O
QUADRO NEGRO
Quando era jovem fascinou-se pela lousa negra.
O giz branco, às vezes com cores, a riscavam em um bailar
de linhas que não entendia ver o que pretendiam. Gostava mais da linda
professorinha de olhos meigos, voz doce e paciência infinda.
Poder-se-ia dizer que não fora um bom aluno. Mas fora um
daqueles que era gostado por todos e de todos gostava.
Prendia-se ao quadro. Nele via formas, equações, algo que
se dizia escrito ou escrita. Via formas onde nada existia. Via contos onde nada
se contava. Via música que não se ouvia.
Disseran-lhe que por alí passaram até teorias quânticas.
Passaram poesias, coisas de poetas, coisas de quem quer fazer com elas coisas
de amor.
Quando cresceu, ainda fascinado, nada sabia. Para ele
olhavam, gostavam, mas não entendiam. Simplesmente o aceitavam.
Mais tarde na vida, uma tela de negra escuridão se lhe
apresentou.
Não tinha giz, mas tinha pincéis que surgiram de um nada
onde tudo vem. Tintas e cores? Não explicara de onde vieram, mas lá estavam. Óleos
de olor distinto. Tela de negrura perene.
Por um momento lembrou-se da professorinha. Por outro, da
dança do giz. Das formas estranhas que se significavam algo que ninguém
entendia quando as usavam. Por um momento captou movimentos.
Seus dedos ficaram ágeis, os pincéis peças de malabarismo
exótico, as tintas em olímpicas maratonas, deliciando-se em misturas exotéricas.
De seus dedos saiam bailarinas de um Bolshoi, danças de sílfides, o tocar de flautas de
pan, de acordes de Mozart, de um Vivaldi em estações nunca musicadas.
A negra tela perdia sua escuridão.
Em volutas de um barroco louco criou ondas e estrelas.
Nelas bailou nas marés. Em mares refletiu o brilho das divas do firmamento.
Era escura a noite estrelada. Era escuro o mar refletido.
Eram móveis os seres do espaço.
No intrincado da dança celestial, a música tornou-se audível.
O baile fantasmogórico implorava um amor que teria ter cor, mas ainda preso ao
escuro da tela, somente sussurava o pedido de um beijo inalcançável.
Descobriu-se na tela.
Achou sua inexistência.
E na tela, com ela, em uma imagem bela, desapareceu.
Era a tela mais linda. O retrato da vida, de um nada de
tudo, pois até este, o nada, tem seu espaço em tudo, e no tudo que é nada no
nada existe.
No negro quadro existiu…
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