46
(um conto
escatológico)
Não havia alternativa.
A faca
estava à espera.
Intervenção relativamente simples mas, intervenção era, e o local…perto das partes baixas.
Já tinha tido algo por lá. A cena não havia sido agradável e minhas partes pudicas reagiram à contento.
Mas,
apesar de tudo, lá fui eu vestir a maldita roupa
hospitalar. Aquela que é aberta atrás, decotada e assanhada, pronta para mostar o dèrriere já em processo de redução pelos anos vividos.
Enfermeiras,
algumas simpáticas, outras nem tanto. O médico era bom, ajudava a ver o inevitável a ‘La Suplicy”, ou seja…relaxando e gozando!
Furam
aqui, espetam ali, perguntas pra cá e outras pra lá. A sala de cirurgia iluminada me esperava, ansiosa…
No dia
anterior, antevendo o fim que se aproximava, minhas entranhas entraram em
greve. Tudo entrava e nada saía.
Foi assim
no dia da operação, no dia seguinte e já adentrava ao próximo.
Dor nas
incisões misturada com dor de barriga não é nada de bom.
É assim mesmo disse um, passa logo disse
outro…mas… não passava.
Minha sábia amada, preocupada como todas as mulheres o são e, mais ainda preparada, pois elas são assim mesmo, muito melhores do que “nosotros” disse:
Tenho uns
remédios para isso. Um mais leve, outro mais ou menos e um
tiro e queda. Qual que você quer? Receita da mamãe, Dona Maricota.
O mais
possante, retruquei. O tal tiro e queda. Deve ter mais força.
Pois me
deu o 46.
Sim…o 46!
Poderia
ser um 38, 22, quiçá um 45, mas 46 foi o que chegou e eu
despretensiosamente o tomei.
Tudo
calmo no início. Algumas volutas barrocas após umas duas horas e…de repente…uma cólica feroz, assassina, criminosa e veloz! Daquelas que você acha que vai morrer, ali mesmo…
Mal deu
para chegar ao banheiro. Ainda estava andando de pernas abertas, os pontos
latejantes, as pernas bambas. Ridículo…
No sentar
ouvi um tiro. Uma explosão surda, suspeita, algo que
provavelmente seria proveniente de uma bazuca ou um RPG.
Um reboliço estranho, um samba infernal, entranhas em movimento e…bum!
Saiu algo deletério, alienígena e abjeto, na velocidade da luz.
Dei uma
espiada para ver o que estava lá em baixo. Sera que perdi meus
instrumentos? Mas, para minha
surpresa…nada. Somente o borbulhar de água, ainda cristalina, no fundo do
vaso sanitário. Nem um cabelinho chamuscado…nada
de pitibiribas.
Mas como?
Juraria
que algo saiu. Mas não havia prova do crime, corpus
delicti. Nada.
Voltei
para a cama, leve, descompromissado. Liguei a TV.
Na CNN a
bela e loira âncora do telejornal dizia, em inglês, que um japonês havia sido atingido na testa por um
petardo fecal de origem desconhecida. Estava a barbear-se quando o dito surgiu
de seu pristino vaso sanitário eletrônico (com apetrechos de massagem e perfumaria) e o atingiu em
plena testa. Estudos forensicos indicavam material em decomposição de alimentos de origem sub-tropical do hemisfério sul. Chegaram a sugerir uma feijoada, prato típico de brasileiros. Não houve explicação de como ali chegara. A NASA chegou a sugerir o translado quântico de outros mundos paralelos. A agencia Japonesa culpou a
China.
Voltei ao
banheiro e vi o vaso limpo, águas claras e pequenas bolhas à subir.
Não havia prova de um crime cometido. Inocentei-me…
Voltei e
dormi o melhor dos sonos.
Juro que
o tal 46 é mesmo tiro e queda…
Ahhh…Dona
Maricota!
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