quarta-feira, 2 de outubro de 2019


 MAXIMON



Formou-se em uma das melhores escolas do Midwest Americano. Misturou ciências políticas com arte. Acho que queria pintar o politicamente correto.

Como todo jovem houve por bem salvar o mundo em primeiro lugar. Assim, partiu para a distante Guatemala, com uma mochila, sem dinheiro e cheia de vontade.

Fazia um trabalho magnífico quando chegamos para visitá-la. Morava em um barracão cheio de escorpiões. Tomava banho de tacho e saía pelas favelas, adorada por crianças tão pequenas que achei que eu era o Gulliver, aquele de Lilliput.

Como fazia por onde andava, ela havia estudado os costumes locais e também os melhores lugares de se visitar. Alugamos um carro e fomos para Panarachel.

Havia três vulcões ativos ao redor de um lago. Do outro lado do mesmo uma  pequena cidade  onde iriamos visitar uma igreja colonial, entre outras coisas.

Era antes do meio dia, o sol à pino queimando minha careca. Não tinha onde esconder. O lago borbulhava depois das 12. Acho que os vulcões soltavam matéria ígnea no fundo. Correntes estranhas apareciam e as águas se revoltavam em bolhas polpudas.

Ao chegar corri para as barracas dos vendedores na a esperança de achar um chapéu. Minha digníssima consorte, impiedosamente, insistia por procurar um que fosse elegante. Eu só queria a sombra. Acabei por comprar algo que só a vovó Donalda usava na cabeça. Horroroso!

A igreja era colonial, mas pobre, muito pobre. Nada como a opulência de Ouro Preto. As imagens, pífias, vestidas em pano preto, cabelos de verdade, doados em troca de bençãos celestiais.

Do lado de fora a meninada de estatura minúscula. Eram todos descendentes dos maias. Os mais velhos, pigmeus como os outros, disparavam com “mamacitas”, cumprimento que faziam à intrépida desbravadora. Estes não eram bem recebidos.

Um pequeno maia se aproximou perguntando: Querem ver Maximon? Venham, só 25 quetzales. Fiz uma besteira, resolvi segui-lo. Sua estatura era a de uma criança de 4 anos em outros países, mas tinha na verdade uns 12 .

No caminho as ruas se estreitavam, ficavam mais sombrias. Ele insistia, venham, venham, é logo alí. O alí chegou, no fim de uma viela. Havia lá uma porta ladeada por dois maias parrudos e mal encarados. Dentro, escuro e decorado estranhamente, um caixão.

Atrás dos guarda-costas uma estátua de pedra, sentada em uma cadeira. Do seu lado, um prato com moedas, do outro cigarros soltos, no fundo o caixão. Dentro do esquife estava uma imagem de Judas, decorada com pequenas luzes e tinha ao seu redor oferendas diversas.

Minha querida amada não quis entrar. Realmente o ar era espesso, pesado e lúgubre. Pensei em voltar mas o pequenino guia insistia...“alí o Maximon”...

Nossa salvadora do mundo sabia tudo sobre os costumes maias. Disse-me que o tal Maximon era uma combinação de um deus maia (Max) com Judas (Simão). Eles haviam feito uma salada entre a religião deles e o catolicismo, por ocasião da dominação espanhola. O Judas se comportaria como o tal Max, daí o Maximon.

Rezava o costume que , à título de oferenda, era necessário comprar um cigarro e oferecê-lo à estátua do dito cujo. Eu o fiz, afinal os tais maias parrudos já me olhavam de maneira estranha. Disse-me o garoto: “tem que colocar na boca do Maximon.”

Meio titubeante coloquei o cigarro apagado na boca da estátua.

Acendeu-se sozinho e, em baforadas longas, a estátua consumiu o dito em poucos segundos.

Estupefato! Embasbacado! Esturvinhado! Completamente atônito, procurei por uma explicação lógica. Olhei debaixo da cadeira onde se situava, olhei para os lados, levantei os panos decorativos e não achei nada! Nenhum tubo, fio, qualquer coisa que explicasse como uma estátua de pedra se viciou em cigarros. Nada!...

Achei que era hora de uma retirada estratégica. O ar estava mais do que pesado. Dei uma gorjeta para o menino, botei mais uns quetzales no prato e pernas para que te quero, nos mandamos para o cais, eu com meu chapéu de vovó Donalda, minha bela e a intrépida exploradora.

Preferi enfrentar as águas borbulhantes do tal lago antes que um dos três vulcões resolvesse expelir a ira do Popol Vuh e nos mandar para qualquer um dos nove níveis de seus infernos.

Minha cabeça já estava tão vermelha quanto as lavas dos vulcões. O chapéu, tenho até hoje bem como umas máscaras maias, mal encaradas, mas de magnífica qualidade artística. Ficam no banheiro, para incentivar os trabalhos de praxe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário