quinta-feira, 15 de março de 2018


JOÃO GALAFOICE

(Ou os mistérios do Boitatá e o Fogo Fátuo)
Salada folclórica para as noites sem lua

Menino teimoso paga prenda…

Eram dois amigos, João Bosta e Zé Titica. Tais desmerecedores apelidos tinham sua razão. Só faziam merda.

Os pais já tinham deixado de acreditar que dariam para algo de bom. Mas, peraltas que eram, daquelas peraltices de um passado que não mais existe, não eram tão ruins assim. Só faziam coisas de moleques travessos, salvo melhor juízo, é claro.

Na velha Vila de Sant’Elmo havia um cemitério. Meio abandonado, com lápides em desreparo, ficava ao lado da Matriz. Seus quase duzentos anos traziam um aspeto triste à algo que outrora fora lindo. Duas torres, uma meio quebrada, beiral de três beiras, significava outrora, dinheiro na algibeira.

Hoje, estava mais para um refúgio de almas penadas do que uma casa onde penitentes fieis, à procura de um perdão, certamente não o obteriam. Não nesta vida, pois era uma cidade pecadora.

Nas manhãs, às seis em ponto, lá estava o vigário, com seu megafone, acordando as preguiçosas criaturas que lá habitavam…Acorda Sant’Elmo pecadora!!... Mas isto em nada mudava. Continuava pecadora.

Sim, pois à partir das seis da tarde, o mundo se virava, de bruços, em orgias regadas à mais fina das pingas locais. E o vigário…chorava, na igreja vazia.

João Bosta e Zé Titica se utilizavam do momento satânico para fazer um pouco mais de suas traquinagens. Iam ao cemitério e violavam sepulturas. No afã de surripiar os valores dos mortos, anéis, dentes de ouro e coisas do tipo, deixavam as tampas dos sepulcros entreabertas. Usavam os ganhos para comprar papel de seda, linha e manivelas para seus papagaios. Mas fins não justificam meios e a dupla estava com seus dias contados para pagar as dívidas contraídas.

Era uma noite particularmente escura. Não havia lua, enevoada, fria e desolada, mas isso, não impedia que os dois pilantras fizessem suas artes. 

Entretanto, o abrir de sepulturas deixava sair o ar impregnado de coisas mortas. No contato com o espaço aberto aquelas substâncias deletérias se acendiam num espetáculo de Fogo Fátuo assustador.

Ante a surpresa, os traquinas fugiram em desabalada carreira. É o Boitatá gritavam, enquanto as chamas serpenteavam e os seguiam por entre as covas puxadas pelo ar que movimentavam. Apavorados tropeçaram e caíram em um dos túmulos. Ali ficaram, escondidos, esperando para o Boitatá passar.

A coisa estava literalmente preta para os traquinas. O céu indicava uma tempestade próxima, relâmpagos eram vistos à distância e as torres da Matriz se acenderam num espetáculo dantesco de chamas azuladas tremulantes, redesenhando seus contornos no negro pano de fundo. A igreja fazia jus ao seu nome. O Fogo de Santelmo se fazia presente num cenário aterrador digno dos portais do inferno de Dante Alighieri.

Com mais medo, abriram o portão de ferro do mausoléu entrando em seu interior. A luz dos relâmpagos mostravam uma passagem localizada atrás do esquife que ali estava. No fundo, bem ao fundo, uma porta entreaberta. Uma luz trêmula, amarelada, contrastava com o brilho azul do Fogo Fátuo e o dançar das labaredas de Santelmo.

Não tendo como fugir os incautos moleques atravessaram o portal…

Do outro lado uma escada estreita os levava aos porões da Matriz. O caminho era antigo mas se mostrava bem utilizado.

Nas entranhas do santuário uma revelação surpreendente. Um grupo de encapuzados, em vestimentas vermelhas e liderados por um negro alto se reuniam em um círculo ao redor de uma mesa de pedra. Cantavam cânticos em um latim profano. Perfaziam um ritual estranho, empunhando crucifixos de cabeça para baixo. Velas vermelhas, centenas delas, iluminavam o espaço fétido pelo mofo dos tempos.

Pensaram em voltar. Mas o medo do Boitatá era maior.

Lembraram dos conselhos da mãe. Ela dizia: “Nas noites escuras o João Galafoice pega os meninos que fogem e eles não voltam mais”

João Galafoice era uma figura lendária. Se rivalizava com o Boitatá. Aparecia nas noites escuras, no Fogo Fátuo dos cemitérios e pântanos. Seguia à procura das incautas crianças que desobedeciam seus pais. E, naquela noite mais escura, as sepulturas violadas, Santelmo à dançar pelas beiras da Matriz, compunham uma conjunção de coisas do demônio prestes à realizar suas indescritíveis maldades.


O líder negro parecia com o Galafoice.

João Bosta e Zé Titica estavam apavorados.

O cântico lúgubre aumentava em volume e cadência.

Ignis Fatuus
Ignis Fatuus
Ignis Sant’Elmus
Qui nos pacis hic peccatum
Anima nostra devorandum

Uma missa negra, encapuzados em um porão condenado pelos espíritos do mal. Maldade, perversidade, insanidade. Uma combinação de fatores que só o demônio deles se deleitaria. João Galafoice havia sentido o cheiro das crianças, agora, era a hora de sacrificá-las. A hora de devorá-las. Pois eram canibais os monstros daquela amaldiçoada cidade. Ali, sob os efeitos do fogo dos mortos, Ignis Fatuus, Santelmo e as forças negras da natureza, Galafoice vivia nas entranhas condenadas da Matriz.

Mas João Bosta e Zé Titica eram mestres em escapadas.

Com a velocidade de uma mula-sem-cabeça zuniram como um foguete. Era melhor enfrentar o Boitatá do que ser comido pelo Galafoice. Correndo por entre os túmulos tropeçaram e caíram.

Menino teimoso paga prenda… E a prenda não foi nada boa.

A tempestade aumentou, um raio caiu, a torre da igreja ruiu.
No dançar de um Fogo de Santelmo nunca antes visto foram fritados. Ficaram pretinhos.

Dois Sacis-Pererê de duas pernas.

Assim ficaram…


FIM



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