O BANHO DO CAPITÃO
Quarenta quilômetros. Da rua Juiz de Fora até Água Limpa, marchando, em
julho, num frio danado.
Nossa turma do CPOR era muito especial. Tinha sido selecionada à dedo,
os melhores atletas, tudo isso para dar uma surra na Academia Militar de
Agulhas Negras no basquete, futebol de salão e no vôlei.Trabalho impecável do
capitão encarregado do recrutamento.
Como em toda turma de aspirantes existiam aqueles que gostavam de fugir à
qualquer esfôrço, os tais morcegos, apelido dado pelos colegas mais compenetrados.
Para fins desta estória chama-lo-emos de Morcegão. Este, com a turma do segundo
pelotão eram impossíveis de se controlar.
O bivouac, acampamento a dois por barraca era montado nas encostas à
leste da lagoa. Trincheiras eram cavadas e a turma do primeiro ano se postava
pronta para repelir um suposto ataque do segundo ano. Este ataque nunca
acontecia mas os primeiro-anistas não sabiam.
Na BR3 existia um bar. Nele alguns foragidos se reuniam e compravam
cachaça para enfrentar o frio da noite, em guarda, no meio da mais densa
neblina. Entre os foragidos estava o Morcegão.
A noite era gelada, a neblina densa.
Mais cedo a turma do pelotão dois havia cavado uma fossa ao longo da
encosta da colina. Tinha seus 10 metros de comprimento e era bem funda. É óbvio
que à medida que o dia se passava era mais usada e já continha uma massa abjeta
e volumosa.
Existia um capitão, chato, pentelho e ranheta. O tal primava por
procurar defeito em tudo. Arvorou-se em inspetor chefe, azucrinando e
patrulhando em momentos mais desagradáveis. Não queria que ninguém dormisse.
Tínhamos de estar prontos para o ataque.
Os tradicionais fugitivos, liderados pelo Morcegão, já haviam voltado
reabastecidos de álcool puro. Ocupavam a trincheira mais próxima da latrina.
O frio mordia os ossos. Lá pelas duas da matina o tal capitão ranheta
resolveu passar revista nas tropas. E, sorrateiramente, esperava surpreender os
incautos.
Tínhamos ordem para disparar nossas balas de festim se aquele que se
aproximasse não soubesse a senha. E aquele capitão não sabia.
O estalar de galhos secos, os passos arrastados, o grito de “quem vem lá?”
a falta de resposta desencadeou um tiroteio infernal. Não se via nada, ninguém.
O espoucar dos fuzis, o clarão da pólvora, a confusão total.
O capitão escorregou. Estava lá pelas bandas do segundo pelotão. Na
fossa submergiu. Seus gritos e
palavreado rico de expressões chulas fizeram com que ninguém ousasse ali
chegar, muito menos içá-lo do poço fecal.
Ao amanhecer, reconhecendo o fiasco do tal ataque eis que surge o Major
comandante e depara com a cena dantesca. O guapo capitão em bosta estava, meio
rouco, muito puto. Retiraram-lhe de lá. A vingança não tardou.
Sabendo que os que iniciaram o tiroteio eram das bandas do segundo pelotão
colocou-os em forma e perguntou: “quem deu o primeiro tiro?...” não houve
resposta.
Soldados têm esta mania boba de não revelar quem fez a besteira. O chato
foi cruel, mandou-os todos pular dentro da fossa. E assim aconteceu.
Devidamente embostados a turma do segundo, liderada pelo Morcegão,
seguiu marchando para a lagoa, onde um por um, nela entraram.
Morcegão ficou no ostracismo por um tempo muito grande. Também não
gostava muito de tocar no assunto. Não
queria lembrar que foi dele o primeiro tiro.
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