O OUTRO
LADO
Dizem que a morte e uma porta que se abre para um outro mundo.
Um contínuo, portas que se abrem, universos que surgem,
desdobram.
Por isso, resolvi morrer. Não uma morte morrida, mas uma morte
intelectualmente programada.
Fechei meus olhos, limpei meus pensamentos, em total silêncio,
em uma cama confortável, numa noite estrelada.
Preferi tal cenário. Um dia de tempestade, confusão, ruídos
ensurdecedores não me conduziriam para a meditação que pensava fazer, livre das
coisas terráqueas, mergulhado em ideias e sonhos, à cata da tal porta.
Poderia ter dormido. Mas acho que o que aconteceu não foi um
sonho. Talvez uma breve viagem, inquisitiva, interrogativa mas certamente
surpreendente.
Não foi uma porta, no estrito senso da palavra, que se abriu.
Era mais um caminho que se delineava, de um escuro para algo iluminado.
Felizmente assim o foi pois via nisto a possibilidade de se ir para outro mais
escuro, mais tenebroso.
Meu mundo material deixou de existir. Ninguém leva nada deste
plano que tenha substância.
Havia seres etéreos, sem forma definida. Não produziam sons.
Estavam lá e se comunicavam. Eu já não tinha forma, mas insistia em me ver como
era. E ali, naquele momento, realizei que podia assumir a forma que tinha, como
podia criar em minha volta um ambiente familiar. Algo que me deixava relacionar
com um passado agradável.
Um mundo virtual.
Os seres etéreos se transformavam em criaturas familiares. Ali
estavam. Sabia o que queriam e me deixavam saber. Criei meu próprio mundo
virtual e descobri que continuava vivo, sem corpo, sem matéria, capaz de me
transladar para onde quisesse ir. Me convidavam para ser parte do mundo deles.
Me deixavam ver suas versões.
Pessoas que amei ali estavam mas não eram as mesmas como haviam
sido. Sabia que eram aquelas com quem convivi, mas estas, somente assumiam a
forma em que as conheci quando assim o queriam.
Eu mesmo já tinha perdido a relação comigo mesmo, aquele que lá
havia chegado. Já me via em outras vidas e de forma diferente. Mas era eu
mesmo. Vi o que já havia sido e não gostei tanto. Comecei a compreender porque
voltamos. A forma etérea precisa da energia daquele mundo material. Volta em
outras histórias, em outro teatro de um ato só.
Compreendi que o que havia vivido fora uma destas peças de ato
único. Todos os seres que ali estavam eram parte do mesmo grupo que ia e
voltava, numa multitude de enredos, alguns felizes, outros, na sua maioria,
cheios de sofrimento.
Entendi também que poderia ir à frente. Para outros lugares.
Portas, talvez, para outras dimensões. E, cada vez que o fizesse menos energia
da matéria eu precisaria.
Existe um lado escuro. Nele nos perdemos facilmente. Nele
entramos se erramos demais no teatro da vida material. No enredo mal cumprido. Felizmente
lá não estava.
Minha morte foi breve.
Foi um átimo do futuro a mim revelado quando a energia quântica
se desprendeu, naquele sonho, sono, momento, instante em que me achei morto
porém mais vivo que jamais estive.
Vou morrer de novo.





Troque mundo virtual por espiritual e as vindas na matéria são testes do aprendizado (intelecto-moral); não precisamos de acumular energias. A inteligência difere de energia...
ResponderExcluirMuito bom, Celsovsky.
Observacoes de quem entende!
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