sábado, 6 de julho de 2019




UMA PORTA QUE SE ABRE (capítulos finais)

CAPITULO III


( o tecido inimaginável )


No mundo que teci, tudo estava em harmonia. Fui arquiteto do pensamento que criava. Formas familiares, replicadas em sintonia com uma natureza digna de um Monet. Cores, sons, tudo era possível. Assim fiz meu novo mundo. Nele habitavam todas as criaturinhas que gostei, não somente as últimas mas todas aquelas que haviam existido em minhas vidas.

Escolhi o tempo e a forma que me era mais agradável. Abri as portas para todas as outras entidades que sentia conhecer. Era maravilhoso recebê-las.

Nos encontros notava que me transmudava para as criações de cada uma delas. Numa constante harmonia  movia-me entre espaços virtuais, magníficos, sedutores e possuidores de uma calma perene.

Vivia em tempos passados, mudava o que via conforme queria. Comunicava-me em pensamentos. Nenhum deles  tinha realmente forma mas podia vê-los com a aparência que me era mais familiar e deixá-los ver-me com aquela que emitia.

O mundo material tem um componente sedutor  insubstituível.  Era ele que lhe dava a energia que, armazenada, permitia as transformações que experimentava. A força que tinha sempre se reduzia, se drenava quando  perto dos vales escuros, quando pensava naqueles que lá habitavam. E muitos deles haviam sido amigos que já haviam partido.

Através dos tempos ví Roma, ví o Egito antigo, a China, um Brasil selvagem, paisagens que já se foram, amigos que havia tido. Só os reconhecia quando me deixavam vê-los.  Sensações são difíceis de serem controladas. Em todas as relações passadas haviam existido momentos bons e maus. O afloramento dessas circunstâncias se dava, à medida que as entidades se apresentavam em uma forma conhecida por mim.


Aprendi que o futuro ainda não estava ao meu alcance. Não tinha ainda condições para passar para a dimensão seguinte.

Mas aquele presente multidimensional era fascinante. E belo. Um belo que de certa maneira era criado por mim mesmo e por aqueles de quem gostei ou não. Senti falta da matéria. Ela me recarregava, dava-me forças. Ali, já  sentia-me exaurido.  Criando e percorrendo tantas proposições quânticas havia perdido a energia que havia acumulado. Quais seriam as alternativas ?


CAPITULO IV

(a sedução do retorno)

O universo é mais belo e complexo do que pensamos. Não é mensurável mas contém tudo. Este tudo, em constante evolução, abre-se em outros universos. Há luz, mas também há escuridão. Nela habitam os que tem a essência desprovida de luz.








Poder-se-ia dizer que essas trevas seriam talvez o inferno. Pode-se pensar que tal escuridão é também horrível, mas esta não se apresenta como tal. Minha entidade-guia  evitava que  me aproximasse. Um magnetismo gigantesco dela  emanava. Assustava, mas era doce. Apavorava, mas era arrebatante.


Podia-se ouvir vozes, cantos reconhecíveis como algo já ouvido e sentido antes. Corpos etéreos semelhantes a amigos e entes perdidos, chamando, pedindo ajuda, carinho, reconhecimento.

Era um lugar triste. Não tinha saída, mas tinha uma mensagem cativante, prometia a volta de tudo, com tudo. Poder, fama, luxúria, ao alcance dos mais influenciáveis.

Na dimensão em que estava a energia utilizada não era inesgotável. Talvez em dimensões superiores isto não seja um fator de desequilíbrio. Mas entre a quarta e quinta dimensões gastamos muito da energia que havíamos acumulado. É necessária a volta ao mundo de três, onde tudo se transforma para que possamos reabastecer nosso eu etéreo.


Àqueles presos no espaço negro a volta é fácil e rápida. Aos que estão próximos à luz, a volta é lenta e requer uma preparação junto aos entes protetores. Vêm em forma de uma proposta de aperfeiçoamento. A volta traz mais luz e energia e consequentemente força para partirmos rumo à universos outros.

Aos que sofrem no nada tudo lhes é oferecido. Muito fácil de aceitar, muito difícil de conseguir algum aperfeiçoamento. Muito pobre de evolução. Mas é deveras sedutor.

Queria ver o futuro. Não me foi dada a opção. Poderia voltar e talvez, atingido um nível mais alto de perfeição, evoluir rumo a outra dimensão. O retorno era a única forma de chegar e participar do futuro.

Voltei.



CAPITULO V

( a porta se fechou )

A volta requer preparação. A necessidade de se criar novas alternativas em um mundo tridimensional preveem dobras quânticas que podem se abrir em paralelas situações.

Existe um guia, um conjunto de decisões prévias que estabelecem um destino. Serve somente de parâmetro básico. O livre arbítrio influencia no desdobramento da missão acordada. Mas existe um tempo, um cronograma  a ser executado.

Sabia de tudo o que era, quais variáveis, quais mutações. Só não sabia em qual delas estaria. Estas dependem de como você se conduz. O espírito que orienta é também o que o segue como mentor. É sua alma gêmea, equilibrada, isenta de erros, mais sábia. Aquilo que os católicos chamam de anjo da guarda.

Este lhe dá o empurrão final.

A luz se apaga, por momentos você se sente real de novo, mas  esse apagar tira-lhe a consciência anterior e elimina tudo que você sabia. Isto, ainda está em seu banco de conhecimentos, em forma quântica,  mas somente revelar-se-á na transposição para a quarta ou outras dimensões superiores.

 Voltei, estou novamente na terceira dimensão, não sei mais nada. A porta se fechou...

Nasci.




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