TIMBIRAS 1091
Timbiras 1091. Charmosa, deliciosa casa da virada do século
XIX. Exemplo perfeito da arquitetura clássica de Belo Horizonte. Uma jóia que não
volta mais.
Porões rasos, de 60 centímetros. Pé direito de três
metros e meio, cômodos interligados, sem corredores. Ficava nos baldios da
antiga Capela da BoaViagem, mais precisamente onde havia sido seu cemitério do
século XVIII.
A Arthur Haas era uma pequena concessionária, no mesmo
quarteirão. Cuidava de Chevrolets, tinha entrada pela rua Alagoas. Mais tarde,
comprou quase todo o resto. Comprou a Timbiras 1091 que havia sido tombada, mas
foi queimada convenientemente. Por isso não existe mais.
Quando lá morei tinha meus sete anos. Havia acontecido
uma enchente em 1950. O córrego da Serra inundou a confluência da rua Sergipe
com a Avenida Afonso Pena. Até a geradora à diesel da Cia. Fôrça e Luz ficou
debaixo d’água. Timbiras 1091 teve água entrando pelas janelas. Considerando o
parapeito de um metro mais o porão de sessenta centímetros a água estava acima
de um metro e meio.
Ficamos no topo da mesa de jantar, em cima dos criados
mudos, eu, meus dois irmãos mais novos e o pequenino que havia nascido há
poucos dias.
A casa tinha seus mistérios. Dizia minha mãe que eu
via espíritos por todos os lados. É verdade, mas via mesmo eram esqueletos que
subiam do chão. Eram tão vívidos que eu podia sair da cama, acordá-la e mostrá-los
para ela, um por um.
Na sala e no quarto, à noite, o mundo era outro. Outra
dimensão, talvez? Seriam os esqueletos aqueles do cemitério antigo? Não sei...mas
nunca esqueci. Hoje, com mais de setenta anos tudo parece um sonho de criança.
Mas não foi. Todos os que me viram mostar o fenômeno ainda guardam a memória do
que aconteceu.
Travessuras ou gostosuras? Não havia halloween na Belo
Horizonte de 1950, mas haveriam bruxas? Dizem os espanhois que elas não
existem..”pero que las hay, las hay”. Só e certo mesmo o caso do meu irmão de cinco anos, que fugiu pelado pela
Afonso Pena abaixo, depois da enchente , é claro.
Que pena que a casa se foi. Foi também a dos Las
Casas, linda e charmosa. Era outra Belo Horizonte.
E o cemitério? Acho que ainda está lá... debaixo da
terra...
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