UMA PORTA QUE SE ABRE
(Experiências em outra dimensão)
CAPÍTULO I
( o desenlace )
Morri.
Antes foi difícil. Via a aproximação do fim, mas seria isto o fim? Os
anos se passavam longos. Não era um fim abrupto, era esperado. Afinal a morte é
certa, mas se existe, e não há nada depois, então não se sabe nem se a morte realmente
aconteceu.
O nada é horrível.
Deve ser por isto que o universo se criou. Para deixar de ser nada, monótono,
nem sequer repetitivo. O nada é abjeto, não há do que gostar, o que sentir,
ver, tocar.
O nada leva à nada e sem nada, nada é.
Por isso pensei, naqueles últimos instantes, se eu sei que
morri, então não estou morto. Continuo pensando e, se penso, existo. Esperei
pelo último suspiro. A ansiedade era grande. Quando se morre de verdade? Quando
o coração para? Quando os pensamentos desvanecem? E se não somem? Sou ainda um
eu?
Sei que meu corpo já se foi. Dele usei e abusei. Me deu alegrias,
prazeres incontáveis. Sei que, se não morri a ele não tenho mais, mas se vivo
estou, onde estou? Nem corpo tenho. O que sou?
Morri.
Mas estou vivo. Sei que estou vivo. Sinto tudo, talvez mais. Vejo tudo,
todos, vejo janelas do passado, não entendo nada. Acho que para o nada voltei.
Luzes, túneis, entes queridos, nada disto apareceu. Vejo um nada real próximo,
mas ele é horrível, tenebroso. Cobra de você por tudo que errou. Quer devorá-lo. Não gosto deste nada. Parece
um rio de águas negras. Corpos flutuantes. Seriam corpos ou simplesmente
formas? Chamas sem brilho, porém causticantes envolvem todos e tudo. O nada é
tudo. Um tudo que devora, sofre, arrebata, massacra. Quer você.
Eu não gosto do nada. Sempre gostei de tudo. Recuso-me ao nada servir.
Volto e vejo o tempo parado. Terei eu quatro dimensões? O tempo é tão fácil de
se manejar. Volto atrás e me vejo criança, me enxergo mas não me toco. Me vejo
em momentos que queria ver de novo, me vejo em momentos que quis esquecer.
Quem é realmente este eu? Voltei no tempo que agora é meu e me vejo
outro, também vejo-me ainda em outros, através do tempo passado, em janelas que
controlo. Não estou gostando, não acho que os outros eus, que sou, me agradam.
Se não morri, quem sou? Não era aquele que daqui saiu. Sou muitos
outros. Só sei que não quero ser nada. Sempre fiz do nada alguma coisa, só para
não ser nada. Preciso saber se morri de fato ou não. Como ainda
estou pensando?
Olho o tempo, parece uma porta. Quando quero vejo até o que não quero.
Mas, que bom, vejo também os que já se foram antes de mim. Parecem que comigo querem falar. Mas não
se fala aqui. Sou um estranho em um lugar no qual já estive e onde me encontro, novamente.
Disseram-me que existe vida após a morte. Sempre acreditei, mais por boa
vontade ou vontade de acreditar. Tinha céus, deuses, infernos e explicações tão
idílicas que nunca neles pude
crer. Mas isto é diferente. Não tem nada do que me contaram, nem gente
vestida de branco, enfermeiros, hospitais, harpas a tocar, sinos, liras e música
divina. Era eu mesmo, não parecia comigo, mas era eu. Ali estava eu, vendo o passado
dizer-me o que realmente era. O rio escuro, de corpos, partes e seres estranhos
continuava ao largo.
Onde realmente estava? Controlava o tempo ao bel prazer. Via o que
queria e não queria. Dei forma a mim mesmo. Supus ter poderes. Arquitetei um mundo que me
agradava, senti que alguém, algo, qualquer coisa me ajudava. Era aquilo o meu céu,
“my heaven”? Era um paraíso só meu, onde só quem eu amava poderia chegar?
Notei que a felicidade não é plena sem a matéria. Não se sente o toque,
o carinho, a carícia. Não se sente o calor. Nem naquele rio de chamas escuras
havia calor, nele só havia o desespero, a infâmia.
Como ter matéria de novo? Não tinha o menor domínio de onde estava. (Era minha criação, mas não a dominava).
Uma ordem superior, que não sei se realmente existia, me circundava, fazendo-me acreditar que
existisse. Não tinha capacidade
ou qualidade para dali sair, não para outra dimensão mais evoluída,
somente para a mesma em que havia estado, anteriormente.
Havia felicidade no ar. Havia a memória viva dos que haviam partido.
Podia vê-los pelas janelas. Podia senti-los. Podia comunicar-me sem palavras.
Sentia-me bem vindo, querido.
Ao mais sentir, senti também que falhei. E chorei. Não tinha lágrimas,
mas o choro doía mais. Arrependi-me
lá muito mais do que aqui. Dói mais, é mais real. Senti-me insignificante.
Somente um amor inexplicável permeava por estas janelas. Amor dos que amei e dos que me amaram. Chorei, de
novo, sem lágrimas.
Acho que morri. Mas a morte não era finita como diziam. Não era o último
ato. Era somente uma porta que se abria e outro mundo que começava. Mas não era
vida. Esta ficou para trás, num corpo inerte, morto de verdade. À este só o pó restaria.
Quero voltar. Quero achar aqueles que amei de novo. Quero vê-los e amá-los
mais ainda. Quero não errar. Sei que se o fizer serei tragado por águas negras,
águas que devorarão o meu ser, águas que derreterão as passagens que para mim
se abririam.
Sim, agora sei que morri...estou vivo.



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