O HOMEM QUE PERDEU SETE ANOS
Uma figura ímpar.
Ímpar, de aquele que não tem
par…único.
Meio arredio, fugidio, às
vezes escondido. Isso quando não era um ímpar ao contrário, ou seja, assanho,
encantador, sedutor.
Já tinha tido uma cobertura
capilar de causar inveja. Vaidoso, desesperou-se ao vê-la se esvair, dai
fugidio ficou. Vaidoso, não queria ser idoso.
Nas idas e vindas ao seu
dileto e preferido barbeiro queria que o mesmo lhe cobrasse mais pelas
tesouradas nele dadas. Daria a impressão que a antiga juba ainda existiria. Fá-lo-ia
feliz. Mas, a desdita era tal que um dia o mesmo recusou-se à receber pelos
serviços. Havia aparado somente um fio, justo aquele que lhe restara.
Desolado, voltou para casa.
Acordou na manhã seguinte e desesperado notou, ali em frente ao maldito
espelho, que o bicho falecera. Seu último exemplo de uma outrora exuberante massa
capilar desapareceu ser deixar traço, sequer uma nota acalentadora, sequer uma
despedida amorosa.
Nos escuros cantos por onde escrevia
seus contos urdiu com a francesa amada um diabólico plano. Não faria mais
aniversários. Escolheu o dia da Bastilha como a nova data de seu nascimento e,
aos 69, estacionou.
Sim, pois 69 lhe trazia a
esperança de uma versatilidade nas coisas do amor. E, sessenta e nove só
poderia ser invertido aos noventa e seis. Lá, nada mais contaria.
Em seu último aniversário, aos
69, declarou que não mais faria anos. Recusou qualquer tentativa dos amigos
para comemorar tal data. Miseráveis masoquistas e sádicas criaturas, isso lá é
coisa que se faça com alguém cujo teto mais parecia um campo de aviação?
E, assim, foi tocando o barco.
Os meses se passaram e a data
se aproximava. O mais chato dos amigos insistia na comemoração. À ele disse: “Para
que comemorar 77 anos?”
77???
“De onde surgira tal número?”
“Da minha idade, respondeu”.
Mas como? No ano passado era
69. Para onde foram estes 7 anos?
Setenta e seis indo para
setenta e sete…
Voltaram-se todos para a bela
francesa. Queriam confirmação.
Estava claro que ela lhe dava
cobertura. Até que o mais chato perguntou se ele não havia sido abduzido e
desaparecido por sete anos e, naquele tempo, aproveitado a vida com marcianas
de pele verde e venusianas azuis.
A francesa então enfureceu-se.
Entregou o jogo. Instalou a guilhotina. Ordenou…
Cortem-lhe a cabeça!!!
A calva criatura, com um
sorriso maroto, quiçá matreiro, escafedeu-se.
Foi visto naquele barbeiro
amigo encomendando uma peruca.
Voltaria aos seus sessenta e
nove.
Como bom jornalista deixou no
ar a dúvida. Teria ele realmente 77? Para onde foram sete anos em um? Ou era
isto tudo parte de um comovente plano para ser reverenciado pelos seus 69
eternamente?
Somente a peruca poderia dizer…

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