MULA
SEM CABEÇA
Diz a lenda que a concubina de um sacerdote se transforma em noites de
lua cheia em uma mula sem cabeça,
exalando fogo pelas narinas. Seu relinchar é assustador e às vezes soa como a
voz de uma mulher desesperada. Assombra à todos e à tudo na espera pela redenção
que não vem.
Lá pelos idos de Penedo, no Alagoas uma bela menina de olhos verdes e
cabelos dourados se banhava nas águas do São Francisco. Tão linda ela era que
atraiu os olhares do padre itinerante que por alí passava de quando em vez.
Não era um padre de boa alma. A sua, penada que já era, só se
interessava pela nudez pura da inocente menina. Assolado pelo tinhoso houve por
bem raptá-la numa noite escura, fugindo da cidade num galope frenético como se
quisesse anunciar o despertar de uma maldição.
Os anos se passaram e nunca mais se ouviu falar da desditosa criança.
Seus pais e irmãos, entretanto, haviam marcado de morte o vil sacerdote. E esta
o encontrou quando, achando que não mais o reconheceriam, passou de novo, pelo
mesmo caminho, encontrando o fim nas mãos de sicários já avisados.
A verdade diz que a linda moça adulta se tornou. Seus filhos, bem
cuidados com os proventos do padre cresceram saudáveis e felizes. Diz também,
que com a morte do vigário um tesouro foi encontrado dentro de um baú, trazendo
à estória um final feliz.
Mas como em qualquer lenda, a figura da mula sem cabeça prevalece. O
assombrar continua e quem sabe pula de alma em alma, pois anos depois vim a
encontrar outra bela criatura, de olhar meigo e maneiras doces seduzida por
outro destes padres pululantes, do tipo estrangeiro, quiçá faceiro.
Ouso por isso, disputar o final trágico da lenda original.
Que vire mula sem cabeça eu concordo. Que virem concubinas dos tais
padres também parece lógico. O que não é lógico é elas penarem por aqueles que
romperam seus sagrados votos. Proponho, então, que mulas não sejam. Que sejam
burros sem cabeça, soltando fogo pelas narinas e pagando o pecado por seduzirem
doces e inocentes criaturas. Que seus berros sejam horríveis como as horríveis
coisas que fizeram. À estes burros só Belzebu explica...e espera.
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