sexta-feira, 27 de abril de 2018



AS BELAS E AS MONTANHAS



Subiram a serra. No seu mais alto ponto olharam para o vale abaixo.

Eram divas que cintilavam ao sol.

Ciumentas, as montanhas reagiram. Um tremor mostrou sua inigualável força.

Não foi o bastante.  Não as assustou. As belas, com desdém, olharam de cima.

E as montanhas calaram-se.

Ficaram felizes em tê-las no alto.

quinta-feira, 26 de abril de 2018


ALI  NO BAR


Quer um drink?  Uma limonada talvez?  Bastam alguns limões.

Laranjadas?  Só com laranjas. Não aquelas dos esquemas, mas as que dão suco.

Espremem o trabalhador?  Dá suco de trapalhadas. Aquelas de espremer direitos e não dar nada de volta. Também o  fazem com o empregador, espremendo mais tributos.

Se espremessem o governo, cortando ministérios, cargos e empregos, talvez desse algum caldo bom. Mas este drink não está disponível, ou cogitado, seja lá o que for.

O que sai mais é o de gatunos das estatais.  É o especial do dia. Suco de AliBabá e os quarenta ladrões.

Vai um?

sábado, 21 de abril de 2018


AMADA

A amada é como um inebriante vinho…
Desce macio, sobe como um foguete.
Deixa-nos extasiados, embevecidos,
Perdidos num turbilhão de pensamentos,
Perdidos em sentimentos, puros, imaculados.
No seu torpor fica a insanidade do amor.
Quando sobe, em pirotécnicas volutas,
Deixa-nos loucos, perdidos, ensandecidos.
Entre beijos e abraços, um calor no espaço.
A loucura de amantes…
Amada amante, bela diva que me cativa,
Deixo-lhe meu coração e peço-lhe perdão,
Por tudo que irei fazer…

sexta-feira, 20 de abril de 2018


UM CHATO JOGO DE PALAVRAS


As vezes é chato. Chato, achatado, pelado. Se não fosse, não seria, mas é, e por ser, fica chato. Chato mesmo.

Mas poderia ser alegre, esperto, aberto. Mas não é. É chato.

Chato…cansado de política barata. Cansado de burrice crônica, bubônica. Pestes já temos, e muitas, como temos também os chatos. Tem até aqueles bichinhos com cara de carrapatos.

Realmente chato.

Nesta vermelha terra, outrora verde e anil, só achamos chatos. Os certos e os errados, mas todos chatos.

Por isso escrevi estas chatas linhas.

Na esperança de assuntos alegres, e talvez, nos etilícos espíritos à mesa de um bar, para onde certamente irei, hoje à noite, encontrarei em Bacco algo mais substancioso para contar.

Assim não terá sido mais chato…

quinta-feira, 19 de abril de 2018


RUBRO E LOUCO

(ou seria louco e rubro?)

Totalmente louco.

Nasceu assim, cresceu, disléxico, prolixo, patético, desparafusado, pirado, idiota e imbecil.

Combinação incrível de valores (?). Gostava de vermelho.

Seu duvidoso gosto exigia sanduíches de mortadela. Por ela, na goela, empinava rubros estandartes em enrubescedoras situações. Um palhaço de multidões.

Entoava cânticos patéticos, vociferava frases dignas de ventos estocados e luas lunáticas.

Ali na turba era um, mas louco que era, era muitos. Fazia um barulho de lobos famintos. Famintos de sangue, do rubro líquido, do farfalhar de bandeiras morféticas, estranhos símbolos de ideologia dos descerebrados, eviscerados por líderes e imundos profetas da desgraça.

No manifestar por um líder abatido notou um jovem, empunhando a vermelha bandeira, à escalar um poste para mais alto vibrar. Subia com a destreza dos malucos, galgava os píncaros nos emaranhados dos fios de alta tensão. 

Dançava como um bufão tendo um transformador por amada.

A explosão incrível, o corpo caindo estatelado, torrado, negro no asfalto negro, agora tingido de rubro.

O estandarte tremulante, como uma pena gigante, descendo lentamente, meio queimado meio assado.

Tomou-o nas mãos.

Um mártir havia nascido. Era o que mais queria.

Ali, naquele momento, fez seu melhor discurso. Disse tudo e não falou nada. 

Era tão prolixo que seu falar passou a ser usado como regra em tribunais superiores. Mais douto que o latim, mais confuso que jargões de causídicos e togados de praxe, mais disléxicos que discursos de presidentas.

Mas mortadelas não entendiam nada delas e por isso…

Virou líder instantaneamente.

Prometeu tudo de graça, em sanduíches gigantes e trinta mangos diários, por votos e suporte. Disse que acabaria com a opressora polícia, o corporativo judiciário, a mídia vendida. Tomaria todo o dinheiro dos ricos e os daria às multidões de vermelho. Dividiria tudo com eles até não haver o que dividir.

Foi por isso eleito…

Galgou o topo do mundo tinto de sangue, a cor que tanto gostava.

Cumpriu suas promessas.

Louco que era, entre mortadelas e outras sequelas, fulminou com tudo. 

Executou, tomou, estripou, massacrou, dividiu. E dividiu tanto que não houve mais como dividir. E no infinitésimo do que restou não lhe sobrou mais nada, nem a bendita mortadela. Sem ela, seu mandato virou uma pinguela. Nem a pinga em sua rubra goela lhe salvou.

Foi dividido em praça pública. Seus tintos fragmentos queimados na cor do asfalto, no mesmo lugar onde morrera o incauto do poste.

Os esquerdopatas o louco mataram, ao pó somente restaram.

Acompanharam seu grande líder e mortos de fome se acharam.

Haviam conseguido dividir tanto que chegaram ao zero absoluto.

E de zero não se vive.


quarta-feira, 18 de abril de 2018


E ELA ME DISSE ASSIM


E ela me disse assim…
Sou seu doce,
Predileto.
Pense só em mim,
Com afeto.
No perfume do jasmim,
Nos meus olhos de mel…

Sou tua…
Toda nua…
Perdida, amada, achada.
E em teus braços, num abraço dolente,
Lhe peço somente…
Um pouco,
De seu amor ardente!


terça-feira, 17 de abril de 2018


TIA LENE

Homenagem Póstuma

A conheci pouco. Mas neste pouco deixou muito.
Sorriso largo, o copo de uísque com gelo ao lado, prosa fácil e agradável. Uma mulher interessante, de interesses vários.
Partiu.
Como todos que eventualmente partem.
Mas partiu e ficou…
Ficou nos corações, na memória, nas palavras proferidas, no carinho que distribuiu.
Gostaria de tê-la conhecido mais.
Certamente me deixaria mais ancho.
Neste pouco tempo fui cativado.

Adeus Tia Lene

Sei que onde você estiver a alegria estará presente.
Faço-lhe um último brinde.
Com um sorriso de esperança.

domingo, 15 de abril de 2018


PERDEU-SE SEM AMOR

Era um amor de criatura.
Doce, carinhosa, macia…
Era presente, interessante, inteligente.
Mas eram duas, ou talvez três…
Sei lá!
Muito… às vezes é demais.
Preferia uma só.
A mais doce.
No seu único era única.
Nos seus outros era a tristeza,
Amores sofridos, vidas desfeitas…
O choro mudo, lágrimas profusas.
Não acreditava, desconfiava…
Amava, mas não sabia.
Talvez não soubesse amar,
E achava que sabia…
Rasgou a alegria,
Despedaçou o carinho,
Esfacelou a ternura.
Assim… nada perdura…

Perdeu-se sem amor…
Perdeu o seu amor.

sexta-feira, 13 de abril de 2018


O OUTRO LADO


Dizem que a morte e uma porta que se abre para um outro mundo.

Um contínuo, portas que se abrem, universos que surgem, desdobram.

Por isso, resolvi morrer. Não uma morte morrida, mas uma morte intelectualmente programada.

Fechei meus olhos, limpei meus pensamentos, em total silêncio, em uma cama confortável, numa noite estrelada.

Preferi tal cenário. Um dia de tempestade, confusão, ruídos ensurdecedores não me conduziriam para a meditação que pensava fazer, livre das coisas terráqueas, mergulhado em ideias e sonhos, à cata da tal porta.

Poderia ter dormido. Mas acho que o que aconteceu não foi um sonho. Talvez uma breve viagem, inquisitiva, interrogativa mas certamente surpreendente.

Não foi uma porta, no estrito senso da palavra, que se abriu. Era mais um caminho que se delineava, de um escuro para algo iluminado. 

Felizmente assim o foi pois via nisto a possibilidade de se ir para outro mais escuro, mais tenebroso.

Meu mundo material deixou de existir. Ninguém leva nada deste plano que tenha substância.

Havia seres etéreos, sem forma definida. Não produziam sons. 

Estavam lá e se comunicavam. Eu já não tinha forma, mas insistia em me ver como era. E ali, naquele momento, realizei que podia assumir a forma que tinha, como podia criar em minha volta um ambiente familiar. Algo que me deixava relacionar com um passado agradável. 
Um mundo virtual.

Os seres etéreos se transformavam em criaturas familiares. Ali estavam. Sabia o que queriam e me deixavam saber. Criei meu próprio mundo virtual e descobri que continuava vivo, sem corpo, sem matéria, capaz de me transladar para onde quisesse ir. Me convidavam para ser parte do mundo deles. Me deixavam ver suas versões.

Pessoas que amei ali estavam mas não eram as mesmas como haviam sido. Sabia que eram aquelas com quem convivi, mas estas, somente assumiam a forma em que as conheci quando assim o queriam.

Eu mesmo já tinha perdido a relação comigo mesmo, aquele que lá havia chegado. Já me via em outras vidas e de forma diferente. Mas era eu mesmo. Vi o que já havia sido e não gostei tanto. Comecei a compreender porque voltamos. A forma etérea precisa da energia daquele mundo material. Volta em outras histórias, em outro teatro de um ato só.

Compreendi que o que havia vivido fora uma destas peças de ato único. Todos os seres que ali estavam eram parte do mesmo grupo que ia e voltava, numa multitude de enredos, alguns felizes, outros, na sua maioria, cheios de sofrimento.

Entendi também que poderia ir à frente. Para outros lugares. Portas, talvez, para outras dimensões. E, cada vez que o fizesse menos energia da matéria eu precisaria.

Existe um lado escuro. Nele nos perdemos facilmente. Nele entramos se erramos demais no teatro da vida material. No enredo mal cumprido. Felizmente lá não estava.
Minha morte foi breve.

Foi um átimo do futuro a mim revelado quando a energia quântica se desprendeu, naquele sonho, sono, momento, instante em que me achei morto porém mais vivo que jamais estive.

Vou morrer de novo.



sábado, 7 de abril de 2018


TIRED OF LIVING AND AFRAID OF DYING
from show boat
Life is like a show boat. The only difference is that the show is unique and only played once.

The actors are the people that you know, the loves that you had, and the hearts that you touched. Disagreements, sadness, failures and other less venturous moments are part of the show that goes on even if you don’t want it to go.

The river carries the boat. He must know something, more than I know, because I know nothing. It just keeps on rolling along.

Fish must swim, birds must fly. I had a love of my own. She’s gone now, but the show must roll on like the river. The river knows, I’ll roll along and look for a new life. Maybe next stop a new heart is to be conquered.

Only make me believe that I’ll love you.

The ol’man river don’t say nothing. I’m tired of living and afraid of dying…but the show call for my new act.

I can’t help loving that woman of mine.
from show boat


domingo, 1 de abril de 2018


TIME CAPSULE

Eram todos cientistas. Meio loucos como todos os cientistas. Mas, meio audazes, temerários, pirados, aloprados.

Inventaram uma máquina que andava no tempo sem sair do lugar.

Uma louca teoria em louco lugar com loucos partícipes.

Um era quântico, o outro físico nuclear, o terceiro, simplesmente desparafusado.

O primeiro partia do pressuposto que era possível comprimir o tempo adiante e acelerá-lo atrás. A máquina não se moveria mas o tempo sim. O outro, introduziu a possibilidade de dobrar o tempo e passar à outras dimensões, outros mundos, universos.

O terceiro, bem…o terceiro só pensava em mulheres peladas. Não tinha muita serventia, mas tinha o dinheiro necessário para financiar o tresloucado projeto.

Muitos dólares depois a geringonça estava pronta. Precisavam testá-la e, para tal nada como o dispensável terceiro.

A máquina era um cilindro. Possuía duas paredes, uma interna e outra espaçada da primeira por onde jorrava o fluxo quântico. Caso não desse certo, o sujeito dentro da máquina desapareceria e não mais voltaria. Se fosse um sucesso, reapareceria segundos depois, após uma viagem para outros universos onde o tempo não era linear.

A ideia de achar outras mulheres em universos diferentes era somente o que fazia o amigo financista à se arriscar entrar dentro do tubo. E para lá ele se foi.

Luzes piscantes, barulhos estranhos, faíscas e arcos voltaicos depois o amigo desapareceu.

No pequeno intervalo que precedeu sua volta nosso herói se encontrou em um espaço totalmente branco. A máquina ao centro, lindas mulheres ao redor, seminuas, sentadas em poltronas também brancas. A música era leve, o perfume de olor suave permeava o ar.

Achou-se no paraíso.

Notou que vestia um vestido branco, simples, transparente. Notou que não era homem, mas uma linda mulher. Sentiu seus seios, pele macia, curvas delicadas, púbis coberto de delicados cabelos, curtos, aloirados. Sentiu-se sensual, delirante, apaixonante. Estava, como as outras, em uma poltrona, também branca.

No mundo para onde fora era mulher. No mundo para onde fora, estava em um prostíbulo.

Não se importou. Estava de olho nas belas. Então, por que não amá-las?

Seus devaneios foram abruptamente interrompidos…

Uma porta se abre, um homem de aparência árabe, barbudo, cabeludo, grotesco adentra o recinto. Olha ao redor, aproxima-se de cada musa e, finalmente chegando perto coloca à seus pés um maço de notas.

Tirando a roupa ordena imediatamente…

Pegue aqui…agora!

O pânico que dele se apossou foi tão grande que, num piscar de olhos reagiu. Um chute certeiro nas horrorosas gônadas do peludo indivíduo. Este, contorcendo-se desmaiou a seus pés.

Pegando o dinheiro, atravessou o salão e segurando uma das belas pela mão fizeram amor, as duas, rolando pelo chão, em beijos, abraços, amassos, loucos, insanos, ferventes e luxuriantes.

Ser mulher era realmente uma experiência divina, mas seu tempo estava curto e dali desapareceu.

Aos olhos dos amigos, extasiados ao abrir o cilindro, mostrou-se comedido, um tanto soturno. Parecia querer dizer que o experimento fracassara. Seu objetivo, entretanto, era voltar. Aquelas mulheres eram lindas e ele não se sentia afim de as compartilhar. Disse somente que precisava voltar, que lhes diria depois se foi um sucesso ou não, mas era imperativo que o fizesse, imediatamente.

Voltou…

Ali chegou, no mesmo salão, com as mesmas divas, semi despidas, perfumadas.

O árabe havia desaparecido.

Quando achou que controlava a situação a porta se abre e um bando de peludas criaturas adentra o recinto. Não pararam para observar as belas. Seguiram diretamente para ele, na sua forma de ela e a violentaram, estupraram, espancaram. Foi seviciado, brutalizado, sodomizado. Para sua sorte o episódio não demorou muito pois a janela da dobra do tempo se extinguiu e ele voltou ao presente.

Seus colegas abrindo a máquina imediatamente perguntaram;

O que aconteceu? Foi um sucesso? Por que você esta meio massacrado?

Antes que outras perguntas lhe fossem feitas respondeu:

Esta máquina é uma porcaria…não funciona…