UMA PORTA QUE SE ABRE (capítulos finais)
CAPITULO III
( o tecido inimaginável )
No mundo que teci, tudo estava em harmonia. Fui arquiteto do pensamento
que criava. Formas familiares, replicadas em sintonia com uma natureza digna de
um Monet. Cores, sons, tudo era possível. Assim fiz meu novo mundo. Nele
habitavam todas as criaturinhas que gostei, não somente as últimas mas todas aquelas que haviam existido em minhas
vidas.
Escolhi o tempo e a forma que me era mais agradável. Abri as portas para todas as outras entidades
que sentia conhecer. Era maravilhoso recebê-las.
Nos encontros notava que me transmudava para as criações de cada uma
delas. Numa constante harmonia movia-me entre espaços virtuais,
magníficos, sedutores e possuidores de uma calma perene.
Vivia em tempos passados, mudava o que via conforme queria.
Comunicava-me em pensamentos. Nenhum deles
tinha realmente forma mas podia vê-los com a aparência que me era mais
familiar e deixá-los ver-me com aquela que emitia.
O mundo material tem um componente sedutor insubstituível. Era ele que lhe dava a energia que, armazenada,
permitia as transformações
que experimentava. A força que tinha sempre se reduzia, se drenava quando perto dos vales escuros, quando pensava
naqueles que lá habitavam. E muitos deles haviam sido amigos que já haviam partido.
Através dos tempos ví Roma, ví o Egito antigo, a China, um Brasil
selvagem, paisagens que já se foram, amigos que havia tido. Só os reconhecia quando me deixavam vê-los. Sensações são difíceis de serem controladas. Em todas as relações
passadas haviam existido
momentos bons e maus. O afloramento dessas circunstâncias se dava, à medida que
as entidades se apresentavam em uma forma conhecida por mim.
Aprendi que o futuro ainda não estava ao meu alcance. Não tinha ainda condições para passar
para a dimensão seguinte.
Mas aquele presente multidimensional era fascinante. E belo. Um belo que
de certa maneira era criado por mim mesmo e por aqueles de quem gostei ou não. Senti falta da
matéria. Ela me recarregava, dava-me forças. Ali, já sentia-me exaurido. Criando e percorrendo
tantas proposições quânticas havia perdido a energia que havia acumulado. Quais
seriam as alternativas ?
CAPITULO IV
(a sedução do retorno)
O universo é mais belo e complexo do que pensamos. Não é mensurável mas
contém tudo. Este tudo, em constante evolução, abre-se em outros
universos. Há luz, mas também há escuridão. Nela habitam os que tem a essência desprovida
de luz.
Poder-se-ia dizer que essas
trevas seriam talvez
o inferno. Pode-se pensar que tal
escuridão é também horrível, mas esta não
se apresenta como tal. Minha
entidade-guia evitava que me aproximasse. Um magnetismo gigantesco dela emanava. Assustava, mas era doce. Apavorava,
mas era arrebatante.
Podia-se ouvir vozes, cantos reconhecíveis como algo já ouvido e sentido
antes. Corpos etéreos semelhantes a amigos e entes perdidos, chamando, pedindo
ajuda, carinho, reconhecimento.
Era um lugar triste. Não tinha saída, mas tinha uma mensagem cativante,
prometia a volta de tudo, com tudo. Poder, fama, luxúria, ao alcance dos mais
influenciáveis.
Na dimensão em que estava a energia utilizada não era inesgotável. Talvez em
dimensões superiores isto não seja um fator de desequilíbrio. Mas entre a
quarta e quinta dimensões gastamos muito da energia que havíamos acumulado. É
necessária a volta ao mundo de três, onde tudo se transforma para que possamos reabastecer nosso
eu etéreo.
Àqueles presos no espaço negro a volta é fácil e rápida. Aos que estão próximos
à luz, a volta é lenta e
requer uma preparação junto aos entes protetores. Vêm em forma de uma proposta
de aperfeiçoamento. A volta traz mais luz e energia e consequentemente força para partirmos rumo
à universos outros.
Aos que sofrem no nada tudo lhes é oferecido. Muito fácil de aceitar,
muito difícil de conseguir algum aperfeiçoamento. Muito pobre de evolução. Mas é
deveras sedutor.
Queria ver o futuro. Não me foi dada a opção. Poderia voltar e talvez,
atingido um nível mais alto de perfeição, evoluir rumo a outra dimensão. O
retorno era a única forma de chegar e participar do futuro.
Voltei.
CAPITULO V
( a porta se fechou )
A volta requer preparação. A necessidade de se criar novas alternativas
em um mundo tridimensional preveem dobras quânticas que podem se abrir em
paralelas situações.
Existe um guia, um conjunto de decisões prévias que estabelecem um
destino. Serve somente de parâmetro básico. O livre arbítrio influencia no
desdobramento da missão acordada. Mas existe um tempo, um cronograma a ser executado.
Sabia de tudo o que era, quais variáveis, quais mutações. Só não sabia
em qual delas estaria. Estas dependem de como você se conduz. O espírito que
orienta é também o que o segue como mentor. É sua alma gêmea, equilibrada,
isenta de erros, mais sábia. Aquilo que os católicos chamam de anjo da guarda.
Este lhe dá o empurrão final.
A luz se apaga, por momentos você se sente real de novo, mas esse apagar tira-lhe a consciência anterior e elimina tudo que você sabia. Isto,
ainda está em seu banco de conhecimentos, em forma quântica, mas somente revelar-se-á na transposição para
a quarta ou outras dimensões superiores.
Voltei, estou novamente na terceira dimensão, não sei mais nada. A
porta se fechou...
Nasci.






Nenhum comentário:
Postar um comentário