sexta-feira, 5 de julho de 2019


UMA PORTA QUE SE ABRE (cont.)


CAPITULO  II

(se vivo estou por que não me reconheço?)


Quando era, tinha três dimensões. No mundo tridimensional em que vivia o tempo era relativo. Imaginava um dia poder visitar o passado, quiçá o futuro.
O tempo é linear, passa, não volta. Para dominá-lo teríamos de estar na quarta dimensão ou outras subsequentes. O ser de quatro dimensões controla os de três, o de cinco pode controlar o de quatro.

A morte não deixa rastros. A massa corporal inerte perdeu a vida. Algo se depreendeu, foi-se sem deixar vestígios. Não há registro confiável de transferência energética. Não há perda de peso, de massa. No plano de três dimensões tudo se transforma mas, quando somos pinçados à uma outra dimensão superior à nossa, não deixamos pistas, a transformação não ocorre ali, aparece no mundo da quarta.

Quando estamos nela podemos andar por janelas temporais, ver o que passou, em quantas dobras quisermos. Mas o fazemos retroativamente .  Se quisermos controlar o futuro, precisaremos ter cinco dimensões. As disposições se transformarão em alternativas infinitas, em dobras quânticas. Poderemos ser mais do que somos, em diversas versões.

Gostava de ponderar sobre possibilidades. Agora, estava no âmago delas. Entendi que poderia ver quem fui mas ainda não sabia mover-me através das alternativas.

Quem sou, realmente? Quem fui?

Teci  um mundo de partes virtuais. Arquitetei paredes, castelos. Construí
jardins, plantei tudo porque tudo dava, já nascia crescido.Como mágica tudo passou a existir. Pensei em ligar-me a outras formas que via ao longe.


Embora sentisse que haviam outros, estes ainda não estavam comigo. Não conseguia distingui-los, só sabia que os conhecia. Teria de estender a mão? Chamá-los para perto? Será que viriam? Como?

Não era um mundo como havia conhecido. Entre espectros, vultos e formas indistinguíveis via o tempo passar por janelas que controlava. Mas só podia ir para trás, para o que já foi, o que já acabou.

Vi civilizações que deixaram de existir. Vi momentos que marcaram a história, vi-me neles em formas diferentes. Era um ser de quatro dimensões  não físicas, e sim etéreas. Senti falta da substância que havia tido.

Pouco a pouco consegui criar um sentido lógico para o que acontecia. Eu existia, não como já havia sido, mas como uma presença que era uma compilação de diversos eus.

Meu livre arbítrio estava lá. Entretanto, esta força era também o juiz de meus atos. Ao ver tudo que fui, julguei-me e aceitei as penas que me impus.

Para voltar a ter a substância que havia tido, teria de voltar. Como?

Pouco a pouco consegui relacionar-me com as entidades que ali estavam. Uma delas, que transmitia uma paz incomensurável, se aproximou. Apontava para as janelas do tempo, deslizava comigo em espaços indescritíveis. O mundo que havia criado para mim mesmo estava lá. Outros mundos de outros seres também. Mundos que não eram físicos mas pareciam-me reais.

Em meio a beleza, abismos mostravam uma realidade triste. Como uma força incontrolável sugavam tudo e todos que vacilavam. Habitavam o mesmo espaço-tempo mas pertenciam à universos involuídos. Buracos negros, matéria sem luz, cheia de sofrimento. Sofrimento de seres que não deixaram nada. Do nada viveram embora achassem que tudo tinham. Viviam no escuro do universo.


A força era poderosa e sedutora. O lado mal de todos nós falava com voz suave e adocicada. O melífluo gosto do poder permeava os grotões. Belas pinturas de cenas carnais se tornavam realidade. Prometiam a volta como recompensa. O nada poderia ser tudo, novamente.

Criaturas lindas, etéreas e sedutoras se aproximavam. Prometiam uma volta ao mundo com luxúria, poder e riquezas intermináveis. Era uma volta fácil. Bastava ser instrumento da vontade das criaturas que habitavam o vazio. O mal não se apresenta de maneira assustadora, é lindo e cativante. Aproxima-se como um súcubos e devora a essência luminosa. Alimentam-se do sofrimento oferecendo o prazer.

O canto de sereias foi cortado. Antes que o abismo me sugasse fui retirado do transe que me apossava. Começava a entender onde estava. A morte nos separa da dimensão em que vivemos. Ao abrirmos o portal mudamos para universos paralelos. Nas dimensões adquiridas passamos à viajar pelo espaço-tempo. Não somos vidas, somos energia. Criamos nossos próprios mundos. Não necessariamente para tê-los, mas para neles nos sentirmos familiares.

O tempo passa ao largo. Visitamos o passado, mas só podemos saber do futuro ao adquirirmos uma outra dimensão. O passado traz as lições dos acertos e dos erros. O julgamento é seu, se existe uma falha, a correção é por você mesmo aplicada.

Nada interfere com o destino. O atraso é fruto da perda da luz que cada um traz consigo. Aqueles que chafurdavam na massa negra haviam perdido essa luz. Não era difícil de lá sair, mas o preço era alto.

Neste mundo etéreo outras formas se comunicavam. Transmitiam uma frequência harmônica que nos fazia acreditar que eram entes queridos do passado, mas não eram os mesmos. Todos eram compilações deles. Como os eus que sentí, também eles tinham os seus próprios. Mas eram familiares, já haviam estado com meus eus em outras ocasiões. Até outras formas menos complexas gravitavam ao meu redor. Seriam as criaturinhas que amei? Seu calor estava lá, a forma porém não estava. 


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