TERRORISMO SEMPRE EXISTIU
BANHEIRO ASSEADO (segundo conto)
Ilustre madame, fina flor da sociedade mineira, fluente em inglês e
italiano era destas mulheres onde perfeição é o mínimo que se poderia esperar
delas. Linda, simpática e ilustrada viajava com seu não menos ilustre marido
pela Europa afora.
Este, arquiteto, um grande nadador de outrora, a venerava como uma
deusa. E ela o era. Empreiteiro de primeira categoria, com senso de humor inglês
apresentava um certo ar fleugmático nas conversas com amigos e, numa delas
relatou o episódio, abaixo, que havia
vivido em Roma.
Era tarde. A viagem longa, os três filhinhos cansados, necessitavam de
um local para passar a noite. O hotel, de aspeto antigo os recebia como um oásis
no meio do burburinho de cinquecentos
malucos transitando como mariposas desesperadas ao redor de uma lâmpada.
O quarto era convidativo. O banheiro nem tanto. Afinal, banheiros não são
comodos tão requintados em terras italianas. Este, entretanto, parecia ter sido
redecorado recentemente. Uns espelhos aquí, outros acolá, faziam o cômodo
parecer maior que realmente era. A banheira era velha. Encardida...
A madame era deveras meticulosa. Asseio é coisa primordial. Banheira
encardida não trazia confiança. Não colocaria seus lindos rebentos naquela
coisa. Tinha de desifetá-la. Completamente...
Com seu olhar sedutor, olhos escuros de uma italiana de estirpe indubitável,
sinalizou ao amado a necessidade de uma garrafa de álcool.
Ele não titubeou. Já sabia como se comportar em situações iguais.
Desceu, procurou por uma farmácia e voltou com um litro do líquido salvador.
Feliz com a ação rápida, pôs-se a derramar o álcool na banheira.
Espalhou, esfregou e esperou que descesse ralo abaixo. Não satisfeita, houve
por bem dar uma sapecada na dita cuja. Acendeu um fósforo e viu as chamas azuis
dançarem sobre o branco encardido.
Dançavam e dançavam tanto que resolveram seguir atrás do álcool que
havia descido pelo encanamento.
Terrível erro... os canos eram de plástico. Derreteram-se parede
adentro, andar abaixo.
Um corre-corre frenético indicava que algo estranho acontecia nos
andares de baixo. Água de esgoto de outros banheiros já fluiam pelas paredes em
outros quartos. A transparência das chamas do álcool escondiam e não explicavam
o derreter do encanamento. A coisa piorava a olhos vistos.
Sorrateiramente fizeram as malas. Recolhendo os pequenos desceram,
pagaram a conta e sumiram no calar da noite, entre os cinquecentos que não mais lhes pareciam tão enlouquecidos.
Não se sabe se ficou pior do que está aqui contado. Naquela época não
havia terrorismo de malucos na Europa. Hoje, entretanto, as manchetes diriam:
“Família de terroristas derrete hotel em Roma. E.I. reinvindica autoria.
A partir deste atentado, tudo entraria pelo cano.”
Como se vê, terrorismo sempre existiu, é só uma questão de ponto de
vista.
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