terça-feira, 13 de agosto de 2019


SUPER HERÓIS DAS MONTANHAS


Fiquei doente.

Aconteceu… peguei uma gripe depois de uma intervenção cirúrgica e, para fazer a salada valer, tomei um porre regado à Negronis e Jack Daniels.

Assim, num final de domingo, cai num buraco, assustei minha amada e fui para a cama querendo segurar o mundo. Tudo girava e a danada da cama também.

Na confusão que fiz para mim mesmo já havia apagado quando o telefone tocou. Minha filha, no hemisfério norte, querendo saber do papai e, obviamente, manter o controle que as mulheres gostam de ter sobre nós, fracos homens, ali estava, inquisitiva.

Não demorou para saber que eu não me achava nada bem. Peguntou-me se havia ligado para minha amada. Esta, também doente, havia sido poupada de ter que cuidar de um velhinho pinguço. Mas filhas são intempestivas e no afã de salvar o pai acionou o tal sistema de controle à distância que havia montado. E, naquela noite escura minha casa foi invadida por três super heróis das montanhas.

Meio vestido, meio pelado, atendi a porta e me deparei com uma enfermeira francesa dos Medicins sans Frontières, um renomado jornalista internacional para cobrir o evento e um médico do Mossad, chamado Castanho. Adentraram, checaram a geladeira, olharam para mim e decretaram meu fim.

Castanho disse que se tomasse própolis eu iria melhorar e logo de cara me fez engolir 4 comprimidos gigantes do tal troço. A bela francesa ofereceu fazer sopinhas e bolinhos, parte que me interessou sobremaneira. O jornalista anotava tudo, antevendo um furo na CNN.

Os três super heróis partiram não antes de me fazer prometer e jurar que tomaria remédios, deitaria na cama e me alimentaria. O homem do Mossad aproveitou para me dar mais uns própolis, pegou meu relógio de parede, tirou as pilhas e foi embora levando-o com ele.

Minha amada, sabendo do ocorrido passou-me um sabão daqueles. Disse que pegaria muito mal para ela se soubessem não ter sido ela a minha salvadora.

Salvadora?

Depois de tomar tanto própolis sonhei que havia me transformado em uma abelha.
Apaixonei-me pela rainha, peluda, com uma boquinha esquisita. Quando acordei, questionei o Castanho se não havia exagerado nas doses de própolis. Minha cabeça estava em curto circuito. Bacco reclamava que eu não havia bebido mais. Verdade, até que havia sido comedido. Não era das melhores performances mas a convalescência da operação e o álcool contribuíram para que eu sonhasse com Caronte e o rio Styxx. Como não trazia o óbulo fui expulso e aqui ainda estou.

A insistência de me salvar com um tratamento de abelhas já causava certos efeitos colaterais. De tanto tomar própolis passei a produzir mel. Até sonhei que havia nascido um par de pernas no meu abdome.

Minha filha ligava para monitorar o tratamento à distância. Os super heróis contavam tudo para ela.

Não sei se minha transformação chegará a seu fim. Me sinto melhor mas me sinto abelhudo, com um zumbido constante.

Por isso, se em abelha me transformar a primeira coisa que farei será dar uma ferroada no traseiro do Castanho.
Não sei o que o famoso jornalista fará. Sua matéria certamente me colocará entre aqueles que gostaram do filme A Mosca.

A enfermeira francesa continua à oferecer deliciosos acepipes.

Minha amada continua doente. Não ouso sugerir que tome o tal própolis.

Aí, não tem jeito. Tenho que virar abelha.

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