segunda-feira, 28 de maio de 2018


O HOMEM QUE PERDEU SETE ANOS


Uma figura ímpar.

Ímpar, de aquele que não tem par…único.

Meio arredio, fugidio, às vezes escondido. Isso quando não era um ímpar ao contrário, ou seja, assanho, encantador, sedutor.

Já tinha tido uma cobertura capilar de causar inveja. Vaidoso, desesperou-se ao vê-la se esvair, dai fugidio ficou. Vaidoso, não queria ser idoso.

Nas idas e vindas ao seu dileto e preferido barbeiro queria que o mesmo lhe cobrasse mais pelas tesouradas nele dadas. Daria a impressão que a antiga juba ainda existiria. Fá-lo-ia feliz. Mas, a desdita era tal que um dia o mesmo recusou-se à receber pelos serviços. Havia aparado somente um fio, justo aquele que lhe restara.

Desolado, voltou para casa. Acordou na manhã seguinte e desesperado notou, ali em frente ao maldito espelho, que o bicho falecera. Seu último exemplo de uma outrora exuberante massa capilar desapareceu ser deixar traço, sequer uma nota acalentadora, sequer uma despedida amorosa.

Nos escuros cantos por onde escrevia seus contos urdiu com a francesa amada um diabólico plano. Não faria mais aniversários. Escolheu o dia da Bastilha como a nova data de seu nascimento e, aos 69, estacionou.

Sim, pois 69 lhe trazia a esperança de uma versatilidade nas coisas do amor. E, sessenta e nove só poderia ser invertido aos noventa e seis. Lá, nada mais contaria.

Em seu último aniversário, aos 69, declarou que não mais faria anos. Recusou qualquer tentativa dos amigos para comemorar tal data. Miseráveis masoquistas e sádicas criaturas, isso lá é coisa que se faça com alguém cujo teto mais parecia um campo de aviação?

E, assim, foi tocando o barco.

Os meses se passaram e a data se aproximava. O mais chato dos amigos insistia na comemoração. À ele disse: “Para que comemorar 77 anos?”

77???

“De onde surgira tal número?”

“Da minha idade, respondeu”.

Mas como? No ano passado era 69. Para onde foram estes 7 anos?
Setenta e seis indo para setenta e sete…

Voltaram-se todos para a bela francesa. Queriam confirmação.

Estava claro que ela lhe dava cobertura. Até que o mais chato perguntou se ele não havia sido abduzido e desaparecido por sete anos e, naquele tempo, aproveitado a vida com marcianas de pele verde e venusianas azuis.

A francesa então enfureceu-se. Entregou o jogo. Instalou a guilhotina. Ordenou…

Cortem-lhe a cabeça!!!

A calva criatura, com um sorriso maroto, quiçá matreiro, escafedeu-se.

Foi visto naquele barbeiro amigo encomendando uma peruca.

Voltaria aos seus sessenta e nove.

Como bom jornalista deixou no ar a dúvida. Teria ele realmente 77? Para onde foram sete anos em um? Ou era isto tudo parte de um comovente plano para ser reverenciado pelos seus 69 eternamente?

Somente a peruca poderia dizer…

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