quarta-feira, 23 de agosto de 2017

SONHO DE ARQUITETO



O projeto perfeito, a publicação na melhor revista, o prêmio de arquitetura, a mostra na Bienal. Sonhos de um arquiteto jovem, ainda estudante, com vontade de mudar o mundo.

Vestibular, trote de calouro, cabelos pintados metade louro, desfile pela Afonso Pena. Eu era o Profumo, aquele Primeiro Ministro inglês que fez o que a maioria deles fazem, sexo  com uma mulher voluptuosa, no caso, a tal Christine, alegria dos tablóides da ilha.

A primeira aula, foi dada por um quintoanista disfarçado de professor. A turma que mais mulheres tinha, até então, acreditou no que viu.

Um ano antes havia recebido um convite de ilustre médico. Neuro-cirurgião, professor, estava a escrever um livro que necessitava de gravuras demonstrando um procedimento cirúrgico.

Eu era bom de pena, bico de pena neste caso. O dinheiro que ganharia dava para poder estocar muitas cervejas. À estas alturas já havia abandonado meu hábito por coca-colas.

Estudei o texto, ví outras gravuras semelhantes e partí para o observatório da sala de operação no hospital. Arranjei minhas penas e papel e, de cima, fiquei à observar.

No início tudo bem. Com paciente embrulhado em lençóis e com a cabeça raspada  passaram-lhe à desenhar formas geométricas em seu crânio, com compasso e tudo mais. Até aí nada demais. A retirada do tecido descolado  já me deixou um tanto estranho. Dois furos com uma furadeira pioraram a situação.

Num determinado momento surgiu uma serra elétrica. Com seu ruído enervante aproximou-se das linhas marcadas, um pedaço de osso foi retirado e o cérebro exposto. A visão daquela coisa meio cinza, meio avermelhada pelo sangue, foi o suficiente para meu estômago virar como uma roda gigante, em alta velocidade.

Abandonei minhas belas penas e sem pena do que iria acontecer fugí para não mais voltar.

Cheguei à Escola de Arquitetura com fama de desenhar bem. Apesar do fracasso do ano anterior todos compreendiam que arquitetos não são muito fans de sangue, gostam mesmo é de coisas belas, mulheres, por exemplo, mas inteiras, sem cortes de serrras elétricas.

Fui logo convidado para fazer parte de um time com o pessoal do quarto e quinto anos. Haveria uma competição para selecionar o trabalho que representaria a Escola na Bienal de Arquitetura de São Paulo.

O ambiente era intenso. Os trabalhos mantidos em segredo e as horas eram contínuas na Escola onde nunca se dorme. Às vezes nos encontrávamos no telhado para fumar ou beber uma cerveja, entretanto acho que a verdadeira razão para o fuzuê eram as belas garotas do prédio em frente, que se despiam regularmente às onze. Certamente serviriam de inspiração à obra em criação.

Não ganhamos. Ficamos em segundo e segundo não conta. O que realmente contou foi a vontade de um dia estar lá, em São Paulo, com um trabalho assinado.

Com o tempo percebí que para fazer arquitetura de alto nível teria de sair do Brasil.  Fí-lo um ano após formado. Ainda sonhava com trabalhos publicados, sonhava com a Bienal.

Conseguí o que queria especialmente após ter alguns projetos selecionados para a World Architecture e isto talvez tenha levado a direção da Sala a me convidar para expor na mostra do ano 1999. Achei que teria finalmente meu sonho realizado, mas não foi bem assim.

A comissão julgadora selecionou três dos meus projetos: o Allen Theater em restauração, Dayton Daily News a mais moderna oficina gráfica até então e a sede da Applied Industrial Technologies. Me deixariam muito felizes se não fosse o fato que a Bienal os listou como obras de um arquiteto estrangeiro.

Não fui reconhecido como brasileiro que era, recebí o certificado como arquiteto americano, que não era. Não foi bem o que queria...mas enfim, era um sonho que virou realidade, mesmo sendo sonho de gringo!

Fiquei por lá quase 30 anos. Muitos projetos, muitas publicações e prêmios de arquitetura. Fiz tudo o que queria, até meus sonhos de arquiteto.


Nenhum comentário:

Postar um comentário