domingo, 27 de outubro de 2019


MALEDETTO?



Quando fiz a casa me utilizei de tudo que sabia sobre técnicas modernas. Em arquitetura, com pinceladas ecléticas trouxe um pouco de Wright ao barroco mineiro. Em sua forma espacial brinquei com espaços interativos numa dança constante ao longo de uma escada central como um fuste espiralando cômodos simétricos. Um jogo de xadrez tridimensional.

Quando fiz a casa não estava aqui. Controlava de longe algo que  podia ser feito nos Estados Unidos mas  não havia condição de replicar aqui. Só soube disto mais tarde em surpresas escondidas entre paredes, invisíveis aos olhos, mas surpreendentes pela criatividade com que foram feitas erradamente.

Quando fiz a casa contratei quem me indicaram achando que por serem profissionais seguiriam os desenhos com esmero e dedicação. Desisti de assim pensar quando me perguntaram que língua eu falava. Pareciam que entendiam mas não era verdade. E eu só falava em português correto...ledo engano!

No início morreu um. Cortaram-lhe a cabeça. Havia se metido com a mulher de um traficante. Penalizados ajudamos a mãe chorosa. Era um rapaz alegre, de olhos azuis.

Depois morreu outro, um eletricista, de coração. Já estava velhinho, me parecia bom. O serviço que havia feito foi abandonado pois ninguém sabia onde estavam os conduítes.

Morreu também a esposa do pintor. Não mais pintou direito após o desenlace.

O mestre-de-obras era uma praga. Vivia etílico. Caiu do telhado uma vez, foi salvo pela corda que o havia obrigado a usar. Foi para o beleléu quando a obra acabou. Havia esvaziado alguns galões de pinga vagabunda. Deveria ter ido antes. Teria me poupado mil dissabores sem mencionar os muitos dólares.

Tinha também o eletricista novo. Guapo rapaz, dirigia um Crossfox amarelo igual ao meu, porém mais novo e mais bem equipado. Conversa mansa, jeito faceiro, sonso, o dito havia seduzido uma garota de versatilidade infinita. Era a dona do carro. Vim a saber depois da terrível desdita à ele cometida. Um dia apareceu na obra com quatro sulcos profundos em uma das bochechas. Indagado, disse que havia sido apanhado namorando...outra. recebeu um corretivo.

Não aprendeu a lição,Traiu a prostituta. De novo. Erro fatal. A dita enraivecida procurou vingança. Contratou sicários sedentos de sangue e estes o emboscaram descarregando alguns pentes no dito cujo. Mais furado que peneira de servente o danado sobreviveu. Mas ficou tetraplégico.

Já estava com raiva dele pelos inúmeros malfeitos na rede elétrica. Havia recebido adiantado, cobrado por pontos invisíveis e distribuído fios de uma maneira tão convoluta que até hoje não consegui decifrar o quebra-cabeças.
O que aconteceu com ele foi além do que queria fazer. Fiquei com pena.

Mudamos em junho de 2008. Na véspera da mudança o marceneiro picareta roubou os degraus da escada, fugiu com os armários, algumas portas e janelas. Desastre total.

Em uma casa inoperante, incompleta e desarranjada passamos a terminá-la, muitas vezes, nós mesmos executando o trabalho dos incompetentes funcionários que tivemos. Terminada a obra, ficou encantadora. Mas guarda ainda surpresas inexplicáveis, tão estranhas que antes de escrevê-las relatei o ocorrido a um grande amigo e a meu irmão engenheiro, no momento em que os tais fenômenos aconteciam diante dos olhos estupefatos de minha querida  amada.

Voltava do clube após o habitual ritual etílico dos sábados. Planejava um banho gostoso em meu chuveiro ajustável. O dia terminava, o calor insuportável, os cachorrinhos inquietos. Hora de usar a tecnologia que havia implementado. O sistema hidráulico pressurizado iria propiciar uma ducha de qualidade ímpar. Abri o chuveiro. Caíram duas gotas...

Desci até o quadro de chaves, uma delas havia caído. Armei-a de novo. Subi, abri a torneira e pluft, nenhuma gota caiu de novo. Usei minha cabeça de engenheiro, segui o rastro do problema, chaves, disjuntores, fios, bomba, pressurizador. Não vi nada estranho. Liguei de novo a chave. Achei que a bomba havia queimado. Desisti.

Já com planos de quem chamar, na segunda feira, resolvi me recolher. Minha musa estava ao meu lado. Perguntava sobre tudo, não entendia nada.

No banheiro, sem luz, acendemos umas velas. Até ficou bem romântico. Abrindo a torneira da pia notei que a luz acendeu. Perguntei-lhe se havia ligado o disjuntor. Não, foi a resposta, não fiz nada... Fechei a torneira e a luz apagou. Abri a torneira do chuveiro e de novo a luz acendeu.

Isto não é possível. Ninguém acende uma lâmpada abrindo uma torneira. Só em filme dos Três Patetas. Examinei tudo de novo, fio por fio, tomada por tomada, conexão por conexão. Nada aparentava ser estranho. Testei de novo, liguei para meu amigo e meu irmão e relatei-lhes o que acontecia, de viva voz. Morreram de rir. Meu irmão foi mais enfático : “Isso não existe.”

Fomos dormir. Desliguei tudo. Deve haver uma maldição nesta casa. É maledetta, diria minha avó. O eletricista tetraplégico enviava seus eflúvios demoníacos. Estava perdido. Seria um fantasma, o espírito pinguço do mestre-de-obras? Deixei para explicar, na segunda, para um eletricista, formulando possíveis perguntas no intuito de fazer algum sentido. Já tinha certeza que me chamaria de louco.

Acordei. O sol brilhava, o horário novo já em vigor me pus para fora da cama de maneira modorrenta. Meio grogue entrei no banheiro. Instintivamente abri a torneira do chuveiro.
Tudo funcionou. Como se nada houvesse acontecido o pressurizador ia à toda potência, as luzes não haviam acendido pela torneira mas pelas tomadas, como era esperado. Minha mulher, com o mesmo olhar de antes, perguntou: “Como explica isso?”

Não sei. Deve ser maledetta, ou foi um sonho, um pesadelo para ser mais preciso. Vou ligar para meu dileto amigo e meu genial irmão engenheiro e perguntar-lhes se realmente liguei para eles ontem a noite.

Devem ter sido os torpedos que tomei lá no bar. Só pode ser...



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