quarta-feira, 9 de outubro de 2019


O BANHO DO CAPITÃO


Quarenta quilômetros. Da rua Juiz de Fora até Água Limpa, marchando, em julho, num frio danado.

Nossa turma do CPOR era muito especial. Tinha sido selecionada à dedo, os melhores atletas, tudo isso para dar uma surra na Academia Militar de Agulhas Negras no basquete, futebol de salão e no vôlei.Trabalho impecável do capitão encarregado do recrutamento.

Como em toda turma de aspirantes existiam aqueles que gostavam de fugir à qualquer esfôrço, os tais morcegos, apelido dado pelos colegas mais compenetrados. Para fins desta estória chama-lo-emos de Morcegão. Este, com a turma do segundo pelotão eram impossíveis de se controlar.

O bivouac, acampamento a dois por barraca era montado nas encostas à leste da lagoa. Trincheiras eram cavadas e a turma do primeiro ano se postava pronta para repelir um suposto ataque do segundo ano. Este ataque nunca acontecia mas os primeiro-anistas não sabiam.

Na BR3 existia um bar. Nele alguns foragidos se reuniam e compravam cachaça para enfrentar o frio da noite, em guarda, no meio da mais densa neblina. Entre os foragidos estava o Morcegão.

A noite era gelada, a neblina densa.  Mais cedo a turma do pelotão dois havia cavado uma fossa ao longo da encosta da colina. Tinha seus 10 metros de comprimento e era bem funda. É óbvio que à medida que o dia se passava era mais usada e já continha uma massa abjeta e volumosa.

Existia um capitão, chato, pentelho e ranheta. O tal primava por procurar defeito em tudo. Arvorou-se em inspetor chefe, azucrinando e patrulhando em momentos mais desagradáveis. Não queria que ninguém dormisse. Tínhamos de estar prontos para o ataque.

Os tradicionais fugitivos, liderados pelo Morcegão, já haviam voltado reabastecidos de álcool puro. Ocupavam a trincheira mais próxima da latrina.

O frio mordia os ossos. Lá pelas duas da matina o tal capitão ranheta resolveu passar revista nas tropas. E, sorrateiramente, esperava surpreender os incautos.

Tínhamos ordem para disparar nossas balas de festim se aquele que se aproximasse não soubesse a senha. E aquele capitão não sabia.

O estalar de galhos secos, os passos arrastados, o grito de “quem vem lá?” a falta de resposta desencadeou um tiroteio infernal. Não se via nada, ninguém. O espoucar dos fuzis, o clarão da pólvora, a confusão total.
O capitão escorregou. Estava lá pelas bandas do segundo pelotão. Na fossa submergiu.  Seus gritos e palavreado rico de expressões chulas fizeram com que ninguém ousasse ali chegar, muito menos içá-lo do poço fecal.

Ao amanhecer, reconhecendo o fiasco do tal ataque eis que surge o Major comandante e depara com a cena dantesca. O guapo capitão em bosta estava, meio rouco, muito puto. Retiraram-lhe de lá. A vingança não tardou.

Sabendo que os que iniciaram o tiroteio eram das bandas do segundo pelotão colocou-os em forma e perguntou: “quem deu o primeiro tiro?...” não houve resposta.

Soldados têm esta mania boba de não revelar quem fez a besteira. O chato foi cruel, mandou-os todos pular dentro da fossa. E assim aconteceu.

Devidamente embostados a turma do segundo, liderada pelo Morcegão, seguiu marchando para a lagoa, onde um por um, nela entraram.

Morcegão ficou no ostracismo por um tempo muito grande. Também não gostava muito de tocar no assunto.  Não queria lembrar que foi dele o primeiro tiro.

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