sexta-feira, 25 de agosto de 2017

TIMBIRAS 1091




Timbiras 1091. Charmosa, deliciosa casa da virada do século XIX. Exemplo perfeito da arquitetura clássica de Belo Horizonte. Uma jóia que não volta mais.

Porões rasos, de 60 centímetros. Pé direito de três metros e meio, cômodos interligados, sem corredores. Ficava nos baldios da antiga Capela da BoaViagem, mais precisamente onde havia sido seu cemitério do século XVIII.

A Arthur Haas era uma pequena concessionária, no mesmo quarteirão. Cuidava de Chevrolets, tinha entrada pela rua Alagoas. Mais tarde, comprou quase todo o resto. Comprou a Timbiras 1091 que havia sido tombada, mas foi queimada convenientemente. Por isso não existe mais.

Quando lá morei tinha meus sete anos. Havia acontecido uma enchente em 1950. O córrego da Serra inundou a confluência da rua Sergipe com a Avenida Afonso Pena. Até a geradora à diesel da Cia. Fôrça e Luz ficou debaixo d’água. Timbiras 1091 teve água entrando pelas janelas. Considerando o parapeito de um metro mais o porão de sessenta centímetros a água estava acima de um metro e meio.

Ficamos no topo da mesa de jantar, em cima dos criados mudos, eu, meus dois irmãos mais novos e o pequenino que havia nascido há poucos dias.

A casa tinha seus mistérios. Dizia minha mãe que eu via espíritos por todos os lados. É verdade, mas via mesmo eram esqueletos que subiam do chão. Eram tão vívidos que eu podia sair da cama, acordá-la e mostrá-los para ela, um por um.

Na sala e no quarto, à noite, o mundo era outro. Outra dimensão, talvez? Seriam os esqueletos  aqueles do cemitério antigo? Não sei...mas nunca esqueci. Hoje, com mais de setenta anos tudo parece um sonho de criança. Mas não foi. Todos os que me viram mostar o fenômeno ainda guardam a memória do que aconteceu.

Travessuras ou gostosuras? Não havia halloween na Belo Horizonte de 1950, mas haveriam bruxas? Dizem os espanhois que elas não existem..”pero que las hay, las hay”. Só e certo mesmo o caso do  meu irmão de cinco anos, que fugiu pelado pela Afonso Pena abaixo, depois da enchente , é claro.

Que pena que a casa se foi. Foi também a dos Las Casas, linda e charmosa. Era outra Belo Horizonte.

E o cemitério? Acho que ainda está lá... debaixo da terra...


Nenhum comentário:

Postar um comentário