sexta-feira, 9 de março de 2018


THE CUBE OF MEMORIES
(O Cubo das Memórias)


Viveu 64 anos.

Era um arquiteto das formas e palavras. Mas era uma pessoa difícil…

Acreditava em teorias quânticas, simetria absoluta, universos paralelos. Acreditava na forma, não como elemento estático mas como representativa do equilíbrio, da harmonia. Via em cristais um belo exemplo de um mundo perfeito, transparente, reluzente.

Gostava do passado, de onde fora moldado, de onde mantinha suas referências.

Mas era difícil…

Teve três filhos. Uma conservadora de arte, e dois arquitetos. Um, tão chato quanto ele. Para este deixou a chave de sua última criação.

Ganhou muito dinheiro.

Quando morreu, não deixou nada, somente a chave, entregue ao seu segundo filho, com um simples bilhete:  “Para ser usada no cubo das memórias” Não disse quando, nem onde.

O tempo passou…

Um belo dia, quente, de um verão ensolarado, às margens do lago Michigan, Ren, seu filho do meio, recebeu uma estranha caixa de cristal. Um cubo perfeito. Media 16x16x16 centímetros. Continha 4 vezes cubos de 4 centímetros, justapostos nas quatro faces, para um total de 64 peças. No centro da trama uma abertura em forma de fechadura.


Notou que a mesma tinha a forma da chave que havia herdado por ocasião da morte de seu pai. Notou também que um dos cubos era destacável. Este, continha uma tomada que se assemelhava a um portal USB de um computador, também em cristal. Encaixava-se perfeitamente na sua contra parte dentro do cubo.

Ren era um excelente arquiteto. Falava cinco idiomas, com projetos em diversas partes do mundo. Gostava de arquitetura. Casado com uma arquiteta, tinha uma filha. Uma bonequinha ruiva de olhos verdes. Era de uma certa maneira ranheta igual ao pai. Perfeccionista, gostava de tudo em equilíbrio constante, porém, suas obras continham uma pitada desconstrutivista. Quebrava a harmonia perfeita, violava as regras de Mies. Violava as regras de seu pai.

Mas era extremamente inteligente. Por isso havia sido escolhido para receber a chave.

Deduziu ser a chave de cristal algo que poderia funcionar em seu laptop. E assim a testou…

A mensagem de seu pai se abriu em sua tela. Não era clara. Era sim, enigmática.

“Yellowstone River Falls, near but not so near, seen but quite invisible, beautiful but not from this Earth. Just come, you, Raf and Rach. See you all in another dimension. Don’t forget, you will be looking for a cube.” “(Nas quedas do Yellowstone River, perto mas nem tanto, à vista mas bem invisível, belo mas não deste mundo. Venha, você, Raf and Rach. Vejo vocês em outra dimensão. Não se esqueçam, vocês estarão procurando por um cubo.)”

Raf, o mais velho era cético. Incrédulo e sistemático reagiu com um simples balançar da cabeça. Bobagem, pensou. Coisas de um velho pai.

Já Rach, a artista, viu nisto uma maneira de encontrar com aquele que amava, do seu jeito, no mundo dos sonhos, longe da realidade.

Mas, embora diferentes todos concordaram, e para lá foram.

O Cubo


Yellowstone é lindo. Um vulcão ainda ativo, sonolento e aplicado. 

Dava seus sinais de vida em horas já previamente marcadas. Mas estava constantemente em ação, por debaixo de um magnífico parque, entre cenários deslumbrantes, flora rica e intensa fauna. 

Cortado por dois rios principais, Snake e Yellowstone, com quedas d’água, rápidos e geisers assanhos e sistematicamente fiéis à suas aparições, Yellowstone é um paraíso.

A queda de cima, do Yellowstone River gerava uma neblina que se escondia nos grotões do cânion cercado de formações basálticas e vegetação densa. O cubo deveria se encontrar ali, em sua parte mais baixa, ao sopé da queda d’água. Mas não era possível vê-lo. As poucas instruções deixadas na caixa diziam ser difícil achá-lo, mas persistência e atenção se fariam necessárias para localizar a suposta edificação.

Vestidos como exploradores partiram para a base da queda pela trilha árdua e pedregosa. Em determinado momento sentiram que a paisagem flutuava de maneira estranha. Imagens mistas e repetidas se entremeavam com os arredores. A névoa agia como uma gaze etérea, confundindo a luz, misturando imagens. Na confusa visão, nem sequer notaram que já haviam chegado ao local. Rach, com sua acurada percepção por cores notou que os reflexos eram provenientes de uma imensa estrutura de cristal. Um cubo de 16 metros em cada lado, perfeito, subdividido em cubos menores de 4 por 4 por 4 metros.


Estava ali invisível, o tempo todo.

Seus reflexos e imagens refletidas se confundiam com o cenário magnífico, borbulhante e místico da grande queda. Era como se lá não estivesse, perfeitamente camuflado, perfeitamente integrado à natureza. Uma obra incrível, típica do pai que tinham.

Com dificuldade conseguiram subtrair os efeitos dos reflexos. Em determinados ângulos era possível enxergar a estrutura inteira, por breves instantes. O constante flutuar da neblina agia como um manto, uma cobertura invisível. Mas Rach era persistente. 

Utilizando-se de métodos usados em técnicas de restauro sentiu pelo tato a superfície lisa do cubo e procurou pela abertura de 16 por 16 centímetros.

A abertura para a chave de cristal…

Junto às instruções recebidas havia uma nota sobre o cubo menor. 

Nela, dizia sê-lo feito  de cristal, programado como uma tela de reconhecimento pelo DNA do portador. A chave, ou cubo, só permitiria o seu uso por alguém que tivesse a mesma estrutura do DNA de seu criador. Por conseguinte, permitiria a entrada daqueles que fossem seus descendentes.
Somente aqueles que na parte quântica da estrutura fossem oriundos da mesma linha ancestral.
Assim a esposa de Ren não poderia entrar no cubo, mas sua filha sim.

Experimentaram…

A chave servia. Encaixava-se perfeitamente. As paredes do cristal pareciam ter a fluidez de uma lâmina d’água. Tocaram-na.
Como se nada existisse penetraram no cubo. Havia sido feito para recebê-los.

Os Cômodos de Cristal

O gigantesco cubo de cristal era dividido em cubos menores, cada um com 4 por 4 por 4 metros. Adentraram o primeiro, o cubo de numero 64. Paredes, teto e chão em cristal, azuladas, perfeitas. Nada existia no espaço, porém ao tocar suas paredes sentia-se que as mesmas se integravam com seus pensamentos. Tinham vida, não uma vida humana, mas uma vida virtual, sensível, inquisitiva e interativa.

Raf imediatamente reagiu de maneira cética. Tocando a parede exclamou: “Que é isto? Onde estamos? Outra maluquice de meu pai?”


As paredes se acenderam. Imagens da construção do cubo, explicações sobre seu conceito, diagramas, plantas, planilhas de cálculos se espalhavam pelos espaços vítreos, pelas paredes, tetos e até mesmo o piso. Ren se deliciava nos cálculos e equações. Rach adorava as composições plásticas. Ali estava toda a história da criação do mesmo. Desde a escolha do sítio à conceituação básica, seu propósito, sua ligação com outras dimensões. Até Raf ficou surpreso.

O cubo era composto somente de cristal. No seu centro existia um cubo menor do mesmo tamanho do cubo chave. Dentro deste cubo, aprisionado em uma centrifuga quântica estava o bóson de Higgs, partícula mãe do universo, chave de todas as dimensões, portal de universos paralelos.


A edificação se localizava no Yellowstone Park exatamente por ser próxima a uma fonte inesgotável de energia térmica. Um fuste de uma milha de extensão havia sido construído para captar a fonte geotérmica do magma terrestre. Este alimentava uma centrífuga espiralada que gerava um vórtex contínuo capaz de isolar o bóson de Higgs. Uma vez isolado e preso no cubo central, este era jogado contra as paredes do cristal, abrindo um portal quântico que se espalhava pelas paredes de todos os 64 cubos. Todo os cubos eram energizados pela fonte geotérmica por conversores localizados nas fundações encrustadas no basalto da queda d’água. Esta era o refrigerante necessário para as trocas de calor. O sistema era auto suficiente e perpétuo.

As paredes de cristal foram construídas como telas interativas de um computador. Reconheciam o DNA quântico do usuário e assim respondiam ao toque, ao som e até ao pensamento. Tinham sua própria inteligência. Artificial ou não, esta mostrava a alma de seu criador. Uma vez acionadas agiam como um imenso campo virtual, tridimensional, etéreo, quase real. Era real em sua história, irreal em sua mostra, e nesta, contava os feitos de seu criador e sua criação, em cada cubo, um para cada ano de sua vida, num total de 64 .

O portal quântico permitia ver a história passada como um filme multidimensional. Entretanto, não era possível nada mudar ou interagir, pois eram fragmentos de um passado capturados e projetados como um teatro real. Uma peça única, que embora executada uma única vez, ali estava, para ser vista quantas vezes fossem pedidas. Uma viagem no tempo, através das quarta e quinta dimensões, em um cubo fechado, aberto a uma dobra quântica. Uma obra de física quântica inimaginável.

O cubo de número 64 os convidava à viajar pelo tempo.

Em cada outro cubo um outro ano de vida, uma biblioteca virtual do que havia sido feito e nela, a presença de todos os três guardada como num livro de memórias. Os cubos permitiam o deslocamento horizontal e vertical, bastando tocar suas paredes, piso ou teto até chegar ao cubo de número um. Ali, no nascimento de seu criador havia uma última porta para um mundo de ancestrais, um túnel do tempo. Nela, uma vez adentrada, não havia volta. Passava-se ao mundo dos mortos, o after life, pois o nascimento e a morte se fundem em um só. Local de encontro de todos aqueles que um dia foram parte de toda sua história genealógica. Não havia passagem para o futuro. O tempo existia no passado, mas o futuro ainda  seria criado.

Era o cubo das memórias…


Ren achou a obra fenomenal, seu irmão a viu como um desperdício de tempo e dinheiro. Morria de medo do cubo número um.

Já Rach, não titubeou, após estudar cada cômodo em detalhe, partiu para o primeiro e não mais voltou.

FIM




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