NAMORADO NO BALAIO
Namorar mulher bonita não é fácil.
Se ela é inteligente fica ainda mais difícil.
Uma sábia e doce sogra dizia para a filha que, uma vez encontrado alguém
que gostasse, devia por o dito em um balaio, guardando-o para um dia futuro
caso outro melhor não aparecesse. Igual se faz com a galinha que veio do
mercado.
Apaixonei-me de cara. Foi um “fulmine”,
segundo os italianos. Cai, “fulminato”!
Era carnaval, a sedutora criatura parecia acessível. Ledo engano, conquistá-la
era caso para um profissional do ramo, um Alain Delon, um James Dean ou um Paul
Newman.
Eram, aliás, aqueles que ela mencionava serem os favoritos.
Não durou muito, antes do próximo carnaval já tinha sido dispensado. Foi
um desastre. Recuperei-me à duras penas, caí nos braços de uma outra, não tão
bonita, mas que gostava de tocar Blue Moon para mim. Ela não o fazia.
Não me convidou para seu aniversário de 15 anos. Nunca a perdoei por
isso. Falha lamentável. Dançou a valsa com um energúmeno revoltante.
Quebrei-lhe o nariz por isso.
Quando a vi de novo estava mais linda ainda. Convidei-a para dançar. Dançando
me disse que quem gosta de meia é pé. Se quisesse continuar tinha de acabar com
a outra. Atravessei a rua, fui à casa dela e acabei. Voltamos à dançar com data
marcada para um encontro no próximo sábado.
Já estava no balaio, eu, é claro.
O sábado chegou. Eu sempre fui pontual e ela sabia disto. Não havia
ainda terminado com o outro namorado, um quinto-anista de medicina, xodó do
papai dela. O miserável chorava ao ser extirpado, não queria ir. Devo ter
cruzado com o dito, no passeio, perto de sua casa.
Salvei-a de um erro certo. Não se daria bem com chorões. Bonzinho
demais, só sabia ser médico. Eu, entretanto, estudava arquitetura, vestia a
farda do CPOR, jogava basquete. Tinha um papo mais interessante. Aliás, já
estava no balaio e nem sabia.
Contou-me mais tarde que havia namorado um Manoel, vejam bem, devia ser
um portuga, aquele das piadas. Dizia-se rico e fazendeiro. Queria levá-la para
cuidar de suas vaquinhas. Erro irreparável. A bela não gostava de carrapatos e
vida silvestre. Era uma diva das urbis, do borborinho, das luzes da ribalta.
Salvei-a de outro erro.
O James Dean já tinha partido para o Nirvana. A Romi Schneider pegou o
Alain Delon. Sobrou o Paul Newman. Quando o encontrou em Cleveland, se
decepcionou. Era baixinho, menor do que ela. Salvei-a, de novo.
Na minha vida, dentro do balaio, não percebia que lá estava. Era
persistente, levei-a ao altar e à conhecer o mundo, valeu a pena o trabalhão.
De vez em quando ou de quando em vez saía com uma história de um tal Pierre,
genuinamente francês, que surgiu antes que a conhecesse. Não me pareceu competição,
devia ser um truque para me manter quietinho, no balaio.
Quando fomos salvar nossa amada filha das agruras e escorpiões da
Guatemala, estivemos em uma repartição pública local, sei lá para quê. Uma
senhora, com seus trajes típicos estava sentada à minha frente com um balaio ao
lado. Dentro, uma galinha.
De repente percebi que o balaio era da minha amada, a galinha eu mesmo.
Havia lá estado por mais de quarenta anos e nem vi o tempo passar.
Hoje, ciente e consciente nem penso de lá sair. Sábia era minha sogra...
Nenhum comentário:
Postar um comentário