JOÃO
GALAFOICE
(Ou os mistérios do Boitatá e o Fogo Fátuo)
Salada folclórica para as noites sem lua
Menino teimoso paga prenda…
Eram dois amigos, João Bosta e Zé Titica. Tais desmerecedores
apelidos tinham sua razão. Só faziam merda.
Os pais já tinham deixado de acreditar que dariam para algo de
bom. Mas, peraltas que eram, daquelas peraltices de um passado que não mais
existe, não eram tão ruins assim. Só faziam coisas de moleques travessos, salvo
melhor juízo, é claro.
Na velha Vila de Sant’Elmo havia um cemitério. Meio
abandonado, com lápides em desreparo, ficava ao lado da Matriz. Seus quase
duzentos anos traziam um aspeto triste à algo que outrora fora lindo. Duas
torres, uma meio quebrada, beiral de três beiras, significava outrora, dinheiro
na algibeira.
Hoje, estava mais para um refúgio de almas penadas do que uma
casa onde penitentes fieis, à procura de um perdão, certamente não o obteriam.
Não nesta vida, pois era uma cidade pecadora.
Nas manhãs, às seis em ponto, lá estava o vigário, com seu
megafone, acordando as preguiçosas criaturas que lá habitavam…Acorda Sant’Elmo
pecadora!!... Mas isto em nada mudava. Continuava pecadora.
Sim, pois à partir das seis da tarde, o mundo se virava, de bruços,
em orgias regadas à mais fina das pingas locais. E o vigário…chorava, na igreja
vazia.
João Bosta e Zé Titica se utilizavam do momento satânico para
fazer um pouco mais de suas traquinagens. Iam ao cemitério e violavam
sepulturas. No afã de surripiar os valores dos mortos, anéis, dentes de ouro e
coisas do tipo, deixavam as tampas dos sepulcros entreabertas. Usavam os ganhos
para comprar papel de seda, linha e manivelas para seus papagaios. Mas fins não
justificam meios e a dupla estava com seus dias contados para pagar as dívidas
contraídas.
Era uma noite particularmente escura. Não havia lua, enevoada,
fria e desolada, mas isso, não impedia que os dois pilantras fizessem suas
artes.
Entretanto, o abrir de sepulturas deixava sair o ar impregnado de coisas
mortas. No contato com o espaço aberto aquelas substâncias deletérias se
acendiam num espetáculo de Fogo Fátuo assustador.
Ante a surpresa, os traquinas fugiram em desabalada carreira. É
o Boitatá gritavam, enquanto as chamas serpenteavam e os seguiam por entre as
covas puxadas pelo ar que movimentavam. Apavorados tropeçaram e caíram em um
dos túmulos. Ali ficaram, escondidos, esperando para o Boitatá passar.
A coisa estava literalmente preta para os traquinas. O céu
indicava uma tempestade próxima, relâmpagos eram vistos à distância e as torres
da Matriz se acenderam num espetáculo dantesco de chamas azuladas tremulantes,
redesenhando seus contornos no negro pano de fundo. A igreja fazia jus ao seu
nome. O Fogo de Santelmo se fazia presente num cenário aterrador digno dos
portais do inferno de Dante Alighieri.
Com mais medo, abriram o portão de ferro do mausoléu entrando
em seu interior. A luz dos relâmpagos mostravam uma passagem localizada atrás
do esquife que ali estava. No fundo, bem ao fundo, uma porta entreaberta. Uma
luz trêmula, amarelada, contrastava com o brilho azul do Fogo Fátuo e o dançar
das labaredas de Santelmo.
Não tendo como fugir os incautos moleques atravessaram o
portal…
Do outro lado uma escada estreita os levava aos porões da
Matriz. O caminho era antigo mas se mostrava bem utilizado.
Nas entranhas do santuário uma revelação surpreendente. Um
grupo de encapuzados, em vestimentas vermelhas e liderados por um negro alto se
reuniam em um círculo ao redor de uma mesa de pedra. Cantavam cânticos em um
latim profano. Perfaziam um ritual estranho, empunhando crucifixos de cabeça
para baixo. Velas vermelhas, centenas delas, iluminavam o espaço fétido pelo mofo
dos tempos.
Pensaram em voltar. Mas o medo do Boitatá era maior.
Lembraram dos conselhos da mãe. Ela dizia: “Nas noites escuras
o João Galafoice pega os meninos que fogem e eles não voltam mais”
João Galafoice era uma figura lendária. Se rivalizava com o Boitatá.
Aparecia nas noites escuras, no Fogo Fátuo dos cemitérios e pântanos. Seguia à
procura das incautas crianças que desobedeciam seus pais. E, naquela noite mais
escura, as sepulturas violadas, Santelmo à dançar pelas beiras da Matriz, compunham
uma conjunção de coisas do demônio prestes à realizar suas indescritíveis
maldades.
O líder negro parecia com o Galafoice.
João Bosta e Zé Titica estavam apavorados.
O cântico lúgubre aumentava em volume e cadência.
Ignis
Fatuus
Ignis
Fatuus
Ignis Sant’Elmus
Qui nos
pacis hic peccatum
Anima
nostra devorandum
Uma missa negra, encapuzados em um porão condenado pelos espíritos
do mal. Maldade, perversidade, insanidade. Uma combinação de fatores que só o
demônio deles se deleitaria. João Galafoice havia sentido o cheiro das crianças,
agora, era a hora de sacrificá-las. A hora de devorá-las. Pois eram canibais os
monstros daquela amaldiçoada cidade. Ali, sob os efeitos do fogo dos mortos, Ignis
Fatuus, Santelmo e as forças negras da natureza, Galafoice vivia nas entranhas
condenadas da Matriz.
Mas João Bosta e Zé Titica eram mestres em escapadas.
Com a velocidade de uma mula-sem-cabeça zuniram como um
foguete. Era melhor enfrentar o Boitatá do que ser comido pelo Galafoice.
Correndo por entre os túmulos tropeçaram e caíram.
Menino teimoso paga prenda… E a prenda não foi nada boa.
A tempestade aumentou, um raio caiu, a torre da igreja ruiu.
No dançar de um Fogo de Santelmo nunca antes visto foram
fritados. Ficaram pretinhos.
Dois Sacis-Pererê de duas pernas.
Assim ficaram…
FIM












Nenhum comentário:
Postar um comentário