UMA PORTA QUE SE ABRE (cont.)
CAPITULO II
(se vivo estou por que não me reconheço?)
Quando era, tinha três dimensões. No mundo tridimensional em que vivia o
tempo era relativo. Imaginava um dia poder visitar o passado, quiçá o futuro.
O tempo é linear, passa, não volta. Para dominá-lo teríamos de estar na
quarta dimensão ou outras subsequentes. O ser de quatro dimensões controla os de três, o de cinco pode controlar o de quatro.
A morte não deixa rastros. A massa corporal inerte perdeu a vida. Algo
se depreendeu, foi-se sem deixar vestígios. Não há registro confiável de
transferência energética. Não há perda de peso, de massa. No plano de três
dimensões tudo se transforma mas, quando somos pinçados à uma outra dimensão superior à nossa, não deixamos pistas, a transformação não ocorre
ali, aparece no mundo da quarta.
Quando estamos nela podemos andar por janelas temporais, ver o que passou, em
quantas dobras quisermos. Mas o fazemos retroativamente . Se quisermos
controlar o futuro, precisaremos
ter cinco dimensões. As disposições se transformarão em alternativas infinitas, em dobras quânticas. Poderemos ser mais do que somos, em
diversas versões.
Gostava de ponderar sobre possibilidades. Agora, estava no âmago delas.
Entendi que poderia ver quem fui mas ainda não sabia mover-me através das
alternativas.
Quem sou, realmente? Quem fui?
Teci um mundo de partes virtuais.
Arquitetei paredes, castelos. Construí
jardins, plantei tudo porque tudo dava, já nascia crescido.Como mágica
tudo passou a existir. Pensei em ligar-me a outras formas que via ao longe.
Embora sentisse que haviam outros, estes ainda não estavam comigo. Não
conseguia distingui-los, só sabia que os conhecia. Teria de estender a mão?
Chamá-los para perto? Será que viriam? Como?
Não era um mundo como havia
conhecido. Entre espectros, vultos e formas indistinguíveis via o tempo
passar por janelas que controlava. Mas só podia ir para trás, para o que já
foi, o que já acabou.
Vi civilizações que deixaram de existir. Vi momentos que marcaram a história,
vi-me neles em formas diferentes. Era um
ser de quatro dimensões não físicas, e
sim etéreas. Senti falta da substância que havia tido.
Pouco a pouco consegui criar um sentido lógico para o que acontecia. Eu
existia, não como já havia
sido, mas como uma presença que era uma compilação de diversos eus.
Meu livre arbítrio estava lá. Entretanto, esta força era também o juiz
de meus atos. Ao ver tudo que fui, julguei-me e aceitei as penas que me impus.
Para voltar a ter a substância que havia tido, teria de voltar. Como?
Pouco a pouco consegui relacionar-me com as entidades que ali estavam.
Uma delas, que transmitia uma paz incomensurável, se aproximou. Apontava para
as janelas do tempo, deslizava comigo em espaços indescritíveis. O mundo que
havia criado para mim mesmo estava lá. Outros mundos de outros seres também.
Mundos que não eram físicos mas pareciam-me reais.
Em meio a beleza, abismos mostravam
uma realidade triste. Como uma força incontrolável sugavam tudo e todos que
vacilavam. Habitavam o mesmo espaço-tempo mas pertenciam à universos involuídos.
Buracos negros, matéria sem luz, cheia de
sofrimento. Sofrimento de seres que não deixaram nada. Do nada viveram embora
achassem que tudo tinham. Viviam no escuro do universo.
A força era poderosa e sedutora. O lado mal de todos nós falava com voz
suave e adocicada. O melífluo gosto do poder permeava os grotões. Belas pinturas
de cenas carnais se tornavam realidade. Prometiam a volta como recompensa. O
nada poderia ser tudo, novamente.
Criaturas lindas, etéreas e
sedutoras se aproximavam. Prometiam uma volta ao mundo com luxúria, poder e
riquezas intermináveis. Era uma volta fácil. Bastava ser instrumento da vontade
das criaturas que habitavam o vazio. O mal não se apresenta de maneira
assustadora, é lindo e cativante. Aproxima-se como um súcubos e devora a essência
luminosa. Alimentam-se do sofrimento oferecendo o prazer.
O canto de sereias foi cortado. Antes que o abismo me sugasse fui
retirado do transe que me apossava. Começava a entender onde estava. A morte
nos separa da dimensão em que vivemos. Ao abrirmos o portal mudamos para universos paralelos. Nas
dimensões adquiridas passamos à viajar pelo espaço-tempo. Não somos vidas,
somos energia. Criamos nossos próprios mundos. Não necessariamente para tê-los,
mas para neles nos sentirmos familiares.
O tempo passa ao largo. Visitamos o passado, mas só podemos saber do
futuro ao adquirirmos uma outra dimensão. O passado traz as lições dos acertos
e dos erros. O julgamento é seu, se existe uma falha, a correção é por você
mesmo aplicada.
Nada interfere com o destino. O atraso é fruto da perda da luz que cada
um traz consigo. Aqueles que chafurdavam na massa negra haviam perdido essa luz.
Não era difícil de lá sair, mas o preço era alto.
Neste mundo etéreo outras formas se comunicavam. Transmitiam uma frequência
harmônica que nos fazia acreditar que eram entes queridos do passado, mas não
eram os mesmos. Todos eram compilações deles. Como os eus que sentí, também eles tinham os seus próprios. Mas eram familiares, já haviam estado com meus eus em
outras ocasiões. Até
outras formas menos complexas gravitavam ao meu redor. Seriam as criaturinhas
que amei? Seu calor estava lá, a forma porém não estava.
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