terça-feira, 30 de julho de 2019


OS FANTASMAS DO MORRO DA QUEIMADA

(Contos de Ouro Preto – parte II)





Em 1701 um minerador, comerciante e mestre de campo chamado Pascoal da Silva Guimarães chegou e se estabeleceu em Ouro Preto. O ouro havia sido descoberto e ele, junto a outros intrépidos portugueses, como Manoel Nunes Viana, iniciaram sua exploração nos riachos carregados do metal e mais tarde nas partes altas das colinas utilizando-se de técnicas criativas e eficientes.

Pascoal tornou-se rapidamente um homem rico e poderoso. Seus Dragões eram parte de uma milícia própria mais organizada do que as forças do Império Português, contando com mais de 1500 homens. Ele e Felipe dos Santos, agitador contumaz, lideraram a sedição de 1720 lutando por uma independência da corte, sedição esta desbaratada pelo Conde de Assumar pela queima do morro onde se localizavam as minas, casas e infraestrutura de Pascoal.

Felipe dos Santos foi preso, julgado e esquartejado em Vila Rica. Pascoal, junto com outros, também preso, enviado ao Rio e mais tarde Lisboa. Como era mais rico do que o próprio Rei lá ficou, processou o Conde e acabou morrendo antes do veredito final. O conde, relegado ao ostracismo veio à falecer anos depois após ocupar cargos de menor importância.

Felipe, um protomártir da independência antecedeu à Tiradentes, o grande herói, também julgado e esquartejado, anos depois.

Don Pedro Almeida Portugal, o Conde de Assumar, cercou o morro , à época chamado de Morro do Pascoal sitiando seus ocupantes, entre milicianos e escravos, estes em quantidade numerosa .Para dizimar a rebelião apelou pela queima do morro e consequente morte daqueles que não conseguiram escapar, em sua maioria escravos. Preso, foram julgados. Felipe esquartejado e outros enviados para o Rio, Lisboa ou degredados. A revolução debelada de maneira barbárica. A atividade mineradora entretanto, continuou até o século XIX.

Assim surgiu o Morro da Queimada e nele, suas almas penadas.

Um menino de compleição larga e sorriso simpático seguia seu pai, sapateiro, nas visitas que fazia aos seus clientes em Ouro Preto e Mariana. Nelas se apaixonava pelas relíquias que seu pai adquiria como parte de pagamento pelos seus serviços. Desde cedo o velho Toledo colecionava aquilo que viria a se transformar num dos maiores acervos de antiguidades barrocas do Brasil. O menino embevecido, sentava na soleira das portas das mansões esperando pelo pai. Não podia adentrar pois não lhe era permitido.

No amealhar de objetos Toledo se tornou um comerciante sagaz e bem sucedido. Melhor ainda quando, segundo contos locais, descobriu ouro entre as paredes de um imóvel que comprara.

O menino cresceu.

Da soleira da mansão em ruínas do Morro da Queimada aventurou-se depois da morte do amado pai a propor ao então seu proprietário a compra da mesma.

“Menino, você não tem dinheiro para isso” disse o deletério habitante da mansão.

Este, vivia em um cômodo. A casa em despreparo, as minas abandonadas, o mato presente cobrindo aquilo que outrora havia sido lindo. No quarto em que dormia, uma única cama. Nela, em uma depressão fixa em seu colchão, sua silhueta gravada, afundada em tecidos amarelados pelo tempo. O velho teimoso estava em ruína similar à mansão e seu patrimônio.

Mas o menino, hoje um homem de porte altivo, não desistiu. De tempos em tempos lá chegava e, aos poucos, pode na casa entrar. O ambiente era escuro. Havia tristeza no lugar. Tudo em pedaços, a pintura com manchas do tempo e mofo que já se instalara. O teto havia cedido, os prédios auxiliares em ruínas. Da janela de seu quarto, mais parecendo uma tumba perdida no tempo, ouvia-se o farfalhar das águas em queda de um dos muitos riachos cristalinos que nasciam morro acima.

À noite ouvia-se os gemidos de criaturas que ali morreram queimadas. Nas entradas das minas o vento gélido da morte, quiçá de um negro guardião que não era simpático àqueles de cor branca. Assim dizem os nativos, pois somente os pardos e negros conseguiam nas minas entrar sem sentir o sopro do além túmulo.

Mas o bravo rapaz continuou sua missão. Insistiu tanto que o proprietário por fim decidiu vendê-la.

Assim comprou-a.

Quis ali deixar um recado em memória do pai. Em um ambicioso projeto resolveu restaurá-la. Trabalho hercúleo até para o próprio governo.
A perseverança move montanhas. Neste caso o Morro da Queimada, que irá se transformar em uma casa de eventos/museu em memória do pai. 

Ali serão restauradas as edificações, os jardins e até o caminhamento as minas, seus tanques de sedimentação, os riachos, a senzala e muitas outras coisas que ainda lá estão.

Acredito que os seus fantasmas devem estar gostando. Senti-os  quando tentei entrar em uma das minas que, por sinal, ainda continha veios de ouro. Fantasmas, ouro e aventuras existem na vida de todo ouro pretano. 

Assim, para os médiuns e videntes, quando a reforma se completar, poderão testemunhar suas aparições e encarar suas maldições.

Eu já os vi.

Agora, prefiro ficar de longe.

Próximo: A Cabeça de Tiradentes



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