A GAIOLA DOURADA
Não sabia que era um pássaro. Ave rara, emplumada.
Vivia feliz pois se achava livre. Entre cores de suas
penas e penas de suas cores pululava de galho em galho sempre a trinar.
Cantava, compunha, voava. E em vôos mil se sentia um dono
do mundo.
Curioso, via nestes vôos uma gaiola dourada à brilhar,
pendurada na varanda de um bangalô.
Atreveu-se dela se aproximar. E nela adentrou…
Não se sabe se nela ficou, se ela fechou, se dela gostou.
Mas, dentro dela se sentiu confortável. Comia, bebia,
cantava, pulava. Só não voava…
A bela que o adorava gostava de suas plumas, de seu
canto. Pela bela ficava nela, a gaiola, que brilhava aos raios do sol poente,
dourada que era.
Mas um pássaro é livre, quer ser sempre livre. Sem seus vôos
ficou triste. E pássaro triste não canta, então, não encanta.
A bela sentiu que não mais o tinha, abriu as portas da
casa dourada. Deixou que procurasse aquilo que o fizesse feliz, deixou-o livre,
a voar.
Mas o pássaro alegre, de muitas cores e canto sutil
sentiu a ausência da bela musa que lhe dava o amor. Voltava de vez em quando e
de quando em vez cantava, de fora da gaiola, na janela, nas tardes de outono.
A gaiola abandonada se enferrujou. Seu brilho de ouro
apagou, suas portas cairam, suas grades partiram. Mas o pássaro cantante com
suas penas brilhantes feliz saltitava, e, em trinados alegres dizia à musa que
dela, longe... não ficaria.
Acabou-se a gaiola, ficou a janela, e nela, o pássaro
livre a amar a musa que o amava, a bailar suas asas ao vento das montanhas, a
cantar seus cânticos de um amor que só existe quando livre se é, quando livre
se dá.
E a musa, dia após dia, feliz esperava a visita daquele
que seu coração conquistara.
E o pássaro livre mais lindo cantou…
E o pássaro livre nunca mais a deixou…
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