leitura do DNA. Uma amostra do tecido.

Para minha surpresa Two concordou. Pediu que o mesmo fosse feito comigo. Acho que ela tinha isto em mente. Confundiu Cy ainda mais.

Os exames demonstraram exatidão das amostras. Eram iguais. Não havia como dizer qual era qual. Quem era quem. Pior, os efeitos da transmutação, originalmente de ordem holográfica haviam se adaptados. Specter Two era uma cópia de um mundo paralelo vivendo no mesmo mundo do original. Só não tinha alma, e como almas não são mensuráveis…era absolutamente igual…

Fiquei cada vez mais enciumada. Two não parecia ligar…

Cy estava feliz. Nunca pensou que estava com uma ou outra. Para ele eram a mesma, uma só. Mas eu achava que ele já tinha preferências. Quando estava comigo perguntava se não queria fazer assim ou assado. Sentia falta da espontaneidade de Two. Mas não sabia que havia feito sexo com ela. Somente eu sabia, pois sentia quando era feito.

Perguntei a mim mesma…Um clone pode morrer?

Se não envelhecia, não morreria. Talvez se morta fosse, por arma, acidente, desmembramento, isto seria possível. E se não fosse?

A réplica era de um outro mundo. Não obedecia as leis da física do lugar em que estava. Seria possível destruí-la?

Resolvi planejar a eliminação de Two. Só não esperava que os fatos subsequentes me levassem ao improviso.

Voltando de Yale onde havia reunido com os investidores e relatado sobre o progresso dos experimentos a encontrei nua, na cama, com Cy. Fiz um escândalo. Cy não se importou. Na verdade, perguntou por que eu, um clone, me comportava daquela maneira. Não acreditou ser eu mesma, a original.

Naquela mesma noite, enquanto dormia, cortei-lhe o pescoço. Foi muito mais difícil do que pensei. O sangue saía em jatos pulsantes. Ela não morria. Desesperada busquei as ferramentas que usava para autópsias e comecei a desmembrá-la. Minha fúria era tamanha que cortava pedaço por pedaço, separando os membros, separando partes, retirando órgãos.

Ela morreu…

Cy acordou e não acreditou no que havia feito. Perguntou por quê?
Expliquei calmamente o que estava acontecendo. Ele acabou entendendo. Queria saber o que faria então.

Disse-lhe que chamaria a polícia.

Mas, Elizabeth, eles vão prendê-la.

Não acredito, respondi. Ela não existe…é um outro eu…de outra dimensão.

Mas, olhe querida, todo este sangue…como vai explicar isso?

Cy, esta é Two…eu sou a original…

Capítulo Cinco
Ne Bis In Idem

Dra. Specter…a senhora matou Two?

Não, senhora Senadora.

Como?

Somente eliminei uma réplica de mim mesma.

Mas, Dra…ela não estava viva?

Vida é um conceito ligado à seres que habitam neste universo. Se ela tinha vida, esta existia no outro universo, de onde veio. Aqui não a tinha, sequer a alma.

Mas ,Dra…a senhora há de convir que ela vivia.

Isto é para os senhores decidirem…

A polícia chegou em menos de 20 minutos. Specter foi presa.

De início um furor midiático. Famosa cientista assassina seu próprio clone! Na delegacia, ninguém soube o que fazer com ela.

Ante as alegações de que a morta era um clone, os policiais não conseguiram enquadrá-la em nenhum crime. Seu advogado logo a libertou.

O Ministério Público insistia em um crime hediondo. Mas que tipo de crime?

É hediondo esquartejar um ser de outro planeta? Um animal de uma espécie ainda não conhecida? Uma criatura não catalogada? O que dizer dos experimentos científicos toda vez que algo novo é descoberto?

Se crime não era, o que era então?

Os investidores dos Specters não se deram por vencidos. Aquilo abria possibilidades infindas para um futuro altamente lucrativo. 

Bastava sugerir à Washington que havia necessidade de adaptação das leis vigentes e incluir os direitos dos clonados. Uma nova era, uma nova jurisprudência, um novo mundo. Se era possível transmutar através de portais quânticos para outras dimensões e universos paralelos teríamos de estar juridicamente preparados para tal.

Um painel de notáveis com membros da Câmara, Senado e Suprema Corte foi empossado, sob a liderança da Senadora McFee. 

Chief Justice Cortoni lembrou à todos que como não havia nada em termos jurídicos para enquadrar o suposto crime, não poderiam legislar para punir a Dra, Specter. Mais ainda, uma vez criada a nova legislação o princípio da double jeopardy deveria ser aplicado.

Ne Bis In Idem, risco duplo, double jeopardy.

Dra. Specter havia concordado com seus advogados que, se ela testemunhasse sobre o incidente, em sua inteira realidade de eventos, capazes de elucidar e iluminar os fatos e decisões futuras, ela Dra. Specter, não seria condenada, mesmo que a conclusão indicasse que um crime havia sido cometido.

Epílogo

As 18:25 daquele dia frio de novembro, Senadora McFee agradece a presença de Elizabeth Specter e todos os outros membros do painel, espectadores, advogados e jornalistas.

Batendo o martelo mais uma vez, declara encerrada a sessão.

Ao se levantar ouve um pedido…

Senhora Senadora…

Sim Dra. Specter…

O princípio de Ne Bis In Idem está valendo?

Sim Doutora…

Por que?

Linda e escultural Specter se levanta. O olhar de todos a acompanham. Seus cabelos de fogo reluziam, seus lábios rubros, impecavelmente contornados por um batom reluzente indicavam o desejo de uma última declaração. Após leve hesitação sua voz macia é ouvida e, para estupefação geral…

Senhora Senadora McFee…Eu sou o clone…
Eu sou Specter Two.

FIM






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