quarta-feira, 10 de julho de 2019


CHARLIE

(Ashley, my love)
Da série    Experiências em Outra Dimensão




Doce Charlie,


...era da Carolina do Norte. Charlotte Henriette Murphy, filha de fazendeiro, entre bolas de algodão e folhas de tabaco, vivia em um paraíso.

Tinha um irmão complicado, Sebastian era seu nome.

Como toda irlandesa gostava dos amigos e mais ainda de sua família. Resolvia tudo, sempre com um jeitinho especial. Queria que seu irmão fosse perfeito.

Sua melhor amiga era Ashley, brunete sedutora, linda, tipo “femme fatale”. Quando via Ashley meu coração disparava, me perdia olhando para ela.

Conheci Charlie através de seu irmão Sebastian. Rapaz bonito de alma confusa. Gostava de mim e eu dele. Por razão que não sei explicar ele me ouvia, mas somente à mim.

A guerra civil já havia começado. Diziam que o norte queria abolir a escravidão. Mas a razão verdadeira é sempre de ordem econômica. O sul não precisava do norte. O norte queria  o sul.

Os negros de sua fazenda eram bem tratados. Gostavam de lá viver , tinham orgulho de serem parte daquela família de imigrantes irlandeses. Não viam com bons olhos a chegada dos “yankees”.

Os domingos eram dias de festas. Entre limonadas e brincadeiras lá estava Charlie, com seus cabelos dourados, com seus olhos verdes. Eu gostava muito dela. Era divertida, cheia de vida, mas minha paixão era mesmo Ashley.

Cantava Danny Boy como ninguém. Eu era um bobo, me derretia todo.

O sol das Carolinas é sempre quente no verão. À noite os pirilampos saiam e num toque mágico iluminavam as margens do riacho sombreado por carvalhos centenários. Contos de uma noite de verão.

Sentados em um tronco de árvore ouvíamos as vozes da noite. Me perguntou: “ você está apaixonado pela  Ashley?... Ela não é para você...não quero vê-lo com o coração partido.”

Nesta minha última vida sempre me encontrei embevecido, completamente tomado pelo som triste e melodioso do sul. Tinha algo a haver com as canções de Charlie e as noites na fazenda.

Charlie era minha amiga. Como era bom conversar com ela. Só mais tarde, muito mais tarde, percebi que gostava de mim.

Sebastian gostava de farra e de se embriagar. Viciado em de jogar, não era polido como a irmã. Em uma noite chuvosa se meteu em uma briga com soldados yankees matando seu capitão. Morreu por causa disto.

Depois do enterro triste, o som choroso da gaita de foles,ao lado dos carvalhos, fui embora, nunca mais vi Charlie, nunca mais senti os pirilampos dançando e piscando nas noites quentes das Carolinas. Nunca mais voltei.

Bela Ashley,

... Ashley Lee Lindseth, nossos caminhos se desenhavam conforme um plano pré-determinado. Sempre gostei de Ashley mas sabia que, no fundo, bem no fundo, ela tinha outros planos e estes não me incluíam. Não fiquei com ela, a guerra mudou as coisas e só vim vê-la, de novo, muitos anos depois. Já estava casado com outra, mas continuava apaixonado com ela.

Ashley apareceu de novo, em minha vida, em outro mundo. Não tinha o mesmo nome mas era linda, encantadora. Se chamava Míriam, Maria em hebraico.Seus olhos azuis tinham sido substituídos por outros, castanhos, espanhóis. Mas era ela que estava no salão, naquele carnaval, e ali, fui fulminado por um raio de paixão.

De tanto insistir casei-me com a bela do salão de carnaval, mas isso foi quase duzentos anos depois. Agora, em outra dimensão a vejo arrumando as coisas que sempre arrumou, no mesmo lugar, milimetricamente colocados. Só tinha um jeito de chamar-lhe a atenção, desarrumar o que arrumava. E o fazia só para vê-la novamente colocando tudo como estava antes. Será que sabia que era eu que o fazia?

No mundo que teci havia objetos que ela sempre teve. Eu os deixava arrumados da mesma maneira. Ali, onde sonhos são reais, começava a entender o que havia acontecido. À medida que o tempo passava eu interagia com as entidades que entendia serem próximas de mim. Não era possível reconhecer quem eram, somente em momentos quando se revelavam em uma imagem conhecida.

Foi assim com Charlie,

...voava através de fragmentos do passado. Tentava construir uma história completa do que havia sido. Achei uma fazenda que me pareceu familiar. Os pirilampos haviam voltado, o tronco estava no mesmo lugar, a noite era quente e Charlie estava lá como se esperasse por mim.

De início não me reconheceu. Acho que apareci como era, da última vez. Ao vê-la algo me fez mudar e tomando a forma com qual me conheceu e a abracei.

Disse-lhe que deveria ter-la entendido quando me perguntou sobre Ashley. Deveria tê-la ouvido e ficado com ela. Me beijando suavemente sussurrou-me: “É assim mesmo, não podia ser diferente.”

O tempo não passava onde estávamos, por isso nossa conversa era interminável. Explicou-me como tudo funcionava, que tínhamos todos uma entidade guia, que nos orientava e protegia. Vivia na fazenda que sempre amou, era ali que existiam os sentimentos mais puros, as vibrações mais fortes. Explicou-me como era difícil confrontar a realidade daquilo que havíamos sido em diversas situações com o presente. Nem sempre fazemos o que e certo. O errado tem um peso imutável, não vai embora.

Pediu-me que a ajudasse a encontrar Sebastian. Disse-me que após a briga e a morte do capitão, Sebastian evadiu-se. Os “yankees” acharam-no em um paiol. Não foram misericordiosos, haviam-no executado ali mesmo.

Sua vida irregular o levou para o mar escuro, de almas desprovidas de luz. Era um lugar de onde não deveríamos nos aproximar, mas ela pedia minha ajuda para salvá-lo. Eu seria aquele que Sebastian ouviria. Esperou estes anos todos para que eu aparecesse, sabia que  ajudaria a salvar seu irmão.

Como nas estórias da Grécia antiga havia um barqueiro que nos levaria através do rio dos mortos. Sombrio, escondido por detrás de um manto negro tinha somente dois pontos de luz a vibrar dentro de um longo capuz. Eram seus olhos, profundos, tenebrosos e lancinantes. Não falava, não produzia som algum, nem seus imensos remos ao tocar nas águas negras.
Corpos disformes e flutuantes, uma chama ocasional, uma negritude avassaladora, um local de condenados, assim era aquela massa escura.

Gemidos e gritos aqui e acolá indicavam a presença de mais entidades perdidas. De vez em quando uma outra, mais grotesca, deles se aproximavam e lhes sugava o pouco de luz que tinham. E os gemidos aumentavam...

Vi coisas que me lembravam de outras já vistas, vi criaturas que se pareciam com amigos que já tive. Queriam minha ajuda, queriam minha mão. Charlie não permitiu que os ajudasse, disse-me que me tragariam para junto deles e dali não mais sairia. Senti minhas forças, minha capacidade de criar espaços se esvaindo, o perigo era iminente.

Pediu-me que  me concentrasse em Sebastian. Pediu-me que lembrasse dos momentos felizes que tivemos ao lado do riacho, nadando, jogando bola, brincando com os vagalumes. Um som reconhecível nos alertou. Preso em uma massa disforme lá estava Sebastian, ou o que dele restava, com olhar sofrido... perdido.

Tentei puxá-lo. Ao fazê-lo, descuidei-me de Charlie. Uma criatura linda, que emanava maldade através do olhar havia se acercado de Charlie. Era um súcubus, seres que se alimentavam das desgraças. Frágil e com suas forças se desvanecendo minha querida amiga não oferecia resistência. Senti que fracassaria, não tinha poder para sobrepujar a criatura. Sebastian já estava no barco, desfalecido. Charlie se encontrava subjugada.

Com um olhar de despedida disse-me que a criatura a trocara pelo irmão.

“Vá...disse. Não serei preparada mas terei de voltar, reencarnada. Não há como escapar. Volte para mim, se puder..Esperarei por você, em outro mundo.” E se foi.

Ao voltar, outras entidades se encarregaram de ajudar Sebastian. Seu sofrimento havia chegado ao fim. Sabiam do que havia acontecido. Sabiam que eu tentaria seguir os passos de Charlie e não se opuseram.

Partiria, mas não antes de completar a missão que havia dado a mim mesmo. Ali, onde o tempo não passa, teria tempo para seguir os passos do passado. Era necessário cuidar de coisas que não haviam terminado bem. Quando tudo estivesse completo voltaria e o faria à tempo de encontrar Charlie, no mundo onde o tempo passa.

Voltei ao meu sonho real. Parti para minha nova missão.




Nenhum comentário:

Postar um comentário