SONHO DE
ARQUITETO
O projeto perfeito, a publicação na melhor revista, o
prêmio de arquitetura, a mostra na Bienal. Sonhos de um arquiteto jovem, ainda
estudante, com vontade de mudar o mundo.
Vestibular, trote de calouro, cabelos pintados metade
louro, desfile pela Afonso Pena. Eu era o Profumo, aquele Primeiro Ministro
inglês que fez o que a maioria deles fazem, sexo com uma mulher voluptuosa, no caso, a tal
Christine, alegria dos tablóides da ilha.
A primeira aula, foi dada por um quinto-anista disfarçado
de professor. A turma que mais mulheres tinha, até então, acreditou no que viu.
Um ano antes havia recebido um convite de ilustre médico.
Neuro-cirurgião, professor, estava a escrever um livro que necessitava de
gravuras demonstrando um procedimento cirúrgico.
Eu era bom de pena, bico de pena neste caso. O
dinheiro que ganharia dava para poder estocar muitas cervejas. À estas alturas
já havia abandonado meu hábito por coca-colas.
Estudei o texto, vi outras gravuras semelhantes e parti para o observatório da sala de operação no hospital. Arranjei minhas penas e
papel e, de cima, fiquei à observar.
No início tudo bem. Com paciente embrulhado em lençóis
e com a cabeça raspada passaram-lhe à
desenhar formas geométricas em seu crânio, com compasso e tudo mais. Até aí nada
demais. A retirada do tecido descolado já
me deixou um tanto estranho. Dois furos com uma furadeira pioraram a situação.
Num determinado momento surgiu uma serra elétrica. Com
seu ruído enervante aproximou-se das linhas marcadas, um pedaço de osso foi
retirado e o cérebro exposto. A visão daquela coisa meio cinza, meio
avermelhada pelo sangue, foi o suficiente para meu estômago virar como uma roda
gigante, em alta velocidade.
Abandonei minhas belas penas e sem pena do que iria
acontecer fugi para não mais voltar.
Cheguei à Escola de Arquitetura com fama de desenhar
bem. Apesar do fracasso do ano anterior todos compreendiam que arquitetos não são
muito fans de sangue, gostam mesmo é de coisas belas, mulheres, por exemplo,
mas inteiras, sem cortes de serras elétricas.
Fui logo convidado para fazer parte de um time com o
pessoal do quarto e quinto anos. Haveria uma competição para selecionar o
trabalho que representaria a Escola na Bienal de Arquitetura de São Paulo.
O ambiente era intenso. Os trabalhos mantidos em
segredo e as horas eram contínuas na Escola onde nunca se dorme. Às vezes nos
encontrávamos no telhado para fumar ou beber uma cerveja, entretanto acho que a
verdadeira razão para o fuzuê eram as belas garotas do prédio em frente, que se
despiam regularmente às onze. Certamente serviriam de inspiração à obra em criação.
Não ganhamos. Ficamos em segundo e segundo não conta.
O que realmente contou foi a vontade de um dia estar lá, em São Paulo, com um
trabalho assinado.
Com o tempo percebi que para fazer arquitetura de alto
nível teria de sair do Brasil. Fi-lo um
ano após formado. Ainda sonhava com trabalhos publicados, sonhava com a Bienal.
Consegui o que queria especialmente após ter alguns
projetos selecionados para a World
Architecture e isto talvez tenha levado a direção da Sala a me convidar
para expor na mostra do ano 1999. Achei que teria finalmente meu sonho
realizado, mas não foi bem assim.
A comissão julgadora selecionou três dos meus
projetos: o Allen Theater em restauração,
Dayton Daily News a mais moderna
oficina gráfica até então e a sede da Applied
Industrial Technologies. Me deixariam muito felizes se não fosse o fato que
a Bienal os listou como obras de um arquiteto estrangeiro.
Não fui reconhecido como brasileiro que era, recebi o
certificado como arquiteto americano, que não era. Não foi bem o que queria...mas
enfim, era um sonho que virou realidade, mesmo sendo sonho de gringo!
Fiquei por lá quase 30 anos. Muitos projetos, muitas
publicações e prêmios de arquitetura. Fiz tudo o que queria, até meus sonhos de
arquiteto.


Nenhum comentário:
Postar um comentário