SIM, MEU SENHOR
Linda e suave como um anjo.
Casou-se aos dezenove. Teve duas maravilhosas filhas e
um marido um tanto excêntrico. Gostava de quebrar telhas e tijolos empilhados
com um golpe só. Mas era um cara legal.
Aos vinte e três, cuidando da segunda filha ainda
infante, recebeu dele o seguinte comunicado: “ vamos à Bahia,
prepare-se...temos um encontro com um casal paulista...vai ser bom para o nosso
futuro.”
Mas...
“Não tem mas... arrume as malas.”
E o bebê?
“Fica com a tia...”
Sim, meu senhor, retrucou, e as malas pôs-se à fazer.
Ah....Bahia, terra de todos os santos, mar azul, calor
dos diabos. Da janela do hotel cinco estrelas olhava para a praia, povoada
de corpos torrados, vestidos em panos
quase invisíveis.
“Vamos à praia... Não leve nada...aqui se rouba tudo.”
Posso levar meu batom?
“Não”
Sim, meu senhor... mas posso ir de havaianas? A areia é
quente...
“Nao”
Sim, meu senhor...Mas...
“Não tem mas não... só tem ladrão aqui, neste lugar.”
Mas eles roubam havaianas também?
“Sim, querida, roubam tudo...”
Sim, meu senhor... e o nosso dinheiro, onde vamos
guardar?
“Seu marido é um gênio, retrucou...veja esta chave de
fenda, a solução de tudo...e pôs-se à remover a placa da tomada elétrica...”
Tendo removida a dita cuja, estufou todo o rico
dinheirinho ao redor de fios retorcidos, em um pacote de notas emaranhadas.
Ela, ainda estupefata, argumentou. “Querido, meus pés....o
sol é quente, no asfalto se frita ovos, a areia cozinha até esturricar...e meus
pezinhos??? Vão ficar assados, não sei
se vou aguentar...”
“Você é uma mulher ou um saco de batatas?...guenta
sim, guenta...”
Sim, meu senhor, e para a praia marcharam.
Coitadinha, seus lindos pezinhos foram fritos, quase
que instantaneamente. Passou o restante da viagem à furar bolhas, passar cremes
e andar como um pato paraplégico.
No hotel, mais tarde, encontraram-se com o casal
paulista. Conversa vai, conversa vem, notava que eles a olhavam estranhamente.
Em suas cabeças cruzavam os pensamentos...por que uma mulher tão bonita andava
tão estranhamente?
O papo dos
habitantes da paulicéia era bem fraquinho. Dava para enjoar. Ela de fato
o fez, e por várias vezes. Idas e vindas ao banheiro. Vomitava aqui, vomitava
acolá. Eles comentavam com o marido: “ Muito bonitinha...mas enjoadinha. Vomita
à toa...Que pena...”
Os três dias foram como o primeiro. Pés cozidos, papo
chato, dedo na garganta...nada de bom.
Finalmente, no terceiro dia partiram. Negócio feito,
iriam comemorar com uma esticada mais ao norte, outras praias, talvez menos
calor, menos ladrões de havaianas, batom e outras coisas.
No avião, pediram um drink duplo... ela, olhando para
ele à sorrir, ousou perguntar: “ Você pegou o dinheiro?...aquele que você
escondeu na tomada?”
Não houve resposta...
O olhar perdido, o rosto pálido, os lábios em transe já
eram resposta suficiente.
Sim, meu senhor, o rico dinheirinho havia ficado por lá,
em Salvador, à salvo dos ladrões, dentro da tomada, num quarto do hotel.
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