QUEIMADAS
Palavras em um momento de desalento com
o ser humano ao ver o incêndio, por ele provocado, destruir a beleza das serras
do rola moça e calçada. (setembro 2017)
Chega setembro…
O vento frio foge, deixando a bruma tomar o
horizonte.
Seca, cinza, quente e sem graça ofusca as
estrelas, descolore o sol.
Mas, mesmo assim, sem a graça do verde da
primavera, sem o frio das noites cintilantes, sem o cheiro das flores, ouve-se o trinar dos pássaros
em cânticos de amor. Pois a primavera está logo alí, na primeira curva, pedindo
passagem, pedindo para o mundo colorir.
Mas em setembro têm os homens. Criaturas que aqui,
em Gaia, também existem… Mas não coexistem…Pois homem é a criatura que não
pensa que a Terra o acolhe por amor. Pensa que dela é dono. Um dono desleixado,
arrogante, pretencioso, que finge amar, mas não sabe. Pois amar é dar, e não
tomar…
Em setembro, brinca com fogo... E fogo é coisa do
demônio. Hades, com seu capacete invisível os comanda, incitando suas almas
incendiárias, covardes e destruidoras. Pois este, o homem, é aquele que nesta época
seca, triste, no ocaso da vegetação as incendeia, só para ver como fica. E em
danças insanas, em um balé obsceno, pulula ao crepitar do fogo, adorando a
destruição, a morte das coisas, o decúbito da beleza.
Morre a natureza linda… Morrem as criaturinhas que
nela viviam, more o belo, morre até o crepúsculo em cores esmaecidas. Fica o
desamor, a desolação, a bruma espessa, o ofuscado sol poente.
Não canta o sabiá, não voam os sanhaçus. Não te vê
o bem-te-ví, não voa o colibrí.
Fica o homem, o piromaníaco estúpido, filho das
entranhas da Terra, protegido de Hades.
Outrora amado pelos deuses do Olimpo, hoje, frio,
seco, desprovido de amor por Gaia, este, que nela vive como um cancer, despreza
sua beleza, vive de seu egoísmo, suga-lhe a seiva, o mel que o abençoaria. Mel
que lhe desce como fel. Seiva que o envenena pelo ódio ao belo, rejeitando o
amor da mãe que o acalenta, rejeitando o carinho de todos aqueles que nela
habitam, coexistem e a respeitam.
Assim queima.
Assim dança, num frenesi insano balança, pula,
canta, se inferna. Se queima, se morre, se mata.
E nas chamas que lançou, nos braços de Hades se
entrelaça, para que no inferno que criou…
dele nunca mais queira sair…
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